O TERAPEUTA E O FUNDAMENTO FENOMENOLÓGICO Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL Maceió
"A alteridade do outro distingue-se da transcendência simples da coisa pelo facto de o outro ser para si próprio um Eu e de a sua unidade não estar na minha percepção, mas nele próprio; por outras palavras, o outro é um Eu puro que de nada carece para existir, é uma existência absoluta e um ponto de partida radical para si mesmo, como eu o sou para mim. A questão transforma-se então em: como é possível um sujeito constituinte (o outro) para um sujeito constituinte (eu)?". (J.F. Lyotard) "Este ser humano é outro, essencialmente outro do que eu, e é esta sua alteridade que eu tenho em mente, porque é ele que eu tenho em mente; eu a confirmo, eu quero que ele seja outro do que eu, porque eu quero o seu modo específico de ser. (M. Buber) "O outro é uma modificação do meu Eu." (E. Husserl) "Existe, pois, uma condição para que a compreensão do outro seja possível: é que eu não seja para mim mesmo uma pura transparência." (J.F. Lyotard) "Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu, entendí então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros e o outro dos outros era eu. (Clarice Lispector) "A gente vive, eu acho, é mesmo para se... desmisturar." ("Riobaldo Tartarana" -- Guimarães Rosa) A Gestalt Terapia tem consolidado consistentemente um espaço todo seu no âmbito do que tradicionalmente designa-se como Psicoterapia. Um curioso e, sem dúvida fecundo, espaço, no seio dessa curiosa e talvez até misteriosa prática social. Particularidades da Gestalterapia, de seu método, de sua história, parecem bastante úteis, inclusive, e de um modo diferenciado, na elucidação da natureza dessa prática social que entendemos como psicoterapia. Vendo de dentro, entretanto, observamos grandes e significativas lacunas na explicitação de seu princípios teóricos, de seu método, e mesmo de suas fundações filosóficas. Temos que relativizar estas lacunas, na medida em que: (a) a Gestalterapia sobrevive e cresce, e parece atender produtivamente a uma necessidade social, e dos indivíduos, não obstante estes vazios; (b) estas ditas lacunas não se manifestam apenas na Gestalterapia, dentre as grandes linhas de psicoterapia, mas são próprias a cada uma delas, em seus respectivos moldes; e (c) temos que considerar adequadamente a própria particularidade, a indefinição de contornos e de natureza desta atividade que entendemos como psicoterapia. De qualquer forma, não podemos pretender dogmatizar estas lacunas e institucionalizá-las -- como parece às vezes haver uma tendência -- tornando-as intocáveis. Como tais, elas não merecem este respeito. E carecem de ser confrontadas e afrontadas por uma prática e teorização competentes, que são, em termos de Gestalterapia, e de todas as linhas de psicoterapia, empreendimentos de indivíduos particulares, e que se tornam cada vez mais coletivos e férteis. Curiosamente, lacunas importantes sobre o papel do psicoterapeuta em gestalterapia são uma constatação frequente. Explicita-se uma considerável massa de teorização sobre a condição humana, sobre as condições da pessoa do cliente, de crítica de outras abordagens e de especulação filosófica, mas é escassa a reflexão e a explicitação teórica acerca do papel do terapeuta. Na prática, todavia, estas lacunas não parecem ser tão grandes e tão significativas. Perls e os bons getalterapeutas parecem saber efetivamente mais sobre seus papéis como tais do que o que de fato explicitam teoricamente. Pode-se até argumentar que a teoria não é o espaço privilegiado para esta explicitação, que dar-se-ia, por exemplo, na relação interpessoal entre profissionais, ou entre professores, digamos, e treinandos. Sem dúvida que este nível de aprendizagem interpessoal é um nível imprescindível da criação de condições de aprendizagem para um bom gestalterapeuta. Mas não parece ser este o motivo da ausência de uma explicitação teórica mais completa (mesmo que sempre provisória) sobre o papel do terapeuta, nem parece que tenhamos, normalmente e em escala significativa, um tal tipo de intercâmbio de capacidades terapêuticas. Por outro lado, a teorização existe e prossegue, e não temho conhecimento de uma convenção, formal ou tácita, no sentido de que se evite o assunto teoricamente. Um dado importante, ainda, parece tornar premente a quetão, e a necessidade, de uma efetiva explicitação teórica (mesmo que necessariamente provisória): a emergência proliferante de uma multiplicidade de mal-entendidos, de distorções, e mesmo de iniciativas mal intencionadas, que se auto-definem como "gestalterapêuticas".