TRABALHANDO O
LEGADO DE ROGERS
Sobre os Fundamentos Fenomenológico
Existenciais
Afonso H Lisboa da Fonseca
2a.
Edição
Pedang
ã
Afonso H Lisboa da Fonseca
Rua Alfredo Oiticica, 106 Farol. 57050-320 Maceió AL. Brasil.
Fone/Fax: 082-2218175.
Internet: e-mail: [email protected]
Site: http://www.geocities.com/eksistesz/
Maceió, 1998.
2005.
PEDANG
Laboratório Experimental de Psicologia
Fenomenológico Existencial
Programa de Publicações
Maceió.
Brasil.
2005
“Em minha opinião, há somente
uma afirmação que pode igualmente ser aplicada a todas as teorias -- da
teoria do flogístico à teoria da relatividade, da teoria que apresento
nestas páginas, à que a substituirá, espero, dentro de dez anos -- a saber,
que toda teoria contém, no momento de sua enunciação, uma medida
desconhecida (e neste momento, sem dúvida, desconhecível) de erros e de
definições falíveis. Esta medida pode ser ampla, como na teoria do flogístico,
ou reduzida -- como suponho que é o caso -- na teoria da relatividade. Porém,
a menos que tomemos a conquista da verdade como algo concluído, deveríamos
esperar que toda teoria, mesmo a mais firmemente estabelecida, venha a se
modificar sob o impulso de novas descobertas. Por isto, a consciência aguda
do fato de que o conhecimento científico é essencialmente provisório,
parece-me uma exigência fundamental da atitude científica.
“Confesso que me angustia a
maneira pela qual certos espíritos estreitos se apegam a uma teoria qualquer
e a elevam à condição de verdade ou de dogma. Se estivéssemos dispostos a
tomar os sistemas teóricos pelo que são, isto é, espécies de envoltórios
de filigrana contendo os dados maciços da realidade, estes sistemas poderiam,
então, cumprir sua função própria: o estímulo ao pensamento criador.”
Carl
R Rogers, 1964.
As condições facilitadoras básicas como condições de método fenomenológico existencial.
I. Consideração positiva incondicional.
As condições facilitadoras básicas como condições de método fenomenológico existencial.
II. Relação Empática. Empatia e Dialogicidade..
Capítulo 3
As condições facilitadoras básicas como condições de
método fenomenológico existencial.
III. Genuinidade do terapeuta.
Capítulo 4
Avaliação organísmica da experiência: Consciência, liberdade
experiencial e afirmação no trabalho psicológico e psicoterápico.
Capítulo 5
De como psicólogos e psicoterapeutas descobrem a
Fenomenologia e o Existencialismo. E sobre a importância de um início
de si mesmo para a compreensão e prática da psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial.
Capítulo 6
Fenomenação
Psicologia e psicoterapia fenomenoativa
existencial.
Capítulo 7
Fatal mesmo é crer na fatalidade.
Dialogicidade, superação, teoria e prática da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial.
A
compreensão da Abordagem Centrada na
Pessoa pressupõe um resgate de sua concepção filosófica: Fenomenologia
e Existencialismo. Não a fenomenologia Kantiana, cuja crítica é a pretensão
do conhecimento de atingir o fenômeno, nem a Hegeliana, no movimento dialético
da negação da negação, para a superação. Deve-se seguir em busca da
Fenomenologia de Husserl, fundamentada no dinamismo intencional de uma consciência
aberta. Intencionalidade significando
que aquilo que um objeto é constitui-se espontaneamente na consciência, e
que considera que os conceitos e os termos devem permanecer em “devir”,
sempre prontos a se diferenciar conforme o avanço da análise da consciência
e do conhecimento de novos níveis fenomenológicos.
Fenomenologia
surgida em momento de crise, no qual a crítica de Husserl dirigia-se às
teorias científicas apegadas à objetividade e à crença de que a realidade
reduz aquilo que percebemos pelos sentidos.
Existencialismo
de Nietzsche – para quem a filosofia é uma “visão” de acordo com a
qual o homem deve viver. Como atitude existencial, sentido de experimentar
novas evidências, abandonando antigas posições na criação apaixonada da
verdade, embora dela todos nós tenhamos receio. “Ao
homem cabe, como tarefa, fazer com que a sua existência não seja um simples
acidente sem significado, pois o problema fundamental do homem consiste em
alcançar a verdadeira existência em vez de deixar a vida se reduzir a um
simples acidente (Gilles) .”
