Consideração Positiva Incondicional
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Centro de Referência
da Abordagem Rogeriana
Se tudo que uma pessoa exprime (verbalmente ou não verbalmente, direta ou indiretamente) sobre si mesmo, me parece igualmente digno de respeito ou de aceitação, isto é, se não desaprovo nem deprecio nenhum elemento expresso dessa forma, experimento em relação a esta pessoa uma atitude de consideração positiva incondicional.
(Carl Rogers/ G. Marian Kinget)
A fenomenologia
significou um momento particularmente marcante no desdobramento do pensamento
da Civilização Ocidental. Um momento em que se buscou uma relativização dos
juízos, do conceitual, do teórico, do abstrato, e da abstração,
privilegiando-se a fonte de onde eles
emergem, a experiência viva, pré
reflexiva, pré conceitual, pré teorizaste: o encarnado, o efetiva e
pontualmente vivido.
Constituiu-se
assim a fenomenologia como uma ontologia, como uma epistemologia, como uma
filosofia, como uma perspectiva de ciência, como uma atitude fenomenológica, que busca partir destes níveis originários da experiência e do devir, o nível da intuição originária da vivência de
consciência.
A
fenomenologia foi aí, já, uma revolução: ...Não só relativizar, mas
subalternizar a consciência reflexiva,
os juízos, o teórico, o conceitual, numa cultura que, desde Sócrates,
instalava-os no ápice dos valores e dos critérios do conhecimento... Eleger a intuição originária da vivência de
consciência como o critério por
excelência do conhecimento e da existência: o nível do conhecimento (vivencial) anterior a qualquer forma de conhecimento (reflexivo). [1]
Foi uma
modificação completa do ponto de referência. Uma revolução de mentalidade no
âmbito da socrática Civilização Ocidental.
À consciência
pontual e pré reflexivamente vivida, em seus níveis mais originários, foi
restituída a sua importância e valor, no processo de constituição da existência
e do conhecimento humanos: o seu lugar de raiz
de todas as coisas, e o seu lugar, nada menos que, de condição de aparição do mundo, raiz do mundo... Mundo a ela originária e
indissociavelmente correlativo, anteriormente a qualquer possibilidade de
cisão. A preconização de uma atitude
fenomenológica, que buscasse uma compreensão
(e não uma explicação) do mundo,
e da existência -- em sua globalidade, detalhes e fragmentos --, a partir,
específica e particularmente, de sua vivência. Uma suspensão da crença no valor
dos juízos, conceitos e teorias a respeito do mundo e da existência, para enfatizar
a importância fundamental de sua vivência, na intuição originária da vivência de consciência.
“O mundo não tem existência, o mundo é fenômeno...” ·.
Tudo isto
representou já uma revolucionária mudança de critérios e de pontos de vista, de
atitudes e de valores.
Mas para a
fenomenologia, como para o humano, de um modo geral, resta ainda, pelo menos,
uma questão crucial: ...a consciência enquanto tal não é única, não existe
isoladamente no mundo. Para a consciência há sempre a crucial questão da outra consciência, do outro, com os quais a consciência não
apenas relaciona-se dialogicamente, mas imbrica-se dialógica e necessariamente,
num processo de mútua constituição e reconstituição.
Rapidamente, a
consciência constata que não se trata, apenas, de viver num mundo de coisas que
têm sentido. Mas de viver num mundo com
outros. Outros que são um eu para si
próprios. De outros que constituem a
sua própria unidade, de outros que
são focos autônomos de produção de seu próprio sentido (Husserl).
Ou, como observa Lyotard:
“A alteridade do outro se distingue da transcendência simples da coisa
pelo facto de o outro ser para si próprio um Eu e de a sua unidade não estar na
minha percepção, mas nele próprio; por outras palavras, o outro é um Eu puro
que de nada carece para existir, é uma existência absoluta e um ponto de
partida radical para si mesmo, como eu o sou para mim. A questão transforma-se
então em: como é possível um sujeito constituinte (o outro) ‘para’ um sujeito
constituinte (eu)?”.
É um segredo
da arte do humano. Ser e viver com outros.
Relação com
outros que pode ser, e é, a fonte de ameaça e de nossa destruição. Relação com
outros que é a fonte de nossa criação e realização.
Tamanha é a
importância do significado da possibilidade presença do outro que interessa-nos
radicalmente respeitá-lo em sua outridade, e interagir com ele em sua
particularidade e singularidade.
Não posso
abrir mão da afirmação de meu eu em
devir, na relação com o outro. Mas interessa-me a relação com a sua diferença e
particularidade próprias, a outridade do
outro. Interessa-me respeitar a sua particularidade e a sua diferença próprias,
e com elas interagir.
Buber
colocaria isto de uma forma primorosa:
“Este ser humano é outro, essencialmente outro do que eu, e é esta sua
alteridade que eu tenho em mente, porque é ele que eu tenho em mente; eu a
confirmo, eu quero que ele seja outro do que eu, porque eu quero o seu modo
específico de ser”. [2]
Não é por
questão de alguma forma de altruísmo, ou por algum princípio moral. É que “O eu se cria na relação com o tu”. [3] Não
existe eu que se constitua que não seja dialogicamente na relação com o Tu. De
modo que a estratégia existencial fundamental do crescimento é a relação com o
diferente, com o outro -- pessoal, impessoal, individual, coletivo,
situacional, humano, não humano...
