O ENCONTRO NORDESTINO DA ACP

 

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Afonso H Lisboa da Fonseca

 

 

P’rá Virgínia,
Em celebração da amizade e da
proximidade de quem percorreu caminhos juntos.

 

 

A Abordagem Centrada na Pessoa, em particular, e, de um modo geral a Psicologia e a Psicoterapia fenomenológico Existencial, têm um papel bastante fértil no desenvolvimento da Psicologia e da Psicoterapia no Nordeste Brasileiro.

Uma região que não teve a influência cultural da imigração européia de origem não lusitana, como o Centro-Sul e o Sul do Brasil a partir do século XVIII, constituindo-se étnica e culturalmente da miscigenação basicamente do Índio, do Branco Lusitano e não lusitano do período da colonização e do Negro, a população e a cultura nordestinas não tiveram uma influência marcante da Cultura Européia que carreou para o Brasil o influxo das correntes mais tradicionais da psicologia e da psiquiatria, em particular da Psicanálise.

O meio intelectual não sofreu de um modo massivo esta influência. Ao mesmo tempo que a população, heterogênea, e diversa com relação às tendências culturais dominantes no Centro-Sul e Sul do Brasil, não apresentava uma receptividade similar às correntes de pensamento e mentalidades européias.

Por outro lado, o Nordeste sofreu influências diferenciadas, com relação ao Sul e Centro Sul do Brasil, da Cultura Anglo Saxã. Influências decorrentes, por exemplo, do fato de que o Sertão do Nordeste supriu de algodão as fábricas inglesas, em função do colapso da produção nos EUA, por causa da Guerra da Secessão, criando vínculos particulares entre o Nordeste e a Inglaterra; a instalação de ferrovias no Nordeste, e a presença Norte Americana no Nordeste, em função do valor estratégico da região durante a segunda guerra mundial. Não podemos esquecer, igualmente, o valor estratégico do Nordeste para os interesses Norte Americanos, antes durante e depois do golpe militar de 1964, o que levou os EUA a investirem na Região em termos de influência cultural.

Todas estas relações criaram vinculações culturais particulares entre o Nordeste Brasileiro e o Mundo Anglo Saxão, em particular Norte Americano, com o qual havia ainda a identidade de uma cultura que se concebe como germe de algo novo, e não como continuação simplesmente da Cultura Européia.

Estas vinculações potencializaram a possibilidade de que a Abordagem Centrada na Pessoa constituir-se e desenvolver-se diferenciadamente no Nordeste como uma forte influência e opção no âmbito da Psicologia e da Psicoterpia, abrindo toda uma perspectiva de possibilidades no âmbito do desenvolvimento da psicologia e da psicoterapia fenomenológico-existencial. Daí o vigor do desenvolvimento entre nós destas abordagens.

A ACP no Nordeste teve uma influência destacada nos trabalhos, em Recife, de Lúcio Flávio Campos. Campos, como era conhecido, iniciou na abordagem vários destacados profissionais de várias cidades da região, e que iam a recife em busca de formação em psicologia e psicoterapia. (Não cito nomes para não incorrer em injustiças).

Na década de setenta, a presença pessoal de Rogers no Nordeste, em palestras e facilitando grandes grupos de curta duração, trouxe um novo impacto no desenvolvimento da abordagem. Os grupos de Arcozelo e os grupos promovidos por Rachel Rosenberg sempre atraíram a profissionais nordestinos ligados à ACP, que traziam para a Região uma influência bastante vigorosa. John Wood e Maureen Miller realizaram várias atividades vivenciais e de treinamento na Região, chegando a morar, por um tempo, nas cercanias de Olinda. Rachel Rosenberg, além de ter tido uma significativa influência, a partir dos encontros que promovia em São Paulo, também realizou algumas atividades vivenciais e de treinamento no Nordeste.

O Encontro Nordestino da ACP desenvolveu-se, em sua forma de evento e de instituição, como uma propagação da onda que originou-se, no México (1982), com a criação do Encontro Latino Americano da ACP. Já em Petrópolis (1983), no Iº Encontro Latino, conversávamos sobre a necessidade e o interesse da criação do Encontro Nordestino. Chegamos a tentar promover uma reunião, em Fortaleza, no ano seguinte, para dar início a sua organização, sem maiores conseqüência práticas, naquele momento, todavia.

A idéia dormitou por um tempo, até que a iniciativa de Iarací Advíncula, em Recife, começou a materializá-lo. Assim surgiu, em 1987, o Iº Encontro Nordestino da ACP, em Gravatá, Pernambuco, organizado por Iarací e uma equipe de Recife.

