DA ILUSÃO DA ORIGEM À AGORIDADE,

Os Rituais da Volta

Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo

LABORATÓRIO EXPERIMENTAL DE PSICOLOGIA FENOMENOLÓGICO EXISTENCIAL
Rua Alfredo Oiticica, 106. Farol. 57050-010 Maceió AL. Brasil
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São Paulo
1985


Indice Textos

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  • "...Porque o nosso corpo não é senão uma comunidade de muitas almas.’’

    F. Nietzsche

    "Os fatos passados obedecem à gente; os em vir, também. Só o poder do presente é que é furiável? Não. Esse obedece igual – e é o que é.’’

    Guimarães Rosa

  • "Paris", Texas"* bem que poderia chamar-se de "Crônica de Uma Morte Anunciada" – ou melhor: "Crônicas de Mortes Anunciadas" – tal como o título que Garcia Marques deu ao seu romance. Talvez pudesse, também chamar-se "Cerimônias do Adeus" , parafraseando o título ritual que Simone de Beauvoir deu a sua narrativa da despedida entre ela e Sartre.

    Um dia era Paris (Texas) que se impunha como destino. Destino geográfico, isomorficamente compartilhado como destino de uma volta existencial. Era para lá que remetia o dilaceramento da impossibilidade e do tormento do presente, sob a forma da busca e do desvendamento da ilusão de uma origem.

    Havia no ‘’sótão’’ um ‘’defunto’’ insepulto, a empestiar a contingência do mundo presente. Impossível presente, irremediavelmente dilacerado pelo antagonismo da configuração de suas forças, pelo desmoronamento das frágeis pontes, pela ruptura com a mulher e o afastamento do filho. Um defunto de que Paris, Texas, era o supercondensado signo.O signo da origem; da origem do tormento do presente, da inadequação, da impossibilidade fatal, do intolerável e imensurável vazio a preencher até à contingência do sofrido presente. Vazio que haverá, depois, de determinar a forma ritual da caminhada de retorno do Texas a Los Angeles.

    Era desesperadamente necessário exorcizar Paris de dentro de si, a mitologia tão essencial, a tão desesperadora e ilusoriamente real ilusão da origem. Exorcizar a mãe – que não era ‘’uma mulher sofisticada’’, no presente do sofisticado mundo urbano da cultura de massa – exorcizar o mundo rural – como comentou Rita Kehl – exorcizar a ancestralidade hispânica, e sabe Deus quantos fragmentos de origem, geradores do atormentado sujeito do presente. Exorcizá-los e finalmente incorporá-los como elementos possíveis de recriação e constituição do presente. Era necessário a exorcização da origem, o resgate de si no ritual do percurso da volta como volta interior: reorganização e reinvenção da configuração de suas próprias almas, para que o presente pudesse ser enfim possível.

    Tratava-se da desesperada genealogia vivida da loucura, constituída como resposta à inexorabilidade da ruptura, num insuportável caos, de um cosmos tão precário e desesperadamente acalentado. Era em Paris, supercondensado signo, que estariam a resposta e o bálsamo, o toque numa fundamental essência curadora de si.

    Não era em Paris – supercondensado signo, apenas, abstração – todavia...

    Era na travessia, como dizia o velho Rosa pela boca do Riobaldo: ‘’O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.’’

    "Está vazio agora", diz ele, agora, ao filho, referindo-se a Paris.

    Quatro anos, e impõe-se, inexorável mais uma vez, a genealogia da atualidade de então: resgatada e reinventada Paris, impõe-se mais uma vez uma enorme distância a percorrer no sentido da nova ilusão da origem da atualidade. No sentido do impossível e dilacerado cosmos, dilacerada origem da atualidade e do sofrimento de então.

    É imprescindível não haver precipitações – ‘’A natureza não dá saltos’’ – ou nunca haver-se-á de ‘’ juntar os cacos ‘’, que agora já não são só seus, e cuja possibilidade de integração residem apenas nas mãos de sua própria ‘’morte’’.

    A longa caminhada ritual, travessia da busca, ritual meticulosamente obstinado do preenchimento miúdo, passo a passo, dos pequenos espaços de um certo, e enorme, vazio interior. Sair do chão?, jamais. O avião jamais! Necessidade imperativa de um rigor e de um tempo meticulosos e obstinados – tempo e percurso isomorficamente exterior e interior – para que tudo dê certo, no momento certo.

    A reconquista, redescoberta, descoberta e invenção dos vínculos com o filho. Não é mais um projetista solitário. Há agora um cúmplice. Um cúmplice paradoxal e antagonista. Um cúmplice ser, do outro lado das ruídas pontes do passado. Uma cumplicidade na busca, a partir dos fragmentos, da reinvenção de um cosmos paradoxal, contraditória, irremediável e impossivelmente comum.

    As pistas, a busca na "ranchera" morte e reinvenção de si.

    A urbana, tecnológica e pueril celebração da americanidade na bandeira e no distintivo da jaqueta do filho.

    O primeiro e impossível encontro. A esperada e dolorida morte, afinal. A morte dolorida e essencial de mais uma ilusão essencial. A exaustão da morte e mais um começo do retorno da vida.

    Barba feita, banho tomado, cabelo penteado: o segundo e impossível encontro:

    "Eu os conhecí. Eram jovens..."

    O ritual do luto, a conivência, a cumplicidade com a morte e com o lento distanciamento da ilusão.

    "Foi você quem esteve aqui ontem?"

    "Não, não foi!"

    Havia sido outro, sem dúvida, o que estivera. Outro, partícipe da ilusão, que após o turbulento regresso chegava mansamente ao término de sua própria morte.

    Os dados do outro lado das pontes rompidas. A assimilação em si do passado vivido. A efêmera reconstituição dos vínculos, reinvenção e pacificação do dilacerado cosmos. A aceitação da duração dele sob a condição da efetivação de sua própria mortalidade para ele.

    A libertação para a atuação sobre a atualidade. O ausentamento e a ranchera busca da reinvenção do mundo, da ilusão essencial. Travessia e tragédia, morte para a vida, a partir da reintegração das almas, no vividamente sofrido esgotamento da ilusão de sua exclusividade soberana, a libertação de sua potência criativa, do querer, do risco, da incerteza, das possibilidades da sua existência, e de sua alegria.

    SP. Nov./85

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