É do meu
interesse dialogicamente abrir-me e interagir com a diferença do tu. É a forma privilegiada do processo
de minha auto constituição.
A psicoterapia
mergulhou de cabeça na revolução que
configuraram a fenomenologia e a sua conotação existencial, constituindo linhas
especificamente fenomenológico existenciais de psicoterapia. Com isto,
constituiu-se uma revolução própria e particular no seu campo específico, e,
porque não dizê-lo, no âmbito das relações sociais na cultura ocidental.
Revolução potencializada e potencializante inclusive da própria emergência e
desdobramentos da fenomenologia e do existencialismo.
Isto
significou, de imediato e preliminarmente, no encontro e confronto com o
cliente, a assunção do ponto de vista epistemológico da fenomenologia, e a
eleição do ponto de vista fenomenal como critério
superior de conhecimento e de vida. Ou seja, alternativamente ao
conceitual, ao reflexivo, ao teórico, a assunção do ponto de vista da intuição originária da vivência de
consciência, do vivido, do pré reflexivo, como critério superior do
conhecimento e de orientação e avaliação da vida.
Isto marca uma
revolução histórica, epistemológica, conceitual, técnica, política, no âmbito
dos trabalhos de psicoterapia, de saúde mental e de manejo das relações
sociais. Revolução que ainda está por
desdobrar-se, e produzir os seus melhores efeitos. Marca uma revolução,
sobretudo, do ponto de vista ético. Na medida em que se reconhece
inquestionavelmente o direito do outro a sua própria subjetividade fenomenal, e
ao seu exercício.
Não se trata
apenas do direito do outro a sua própria consciência,
mas do direito à validade inquestionável da fonte vivencial e pré reflexiva de sua
consciência, da intuição originária de sua vivência de consciência como raiz do mundo para ele.
De modo que,
com relação à subjetividade do cliente (tantas vezes massacrada em sua vida
cotidiana, e freqüentemente, em particular, pelo próprio poder institucional do
profissional), com relação ao seu (do cliente) ponto de vista fenomenal,
desenvolve-se um respeito radical, de quem, enquanto psicoterapeuta, se auto
concebe como humano, em primeiro lugar -- e não como um técnico --, e está
visceralmente interessado na humanidade original e única de seu parceiro de
relação -- mesmo que seja esta uma relação emoldurada pelo vínculo
profissional. Respeito ao cliente não apenas de um ponto de vista abstrato,
teórico, conceitual, egótica e narcísicamente projetivo, mas do ponto de vista
fenomenal e pontualmente vivido dele próprio, cliente, pessoa, ser humano,
consciente e autônomo, afetivo, em crise existencial mais ou menos aguda, e em
devir.
Por outro
lado, para além do conhecimento, as
psicoterapias fenomenológico existenciais assumiram a perspectiva
existencialista da própria afirmação do
vivido, e do valor da criatividade existencial, emergente na afirmação
deste vivido. A perspectiva da afirmação da existência, como postura ética, e
como estratégia, digamos, terapêutica, ou de crescimento humano, existencial.
Pensadas no
que concerne ao cliente, estas premissas fenomenológico existenciais da
psicoterapia convergiram naturalmente, assim, num princípio de respeito radical
à sua diferença enquanto outro, consciente, reflexiva e, sobretudo, pré
reflexivamente. Mais do que respeito, convergiram no interesse por sua
diferença particular, por sua outridade
própria. Um interesse por uma compreensão e
confirmação da pessoa dele, naquilo que ele pontualmente se percebe, vivência
e comunica como sendo ele próprio, no modo como ele compreende e vivência as
questões, pessoas e vínculos significativos de sua atualidade existencial.
Posso
colocar-me em relação com o cliente.
Com a sua comunicação voluntária ou involuntária. Mas, tal como a minha, a sua
consciência constitui-se autonomamente. E, é, fenomenologicamente, a raiz do mundo para ele. De modo que, se
posso, e interesso-me, por colocar-me dialogicamente em relação ativa com ele,
a partir da singularidade pontual de mim mesmo, não me concerne avaliar ou tentar condicionar o ponto de vista
fenomenal de sua consciência com relação a ele próprio, ao seu mundo, a seus
vínculos, a suas questões existenciais. Este ponto de vista existe
necessariamente, e é imanente à existência de sua pessoa na relação com o mundo
que lhe diz respeito. É a raiz do mundo para ele.
De modo que o
que interessa a um terapeuta fenomenológico existencial é que o cliente possa afirmar a afirmação que já é este seu
ponto de vista fenomenal. É o respeito incondicional por este ponto de vista
fenomenal do cliente, por sua experiência, pela sua afirmação.
No pragmático
desenvolvimento da terapia centrada na pessoa, cedo se percebeu que era este
respeito incondicional pelo ponto de vista fenomenal do cliente, e por sua
afirmação, que se constituía como uma condição fundamental para a criação de um
clima terapêutico, de possibilitação
de “cura”, e de facilitação de seu crescimento humano.