O critério de valor da existência não é apenas a simples vida, e
sim a vida aperfeiçoada e transfigurada. Vontade
de Potência – conceito nietzscheano --, significando a vontade de
superação de si mesmo, auto-superação, e o eterno retorno como antítese
da desvalorização do momento no finito do indivíduo.
Em Martin
Buber – Filosofia Dialógica da Relação
– compreende-se a concepção do papel do terapeuta, o desdobramento da
concepção deste papel e da conceituação da psicoterapia e do trabalho clínico.
TRABALHANDO
O LEGADO DE ROGERS -- Sobre os Fundamentos
Fenomenológico Existenciais. Constitui-se como obra primeira, na medida em que aponta para uma
reflexão sobre a concepção filosófica que fundamenta a ACP.
Constitui-se
de uma coletânea de ensaios, resultado de estudos, reflexão e experiências
desenvolvidas pelo autor em seus ensinamentos em universidades, cursos de
formação, facilitação de grupos, como também de sua efetiva prática clínica.
Identifico
neste trabalho dois momentos: primeiro o exame dos pontos de contato entre a
Fenomenologia, o Existencialismo e a Abordagem Centrada na Pessoa. Segundo,
proporcionar uma introdução ao pensamento filosófico às pessoas
interessadas na teoria de Carl Rogers.
Como
professora, psicoterapeuta, aluna, considero o texto de exemplar clareza de
compreensão da Filosofia à Teoria de Carl Rogers e à prática clínica.
Estabelece uma lógica tal, que dele se pode usufruir, na medida em que vem a
preencher lacunas existentes no campo acadêmico.
Como
pessoa, um sentimento de orgulho e a reafirmação de respeito por você,
Afonso.
Diana
Belém, psicóloga.
Recife,
Abril de 1997.
|
A partir do
trabalho de Carl Rogers, a Abordagem Centrada na Pessoa constituiu-se como uma
vigorosa opção, com amplas possibilidades de aplicações no âmbito das relações
humanas, no campo da psicologia e da psicoterapia, da pedagogia, do trabalho com
grupos. Algo que se
pode com certeza dizer de Rogers, é que ele esteve produtivamente à altura de
seu tempo e lugar. Trabalhou
intensamente, desde a primeira metade do século, na constituição de sua
abordagem. A partir de sua formação, no âmbito da cultura e do meio da
psicologia, e posteriormente da psicoterapia Norte Americanas, Rogers soube
usufruir produtivamente de influências da cultura chinesa, que então chegavam
aos EUA, e à qual visitou na juventude; soube usufruir essencial e
produtivamente das perspectivas da Fenomenologia e do Existencialismo em
psicologia e psicoterapia, que igualmente chegavam, então, aos Estados Unidos,
através, em particular, da psicologia organísmica de Kurt Goldstein, e da
influência de intelectuais europeus e de dissidentes do movimento psicanalítico,
como Otto Rank e Ludwig Binswanger, que constituíram uma vertente européia da
psicoterapia. Influências que fecundavam poderosamente o meio da psicologia e
da psicoterapia norte americanas, redundando no desenvolvimento da psicologia
humanista. O trabalho de
Rogers, a Abordagem Centrada na Pessoa,
foi, e é, um dos grandes tributários deste movimento, que contava com as
contribuições de figuras como, A. Maslow, R. May, A. Angyal, e com a contribuição
de todo o processo fermentativamente produtivo que a cultura norte americana
desenvolveu, a partir das influências que lhe chegavam da Europa, no período
imediatamente anterior, durante, e posteriormente à segunda guerra. Rogers
usufruía um modo igualmente produtivo, da influência do meio da Psicologia e
da Cultura Norte Americanas, em especial da ampla influência de William James,
e de pensadores como R. W. Emerson. As cisões provocadas por C.G. Jung no
movimento psicanalítico, e, em particular, a nietzscheana influência de Otto
Rank, e as concepções de Martin Buber tiveram um papel fundamental no
desenvolvimento das perspectivas, teorias e práticas de Rogers. A partir de
sua formação, Rogers cuidou de desenvolver os antídotos pragmáticos para as
tendências fortemente abstracionistas, filosofantes e teorizantes das influências
que lhe chegavam a partir da filosofia e da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existenciais européias. A abordagem
de Rogers desenvolveu-se, e ganhou autonomia própria, e ousadia para
influenciar criativamente todo o ambiente que a engendrara, e, de um modo geral,