* Daí, parece-me, a necessidade de uma explicitação teórica atual e competente, de uma revitalização da prática e do intercâmbio interpessoal de conhecimentos e de habilidades, tanto entre profissionais como entre estes e os treinandos. O interêsse do presente trabalho é o de discutir alguns aspectos do papel do psicoterapeuta em um modelo de psicoterapia que centra-se na eleição de uma metodologia fenomenológica, e que filia-se filosoficamente a uma postura fenomenológico-existencial. Um modelo que enfatiza metodologicamente um privilégio da consciência -- do vivido -- e da ação criativas do cliente (e do terapeuta), e o desenvolvimento de uma atitude fenomenológica, a partir do processo de uma relação ontológica entre o terapeuta e o cliente. A originalidade da Gestalterapia como linha de psicoterapia, a sua especificidade, radica, exatamente, em seu fundamento fenomenológico-existencial: privilegiar a afirmação da própria contingência da existência do cliente, de suas emoções, na pontualidade da emergência das questões de sua atualidade existencial, na perspectiva da afirmação de seu vivido, e de seu ponto de vista fenomenal. Privilegiar a própria pontualidade do vivido do terapeuta e de sua ação criativa, em dialógica relação interhumana com o cliente, como recurso psicoterapêutico básico. Privilegiar a liberação da ação criativa e as possibilidades de ajustamento criativo do cliente, potencializar a criatividade e os poderes de sua espontaneidade e de sua atividade espontânea na reorganização de seu ser-no-mundo, de seu si mesmo e do mundo. Tudo isto, naturalmente, sob o pressuposto epistemológico e metodológico de uma atitude fenomenológica, de uma concepção fenomenológica da pessoa e do mundo, como elementos fundamentais. Podemos dizer, em Gestalterapia, acredito, que o terapeuta investe o seu poder e capacidades no sentido da criação de condições para que o cliente assuma e desenvolva, na resolução de suas questões existenciais, e na sua vida de um modo geral, a habitualidade de uma postura fenomenológica. Que lhe permita usufruir da criatividade natural e das potencialidades múltiplas da existência de seu organismo no mundo. Que lhe permita reorganizar e recriar produtivamente os seus estilos de ser, estar e relacionar-se, e que lhe permita enfrentar as suas questões existenciais da perspectiva de sua originalidade, e da perspectiva da originalidade de suas necessidades, capacidades e poderes. A afirmação de sua vivência de consciência -- produto, processo, produtora de suas relações com o seu meio -- é privilegiada, a partir da perspectiva de uma certa filosofia da vida, e como elemento metodológico fundamental do processo psicoterapeutico. Destacando-se, neste sentido, o privilégio de seus componentes afetivos, e a efetivação de suas possibilidades como ação criativa de auto-criação e de plasmação do mundo. Trata-se de reconhecer, na prática e ativa vivência da espontaneidade, e na contingência da consciência/afetividade do cliente, no momento de sua atualidade existencial -- em sua relação dialógica com o terapeuta --, as possibilidades de auto-liberação de suas potencialidades, e das possibilidades de enfrentamento criativo de suas questões e desafios existenciais. Tudo isto, entretanto, fica excessivamente abstrato, à medida em que, definido apenas desta forma -- ou seja, tomando-se o cliente como foco conceitual preponderante --, perdemos de vista o terapeuta, transformando-o progressivamente em um potente "buraco negro". O estilo de F. Perls era, como sabemos desde o início em GT, um estilo bastante curioso, frequentemente hilariante, polêmico, ou francamente bizarro. Independentemente de sua teorização, que não o