Uma atitude de
Consideração positiva incondicional pela
experiência do cliente por parte do terapeuta logo se revelou como um
poderoso fator de constituição de um clima de relação passível de propiciar
condições ao cliente para uma progressiva reorganização de seu modo de
funcionamento psíquico e comportamental, propiciando-lhe condições para uma
reorganização da sua imagem de seu si-mesmo,
e uma melhor atenção a sua experiência organísmica, no sentido do
desenvolvimento de padrões mais livres de vivência desta sua experiência e de
criatividade e potência no âmbito de sua existência. Como pedra de toque, a consideração positiva incondicional cria
condições para que o cliente possa afirmar o seu vivido, e progressivamente com
ele identificar-se de um modo habitual. De modo que a habitual identificação do
cliente com o seu vivido permite-lhe uma potencialização de sua originalidade e
de sua criatividade, de suas forças e vontade, na resolução e encaminhamento de
suas questões existenciais.
Este conceito,
e a prática efetiva de uma consideração
positiva incondicional pela experiência
do cliente, passaram então a constituir-se como elemento fundamental da
teoria e da prática da Terapia Centrada na Pessoa, da mesma forma em que passou
a ser entendido como um fator fundamental para o desenvolvimento de uma
personalidade humana plenamente funcionante. Entendendo-se levar a sua carência
regular ao desenvolvimento de um estado de mau funcionamento da personalidade,
de desajuste social e desequilíbrio psicológico.
Os praticantes
da terapia centrada na pessoa, desenvolveram estudos para verificar hipóteses
relativas à consideração positiva. E, como na questão da empatia, há que se reconhecer a Rogers o mérito de ter investido a
sua vida profissional na afirmação do valor e da importância da consideração positiva incondicional no
âmbito da psicoterapia, da pedagogia e dos trabalhos com grupos e de
facilitação das relações humanas em geral.
Infelizmente,
à medida que vai se desenvolvendo na ACP uma pragmático empirização de seu
fundamento fenomenológico e existencial -- o que significou uma perda de
densidade fenomenológico existencial dialógica em sua concepção, na concepção
de seus conceitos, princípios e na sua prática -- há um empobrecimento
conceitual e prático da idéia de uma consideração
positiva incondicional pela experiência do cliente.
É interessante
observar, num primeiro momento, que, ao longo desse processo, o conteúdo
fenomenológico existencial dialógico do conceito vai sendo misturado com
conteúdos da filosofia dos direitos da pessoa humana. Interessante.
No limite, a
pessoa é aceita como um valor em seu direito pessoal de cidadão, a pessoa em si
é aceita como um valor.
Evidentemente
que isto é uma premissa fundamental da relação com outros seres humanos,
conquista das revoluções burguesas da Europa e dos Estados Unidos. Mas a
questão de uma consideração positiva
incondicional pela pessoa do cliente não pode parar simplesmente por aí.
Não se trata
de uma consideração positiva incondicional pelo outro como pessoa abstrata,
teórica, que eu projeto egótica e narcísicamente sobre o meu parceiro de
relação. Não se trata, também, o que dá mais ou menos no mesmo, de uma
consideração positiva pelo outro apreendido e concebido meramente como pessoa
empírica e empíricamente comunicante e comunicada.
Trata-se do
reconhecimento e confirmação pontual do outro enquanto outro fenomenal, consciente e em devir, diferente e autônomo, dialogicamente em relação comigo.
Trata-se de uma consideração positiva incondicional pelos níveis mais informes
e frescos de sua consciência com relação a si próprio e ao mundo que lhe diz
respeito. Trata-se do reconhecimento do seu direito à diferença e à autonomia,
em sua relação pontual comigo, pessoa e instituição, locus de poder. Trata-se
em particular do interesse vivencial, não altruísta, de pôr-me em relação
dialógica com a sua diferença e autonomia: Trata-se do meu interesse na
parceria com ele num processo de constituição de minha atualidade, de meu
presente.
Presente que, como diz Buber, só existe na presença. Presença
que é a presença do, e relação com o, tu,
alteritário, em sua diferença própria e autonomia.[4]
De modo que
não se trata, por exemplo de um conceito moral ou altruísta de aceitação do
outro. Não se trata de simplesmente reconhecer -- premissa fundamental, mas
insuficiente -- o seu direito a ser aceito incondicionalmente como um valor por
ser pessoa. Não se trata da aceitação de sua pessoa empírica.
Trata-se, na consideração positiva incondicional pela
pessoa e pela experiência do cliente, de uma abertura para a relação com
ele em sua outridade própria, e de uma compreensão e consideração positiva,
ativa e vivencial, pelo seu ponto de vista fenomenal, como inevitável e
irrecusável raiz do mundo para ele.
Trata-se de um princípio de método fenomenológico existencial de prática da
psicologia e da psicoterapia, que carece de ser entendido de uma perspectiva
especificamente fenomenológica e existencial. Do contrário, com a perda da
densidade fenomenológica e existencial de sua concepção, a consideração positiva
é facilmente confundida com uma incondicional aceitação moral do outro, fácil e rapidamente refutada como impossível.
Enquanto que a consideração positiva incondicional constitui-se efetivamente
como interesse existencial para quem efetivamente a pratica.
Não custa
recordar Fritz Perls: “Mil flores de
plástico não farão o deserto florescer.”
O objeto deve
consumir-se para se tornar presença, retornar ao elemento de onde veio
para ser visto e vivido pelo homem como presente.
(M. Buber)
Quando se
concebe a idéia de empatia, não se observa,
normalmente, a dimensão da dinâmica de interação e de re-criação de diferenças
entre os parceiros, inerente ao processo da relação empática. Tem-se sempre em
mente o esforço, a disposição, o gesto do terapeuta, no sentido de uma
compreensão do como o cliente se percebe ou se sente no momento, como percebe o
mundo que lhe diz respeito e as suas relações, da forma a mais acurada
possível.
