FRONTEIRA, NEUROSE E SONHO:

UTOPIA OU ESTEREOTIPIA

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
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São Paulo
1985

Indice Textos

 


‘’A metáfora é a guardiã da realidade."

(Adélia Prado)

A diferença, a outridade*, nos conforta a cada momento da nossa atualidade existencial. A cada momento ela nos surpreende e desafia, propondo-nos uma interação alquímica que haverá de nos desvelar e inventar. Vinda do fluxo das configurações do que entendemos como a nossa interioridade, ou do fluxo das configurações do que entendemos como mundo exterior, ela haverá sempre de determinar os limites do campo do "mim", suas nuances e seus segredos.

Nossa sanidade vive de inventar, e concretizar, utopia das sínteses possíveis de nós próprios com o "outro" de nós próprios ou com a outridade do mundo que nos diz respeito. Sínteses que encaminham essencialmente as questões de nossa atualidade existencial a partir do confronto, ao nível de nossa fronteira, da dominância pluriforme de nossas necessidades com os recursos potenciais do mundo que lhes são próprios. A cada momento, a dinâmica da produção de nós próprios e de nosso comportamento coerente, a mobilização possível e necessária dos recursos do mundo como ressonância de nossas necessidades, exige a ousadia da espontaneidade, da invenção – a partir de um certo "vazio", de um certo "nada"- no campo de nossas interações com os materiais do mundo em toda a sua incerteza, insegurança e atualidade multiforme.

A unidade coerente de nós próprios no mundo, que nos identifica, não passa de invenção e eventual atualização de certas utopias possíveis de nós próprios, a partir dos materiais que nos são propiciados em nossa agoridade pelas necessidades de nosso corpo e as possibilidades de nosso meio.

Produzir a alegria de viver, a paz conosco próprios e com o mundo, a atualização e construção de nossa essência humana configura uma certa arte de produção e atualização espontâneas de utopias que gravitem em torno de necessidades dominantes e recursos potenciais, limites e possibilidades, materialidade e invenção, no fluxo de nossa atualidade existencial. Espontaneidade que determina-se fundamentalmente a partir da integração da incerteza inerentemente intrínseca a cada momento da atualidade da interação da multiplicidade de nós próprios com a multiplicidade do mundo no fluxo de seus dinamismos particulares.

A cada momento, as nossas relações com o mundo nos dão incertezas e possibilidades, as incertezas e possibilidades das interações do "mim mesmo"com a outridade. Incertezas e possibilidades com as quais, pela ação sincrônica criativa e espontânea, podemos nos viabilizar no mundo em compatibilidade com uma certa alegria de viver. Os segredos e as sutilezas das interações do mim com a outridade, em seus dinamismos, e da sincronia e sintonia da ação espontânea e criativa demandam a pacífica convivência, na agoridade, com níveis particulares de incerteza que derivam das modulações e multiplidade infinitas das nuances que constituem a cada um de nossos momentos como particularização da história de nossas relações com o mundo, no interior de nossa comunidade.

De incertezas e possibilidades, somos seres condenados à necessidade de sonhar, no fluxo da espontaneidade de nossas relações com o mundo, o "possível inédito"de nós próprios, e do mundo que nos diz respeito, como momento necessário do processo de sua invenção material.

A neurose é a quimera da extinção da incerteza, em privilégio da busca de uma absoluta segurança, igualmente quimérica, corporificada nas estereotipias que isso engendra, com a supressão implícita da espontaneidade. É a interdição do sonhar em privilégio do status quo.

O onirismo que caracteriza o sonhar não lhe é exclusivo. Como capacidade de produzir utopias impregna a vigília e é um "tempero"essencial desta. Como metáfora transcendente do mundo existencial da pessoa – e, quem sabe, de seu povo – aponta necessariamente para um "possível inédito", ao mesmo tempo em que conspira inexoravelmente contra uma atualidade dada. Nutra-se essencialmente da incerteza e da espontaneidade como fontes próprias de produção de nuances criativas, sintonizadas com as nuances e matizes das questões da atualidade existencial. Sem elas, suas condições de possibilidades, o onirismo, o sonho e capacidade de produzir utopias possíveis, estaria inviabilizado em sua essência.

Neuróticos, entretanto, preferimos, à incerteza de uma existência e realidade fluídas, em contínuo vir-a-ser, a segurança do que se estabeleceu, de uma atualidade fantasmática que configura-se no presente apenas como obstrução à re-organização do novo. À incerteza, ao risco do sofrimento inerentes à mutabilidade, suprimimos a espontaneidade e organizamos um modo estereotipado de conviver com a novidade, com a diferença, com a outridade, inviabilizando a utopia – o sonho é menos domável, mesmo que se torne pesadelo – e a dinâmica síntese alquímica do mim e do outro.

Se, por um lado, interditamos o sonho e "extirpamos" a incerteza, por outro, reverso da medalha, anulamos a nossa criatividade para fazer frente a nossas questões existenciais, as possibilidades de nossa participação ativa na configuração de possibilidades, em todas as suas nuances e matizes, da interação da pluralidade de nós próprios com a pluralidade do mundo. De tal forma que a esterelidade e estereotipia se impoem cada vez mais a nossa espontaneidade criativa e onirismo, e nos tornamos, cada vez mais, incompetentes para nos propormos a nós próprios como projeto de trascendência de nosso status quo, para nos atualizar-mos com o fluxo de nossas necessidades na conjuntura de nossas relações com o mundo.

O onirismo, possível tanto no sono como na vigília, como capacidade de criar metáforas transcendentes de nossa atualidade existencial, utopias possíveis de nós próprios em interação com o mundo, utopias possíveis e alternativas à atualidade do mim, me parece ser o oposto simétrico da neurose.

Neurose e sonho me parecem os limites – apolíneo e dionisíaco artístico – do âmbito da concepção do humano em gestalterapia. Trabalhamos a libertação do sonho. De tal forma que libertando a nossa capacidade de nos entregar a ele e a sua espontaneidade possamos discernir o nosso possível como utopia racional e como momento privilegiado do processo de sua invenção com nossas mãos.

S.P.1985

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