apreendia em sua inteireza, o seu estilo era, para ele, o próprio exercício da GT. É importante observar, todavia (como parece que começamos a tomar conhecimento de um modo generalizado), que o estilo de Perls não era, nem é, o método da GT, ainda que fosse uma implementação desse método. Seu estilo era, como tal, particular e único, uma forma idiossincrática (ainda que historicamente condicionada) de operacionalização de um método. Todavia, não obstante a particularidade e a exclusividade pessoal e idiossincrática desse estilo, é importante extrair dele o que eram os princípios básicos do método que ele operacionalizava, e como ele o fazia. Dois elementos pareciam ser fundamentais: uma feroz aversão ao desperdício e à artificialização da vida ("Mil flores de plástico não farão o deserto florescer!"), e um radical, explícito e ativo exercício pontual de suas próprias diferenças, em suas intensidades e modulações próprias, na relação imediata com o cliente. Pulsava, no fundo, uma atitude radical de afirmação da vida, de afirmação da articulação de sentido, a cada momento, de sua própria multiplicidade, de seu devir. Acredito que, compreendendo desta forma, o estilo de Fritz Perls, e o seu modo de operacionalização do método da GT, podemos compreender, de um modo fértil, a outra parte do enigma da psicoterapia: o próprio psicoterapeuta, assim chamado. Ok: é um critério central o do desenvolvimento por parte do cliente da habitualidade de uma atitude fenomenológica. Mas, evidentemente, e em particular no momento da relação terapêutica, isto só pode ser entendido em termos relacionais. O campo fenomenal do cliente diz respeito à globalidade de dimensões de sua atualidade existencial.E é exatamente a globalidade desta atualidade existencial que encontra-se pontualmente em relação com o organismo e com o campo fenomenal do terapeuta, expressivo este, igualmente, da globalidade da própria atualidade existencial do mesmo. Mais do que campos fenomenais, entretanto, no momento da relação terapêutica, terapeuta e cliente são fundamentalmente expressividade e ação criativas. Expressividaqde e ação criativas que emanam da configuração do momento de suas atualidade existenciais e, em especial, do processo de seu encontro particular, pontual e diacronicamente. É esta articulação dinâmica e múltipla que constitui-se como substrato fundamental do processo terapêutico e que esclarece a sua natureza. Não se trata, pois, para o terapeuta, de centrar-se na consciência do cliente, em incrementá-la, potencializá-la, etc. Isto é impossível para ele, terapeuta, e é, efetivamente, questão, e parte, do próprio cliente no curso do processo terapêutico. Compete ao terapeuta atualizar a sua particip/ação na particularidade desta correlação, neste encontro particular e único com o cliente, plenificando nele a intensidade original de sua presença, nos níveis tanto institucional, como pessoal, e na articulação própria deles. Num sentido mais específico, que abordaremos a seguir, trata-se, para o terapeuta, de interessar-se e efetivamente atualizar o seu ser outro na relação com o cliente. Talvez possamos dizer, neste sentido, que o núcleo da dinâmica do processo terapêutico, da parte do terapeuta, reside exatamente, na atualização vigorosa da presença em devir do terapeuta: como forma efetiva de ser outro, com sensibilidade e interesse pelo parceiro de relação. Inesperadamente, então, o terapeuta talvez possa aprender algo com o Riobaldo Tartarana, do Grande Sertão, Veredas, do Guimarães Rosa -- ao lado da aprendizagem da importância de uma franca abertura para a outridade do cliente, em sua particularidade própria e momentânea: "A gente vive, eu acho, é mesmo para se (...) desmisturar. E ainda: (Eu) Devia de guardar tenência simples e constância miúda, esperando a novidade de cada momento. Minha pessoa tomava para mim um valor enorme. É primorosa ainda, a este respeito, a passagem de Clarice Lispector: "Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu, entendí então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros e o outro dos outros era eu.