Naturalmente
que a definição deste esforço, desta disposição e gesto do terapeuta, são
componentes fundamentais de um certo modo do que se pode entender como empatia. Limitado, entretanto, a esta
perspectiva, este parece ser um modo grosseiro, e, pior que isto, um modo de
compreensão passível de gerar mal-entendidos que comprometem basicamente o que
se quer ter por empatia.
O mais grave
desses mal-entendidos é que a limitação a este modo de formulação reflete uma
certa concepção objetivista do
‘outro’, e (pasmem) uma certa concepção
objetivista de sua subjetividade! O que é certamente um absurdo. Concebe-se
freqüentemente a empatia como um esforço cognitivo, inorgânica e
artificialmente articulado à afetividade do terapeuta. Este modo de concepção
perde o que existe de fundamental no processo da relação empática. Na medida em
que o cliente é constituído desta forma como objeto de relação e de
conhecimento. E, seguindo Buber, o que é fundamental é, exatamente, que o parceiro não seja objeto, mas vivido.
Que o parceiro não seja, empiristicamente, entendido como um objeto autônomo,
dissociado de mim, terapeuta.
Esta pessoa do
cliente, tal como me aparece na minha relação com ele, só existe como tal em
função desta relação em que sou pólo. O que me implica inextrincavelmente, nos
níveis existencialmente mais básicos de mim mesmo, vivenciais, pré reflexivos.
O fundamental
é que o cliente não seja entendido como objeto
de conhecimento abstrato, mas afirme-se e confirme-se na relação comigo
como um parceiro efetiva e fenomenalmente vivido, dialogicamente, no confronto
com, e privilegiamento de, sua alteridade
viva, ativa e autônoma. Que ele
não objetificado, assepticamente, teorizado ou simplesmente conhecido
reflexivamente, por este seu parceiro num evento da vida, eventualmente
terapeuta.
Uma relação empática objetivista perde o
valor de sua dimensão existencial, do seu poder de atuação e de trans-form-ação
produtiva, tanto da existência do cliente como da existência do terapeuta. Ou
seja, perde a referência deste poder como seu sentido e condição de sua
possibilidade. Mais importante, transforma-se em sofisticado dispositivo de
manipulação e de produção da subjetividade do cliente. Para compreendermos e
efetivarmos a relação empática, é interessante a preservação deste seu caráter
duplo, de transformação existencial tanto do cliente como do terapeuta.[5]
Mais que isto,
é fundamental enfatizar que é exatamente a interação pontual, sincrônica e
sintônica, desses processos simultâneos e diferenciados de transformação
existencial que se configura como relação empática. Em momento algum, na
efetiva relação empática, o cliente (e muito menos o terapeuta) é objeto -- de relação, de conhecimento ou
de uso -- na medida em que o processo desta relação desdobra-se numa esfera
vivencial, vivida, de relação entre[6]
parceiros fenomenativos que, em momento algum, são circunscritos objetivamente.
Os parceiros de relação estão fenomenal e existencialmente implicados em seu
processo relacional. De modo que nenhum dos dois é isento do outro ou de si
mesmo, de modo a poder constituir o parceiro ou constituir-se a si próprio como
objeto.
O outro, portanto, na duração da relação
empática, é sempre parceiro vivo e em devir, na dinâmica fenomenológico
existencial do encontro, co-participante, nunca objeto; nem mesmo de
conhecimento.
Com o outro,
na empatia, a relação é ontológica, relação de totalidade de ser,
existencialmente produtiva, nunca uma busca objetivista de conhecimento, muito
menos um esforço de uso do parceiro,
em nenhuma de suas modalidades -- homem
nenhum é meio para outro (Kant). De modo que a empatia é, fundamentalmente,
um processo existencial de dupla constituição. A empatia cria e recria o si mesmo do terapeuta, ao mesmo tempo em
que torna possível a criação e recriação do cliente.
“O outro é uma modificação do meu eu”. (E. Husserl).
Reside aí
muito do que se pode atribuir de valor terapêutico
à relação empática.
Um equívoco
comum quando se concebe vulgarmente a idéia de empatia é o de julgar que esta consiste, atomísticamente, numa
suposta apreensão do estado do outro. Quase como se o outro fosse um continente de cujo conteúdo eu quisesse e pudesse cognitivamente apropriar-me. É,
nesta visão distorcida da empatia, quase como se o outro fosse um recipiente de
conteúdos psico afetivos, dos quais eu me aproprio compreensiva (tolerante) e
bondosamente, de um modo às vezes quase que telepático.
O outro em questão é, assim, um objeto
(sem dúvida nobre objeto, mas ainda objeto) de conhecimento, ou, no máximo, de
relacionamento. Por mais que a este esforço cognoscente tente-se,
mecanicamente, adicionar uma dimensão afetiva. O terapeuta é, neste caso, por
mais que o negue, “neutro”, por mais
que represente ou simule um envolvimento com o cliente.
Mecanicamente,
o que o terapeuta parece às vezes tentar é a reprodução cognitiva em si próprio
do que ele imagina apreender do cliente como objeto de atenção.