à psicologia e à psicoterapia em todo o mundo. A partir de
suas influências, o trabalho de Rogers configurou-se significativamente, em
importantes de suas dimensões, como um processo de desconstrução: desconstrução de um modelo clínico de psicoterapia, fortemente baseado, freqüentemente,
numa perspectiva aniquiladoramente objetivista e técnica. Desconstrução de
uma concepção objetivista, por um lado, da pessoa e do cliente, ou de uma
concepção universalizante e universalista deles. Desconstrução de uma
perspectiva autoritária e manipulativa nos trabalhos com grupos e na relação
com o cliente individual. Desconstrução da possibilidade de uma exclusividade
ou hegemonia da Psicanálise, e/ou do Comportamentalismo. Propôs,
alternativamente, um modelo fenomenativo existencial de psicologia, de
psicoterapia, de trabalho com grupos, de pedagogia, centrado fundamentalmente, não
na aplicação de teorias e de técnicas, mas na relação fenomenativa
existencial atual entre seus agentes. Propôs, em particular, uma opção de
exercício do poder, fundada na valorização dialógica da atualidade e em
referenciais fenomenativos e existenciais. Rogers
contou, no fluxo de seu processo produtivo, com o impulso vigoroso do movimento
de certos segmentos culturais da sociedade mundial e norte americana, nas três
primeiras décadas da segunda metade do século, de cunho fortemente existencial
e libertador. Por outro
lado, foi heterogêneo com relação às tendências fortemente religiosas de
negação do corpo e da vida. E com relação às tendências de forte cunho
objetivamente empiristas da cultura norte americana, de onde ele próprio
provinha. Não
obstante, estas tendências fortemente religiosas, e de negação do corpo e do
vivido têm cobrado um pesado tributo da fenomenologia e do existencialismo,
como fundamentos da ACP e da psicologia e psicoterapia fenomenativa existencial
norte americana. Na medida, em particular, em que desenvolveram
progressivamente, e desenvolvem, um forte movimento reativo contra a perspectiva
fenomenal e contra uma postura de afirmação do corpo e de afirmação da vida,
levando estas abordagens, às vezes fortemente, a acentuadas distorções pragmático
empiristas, num sentido objetivista, ou idealistas, ligadas à perspectiva de um
ideal ascético, e potencializadas pelo desconhecimento dos seus fundamentos e
raízes fenomenativos e existenciais. Disseminando-se
pelo mundo, a ACP desenvolveu-se na América Latina e no Brasil, configurando-se
como uma opção extremamente rica, no campo das psicologias, das psicoterapias,
pedagogias e modelos de trabalhos com grupos de cunho fenomenológico
existencial. Tem também sofrido críticas intensas, tanto de seus praticantes
como de fora da comunidade destes. Estas críticas parecem estar surtindo o seu
efeito, na medida em que têm potencializado uma reflexão sobre os seus
fundamentos e sobre as suas distorções. Na medida, em particular, que têm
possibilitado uma reflexão sobre nossa posição específica, enquanto
brasileiros, latino-americanos, no contexto da teoria e da prática desta
abordagem. Acredito que
uma parte fundamental deste processo, e do processo de desenvolvimento da ACP,
é esta reflexão sobre seus fundamentos
fenomenológico existenciais, a recuperação e a explícita reiteração destes
fundamentos. Na medida em que, em função de toda a distorção pragmático-empirista,
e idealista, eles ficaram freqüentemente confusos, e até esquecidos. É nesta
perspectiva que se inserem os ensaios deste livro. Busco nos três
primeiros capítulos indicar os fundamentos fenomenativo existenciais das
chamadas condições facilitadoras básicas:
a consideração positiva incondicional, a compreensão empática e a
genuinidade. Dedico um capítulo à discussão da concepção de avaliação organísmica da experiência, a partir de sua
perspectiva fenomenativa existencial. Discuto, em um outro capítulo – De Como Psicólogos e Psicoterapeutas Aprendem a Fenomenologia e o
Existencialismo --, o modo como psicólogos e psicoterapeutas aprenderam a
fenomenologia e o existencialismo e como estas perspectivas filosóficas lhes
servem em suas concepções e trabalhos, a partir, em particular, da valorização
de uma atitude fenomenológica, e da
valorização de uma atitude, e de valores, de afirmação da vida..