* Trata-se, pois, para o terapeuta, de disponibilizar-se efetivamente para a dialogicidade da relação com o cliente como alteridade com que se defronta e interage. De abrir-se francamente à configuração de fluxos das diferenças dele. Ao mesmo tempo em que interessa-se vigorosamente pela atualização contínua e pontual, pela presentificação na relação, dos fluxos de seus próprios devires, em particular em função do próprio processo da relação. É assim central para o terapeuta a seu interesse espontâneo, a sua curiosidade e entusiasmo pela relação com o cliente com quem se encontra. Como ser humano genérico e como pessoa e existência particular. Só isto permite-lhe abrir-se efetiva e espontaneamente para a efetiva novidade dele, vale dizer, para a sua particularidade única e momentânea. Este interesse pode advir, num certo sentido, de um elaborado interesse e fascinação do terapeuta pela vida, pelo humano e por seus processos. Interesse este que o leva a privilegiar o encontro alteritário e dialógico com esses processos nas pessoas de seus clientes, como recurso de fertilização e de constituição do processo de sua própria existência, e que mantém a possibilidade de abertura para a(s) outra(as) pessoa(s) enquanto tal(is). É importante entender, todavia, que não é simplesmente esse interesse do terapeuta que potencializa a sua abertura para o cliente e a própria relação. Necessários e articulados a este interesse do terapeuta, existe o fascínio e a força da diferença, da outridade e da novidade do próprio cliente, a impor-se à consciência do terapeuta. Não se trata, pois, para o terapeuta, de uma voluntariosa e até altruísta mobilização para o cliente, mas de uma vulnerabilização, de uma abertura ao influxo do outro sobre si. E de uma ativa disponibilização, na relação, dos efeitos desse influxo engendrados em si próprio, uma ativa disponibilização, na relação, dos modos como ele próprio, terapeuta, se recria e se redescobre como outro de si mesmo. Assim é que, além de abrir-se, e ser confrontado e afrontado, pela outridade da pessoa do cliente, compete fundamentalmente ao terapeuta entender-se, conceber-se, assumir-se e afirmar-se como outro, e continuamente atualizar-se e presentificar-se como tal na relação com o cliente. Não se trata, pois, de pajeá-lo, de ser paternal(maternal) ou paternalista, conselheiro ou orientador, mas de atualizar-se e presentificar-se como outro, diferente, a partir do fluxo da própria particularidade de si mesmo. O que, de modo algum, significa que o terapeuta tenha que ser necessariamente ríspido e grosseiro. A rispidez e a grosseria compulsivas são mal entendidos frequentes em GT. Advêm simplesmente da falta de compreensão do método e dos fundamentos filosóficos da abordagem. Ou são, por outro lado, uma problema de educação doméstica do terapeuta, ou defeito de personalidade. Pode-se ser vigorosamente outro, na relação terapêutica, de uma infinidade de formas, que não excluem, eventualmente, formas mais agressivas, sem que isto implique num estereótipo de grosseria. Trata-se, deste modo, para o terapeuta, de atualizar-se e exercer-se como outro que engendra-se na relação pontual com o cliente, sob o influxo da relação com ele, mas fora de seu controle, à revelia dele. Um outro que reconstitui-se com o encontro, mas que perde-se em suas raízes no fluxo da multiplicidade de sua própria atualidade existencial, inacessível esta para o cliente. Por outro lado, temos a questão fundamental de que, o processo psicoterapêutico só pode ter uma gênese e um andamento produtivo na medida em que o cliente pode, reciprocamente, interessar-se pelo terapeuta como outro, parceiro humano de relação, no âmbito da instituição em que se encontram. Isto só pode ocorrer, naturalmente, na medida em que para ele o terapeuta, enquanto figura institucional e enquanto pessoa, é efetivamente interessante. É esta relação com o terapeuta como um outro interessante, como significativa e interessantemente diferente que se constitui como um elemento efetivamente instigante, provocativo, irritante, para a mesmidade do cliente. É a dinâmica desta interação que permite e potencializa no cliente a contínua emergência de micro-explosões (mais ou menos micro) nesta