O que de fato
ocorre, na apreensão que o terapeuta faz do cliente, é um esboroamento das
diferenças existentes e engendradas como processo de diferenciação entre o terapeuta e o cliente, uma redução do
conflito, potencialmente produtivo e criativo, entre alteridades. Terreno
fértil este para potentes manipulações por parte de terapeutas eventualmente
incompetentes e dominadores.
Só existe Empatia na relação fenomenal
efetivamente vivida entre diferentes. Mais que isto, entre diferentes que privilegiam,
que podem e querem fascinar-se pelas respectivas diferenças, e pelos fluxos dos
processos destas. Só existe empatia no fluxo de processos de diferenciação, que
se engendram reciprocamente entre os parceiros
Compreender o outro em
sua particularidade é, fundamental e inevitavelmente, relacionar-se
efetivamente com o diferente, com a diferença, com configurações de diferenças
em fluxo, devir. E isto exige, e só é possível, na medida em que, em me abrindo
para a diferença do outro, efetivamente sou afetado por sua outridade, e me
crio como diferente, dele e de mim mesmo, como diferença, como fluxos de
diferença.
De modo que a
empatia não tem a ver com um tornar-se similar, igual, ao cliente, ou
vice-versa. Não tem a ver com uma redução das diferenças entre eu e ele. Muito
pelo contrário, a empatia nutre-se fundamentalmente da diferença, configura-se
basicamente como processo de diferenciação, no qual as diferenças se encontram,
confrontam-se, e são recriadas, como diferenci/ação.
Paradoxalmente
talvez, para um certo tipo de perspectiva, não
é isto que me distancia do parceiro de relação. Muito pelo contrário: o
processo da diferenciação ao longo da relação é condição de possibilidade de
uma relação de vínculos saudáveis e fortes. Negar ou reduzir as diferenças, é
inviabilizar a possibilidade da relação, é negar ou reduzir o outro e a mim
mesmo, é reduzir a possibilidade do nós:
de um nós vitalizado e rico, de
vínculos fortes, não de um nós confluente
e amorfo. A negação da diferença do outro é a primeira e a mais básica
impossibilidade da empatia, e da relação. A relação empática desdobra-se
exatamente a partir do interesse espontâneo e ativo pela diferença do outro,
que permite uma abertura para eles enquanto tal.
Para o bom
terapeuta, o cliente é, sempre e sempre, inevitavelmente outro, e autônomo em
sua outridade. Mais que isto, o bom terapeuta privilegia o reconhecimento e a
afirmação deste dado da realidade, e faz dele a fonte da criatividade, e a
força motriz, do processo da psicoterapia.
Evidentemente
que o terapeuta não pode relacionar-se com todos os possíveis desta outridade
do cliente, nem mesmo acompanhar todos os fluxos de suas variações. Da mesma forma
que nem mesmo o próprio cliente pode dar-se conta em si dos matizes e fluxos, a
cada momento, da outridade de si próprio. Mesmo que a cada momento esta se
apresente sob formas de configurações significativas totalizadas. Mas, a cada
momento, existe a possibilidade de abertura pontual do terapeuta na relação
com a particularidade desta outridade do cliente. Nos momentos em que
efetiva-se esta possibilidade, terapeuta e cliente já não são simples objetos
em relacionamento( Isso e Isso, como
diria Buber), já não são um para o outro objetos
de relação, de conhecimento, ou de uso, mas são co-partícipes,
co-laboradores em um processo relacional, sutilmente imprevisível, que mobiliza
em sua duração a constituição de suas respectivas consciências vivenciais. “Parceiros em um evento da vida”(Buber).
Relação imprevisível, em particular, porque se configura como momento
eminentemente plástico existencialmente, plasticidade à qual nenhum dos dois
parceiros é imune, e à qual nenhum dos dois pode controlar.
A relação
empática é, assim, fundamentalmente marcada pelo que Buber chamava de Dialogicidade. [7]
“O homem se torna EU na relação com o TU.” [8]
Daí ser o
momento empático um momento eminentemente plástico de criação e recriação.
Criação e recriação que afetam e implicam tanto ao cliente como ao terapeuta.
Podemos dizer que só existe empatia quando existe afetamento e implicação
recíprocos. Contaminação (pela outridade). Impregnação, no sentido gravídico
(existencial) do termo.
Arbitrariamente
-- porque em realidade isto não tem esta oordem --, podemos tomar este ponto
como ponto de partida da relação empática. É esta impregnação, este emprenhamento, pela outridade do outro,
os efeitos de uma certa vulnerabilização e afetação por esta outridade, que
permite ao terapeuta ser empático.
Usemos os
termos de Buber.
A efetivação
da abertura do terapeuta* em
relação com a outridade do cliente só é possível na medida em que, para si
próprio, o terapeuta pode modificar-se, e ser também um outro do que era. A abertura efetiva do terapeuta para o cliente
enquanto TU só é possível na medida
em que o terapeuta se recria o enquanto EU.
O que marca e define o TU é
exatamente a sua diferença, a presença de sua outridade, de sua alteridade:
relacionar-se com o TU implica na
atualização de potencialidades, de possibilidades de ser, para estar-se à
altura (digamos) da relação com a sua novidade -- “O outro é uma modificação do meu eu” (Husserl): e isto nada mais é
do que recriação do próprio EU.
Para o
cliente, naturalmente, o terapeuta é também, sempre e sempre, inevitavelmente outro.