Comento, num outro capítulo – Fenomenação
--, o modo eminentemente ativo da conceepção do fenomenal em psicologia e
psicoterapia, em contraposição com tendências que escorregam para a valorização
de uma perspectiva reflexiva por sobre a perspectiva do vivido. No último capítulo
– Fatal Mesmo é Crer na Fatalidade --, busco expor alguns aspectos
que me parecem fundamentais na contribuição da perspectiva dialógica da filosofia
da relação de M. Buber para a psicologia e psicoterapia fenomenativa
existencial. Como se pode
observar, não pretendo estabelecer verdades,
mas fazer jus ao legado de Rogers e dos psicólogos e psicoterapeutas fenomenológico
existenciais, assim como fazer jus a nós próprios em nossa atualidade e
realidade, pela discussão do que me parecem pontos de interesse para o
desenvolvimento da perspectiva desta abordagem e da perspectiva da psicologia e
psicoterapia fenomenativa existencial. Agradeço a
todos os colegas que leram discutiram e revisaram os originais, em especial a
Diana Belém que, emprestando sua competência, leu, exaustivamente discutiu e
revisou, além de me ter honrado com a apresentação.
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Capítulo
1
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Capítulo
2
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Capítulo
3
|
Capítulo
4
|
Capítulo
5
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O importante não
é o ‘cogito’ ergo sum, mas o agito ergo sum. T.
Suzuki. O puro
conhecimento é desprovido de instinto. Nietzsche. Mil flores de
plástico não farão o deserto florescer F.
Perls. Na atualidade
vivida não há unidade do ser. A atualidade é somente ação. Sua força e
profundidade são as desta ação. E mais, só há “interior” na medida em
que houver ação mútua. A atualidade mais forte e profunda é aquela onde tudo
dirige-se à ação... M
Buber. A ação é o núcleo
do real. Fritz
Perls. Psicoterapia
e filosofia fazem uma boa parceria. Não seria
correto dizer que a psicoterapia nasce de certas correntes filosóficas. Na
verdade, a psicoterapia desenvolve-se a partir de certos filões dos processos
culturais, dos quais certamente brotam também as idéias filosóficas a eles
relativos. Assim é com
as psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Elas nascem, dentre
outras influências, como observamos, a partir da recuperação de certas
perspectivas da cultura grega pré-socrática, em meio ao ambiente fortemente
socrático do desenvolvimento da civilização ocidental. No âmbito de
uma cultura que assume uma negação feroz do corpo em sua espontaneidade,
cultura que assume uma negação do vivido, e dos sentidos, o privilegiamento e
o incremento da presença do dionisíaco pré socrático configurou-se como uma
possibilidade de arejamento e efetivamente como uma possibilidade de cura,
num sentido amplo. Esta presença foi, evidentemente, potencializada pela
recuperação artístico filosófica que Nietzsche elaborou deste viés cultural
dionisíaco, esquecido e subterrâneo, no âmbito moralista da cultura da
civilização ocidental. As idéias, e
a arte, de Nietzsche tiveram uma poderosa influência na intelectualidade alemã
e européia do final do século passado e início deste. E quando parte desta
intelectualidade emigrou para a América, antes, durante e depois da segunda
guerra, carregou consigo e semeou no Novo Mundo a vigorosa influência
Nietzscheana. O mesmo se
passou com a Fenomenologia. Esta, certamente, desenvolvida, pelo menos em parte,
a partir de tradições místicas do Judaísmo e das Civilizações Orientais. Migrando do
âmbito da medicina, do âmbito de um modelo médico -- processo de migração
no qual ainda hoje encontramo-nos envolvidos --, a chamada ‘psicoterapia’
encontrou-se com as tradições fenomenológica e existencial, seja com o
depuramento filosófico particular destas, seja no seio vivo das práticas
culturais nas quais elas se constituíam, e das quais emergiam. Lidando
cotidianamente com questões e crises existenciais ativas e irresolvidas, freqüentemente
dramáticas, a psicologia e a psicoterapia descobriram a Fenomenologia e o
Existencialismo, ainda no âmbito da chamada Psicanálise, como uma fecunda e
criativa possibilidade de abordagem prática e produtiva, e de superação,
dessas crises. Assim, desde
o início, a psicologia e a psicoterapia fenomenológico existenciais careceram
de firmar na sua concepção e na sua prática uma posição e uma atitude
fortemente fenomenais e existencialistas. Na relação com o cliente, começou a
ficar claro, desde cedo, que o que era curativo
