REFLEXÕES SOBRE A ACP PÓS-ROGERS

Os Encontros da ACP

 

 

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

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Uma dúzia de anos após a morte de Rogers, é às vezes um tanto desolador observar o panorama global da ACP pós-Rogers. Já nos seus últimos anos, uma medíocre e mal disfarçada luta por sua herança, ou por duvidosos e questionáveis papeis e lugares de representatividade da importância que ele conquistara prenunciava um desdobramento não muito alvissareiro da Abordagem posteriormente ao passamento de seu principal formulador. A realidade fez justiça aos prognósticos. Em termos de desenvolvimento teórico e institucional pós-Rogers a ACP é um fiasco, bem na tradição das estéreis querelas que se armavam nos últimos anos de sua vida. Salva-se naturalmente a prática de pessoas e centros abnegados e inteligentes que compreendem e levam a frente as idéias de Rogers.

Não obstante, uma quase que anomalia revela um desenvolvimento, uma vitalidade e uma singularidade insuspeitados. Em particular na América Latina e no Brasil. Refiro-me aqui aos Encontros da ACP. Eles são mais ou menos anômalos, como mais ou menos anômalo, dentro do processo do desenvolvimento da ACP, era o movimento daqueles jovens*, que, junto com Rogers – partícipe ativo e inventivo da anomalia – desenvolveram a partir da década de setenta o movimento dos “workshops centrados na pessoa”, contribuindo decisivamente para a revolução do modelo de trabalho com grupos da ACP, os Grupos de Encontro, mas não só isto: contribuindo decisiva e efetivamente para com a revolução radical dos paradigmas da Abordagem, da psicoterapia à facilitação da resolução de conflitos. Na verdade, influenciaram profundamente, com o movimento dos workshops a própria concepção da psicoterapia fenomenológico-existencial e os trabalhos com grupo em geral.

O momento do desenvolvimento dos workshops no desenvolvimento da ACP marca uma transgressão e ruptura com as tendências dominantes. Influenciada fortemente em suas origens e dedobramentos pelas repercussões da fenomenologia e do existencialismo, -- vejamos, por exemplo, a influência de Otto Rank sobre o pensamento de Carl Rogers, para não falar, por exemplo, de Ludwig Binswanger, Kurt Goldstein e da Psicologia da Gestalt --, a cultura da Abordagem, como sub-cultura Norte Americana, sempre viveu o paradoxo de ser a eles, `fenomenologia e ao Existencialismo, avessa. Seja por razões de fundo religioso, seja por razões de fundo cultural, e, em certos aspectos, especificamente de por razões de conflito cultural entre as culturas Anglo-Saxãs e a cultura Germânica, de onde provinham importantes raízes da Fenomenologia e do Existencialismo.

O grupo que se acumplicia com Rogers, e com quem ele reiprocamente se acumplicia, a partir da década de setenta, era formado por “garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones”. Eram garotos dos anos sessenta. Vejam, por exemplo, o vídeo da TV Cultura feito por volta de 1977, quando Rogers, John, Maureen, Maria, Raquel e Jack, facilitam um estranho grupo diante das câmeras. Olhem a cara deles, e vocês entenderão o que eu estou querendo dizer.

De modo que puritanismo não era o forte deles, e viviam os inícios da globalização. A Cultura Norte Americana sofria a influência da geração de emigrados europeus, intelectuais ou não, exilados com a segunda guerra. A Cultura Norte Americana, como a maior parte das culturas humanas, abria-se, principalmente através de seus jovens, para o mundo. Para os traços existencialistas das Culturas Européias, da França em particular, para a realidade de que Alemão e Nazista não eram a mesma coisa. Já haviam lido Hermann Hesse, e o I Ching e o Tao Te Quing dormiam em muitas cabeceiras. Ademais, o Existencialismo era uma fonte de ar fresco, de respeito pela, proteção e afirmação, da vida, em um mundo marcado pelo risco iminente da destruição nuclear, ainda quando se recuperava dos horrores impensáveis da segunda guerra. Os jovens americanos estavam morrendo por uma causa incompreensível no Vietnã, e os Vietnamitas e Cambojanos estavam sendo trucidados em massa por poderosos artefatos de sofisticada tecnologia de destruição. Tomava-se consciência de que coletivamente a humanidade estava envenenando seu berço, seu ar e sua água, através da poluição. E que a cultura de massa massificava efetivamente, as pessoas perdiam a individualidade e transformavam-se em autômatos conformados. Raulzito cantava no Brasil: “...eu-que-não-me-sento-no-trono-de-um-apartamento-com-a-bôca-escancarada cheia-de-dentes-esperando-a-morte-chegar...”