Evidentemente
que ele, cliente, também não pode dar-se conta de todos os possíveis desta
outridade, nem acompanhar os fluxos de sua variação. Mas o cliente também pode
abrir-se eventualmente para a atualidade da outridade do terapeuta, e com ele
relacionar-se enquanto TU. Pode
vulnerabilizar-se e impregnar-se pela relação com a alteridade do terapeuta, e,
ainda que autonomamente, recriar-se como EU,
na relação com ele.
Ora, nos
fluxos e contra fluxos da relação terapêutica, existe uma dimensão particular
da objetivação do TU do terapeuta à
qual o cliente é particularmente sensível e vulnerável: o terapeuta é
pessoalmente afetado à medida que se abre para a relação com o cliente enquanto
TU. Este afetamento específico, como
vimos, implica de um modo particular, a recriação do EU do terapeuta. Recriação que se dá pontual e especifica e
necessariamente na relação com o cliente particular. É a participação deste EU assim recriado na relação com o
cliente, a sua objetivação, que se configura como o próprio núcleo do que
chamamos de resposta e ação empáticas do terapeuta. O cliente é particularmente
sensível a esta forma de objetivação e do ser e estar do terapeuta. Desta forma
particular de ser do terapeuta que é para ele efetivamente terapeuta como TU, como um outro que dialogicamente com
ele se relaciona.
Esta dita forma de objetivação, de ser e estar do
terapeuta cria-se, engendra-se, na relação específica, particular, pontual e
intransferível com ele próprio (cliente). Num certo sentido, constitui-se como uma
ressonância do próprio ser do cliente, ainda que seja, sempre e sempre,
inevitavelmente outro. Na verdade, é uma incontrastável confirmação[9]
de seu (do cliente) próprio eu, da efetividade e existencial realidade
deste.
Na relação
viva com o desafio deste TU que é
outro e que mesmo assim confirma-o
efetivamente, o cliente pode recriar-se de modo efetivo, superando, sempre que
possível e interessante, o seu próprio status
quo.
A empatia tem
a ver, assim, com a oferta, com a objetivação por parte do terapeuta de uma
dimensão fenomenológico existencial sua que se elabora especificamente na
relação com o cliente. Dimensão que exige expressar-se em seu lugar e tempo
próprios, que é a relação entre o cliente e o terapeuta particulares, na
atualidade de um momento e lugar particulares.
Esta dimensão
configura-se inequivocamente como pertinente à particularidade do terapeuta, a
sua outridade em relação ao e com o cliente. Engendra-se na relação particular
com este, mas está fora de seu controle,
uma vez que se elabora como EU do
terapeuta. Nela não existe simetria com relação ao cliente, ou com relação a um
estado seu não existe aproximação redutora de diferenças, mas, basicamente, a
reafirmação e a recriação delas. E isto é bom, benigno, saudável e produtivo,
criativo, potencializador de vínculos saudáveis.
Ao apreender a
particularidade do outro, o apreendido já
não guarda semelhança com o outro
Esta
elaboração é absolutamente idiossicrática e envolve, inclusive, a imaginação, e
em particular a responsabilidade do sujeito que apreende. Como observa Buber,
os dados empíricos da experiência não nos oferecem o outro em sua
particularidade e completude. É necessário uma vigorosa penetração imaginária
no outro, uma fantasia do real, como
chamava[10], para
que possamos configurá-lo em nossa consciência. Uma fantasia que, como tal, é
imaginária, mas que não se pauta pelos ilimites
da imaginação, mas amarra-se à peculiaridade efetiva e imediata da atualidade
do outro em inter/ação.
De modo que a
apreensão que tenho do outro não se configura como similaridade do outro, representação
do outro, em minha consciência. Mas é, em todos os momentos, elaboração minha.
Constituída, oferecida, objetivada, como participação minha na relação: é a
particip/ação de uma produção minha -- engendrada na relação com o outro -- que
ao outro é oferecida.
Evidentemente
que todo este processo exige do cliente a preservação e a atualização de uma
abertura para a relação com o terapeuta enquanto TU. Num certo sentido, exige-se do cliente a mesma capacidade e
disposição de ser empático, para que possa
ser a ele acessível a empatia do terapeuta.
Naturalmente
que esta capacidade do cliente correlaciona-se necessariamente, no fluxo da
relação empática, com a capacidade do terapeuta de ser, para o cliente,
simplesmente interessante, no sentido
relacional e existencial do termo. Uma capacidade do terapeuta que tem um de
seus pontos culminantes em sua condição de poder vulnerabilizar-se à outridade
peculiar, enquanto tal, do cliente, de ser por ela afetado e recriado, e de
poder oferecer, objetivar, na relação com este, a efetividade deste seu eu
recriado.
A empatia, portanto, ao contrário do que
se pode eventualmente pensar, vive da diferença, da articulação e interação de
diferenças, da relação de alteridades, que se afirmam e se recriam como
alteridades nos processos de sua interação.
As premissas
da psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, em especial tal como
elas se constituem na Abordagem Centrada na Pessoa, requerem radicalidade em
sua proposição e prática efetiva. Radicalidade
no sentido original da palavra, de tomá-las efetivamente pela raiz.