não era um estudo do psiquismo do
cliente; de seu psiquismo ou de sua estrutura de personalidade, ou mesmo um estudo
de seu processo fenomenal. Mesmo que fosse este estudo operado pelo próprio
cliente. Não era um enfoque técnico, a aplicação de certas técnicas; ou um
enfoque moralista, e/ou orientativo, que poderia ser curativo. O que era, e é,
efetivamente curativo, na abordagem da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existenciais, é a possibilidade da entrega ativa do cliente ao desdobramento
vivo e vívido, ativo, -- diríamos desdobração
-- do seu próprio vivido pré reflexivo,, pré conceitual, a entrega vivencial
ao desdobramento de sua atualidade existencial, eventualmente crítica. A
entrega franca à ativa concretude de sua existência, ao seu devir, o que, em
Gestalt Terapia – mas, na realidade, formulação de Carl Rogers -- ficou
conhecido como teoria da mudança
paradoxal: o cliente não muda terapeuticamente escamoteando o seu estado de
ser, vivido, mas é ao assumir, e ativamente afirmar, este estado -- em devir --
vívidamente vivido, que ocorre a mudança, que o cliente cresce. (A existência
só se resolve existencialmente, como observou Heidegger). É esta
constatação, pragmaticamente desenvolvida, que determinou e determina o
fundamento filosófico, a concepção, e o modelo metodológico da abordagem das
psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Em particular, o seu
modelo de concepção da pessoa, de auto concepção do profissional, e de
concepção e uso do poder que está social e contingentemente atribuído a ele,
terapeuta, e à psicoterapia. Trata-se de
criar, no âmbito do espaço psicoterapeutico e de trabalho psicológico, as
condições para que a vivência fenomenal, pelo cliente, do momentum de sua atualidade existencial, e eventualmente de sua
crise, possa pontualmente afirmar-se e desdobrar-se, ativamente, segundo os seus
vetores próprios. Com toda a alegria,
perecimento e sofrimento que isto possa contigentemente implicar. Mas a partir,
sempre, da constatação do valor próprio e intrínseco desta afirmação
vivencial, e de que é ela a mais poderosa via para a potencialização da
liberdade e da criatividade existencial
do cliente e da pessoa, na resolução das questões de sua atualidade
existencial, e no manejo de sua vida. De modo que
podemos dizer que, desde o início, trabalhamos operando ativamente a inversão
da inversão de que Nietzsche falava, quando tratava da relação entre socráticos
e pré-socráticos. Para
Nietzsche, Sócrates – e, na sua esteira, toda a tradição da cultura da
civilização ocidental -- operara uma inversão
da perspectiva de valor dos pré socráticos. Ao eleger o abstrato, o ideal, o
além mundo, como valores superiores; relegando o corpo, os sentidos, o vivido,
os instintos, a terra e a força da terra, a valores inferiores. Porque, suposta
e doutrinariamente, essas dimensões do humano expressariam a animalidade
humana... Nietzsche propunha uma inversão
da inversão socrática, reinverter a inversão que Sócrates fizera na
estrutura de valores dos pré-socráticos. Ou seja, reinstalar o corpo, o
vivido, os sentidos, no topo da pirâmide de valores, relegando a um plano
secundário o abstrato, o teórico, os ultra-mundos. A psicologia
e a psicoterapia fenomenológico existencial surgem deste projeto de uma
inversão da inversão socrática. De uma reinstalação do corpo, do vivido
e dos sentidos, do ativo, da vida, como
valores em si, como valores primordiais. Trata-se de entender o vivido, a consciência
espontânea, pré reflexiva e pré conceitual, como ativa e benigna afirmação
da vida. Trata-se de desenvolver valores e atitudes de afirmação do vivido,
afirmação da afirmação já com que
ele se configura enquanto tal; as bodas de Dionísio e Ariana, de que falava
Nietzsche. No âmbito da
psicologia e da psicoterapia, trabalhamos, primordialmente, com o
devir vivo da vivência de ser no mundo, com a vivência, com o vivo e vívido
vivido, devir do ser do cliente no seu mundo, ativados estes pela(s) crise(s)
que o conduzem à prática da psicoterapia. Momentos de querido, ou
dolorosamente indesejado, estalar de velhas estruturas de ser e estar no mundo.
Momentos de vivência das dores e sofrimentos, repulsas e seduções, de
perecimentos vários. Momentos, eventualmente, de ameaça terrível, ou de
incontrolável atratividade do novo que emerge com a lentidão, e
inexorabilidade, do sol de cada manhã. Momentos de medo e excitação. Momentos
de trans-form-ações, ora morosas ora desconcertante ou apavorantemente frenéticas.
