|
Ensaios experimentais em
psicologia ambiental A EXPERIMENTAÇÃO FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL Afonso H Lisboa da
Fonseca, psicólogo. O que, muito propriamente,
caracteriza o ambi-ente é a sua ambi-guidade ontológica; ou, mais
especificamente, a sua ambigüidade ôntica
e ontológica. Muito propriamente esta ambi-guidade
do ambi-ente se dá, numa
primeira forma (1),
a partir da dualidade da ambi-guidade própria à
alternância dos dois modos de sermos: o nosso modo ôntico,
e o nosso modo ontológico de sermos. O ambiente, alternativamente,
pode se dar ônticamente, de uma forma,
num modo ôntico de sermos; e o
ambiente se dá ontológicamente, numa outra
modalidade, ontológica, de sermos. O segundo modo da ambi-guidade
do ambi-ente (2)
se dá na interioridade, digamos, no próprio âmbito, na verdade, na vigência
alternativa, do modo Ontológico de sermos. Pela dualidade dinâmica e inter-ativa,
dialógica, dos dois pólos, eu-tu, segundo Buber, que a constituem. Na vivência ambientativa dialógica, ontológica, o ambi-ente se dá na movimentação fenomenológico
existencial intencional de um tu, e para um tu, na relação intressante (inter-essere) entre alteridades radicais, que, todavia, se
implicam necessariamente no âmbito de uma vivência compreensiva. Ônticamente, o ambiente é coisa, objeto,
causalidade, utilidade, é pragmático, e comportamental, é acontecido,
possibilidade atualizada, exaurida, não tem atualidade nem presença...
Ontologicamente, o ambiente, própria e
especificamente, não é coisa; é vivência ontológica, fenomenológico
existencial intencional, dialógica; não é objeto, é uma alteridade radical,
um tu, com o qual estamos total e cabalmemente
implicados na pontualidade de sua vivência momentânea. Ontologicamente o ambi-ente não é da dimensão de sermos da utilidade e da
utilização; o ambiente neste modo ontológico de sermos não é, assim,
prático; não é pragmático, o ambiente, neste modo ontológico de sermos,
não é da ordem da vivência da realidade, na medida em que é da ordem da
vivência de possibilidade, e da vivência do desdobramento de possibilidade,
no que chamamos de ação, atualização, interpretação compreensiva,
experimentação, no sentido fenomenológico existencial, dialógico. Assim, a primeira ambi-guidade
do ambi-ente é que ele pode ser coisa, acontecido, ôntico; e ele pode ser pré-coisa, pres-ente, pres-ença
(o nosso modo pré-coisa de ser), tu,
acontecer, modo ontológico, dia-lógico de ser. Neste modo ontológico de sermos
estamos implicados enquanto ambi-ente na ambiguidade da dialógica eu-tu,
na qual eu e tu são alteridades radicais, mas que
necessariamente se implicam, na movimentação fenomenológico existencial, intencional, compreensiva, de uma
dialógica que propicia a ação em seu sentido fenomenológico
existencial originário: a atualização fenomenológico existencial de possibilidades. O modo de sermos da realidade é
própria e especificamente o nosso modo ôntico de
sermos. Para aquém do modo ôntico de sermos, no
qual se configura a realidade, somos, portanto, o modo de sermos da
possibilidade, o modo de sermos em que vivenciamos a potência do possível, da
possibilidade, e o seu desdobramento, no que entendemos como ação,
interpretação compreensiva, no seu sentido própria e especificamente
fenomenológico existencial, experimentação fenomenológico existencial. O modo de sermos da vivência
ontológica é estésico, uma vez que é
vivência imediata, que não é abstrato (como a consciência conceitual, teorética), e é imediaticidade
de vivência de corpo e de sentidos. Pré reflexiva, pré-prática, pré-pragmática,
pré-comportamental. Em sua qualidade própria, assim, em
sua propriedade, em sua onto-lógica, o ambiente,
a vivência ambiental, a dialógica ambiental, são, como tais, específica e eminentemente estésicos:
vivência sensível, pré-reflexiva, pré-conceitual, pré-pragmática, e
pré-comportamental, fenomenológico existencial. A vivência estésica
é ativa, é ação, na medida em que,
especificamente, é vivência de possibilidades
e desdobramento destas, é ação, atualização de possibilidades. O modo de sermos que privilegia a
vivência estésica, fenomenológico existencial, poiética, é a Estética,
uma Ética da estesia. A Estética é já uma Ética. A
anuência na vivência estética, estésica, a vivência
de possibilidades, e a vivência do desdobramento de possibilidades, que se
configura como ação, no seu sentido existencial e fenomenológico, ontológico,
constitui especificamente o que chamamos de experimentação,
no seu sentido fenomenológico existencial. O ambiente, portanto, em
seu caráter ontológico originário, fenomenológico existencial, dialógico, é
dado como vivência ativa, como ação, como atualização; é eminente e
especificamente estésico, e só esteticamente é dado
em sua ontológica, como interpretação fenomenológico
existencial compreensiva, como experimentação compreensiva, empírica,
fenomenológico existencial. Existe, assim, um nexo necessário e incontornável
entre o ambiente e ambienticidade ontológicos, poiética, estética, ação, e experimentação fenomenológico
existencial. Como vivência fenomenológica de
possibilidade, e do desdobramento dessas possibilidades, a experimentação
fenomenológico existencial remete ao sentido original do termo ex-peri-ment-ação.