A Consideração
positiva incondicional pelo outro em sua outridade e por sua experiência viva,
vivido, pontual -- em particular por sua experiência de si --, ou uma
compreensão efetivamente empática do outro, enquanto diferente que nos encontra
dialogicamente, que nos confronta, afronta e se revela -- ou não --, uma
abertura para sua diferença pontual, não podem ser fingidos. É interessante
atentar para os sentidos da palavra “fingir”[11]:
“inventar, fabular, supor, fantasiar, aparentar, simular, dizer sem
sinceridade, ser ou mostrar-se dissimulado, hipócrita; fazer crer que é:
simular ser; dar-se ares; querer passar; dar-se ares de; querer passar por...”
A genuinidade é uma das condições básicas
da concepção e da prática da psicoterapia, e das outras modalidades, da Abordagem
Centrada na Pessoa. A genuinidade pessoal do profissional em uma relação que
privilegia sempre e fundamentalmente o seu caráter dialógico e inter-humano,
por sobre o valor de suas determinações institucionais e técnicas.
Na verdade,
cumpre considerar que -- além de efetivar-se como uma opção, no sentido de
impor-se por sobre o valor das determinações institucionais e técnicas da
relação -- a genuinidade não é, apenas, uma questão de querer, mas efetivamente, também, uma questão de poder. Além de mera opção, ou de simples
querer, a genuinidade requer a
atualiz/ação de uma personalidade do terapeuta na qual se assimilou
satisfatoriamente, não apenas teoria e concepções técnicas, mas, sobretudo,
valores e atitudes destes valores decorrentes.
Valores que
assumem radicalmente a perspectiva da inocência da vida e do vivido, a
inocência da existência, e a benignidade de sua afirmação plena, como processo
natural de superação, fonte existencial de força e de criação. Valores que
afirmam efetivamente os potenciais de auto regulação e de auto atualização de
si próprio e do outro, a partir da própria vitalidade organísmica na sua
relação com o mundo. Valores, e as atitudes deles decorrentes, que respeitam e
privilegiam a afirmação da diferença de si próprio e do(s) outro(s), no
contínuo processo de sua recriação.
De forma que a
genuinidade, para além de uma mera enunciação, para além de um mero e retórico
querer, para além mesmo da assimilação teórica de princípios filosóficos,
requer a atualiz/ação de atitudes,
decorrentes de valores que afirmam e celebram radicalmente a existência
contingente do Eu e a contingente existência do Outro, e suas respectivas
forças. Valores que afirmam, priorizam, respeitam e celebram, a existência e
duração tensa de nossa relação dialógica.
A genuinidade,
pois, vai sobrepor-se, ainda que respeite-as e afirme-as, às demandas
institucionais da relação terapeuta cliente, ou outra qualquer relação, e a
suas demandas técnicas, para privilegiar e valorizar a dialogicidade pontual e
imediata, o vivido dialógico, da relação.
Desnecessário
dizer que as determinações institucionais e técnicas da relação, tão vigentes,
e os próprios valores vigentes na cultura da sociedade, da qual fazem parte o
terapeuta e o cliente, e que freqüentemente opõem-se a um respeito pela
diferença do outro, pela afirmação da sua e de nossa própria diferença,
oferecem uma resistência a esta premissa da genuinidade na relação com o
cliente das psicologias e psicoterapias fenomenológico existenciais. Colocam
desafios à formação e desenvolvimento de profissionais que adotam a perspectiva
destas abordagens.
INSTITUIÇÃO E GENUINIDADE
A instituição psicoterapia é uma instituição
extremamente peculiar. Sedutora em seus supostos poderes, e efetivamente
depositária de formas particulares de poder social. Surge historicamente como
uma diferenciação da prática e poder médicos, naquilo que eles tinham de mais
desconcertante, a prerrogativa do trato com os pacientes ditos psiquiátricos.
Ainda que
muito tenha se diferenciado, a partir de suas origens, a psicoterapia guarda,
todavia, estereótipos de poderes sociais que decorrem de suas origens.
Por outro
lado, atualiza poderes efetivos que derivam do fato de que trabalha a condição
de pessoas em momentos de crise. Crises que, se por um lado, configuram-se como
crises existenciais pessoais, configuram-se, por outro lado, como crises do
próprio sistema social, mais ou menos micro, do qual o indivíduo e o próprio
terapeuta, pessoal e institucionalmente, fazem parte. Crises existenciais
pessoais cuja natureza, dinâmica e resoluções atingem o destino dos processos
próprios do sistema social do cliente e das pessoas outras que dele participam.
Em especial porque, freqüentemente são, elas próprias, particularizações, em
suas repercussões existenciais pessoais, de crises históricas e socioculturais
do próprio sistema social, mais ou menos micro, de que o cliente faz parte.
De modo que o
lugar social da psicoterapia e do psicoterapeuta, sua dimensão institucional,
configuram-se como um lugar peculiar de poder. Um lugar virtual que pode ser
ocupado de um modo mais ou menos competente. Um lugar que faz parte, com suas
características e poderes, do próprio arsenal da psicoterapia e do
psicoterapeuta, no sentido da produção de seus efeitos especificamente
psicológicos e psicossociais, na relação com o cliente e com o seu micro
sistema social.
Espaço da
vivência intensa, desdobramento e resolução de conflitos pessoais, psico sócio
culturais, em suas tensões específicas, a psicoterapia necessita, assim, de
seus poderes, objetivos ou imaginários, no sentido de garantir-se e
configurar-se efetivamente como tal espaço. Em particular nos seus primórdios,
e mesmo ainda hoje, quando se tratava ou trata-se, eventualmente, de lidar
basicamente com pessoas profundamente perturbadas, e com as tensões sociais
geradoras ou decorrentes destes processos.
