FRONTEIRA, NEUROSE E SONHO: UTOPIA OU ESTEREOTIPIA Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL São
Paulo
A metáfora é a guardiã da realidade." (Adélia Prado) A diferença, a outridade*, nos conforta a cada momento da nossa atualidade existencial. A cada momento ela nos surpreende e desafia, propondo-nos uma interação alquímica que haverá de nos desvelar e inventar. Vinda do fluxo das configurações do que entendemos como a nossa interioridade, ou do fluxo das configurações do que entendemos como mundo exterior, ela haverá sempre de determinar os limites do campo do "mim", suas nuances e seus segredos. Nossa sanidade vive de inventar, e concretizar, utopia das sínteses possíveis de nós próprios com o "outro" de nós próprios ou com a outridade do mundo que nos diz respeito. Sínteses que encaminham essencialmente as questões de nossa atualidade existencial a partir do confronto, ao nível de nossa fronteira, da dominância pluriforme de nossas necessidades com os recursos potenciais do mundo que lhes são próprios. A cada momento, a dinâmica da produção de nós próprios e de nosso comportamento coerente, a mobilização possível e necessária dos recursos do mundo como ressonância de nossas necessidades, exige a ousadia da espontaneidade, da invenção a partir de um certo "vazio", de um certo "nada"- no campo de nossas interações com os materiais do mundo em toda a sua incerteza, insegurança e atualidade multiforme. A unidade coerente de nós próprios no mundo, que nos identifica, não passa de invenção e eventual atualização de certas utopias possíveis de nós próprios, a partir dos materiais que nos são propiciados em nossa agoridade pelas necessidades de nosso corpo e as possibilidades de nosso meio. Produzir a alegria de viver, a paz conosco próprios e com o mundo, a atualização e construção de nossa essência humana configura uma certa arte de produção e atualização espontâneas de utopias que gravitem em torno de necessidades dominantes e recursos potenciais, limites e possibilidades, materialidade e invenção, no fluxo de nossa atualidade existencial. Espontaneidade que determina-se fundamentalmente a partir da integração da incerteza inerentemente intrínseca a cada momento da atualidade da interação da multiplicidade de nós próprios com a multiplicidade do mundo no fluxo de seus dinamismos particulares. A cada momento, as nossas relações com o mundo nos dão incertezas e possibilidades, as incertezas e possibilidades das interações do "mim mesmo"com a outridade. Incertezas e possibilidades com as quais, pela ação sincrônica criativa e espontânea, podemos nos viabilizar no mundo em compatibilidade com uma certa alegria de viver. Os segredos e as sutilezas das interações do mim com a outridade, em seus dinamismos, e da sincronia e sintonia da ação espontânea e criativa demandam a pacífica convivência, na agoridade, com níveis particulares de incerteza que derivam das modulações e multiplidade infinitas das nuances que constituem a cada um de nossos momentos como particularização da história de nossas relações com o mundo, no interior de nossa comunidade. De incertezas e possibilidades, somos seres condenados à necessidade de sonhar, no fluxo da espontaneidade de nossas relações com o mundo, o "possível inédito"de nós próprios, e do mundo que nos diz respeito, como momento necessário do processo de sua invenção material. A neurose é a quimera da extinção da incerteza, em privilégio da busca de uma absoluta segurança, igualmente quimérica, corporificada nas estereotipias que isso engendra, com a supressão implícita da espontaneidade. É a interdição do sonhar em privilégio do status quo. O onirismo que caracteriza o sonhar não lhe é exclusivo. Como capacidade de produzir utopias impregna a vigília e é um "tempero"essencial desta. Como metáfora transcendente do mundo existencial da pessoa e, quem sabe, de seu povo aponta necessariamente para um "possível inédito", ao mesmo tempo em que conspira inexoravelmente contra uma atualidade dada. Nutra-se essencialmente da incerteza e da espontaneidade como fontes próprias de produção de nuances criativas, sintonizadas com as nuances e matizes das questões da atualidade existencial. Sem elas, suas condições de possibilidades, o onirismo, o sonho e capacidade de produzir utopias possíveis, estaria inviabilizado em sua essência. Neuróticos, entretanto, preferimos, à incerteza de uma existência e realidade fluídas, em contínuo vir-a-ser, a segurança do que se estabeleceu, de uma atualidade fantasmática que configura-se no presente apenas como obstrução à re-organização do novo. À incerteza, ao risco do sofrimento inerentes à mutabilidade, suprimimos a espontaneidade e organizamos um modo estereotipado de conviver com a novidade, com a diferença, com a outridade, inviabilizando a utopia o sonho é menos domável, mesmo que se torne pesadelo e a dinâmica síntese alquímica do mim e do outro. Se, por um lado, interditamos o sonho e "extirpamos" a incerteza, por outro, reverso da medalha, anulamos a nossa criatividade para fazer frente a nossas questões existenciais, as possibilidades de nossa participação ativa na configuração de possibilidades, em todas as suas nuances e matizes, da interação da pluralidade de nós próprios com a pluralidade do mundo. De tal forma que a esterelidade e estereotipia se impoem cada vez mais a nossa espontaneidade criativa e onirismo, e nos tornamos, cada vez mais, incompetentes para nos propormos a nós próprios como projeto de trascendência de nosso status quo, para nos atualizar-mos com o fluxo de nossas necessidades na conjuntura de nossas relações com o mundo. O onirismo, possível tanto no sono como na vigília, como capacidade de criar metáforas transcendentes de nossa atualidade existencial, utopias possíveis de nós próprios em interação com o mundo, utopias possíveis e alternativas à atualidade do mim, me parece ser o oposto simétrico da neurose. Neurose e sonho me parecem os limites apolíneo e dionisíaco artístico do âmbito da concepção do humano em gestalterapia. Trabalhamos a libertação do sonho. De tal forma que libertando a nossa capacidade de nos entregar a ele e a sua espontaneidade possamos discernir o nosso possível como utopia racional e como momento privilegiado do processo de sua invenção com nossas mãos. S.P.1985
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