Tudo está
perturbadoramente vivo, em movimento e vulnerável, devir. Em carne viva. Potência plena e informe. Tudo está plasticamente
ativado e lábil, e é a própria liberdade e criatividade do cliente, a vontade
do seu ser que devém, que poderá dar uma forma, produtiva e rica para ele, a
tudo que está em formação. Não existem mapas, não existem cartografias do
desejo. Tudo depende de simples e pequenas ousadias, de um espírito
existencialmente experimental -- de grandes ousadias, às vezes --, do arriscado
sim ao momentum meramente vivido de si
mesmo, da aceitação e afirmação do espírito
de uma vida que experimenta, que tenta e erra, que pode criar, e cria. Tudo
se resolve, desta forma, neste momentum, ao
nível do vivido e da ação; da vívidação
do vivido, da afirmação e da criação de si, e de um mundo que lhe diz
respeito, pela identificação com os níveis mais originários de
si-mesmo-no-mundo. A alternativa
é a impotência, o ressentimento, a culpa. O vivido, o
corpo, em sua espontaneidade de ser no mundo, são a possibilidade e a
possibilitação da ação, são o ativo em
sua potência e originalidade. Entendidos por Nietzsche como a dimensão nobre
das forças que criam, que inventam,
que dominam porque impõem formas novas e ricas. O estudo, o
reflexivo, o pensamento, a consciência reflexiva são da ordem do reativo.
São da ordem da reação. Não criam. Servem à ordem da adaptação do
ajustamento, da repetição, dos mecanismos. Forças reativas que, se têm o seu
lugar no concerto da multiplicidade da vida, não dizem respeito à capacidade
mais nobre da invenção e da criação, da invenção de si mesmo e do mundo,
da invenção de alternativas, como o que é próprio às forças ativas. Mais que
isto, ao prevalecerem, as forças reativas determinam o império da
nadificação,
da tendência para a redução ao zero da potência, da impotência e da
mesmidade: o império do niilismo. Ao concentrarem-se e predominarem, determinam
o ressentimento -- a impotência amarga e vingativa contra tudo que é
forte --, determinam a consciência
infeliz, a culpa -- o
ressentimento, a vingatividade, retrofletidos contra si pelo próprio ressentido
--, e a idéia ascética, o ideal ascético,
que anima-se do princípio de que o vivido, a vida, ativa em sua espontaneidade
e contingência, são um erro a ser negado, e ser substituído pelo anseio
reativo de uma vida além da vida, de um além mundo. Desta
perspectiva, é interessante observar a contradição em termos da expressão
fenômeno logia, na medida em que se
entenda o logos em questão como
conhecimento reflexivo e conceitual. Fundamentalmente,
para a Fenomenologia e para a psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial, o logos do fenomenológico
decididamente não é um logos
neste sentido reflexivo e conceitual. Tudo no vivido está evidentemente
impregnado de um certo logos. Mas não se trata de um estudo
do fenômeno, ou do processo
fenomenal, não se trata da reflexão acerca do vivido. Não
se trata de um estudo. Mesmo que fosse um estudo de seu próprio vivido
operado pelo cliente. O vivido é,
em si já, uma afirmação, um querer ativo, uma força ativa que se constitui
especificamente como consciência pré-reflexiva, pré-conceitual, pré-teórica,
e que, como tal, se desdobra e se resolve. Trata-se de querê-lo, de afirmá-lo
em sua própria afirmação, de afirmar a sua desdobr/ação, nas intensidades
próprias de seu ativo devir. Trata-se de afirmar a sua expressividade, ativa e
inuitivamente, pré-reflexivamente, pré-teóricamente, pré-conceitualmente. Infelizmente
entre nós, a possibilidade da ambiguidade, e a própria super valorização
socrática da reflexão, geram mal-entendidos. Não é raro encontrar quem ache
que para resolver-se o fenomenal necessariamente carece tornar-se objeto da
nobre reflexão. Ou não é raro encontrar quem entende que quando falamos de
fenomenologia estamos falando de uma reflexão, de uma análise, do fenomenal. Não se trata
disto, naturalmente. O que é da
ordem do fenomenal só é acessível no próprio fenomenal, na própria vivência
fenomenal. Não pode ser elucidado pela reflexão, porque é um outro modo de
ser, e de consciência. O fenomenal é um logos, um conhecimento, racionalidade
e ação, especificamente pré conceituais e pré reflexivos. Um conhecer e
atividade que só são acessíveis em sua própria vivência, em sua própria
expressividade, mais ou menos motora. Como desdobramento do pré-ser, da dimensão
do possível, que lhe é sempre inerente. Eminentemente
ativo o vivido, seria assim possível uma fenomenologia que não fosse,
especificamente, fenomenação em sua
própria vivência fenomenal? Mesmo que
esta ação não diga respeito à ação
objetiva, mas à atividade de um vivido que se desdobra como consciência ativa,
e que se constitui sempre como desdobramento de possibilidades. E que,
eventualmente, enforma e prolonga-se na ação motora criativa e original, dialógica,
no mundo. O fenomenal
é sempre, assim, espontânea e incontroladamente ativo. O processo fenomenal,
é fluxo ativo, que se efetiva espontânea e afirmativamente no instante. Que
pode ser negado por uma atitude negativa e niilista, ou que pode ser afirmado em
sua afirm/ação, desdobrado em sua excitação, intensidades, incerteza e
devir. É a fonte de nossa originalidade e criatividade. De modo que o
que é mais interessante para a prática da psicologia e psicoterapia fenomenológico
existencial é que o cliente interprete-se
a si mesmo, fenomenoativamente.