E que, do verbo Grego perire,
remete ao sentido de arriscar, tentar; raiz, igualmente, da palavra perigo, da palavra e do conceito de empírico,
de empirismo,
e da palavra e conceito de pirata,
dentre outros. A experimentação, a ação, a atualização -- no sentido fenomenológico
existencial, como vivência de possibilidade, e vivência do desdobramento de
possibilidade --, remetem ao caráter ex-peri-mental
da própria ex-istência. Na medida em que o eksistencial demanda intrinsecamente a tentatividade,
e o arriscar; a ação, a experimentação,
nesse sentido específico. Em primeiro lugar, o risco mesmo de
incorrermos neste modo existencial de sermos, modo fenomenológico eksistencial, ontológico e ontogênico. Que, condição
fundamental, enquanto modo fenomenológico existencial de sermos, não é da
ordem da consciência ociosa do que entendemos por realidade. O modo de sermos da realidade é da ordem do modo de sermos do acontecido, da coisidade, do eu-isso, como designou Buber. O
modo fenomenológico existencial de sermos, o modo de sermos ontológico, e
ontologicamente ambiental, não é da ordem da realidade, porque é da ordem do
possível, e do desdobramento do possível, como ação, experimentação. Como tal, o modo ontológico de sermos, o modo
ontológico de sermos ambientais, é, portanto, da ordem da pres-ença,
do pres-ente – o modo de pré-coisa de sermos. Pré-reflexivo, pré-conceitual,
pré-comportamental, pré-pragmático; fenomenológico existencial. Todo o modo ontológico de sermos, em
particular, de sermos ambientais:
modo fenomenológico existencial de sermos, é da ordem de sermos da compreensão:
a vivência do possível e da possibilitação, da
ação, da atualização, da vivencia estética, estésica,
do pré-teórico, e do pré comportamental, se dão como compreensão. O modo
ontológico de sermos, portanto, não é da ordem do modo da explicação, o modo teorético
de sermos, mas da ordem do modo de sermos da implicação, que se dá ao
modo de sermos da compeensão. O modo ontológico
de sermos, pré-reflexivo, pré-comportamental, pré pragmático, no qual
somos e vivenciamos possibilidades e o seu desdobramento, no que chamamos de ação, experimentação. Daí ser este modo de sermos, enquanto
modo ativo de ser, modo experimental de
sermos, o modo de sermos imediatamente sensível, o modo de sermos estésico. O Estésico é um vento que sopra
no Mediterrâneo em determinada época do ano, e que impulsionava as velas. A
potência do possível que impregna e que se desdobra nesse modo sensível, estésico, fenomenológico existencial de sermos, fez com
que os Gregos dessem a este modo de sermos o nome do vento Estésico. A vivência do possível, e do seu
desdobramento, é uma ventura, um devir...
A Estética é sempre um modo de
sermos da vida à ventura da
potência do Possível. A aventura da vivência e da atualização do possível. O
que demanda uma disposição de tentar, de arriscar, de correr os seus riscos.
