DA ILUSÃO DA ORIGEM À AGORIDADE, Os Rituais da Volta Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo LABORATÓRIO
EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL São Paulo F. Nietzsche "Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual e é o que é. Guimarães Rosa "Paris", Texas"* bem que poderia chamar-se de "Crônica de Uma Morte Anunciada" ou melhor: "Crônicas de Mortes Anunciadas" tal como o título que Garcia Marques deu ao seu romance. Talvez pudesse, também chamar-se "Cerimônias do Adeus" , parafraseando o título ritual que Simone de Beauvoir deu a sua narrativa da despedida entre ela e Sartre. Um dia era Paris (Texas) que se impunha como destino. Destino geográfico, isomorficamente compartilhado como destino de uma volta existencial. Era para lá que remetia o dilaceramento da impossibilidade e do tormento do presente, sob a forma da busca e do desvendamento da ilusão de uma origem. Havia no sótão um defunto insepulto, a empestiar a contingência do mundo presente. Impossível presente, irremediavelmente dilacerado pelo antagonismo da configuração de suas forças, pelo desmoronamento das frágeis pontes, pela ruptura com a mulher e o afastamento do filho. Um defunto de que Paris, Texas, era o supercondensado signo.O signo da origem; da origem do tormento do presente, da inadequação, da impossibilidade fatal, do intolerável e imensurável vazio a preencher até à contingência do sofrido presente. Vazio que haverá, depois, de determinar a forma ritual da caminhada de retorno do Texas a Los Angeles. Era desesperadamente necessário exorcizar Paris de dentro de si, a mitologia tão essencial, a tão desesperadora e ilusoriamente real ilusão da origem. Exorcizar a mãe que não era uma mulher sofisticada, no presente do sofisticado mundo urbano da cultura de massa exorcizar o mundo rural como comentou Rita Kehl exorcizar a ancestralidade hispânica, e sabe Deus quantos fragmentos de origem, geradores do atormentado sujeito do presente. Exorcizá-los e finalmente incorporá-los como elementos possíveis de recriação e constituição do presente. Era necessário a exorcização da origem, o resgate de si no ritual do percurso da volta como volta interior: reorganização e reinvenção da configuração de suas próprias almas, para que o presente pudesse ser enfim possível. Tratava-se da desesperada genealogia vivida da loucura, constituída como resposta à inexorabilidade da ruptura, num insuportável caos, de um cosmos tão precário e desesperadamente acalentado. Era em Paris, supercondensado signo, que estariam a resposta e o bálsamo, o toque numa fundamental essência curadora de si. Não era em Paris supercondensado signo, apenas, abstração todavia... Era na travessia, como dizia o velho Rosa pela boca do Riobaldo: O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. "Está vazio agora", diz ele, agora, ao filho, referindo-se a Paris. Quatro anos, e impõe-se, inexorável mais uma vez, a genealogia da atualidade de então: resgatada e reinventada Paris, impõe-se mais uma vez uma enorme distância a percorrer no sentido da nova ilusão da origem da atualidade. No sentido do impossível e dilacerado cosmos, dilacerada origem da atualidade e do sofrimento de então. É imprescindível não haver precipitações A natureza não dá saltos ou nunca haver-se-á de juntar os cacos , que agora já não são só seus, e cuja possibilidade de integração residem apenas nas mãos de sua própria morte. A longa caminhada ritual, travessia da busca, ritual meticulosamente obstinado do preenchimento miúdo, passo a passo, dos pequenos espaços de um certo, e enorme, vazio interior. Sair do chão?, jamais. O avião jamais! Necessidade imperativa de um rigor e de um tempo meticulosos e obstinados tempo e percurso isomorficamente exterior e interior para que tudo dê certo, no momento certo. A reconquista, redescoberta, descoberta e invenção dos vínculos com o filho. Não é mais um projetista solitário. Há agora um cúmplice. Um cúmplice paradoxal e antagonista. Um cúmplice ser, do outro lado das ruídas pontes do passado. Uma cumplicidade na busca, a partir dos fragmentos, da reinvenção de um cosmos paradoxal, contraditória, irremediável e impossivelmente comum. As pistas, a busca na "ranchera" morte e reinvenção de si. A urbana, tecnológica e pueril celebração da americanidade na bandeira e no distintivo da jaqueta do filho. O primeiro e impossível encontro. A esperada e dolorida morte, afinal. A morte dolorida e essencial de mais uma ilusão essencial. A exaustão da morte e mais um começo do retorno da vida. Barba feita, banho tomado, cabelo penteado: o segundo e impossível encontro: "Eu os conhecí. Eram jovens..." O ritual do luto, a conivência, a cumplicidade com a morte e com o lento distanciamento da ilusão. "Foi você quem esteve aqui ontem?" "Não, não foi!" Havia sido outro, sem dúvida, o que estivera. Outro, partícipe da ilusão, que após o turbulento regresso chegava mansamente ao término de sua própria morte. Os dados do outro lado das pontes rompidas. A assimilação em si do passado vivido. A efêmera reconstituição dos vínculos, reinvenção e pacificação do dilacerado cosmos. A aceitação da duração dele sob a condição da efetivação de sua própria mortalidade para ele. A libertação para a atuação sobre a atualidade. O ausentamento e a ranchera busca da reinvenção do mundo, da ilusão essencial. Travessia e tragédia, morte para a vida, a partir da reintegração das almas, no vividamente sofrido esgotamento da ilusão de sua exclusividade soberana, a libertação de sua potência criativa, do querer, do risco, da incerteza, das possibilidades da sua existência, e de sua alegria. SP. Nov./85 |