Estamos,
aqui, num universo muito diferente do universo do conceito psicanalítico de interpretação.
Interessa-nos
que, a cada momento fundamentalmente relevante da sessão e do processo
psicoterapeutico, o cliente possa identificar-se pontualmente com o seu vivido
fenomenativo, e interpretá-lo fenomenativamente: interpretar-se
fenomenativamente a si mesmo, do mesmo modo que um ator de teatro interpreta.
Interessa-nos que o cliente potencialize-se como um intérprete de si próprio,
e potencialize-se, desta forma, como uma artista de sua vida. Potencializando a
sua criatividade, no sentido da criação das condições de que ele necessita
no mundo para a sua auto atualização, e no sentido da sua própria criação
de si mesmo no mundo que lhe diz respeito. Na prática
da psicologia, e da psicoterapia, e filosoficamente, não é interessante, na
verdade, nem mesmo possível, uma fenomenologia
que não seja especificamente fenomenação.
Afirmação e desdobramento, na ação, da possibilidade inerente ao vivido.
Afirmação da afirmação da vividez do fluxo incontrolado e espontâneo do
processo fenomenal, vivido, e o seu prolongamento eventual em uma expressividade
motoramente criativa. Ainda que o
equívoco, e contradição em termos, de uma fenômeno logia, explícita ou implicitamente, reflexiva
seja freqüentemente praticado ou preconizado por psicólogos e
psicoterapeutas não convencidos do valor do projeto de uma inversão da inversão
socrática. De qualquer forma, não estaríamos melhor servidos pela
expressão psicologia e psicoterapia fenomenativa
existencial ?
|
Capítulo
7
|
[1] BUBER, Martin EU E TU, São Paulo, Cortez & Moraes, 1979. 2ª Ed
[2] Op.cit. p.19-20.
[3] Op. cit. p.54.
[4] op. cit. p.20.c
[5]
op.cit. p. 43.
**
Parênteses e grifos nossos.
[6] Op. cit. p. 54.
[7] Op. cit. p. 50.
[8] Op. cit p. 44-5.
[9] Op. cit. pp. 45-6.
[10] Op. cit. p. 59.
*
Grifos nossos.
[11]
BUBER, Martin.
FRAGMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS. Petrópolis, Vozes, 1991.
[12] ibid.
[13] ibid.
[14] ibid.
[15] Op. cit. p 57.
[16] Op. cit. p. 59.
[17] Op. cit. p.47.
[18]
Op. cit. pp. 56-7. Grifos
nossos.
[19]
op. cit. p. 58.
*
Tratamos mais detidamente mais adiante das relações entre liberdade
e destino nas concepções de
Buber.
[20] Op. cit. p.64.
*
Segundo Von Zuben, Buber quer traduzir por conversão o termo Teshuvah, do hebraico. Neste sentido “A conversão engaja o homem na total concretude de sua existência.”
op. cit. p. 163.
[21] Op. cit p. 65-7.
[22] Op. cit. p. 69.
[23]
Op. cit. p. 70. Grifo nosso.
[24]
op. cit. p. 71.
[25] Op. cit. p. 03.
[26] Op. cit. p. 74-76.
[27] Op. cit. p. 76.
[28] Op. cit. p. 72.
[29] Op. cit. p. 60.
[30] Op. cit. p.61.
[31] Op. cit. pp. 60-1.
[32] Op. cit. p. 61-2.
[33] Op. cit. p. 62-3.
[34]
VON ZUBEN, N. A. in
op.cit. p.163.
[35] Op. cit. p. 64-5.
[36] Op. cit. p. cit p.66.-7.
*
Grifos nossos.
[37] Op. cit. p.67-8.
[38] Op. cit. p. 68.
[39] Op. cit p. 69.
[40] Ibid.
[41] Op. cit. pp 69-70.
[42] Op. cit. p. 71.
*
Grifo nosso.
[43]
op. cit. pp. 73-6.
[44] Op. cit. p. p.76.