De modo que os jovens que se acumpliciam com Rogers, e que com os quais ele se acumplicia, no desenvolvimento do modelo de trabalho com grupos a partir da década de setenta estavam impregnados, se não teoricamente vivencialmente, de uma profunda atitude fenomenológico-existencial. Mais que isto, era uma profunda, saudável e sólida ética fenomenológico-existencial que motivava e animava os seus passos e o seu comportamento.

E é esta atitude e esta ética que anima a sua ousadia quando começam junto com Rogers a fazer experimentações com o modelo de trabalho de grupos da ACP, no sentido do desenvolvimento do modelo dos workshops e do modelo atual de trabalho com grupos. A fase da ACP que aí se inicia, no sentido de uma periodização da Abordagem, é uma fase de radicalização fenomenológico-existencial, e acredito que assim é que deve ser designada, apesar dos percalços desta característica nos desenvolvimentos da Abordagem.

 

É no âmbito desta fase que Rogers, certamente ciente de que sua vida não era eterna, e das possibilidades de sua falta para as comunidades da ACP, propôe os Encontros da ACP. Não é muito dizer que os Encontros da ACP foram uma utopia de Rogers. Em particular diante da consciência que ele sempre revelara dos malefícios da institucionalização e da burocratização, como formas de apropriação indébita e de fossilização das comunidades da abordagem pela qual ele tanto trabalhara.

As características que ele parecia antever para esses Encontros, pelo menos pelo que se podia inferir do que ele falava em Oaxtepec, no primeiro desses Encontros, o Primeiro Forum Internacional da ACP, eram as de um encontro de troca de experiências e de informações centrado na atualidade vivida das pessoas participantes. Sem burocratização e sem institucionalização artificiais, com o máximo de espaço para o encontro e troca interpessoal, inter sub grupal e inter grupal, para a originalidade e para a criatividade. Sua utopia parecia conter a expectativa de que em sua vitalidade esses encontros poderiam ser uma melhor alternativa à institucionalização burocrática no sentido de uma organização das comunidades de interessados na ACP.

O modelo da proposta desses encontros calcava-se fundamente no modelo de trabalho de grupos que então se desenvolvia com os workshops centrados na pessoa. Naturalmente que os Encontros não se propunham a ser workshops simplesmente, tinham funções mais amplas, mas o modelo comunitário das comunidades de aprendizagem, como chamou John Wood (1984), dos workshops era a base da proposta dos Encontros.

Depois de Oaxtepec, as Comunidades Latino-Americanas da ACP parecem ter apreendido e aprendido a sugestão de Rogers. Ou melhor, por muitos anos já, desde 1983, o Encontro Latino Americano da ACP, tem ido, de um modo significativo, ao encontro das necessidades das comunidades de interessados na ACP, a partir desta proposta original. Desde então tem se realizado Encontros Latino Americanos da Abordagem em Petrópolis, no Brasil; em Buenos Aires, na Argentina; La Pedrera, no Uruguay; Sapucaí Mirim, no Brasil; Mar del plata, Argentina; Lago de Titicaca, Bolívia; Maragogi, Brasil; Aguascalientes, México. O próximo marcado para a Costa Rica.

Até Aguascalientes os Encontros latino-americanos da ACP desenvolveram importantes e interessantes características, e constituíram-se como uma fundamental fator de desenvolvimento da Abordagem nesta época pós-Rogers. Na verdade, o Encontro Latino desenvolveu características singulares e originais, inesperadas, que merecem ser tematizadas, estudadas, criticadas e desenvolvidas.

Discuto (1998) melhor estas características em meus textos “De Oaxtepec ao Nordeste da América do Sul. O Encontro Latino Americano da ACP“ e “Desenvolvimentos na Cultura da ACP”, de modo que, também em função do espaço aqui disponível, apenas as abordarei de passagem.