Foi um marco. O encontro reuniu uma significativa amostra dos praticantes da ACP no Nordeste, em particular em Recife, Fortaleza, João Pessoa, Natal e Maceió.

Encontrávamo-nos sempre, em visitas pessoais ou de trabalho, que fazíamos uns aos outros, ou nos encontros que compatilhávamos no Centro Sul, em particular os de Arcozelo, e os organizados por Rachel Rosenberg, mas sempre de um modo fragmentário e disperso. Em Gravatá pudemos nos encontrar de um modo intensivo e face a face. Reencontrar colegas com quem já compartilhávamos experiências há algum tempo já, e encontrar novos e interessantes colegas. Lembro-me -- permita-me falar de um modo fragmentário, parcial e pessoal -- que ali reencontrei Iarací, Virgínia, Elza, Célio, George, Fátima Severiano. Ali conheci Sônia Gusmão, Hélio, Carmem, Cediça...

Não podemos dizer que o encontro tenha sido uma maravilha, do ponto de vista teórico. Mas foi, em primeiro lugar, uma delícia..., e, em segundo, revigoração de um movimento cujos frutos, simples mas saudáveis, podemos hoje contemplar.

A abordagem no Nordeste, junto com a Gestalterapia, tem hoje um novo vigor. Os cursos de formação e eventos diversos se multiplicaram e se multiplicam. Na Universidade Católica de Pernambuco desenvolveu-se um Curso de Pós Graduação a nível de Especialização especificamente na abordagem, que entra, agora em sua segunda turma. Na mesma Universidade, o Setor de Estágios diferenciou-se em duas áreas, uma delas definida especificamente pela ACP e pela Gestalterapia. Aumenta a quantidade de estudantes interessados na abordagem. Organizamos com sucesso e ampla participação, inclusive de estudantes e profissionais nordestinos, o VIIº Encontro Latino Americano da ACP, etc.

Podemos dizer que tudo isto deve-se ao encontro simplesmente. Evidentemente que não. Mas temos a alegria de constatar que é inegável a participação do ENOR nestes desdobramentos da ACP no Nordeste. Em particular, no sentido de que ela tem nos potencializado para estar à altura da demanda que tem se desenvolvido.

O encontro tem sido palco para nossas necessidades, limitações e possibilidades. Tem nos permitido a continuidade de um debate teórico e filosófico que nos tem sido muito útil, em particular nesses anos difíceis para a abordagem que se seguem à morte de Rogers.

Mas, em particular, o ENOR tem sido o espaço e o lugar para um encontro vivo.

Fraterno e amigo?... Nem sempre... Mas sempre continente possível e provedor da amizade, das possibilidades de nossa capacidade de eventualmente criarmos juntos e articuladamente, mesmo que estejamos separados geograficamente, no cotidiano, por centenas de quilômetros.

Conflitos?... Sempre... Desde o mais remoto começo. O que é interessante é que temos aprendido algo sobre a dignidade da vivência dos conflitos humanos. Não a dignidade, simplesmente, de quem defende a sua parte, mas a dignidade de entender que o mundo não se acaba, nem se resolve, em um conflito, e que, preservar o respeito pelo outro, além de significar o respeito por um parceiro, pode significar o respeito por algo maior que, com outros, podemos estar engajados juntos. Isto nos tem permitido, acredito, sair do privatismo obsessivo e doentio, e valorizar, e zelar, por uma esfera pública entre nós. Que, não importam, quais sejam os conflitos pessoais, é de uma outra ordem, e carece de ser zelada e cuidada por todos. Talvez seja este o maior pressuposto da possibilidade de nós podermos criar juntos, em um tempo em que se foram já os grandes e produtivos narcisos, e em que se impõe a necessidade de se criar coletivamente.

Por outro lado, descobrimos, acredito, que o encontro, assim como o Latino, por exemplo, pode ser a oportunidade de um belo e vivo processo cultural espontâneo e não deliberado, no qual se iniciam novos profissionais na cultura da abordagem. Processo que se desenvolve na interação, seja inter-individual, seja coletiva, com profissionais mais antigos, por um lado, ou processo que se desenvolve na interação entre os grupos de novos profissionais paraticipantes dos encontros. Acredito que o Encontro Latino de Maragogi ilustrou bem este processo.

O segundo Encontro Nordestino realizou-se nas cercanias de Maceió, Alagoas (1988), o terceiro em João Pessoa, Paraíba (1989), o quarto em Caucaia, no Ceará (1990), o quinto em Natal, Rio Grande do norte (1992). O sexto encontro estava planejado para Maceió, mas foi cancelado. No Encontro Latino de Maragogi, ficou acertado que o próximo ENOR será realizado em João Pessoa, em 1995.

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