[45] Op. cit. p. 77.
[46] Op. cit. p. 77.
[47] Op. cit. p. 77.
[48] Op. cit. p. 78.
[49] Op. cit. pp. 79-80.
[50] Op. cit. p. 82.
[51] Op. cit. p.82-3.
[52] cf. VON ZUBEN, Newton A. op. cit. p. 163, nota 8.
[1]
MACHADO, Roberto NIETZSCHE E A VERDADE, Rio, Rocco, 1984.
*
É interessante, por exemplo, que um dos nomes originalmente propostos para
a Gestalterapia, tenha sido,
precisamente, o de Terapia de
Concentração. Ainda que esta escolha decorresse em grande parte da
influência de W. Reich sobre Perls.
[2]
BUBER, Martin – Encontro. Fragmentos Autobiográficos. Petrópolis, Vozes, 1991.
[3]SCHOLEM,
Gershon AS GRANDES CORRENTES DA MÍSTICA JUDAICA, São Paulo, Perspectiva,
1972. pp. 81-119.
[4]BUBER,
Martin EU E TU. São Paulo, Cortez & Moraes, 1979.
[5]
SACKS, Oliver – Foreword. In
Goldstein, K. The Organism. A
Holistic Approach to Biology Derived From Pathological Data in Man, New
York, Zone Books, 1995. P. 12.
[6]DELEUZE,
G. NIETZSCHE E A FILOSOFIA, Rio, Ed. Rio, 1976. p.95.
[7]
RIBEIRO JUNIOR, João FENOMENOLOGIA, São Paulo, Pancast, 1991. pp. 22-8.
*
Grifos nossos.
[8]
TANNUS MUCHAIL, Salma Heidegger e os Pré-Socráticos in TEMAS FUNDAMENTAIS DE
FENOMENOLOGIA -- Centro de Estudos Fenomenológicos de São Paulo. São
Paulo, Moraes, 1984. p.11-3.
*
Grifo nosso (N.A.).
[9]
LYOTARD, J.F. A FENOMENOLOGIA, Lisboa, Edições 70
[10]
BUBER, M. DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO, São Paulo, Perspectiva, 1985.
[11]
LYOTARD, J.F. A FENOMENOLOGIA, Lisboa, Edições 70,
[12]ARANTES,
P. E. Hegel Vida e Obra In OS PENSADORES -- HEGEL, São Paulo, Nova
Cultural, 1988, p. XIX.
[13]
BORNHEIM, Gerd A Invenção do Novo in Diversos Autores, TEMPO E HISTÓRIA, São
Paulo, Companhia das Letras, 1992. Org. Adauto Novaes.
[14] FINK, E.,. Op. cit p. 62-3.
[15]
Grifos nossos.
[16]DELEUZE,
Gilles, NIETZSCHE E A FILOSOFIA, Rio de Janeiro, Ed. Rio, 1976, p.15.
*
Grifos nossos.
[17]
op. cit.
pp. 162-3.
[18] Op. cit. p. 133.
[19] Op. cit. p.136.
*
Grifo nosso.
[20]
op. cit. pp. 7-8.
[21]
FINK, Eugen A FILIOSOFIA DE NIETZSCHE, Lisboa, Presença, 1983.
[22] op. cit.p. 33.
[23] op.cit. p. 68.
**
Grifos nossos (N.A.).
[24]
op. cit. psicologia e psicoterapia
fenomenológico existencial. 65-6.
[25] DELEUZE, G. op. cit. p.13.
[26] FINK, E.,. Op. cit p. 62-3.
[1]
NIETZSCHE, F. A GAIA CIENCIA, Lisboa, Guimarães e C.ª, 1984.
[2]
ROGERS, Carl, KINGET, G. Marian PSICOTERAPIA E RELAÇÕES HUMANAS, Belo
horizonte, Interlivros, s/d.
[1].
Wood e O’Hara apontam para este caráter da relação empática. Cf.
Rogers e outros EM BUSCA DE VIDA, São
Paulo, Summus, 1984.
[2]
Cf. BUBER, Martin EU E TU, São Paulo, Summus, 1983. E DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO,
São Paulo, Perspectiva, 1985.
[3].op. cit.
[4]. BUBER, Martin, op. cit. p. .32.
*
Eventualmente usamos aqui os termos terapeuta
e cliente, mas o processo da relação
pode desenvolver-se e efetivamente desenvolve-se entre quaisquer parceiros
humanos.
[5]
cf. BUBER, Martin, DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO. São Paulo, Perspectiva, 1982.
[6]
op. cit.