Estes Encontros Latino Americanos da ACP têm sido organizados dentro do espírito da Abordagem. Uma comissão organizadora é responsável pela mobilização das comunidades de interessados na ACP para o Encontro, e pelo provimento da infra-estrutura adequada para o mesmo. O Encontro não tem uma programação definida a priori. Valoriza-se a atualidade do encontro efetivo dos participantes, que são a instância de decisão sobre a programação do encontro. De modo que a programação efetiva do mesmo desenvolve-se a partir do encontro dos participantes, cada um podendo oferecer as atividades e os temas que está interessado em discutir, o que define uma parte estruturada do Encontro. A parte mais vivencial do Encontro é o espaço continente para as relações mais imediatas entre os participantes, para as trocas de experiências pessoais e profissionais, vivenciais e teóricas, grupais, sub-grupais e interpessoais.

Esta parte mais vivencial do Encontro configura um rico, sutil e intenso processo de intercâmbio interpessoal, intergrupal e intercultural. De modo que o Encontro pode desdobrar-se como uma oportunidade rica e intensa de intercâmbio em seus diversos níveis e possibilidades.

Além da troca e do desenvolvimento teórico e filosófico dos participantes e das comunidades da ACP de que eles participam, o Encontro serve como um rico espaço de vivência e de regeneração pessoal e coletiva. Uma de suas principais funções está ligada ao consumo compartilhado, puro e simples, de uma oportunidade existencial de vivência grupal, sem a mínima preocupação produtivista. Além disto, o Encontro tem sido uma importante instância de socialização de principiantes interessados em desenvolverem-se na cultura da Abordagem.

Com esta dinâmica, os Encontros latino-americanos da ACP têm tido uma importante função específica no desenvolvimento efetivo da ACP na América Latina. Tem permitido uma integração das várias comunidades e uma rica troca teórica, inter-cultural, interpessoal. Tem permitido potencializado uma reciclagem e desenvolvimento de inúmeros profissionais na América Latina, ao mesmo tempo em que tem estimulado a iniciação de inúmeros principiantes. Através da experiências dos participantes, suas comunidades têm sido estimuladas em seu desenvolvimento e atualização. De modo que creio não ser muito dizer que quando consideramos os Encontros da ACP estamos diante de uma mutação na cultura da Abordagem. Um novo fator no desenvolvimento novo da Abordagem nessa fase pós-Rogers. É necessário tematizar, desenvolver e cuidar desta forma dos Encontros Latinos da ACP.

Em particular, cuidar. Porque se ele desenvolveu, ao longo de seus anos, essa condição e características, é, em particular, porque certas condições suas, que já estavam presentes na “utopia” de Rogers com relação a este tipo de encontro, puderam ser preservadas.

Dentre estas o cuidado para que o interesse pessoal parasitário e/ou predatório não prevaleça sobre o interesse coletivo. Esta é uma condição para que o interesse coletivo e para que o efetivo interesse pessoal dos membros das comunidade e dos participantes do encontro seja preservado. Não podemos esquecer que é tipicamente pela via da burocratização e da institucionalização burocrática, ou da manipulação da informação que o interesse pessoal parasitário ou predatório busca sobrepor-se ao interesse coletivo. De modo que preservar os Encontros da burocratização, ou da institucionalização burocrática é um interesse maior.

Por outro lado, o modo como foi concebida a organização desses encontros, com comissões organizadoras rigorosamente rotativas, responsáveis apenas pelo provimento da infra-estrutura do encontro, sem um programação a priori, mas valorizando a atualidade do encontro efetivo de seus participantes, é um importante anticorpo desenvolvido pela Abordagem contra a burocratização e a institucionalização burocrática, mortal para a criatividade e para a produtividade.

O Encontro latino-americano da ACP é uma criação coletiva das comunidades interessadas nele, a elas pertence, e deve ser por elas zelado, cuidado e desenvolvido.

 

 

REFERÊNCIAS

 

FONSECA, Afonso H Lisboa da - De Oaxtepec ao Nordeste da América do Sul. O Encontro Latino Americano da ACP. in ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA. De Raízes e Desdobramentos. 1999 (em edição)

-                                                          Desenvolvimentos na Cultura da ACP. in ABORDAGEM CENTRADA NA PESSOA. De Raízes e Desdobramentos. (em edição).

WOOD, John - Comunities for Learning – La Jolla, 1984 (artigo).


 

* Relembrando de cabeça e como alguém que se iniciava na Abordagem naquela época, vivia no Brasil e participou de alguns daqueles workshops: John Wood, Maureen Miller, Maria V.B. Bowen, Jared Cass, Joann Justyn, Jack Bowen, French Fuchs, e o próprio Rogers.

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