Ao privilegiarmos modo ontológico de sermos, o modo estésico
de sermos, de sermos, somos estéticos, e experimentais. A estética é, assim,
a ética da estesia que privilegia a vivência
pré-reflexiva, pré-conceitual, pré-pragmática, e pré-comportamental, toda
impregnada da característica ontológica do humano, que é a da vivência de
possibilidade, e de desdobro de possibilidade, no que entendemos como ação. O
possível, a vivência do possível é assim como um vento, uma ventura, que impulsiona
a ação efetiva, ontológica, fenomenológico existencial. De modo que o modo
ontológico de ser é o modo de sermos de uma vida à ventura, à ventura da
potência do possível, da possibilidade, à ventura de sua atualização, um des-porto. O ambiente, no seu sentido
ontológico, é, assim, estético e experimental. Intrinsecamente hermenêutico, como de resto a existência, na medida em
que se dá como ação, como experimentação fenomenológico
existenciais, como interpretação fenomenológico existencial: como
interpretação compreensiva, compreensão. O ambiente
no modo de sermos do porto seguro da reflexão, o ambiente conceitual, teorético, comportamental, técnico, não é o ambiente em
sua originalidade ontológica. Antes, o ambiente é poi-ético,
é estético. E assim é que o ambiente é necessariamente experimental
e fenomenológico existencial. Arriscante e perigante, enquanto ex-peri-ência,
mas possibilidade ontológica de compatibilidade com o vivo e com o vivente,
possibilidade de, e em, ação e atualização. Ex-peri-ment-ação -- no seu sentido original, ontológico,
fenomenológico existencial. Experimentação, nesse sentido, é
pensar, e agir. Sendo que pensar, enquanto tal, é já
agir, e agir já é pensar; nas dimensões meramente compreensiva, e
compreensiva e motora da ação da ação e do pensamento. Ontologicamente, portanto, a própria
ação, atualização, é perigante, arriscante:
experimental. Na medida em que, na ação, na atualização, na experimentação,
como nosso modo fenomenológico existencial de sermos: de vivência e
atualização de possibilidades, lidamos fundamentalmente com um modo de sermos
da incerteza e da inconveniência da potência do possível, e de sua
atualização. Ainda que seja este também o modo de sermos do interêsse (inter-essere). O
modo de sermos em que não somos da ordem da dicotomização
sujeito-objeto, em que não somos da ordem da causalidade, em que não somos, e
o mundo, o ambiente não são da ordem da utilidade -- não são da ordem de uma
pragmática, nem são, como vimos, da ordem da realidade --; antes, são da
ordem do possível e do acontecer; e não da ordem do acontecido, e da coisidade, como é característico da realidade. São a atualidade, o nosso modo próprio da ação, são o pres-ente, o modo
de pré-coisa propriamente de sermos. Que se caracteriza pela atualidade, pelo
attum,
pela ação. Experimental, tentativo e arriscante,
enquanto vivência e atualização de possibilidade, mas o modo próprio de nossa
potência criativa. O modo da potência de um ambiente própria e
especificamente possível. Que, tu,
alteridade absoluta, não é criado, já ao nível da vivência, pela potência de
nossa interpretação e experimentação, mas que igualmente não existe sem elas. O ambiente só se dá, assim, ontológicamente; o ambiente só se dá estéticamente,
o ambiente só se dá compreensivamente, o ambiente só se dá como ação, como
atualização, no seu sentido fenomenológico existencial efetivo; o ambiente só
se dá experimentalmente, só se dá como experimentação, portanto, como interpretação fenomenológico existencial, compreensiva,
implicativa. Por isso, já na sua interpretação o ambiente é perigante, e arriscante, ex-peri-ment-ativo. O ambiente, assim, em sua qualidade
ontológica, e originaria e efetivamente ambiental, só se dá ao modo
ontológico de sermos; só se dá ao modo existencial e fenomenológico de sermos,
só se dá ao modo de sermos dialógico, eu-tu de sermos. Ao modo de sermos do 'acontecer', da
ação, da atualização: da experimentação fenomenológico
existencial. O ambiente que a consciência ociosa experiencia em nosso modo ôntico
de ser, o ambiente que se dá ao modo eu-isso de sermos, o ambiente que se dá teóricamente, conceitualmente; o ambiente comportamental,
o ambiente pragmático, é e será sempre o ambiente como coisa, o ambiente como
objeto, o ambiente utilizável, o ambiente pragmático, o ambiente ausente, a anambientalidade,
o ambiente como acontecido. E não o ambiente como possibilidade, desobjeto, inutilizável, o ambiente como ação e como
acontecer. Como é próprio da atualidade, e atualização, intrínsecas a sua
originalidade ontológica, que é existencial e fenomenológica. O ambiente, assim, em sua
originalidade ontológica -- ontológica de todo e qualquer ambiente, e,
naturalmente, ontológica de todo e qualquer humano; acessível a qualquer um e
a qualquer momento, na qualidade de nosso modo ontológico de sermos, fenomenológico
existencial -- o ambiente em sua qualidade é, assim, própria e especificamente
experimental, neste sentido fenomenológico existencial. Porque em sua ontologia, em sua
qualidade ontológica, em seu onto-logos, em seu
sentido ambi-ental -- ambielógos,
ambielogia --, o ambiente não é a experiência da
coisa, do objeto, do utilizável, do pragmático, do real, do acontecido. O
ambiente é experimentação fenomenológico existencial,
o ambiente é ação compreensiva, meramente compreensiva ou compreensiva e
motora. O ambiente é, assim, vivência de possibilidade e vivência de
desdobramento de possibilidade. Com todo o sentido do perire Grego, de arriscar, de tentar, atualizar o pot-ente, o po-ssível, a po-iese:
disposição tentativa mesmo ao risco da incerteza, ao risco da inconveniência,
ao risco da des-portação
do com-port-amento, ao risco da des-portação do técnico, do teórético conceitual, do pragmático: a experimentação no
seu sentido fenomenológico e existencial. Sentido este em que a
experimentação é a própria vivência, não teorética,
portanto, da possibilidade e do seu desdrobamento:
da ação, que é estésica, que fenomenonológico
existencial, sensível, no modo de sermos, estésico,
que é pré-reflexivo e pré-conceitual, estético; a ética e a fonte da ação, do
valor e da avaliação ativos, criativos. |