mesmidade. Explosões estas que possibilitam ao cliente a emergência e o poder de reorganização do processo de ser outro de sua própria espontaneidade. Que torna possível a efetivação da potencialidade deste processo, a erosão e a libertação da mesmidade impotente, dolorosa ou entediante. É importante lembrar que este não é, de um modo geral, um processo que provoque mudanças abruptas e globais na pessoa do cliente, mas um processo microssocial e contínuo, que pode configurar-se cumulativamente, permitindo mudanças qualitativas mais ou menos significativas ao longo de sua duração. De modo que uma questão fundamental do processo da psicoterapia é, assim, a capacidade e a habilidade do terapeuta para efetivar-se e afirmar-se como um outro interessante na relação com cliente. A princípio isto pode parecer óbvio e automático. Mas é interessante entender que este processo de ser outro, efetivar-se e afirmar-se como tal, não refere-se simplesmente a um ser outro genérico e abstrato. Trata-se, em particular, para além desta pré-condição da relação, de um ser ativa e intensivamente outro na relação pontual e imediata com o cliente. Um presença marcante e interessante no campo fenomenal e na atualidade existencial do cliente. Trata-se de um intensiva atualização da espontaneidade de si próprio na reciprocidade da relação pontual e momentânea com o cliente. As possibilidades deste processo de ser outro do terapeuta advêm da configuração da multiplicidade de dimensões, dominância e emergências, de sua própria atualidade existencial, em interação com a presença do cliente, em sua própria atualidade. Processo constituído de compreensão e diferenci/ação, ao nível da relação imediata, pontual e momentânea. Trata-se de assumir e de entregar-se à espontaneidade ativa do processo de diferenci/ação engendrado como abertura e relação pontual com o cliente. Trata-se de radicalizar e de configurar a devida expressividade deste processo particular e único de encontro e diferenci/ação recíproca, que se engendra com a pessoa única do cliente, em um momento único e contingente da atualidade existencial tanto dele como do terapeuta. De forma que o ser outro do terapeuta, que potencializa a provocação à mesmidade do cliente e os seus poderes de reorganização de seu si mesmo, constitui-se naturalmente a partir da dinâmica das várias tensões de sua atualidade existencial. Mas constitui-se, de um modo particular e importante, como processo que deriva da relação imediata do terapeuta com o cliente como pessoa particular, em um momento particular. É este eu do terapeuta, que se cria e recria na relação com o cliente -- como outro de si mesmo, e como outro face ao cliente -- , que é o elemento fundamental de participação do terapeuta em um método fenomenológico-existencial-relacional de psicoterapia. De modo que, para além de uma centração na consciência do cliente, em sua subjetividade -- ou mesmo no seu inconsciente -- uma questão fundamental do método e da atitude terapêutica em GT é a abertura do terapeuta para o cliente como alteridade em relação a si, como outro, radicalmente autônomo na produção subjetiva de sua unidade e de seu sentido, um eu para si próprio. A abertura e a disponibilização ontológica para a relação com a alteridade, abertura e disponibilização que cria e recria significativamente não só a existência e ser do cliente, como a própria existência e ser do terapeuta. "O outro é uma modificação do meu eu" (E. Husserl). O elemento fundamental da participação do terapeuta no processo da relação terapêutica é, assim, a ativa disponibilização imediata na relação com o cliente deste seu eu recriado imediatamente na própria relação. Eu que confrontar-se-á com o cliente como inevitavelmente outro, mas um outro que guardará inevitavelmente, também, para o próprio cliente, ressonâncias de si mesmo. F. Pessoa talvez possa nos ajudar a clarificar um pouco mais a questão -- ou a guardar mais o seu segredo: Mas, ai, a mim não me revejo! Partiu-se o espelho em que me revia idêntico, E em cada fragmento fatídico vejo um bocado de mim -- um bocado de ti e de mim!..." Foi o sopapo do encontro com a diferença... |