Esta
necessidade distorce-se, evidentemente, quando a prática psicológica ou
psiquiátrica caracterizava-se basicamente por um cunho eminentemente
disciplinar, a serviço da padronização e da desconsideração, ou extinção da
sigularidade e da diferença da existência e de suas condições.
De modo que
este lugar social da psicoterapia e do psicoterapeuta exercem de uma maneira
geral, e em particular sobre os próprios psicoterapeutas, um fascínio peculiar
em função de seus poderes, reais e/ou imaginários.
Há,
freqüentemente, uma tendência dos psicoterapeutas para identificarem-se com a
instituição, com o lugar social, que ocupam. É confortável e útil estar-se
protegido pelos poderes destes. Não raro, esta identificação passa a ser
distorsivamente o fundamento da prática do profissional. Para ele, neste caso,
bastaria esconder-se sob o manto protetor da instituição, cumprir as suas
expectativas de papéis, realizar a sua ritualística, aprender o seu
conhecimento e doutrina específicos, exercer e manipular os seus poderes...
Isto é
evidentemente uma distorção. Mas origina-se na peculiaridade própria dos
poderes sociais da psicologia e da psicoterapia, e de suas práticas.
De modo
pertinente, mas freqüentemente de um modo também distorsivo, a psicanálise
desenvolveu modos e ritualística específica para lidar com estes poderes e suas
práticas. É interessante recordar os primórdios do trabalho de Freud, quando o
hipnotismo tinha um lugar fundamental em suas práticas e teorias, tendo sido
abandonado
O
desenvolvimento da psicologia e psicoterapia fenomenológico existenciais, em
particular da Abordagem Centrada na Pessoa, marcou uma sensível mudança nestas
perspectivas.
A psicologia e
psicoterapia fenomenológico existenciais, contrapondo-se à ênfase técnica e à
ênfase no papel institucional do psicoterapeuta, decorrente da psicanálise e de
outras escolas de psicologia e psicoterapia, descobriu e inventou o valor de
uma nova dimensão na atitude e auto concepção do psicoterapeuta ao longo do
processo da psicoterapia. Ou seja: um relevamento da importância, afirmação e
ênfase do papel institucional do psicoterapeuta no processo da relação com o
cliente. Um relevamento de sua auto concepção como um técnico que aplica
procedimentos técnicos no cliente ao longo de sua relação com ele. A
valorização, ao lado do reconhecimento e preservação de sua condição
institucional, da relação inter humana, dialógica, interpessoal, específica e
imediata com o cliente.
Na medida em
que estas abordagens passaram a valorizar, originalmente, a análise existencial
e a afirmação pontual do seu vivido por parte do cliente, no momento e ao longo
do processo da psicoterapia, o terapeuta careceu de valorizar mais e mais a sua
própria condição natural como pessoa, o seu vivido e a sua própria atualidade
existencial, na relação dialógica e inter humana com o cliente -- dentro dos
limites da instituição em que ambos se encontravam --, em detrimento da ênfase
em seu papel institucional e em sua condição técnica.
Evidentemente
que isto não significou uma tentativa de negar a condição institucional do
terapeuta, da terapia e do próprio cliente, mas, antes, a compreensão forte da
necessidade de superá-los, de não se ficar a elas limitado, e principalmente de
não utilizar a condição institucional como uma trincheira, como uma fachada, como uma armadura, na relação
com o cliente.
Descobriu-se a
condição institucional do psicoterapeuta e da psicoterapia como chão da relação psicoterapêutica, e não
como teto. Descobriu-se e
enfatizou-se -- para além da importância da aplicação de fatores técnicos ou
teóricos -- a importância e o valor existenciais e psicodinâmicos da relação
genuinamente inter humana entre o terapeuta e o cliente.
De modo que,
se interessa para o terapeuta que o cliente se coloque numa atitude fenomenológica, que se entregue
a sua experiência organísmica e à
concretude de sua existência, que ele se entregue ao seu vivido e ao natural
fluxo deste como expressivo de sua atualidade existencial, ao longo da sessão e
do processo da terapia, interessa ao psicoterapeuta, igualmente, relativizar a
rigidez, o peso e inflexibilidade de sua própria condição e papel
institucionais e técnicos, colocando-os em seus lugares e funções próprios.
Interessa-lhe conceber-se a si próprio, de um modo simples, como uma pessoa em
relação dialógica e inter humana com outra, com a expressividade de seu vivido
e de sua atualidade existencial. Interessa-lhe expressar o seu próprio vivido e
atualidade existencial na relação com o cliente, na medida em que isto lhe
pareça pertinente. A psicologia e psicoterapia fenomenológico existencial, em
particular na ACP, descobriu aí a sua riqueza.
Conceber-se
como um técnico que operacionaliza um certo conjunto de teorias e técnicas na
relação com o cliente, ou mera e rigidamente como um ser e estereótipo
institucional, é inteiramente incompatível com esta proposta.
No momento em
que a questão passou a ser a de uma valorização da perspectiva do vivido e de
sua afirmação, o próprio vivido, e sua afirmação pontual, tanto para o cliente
como para o terapeuta, passou a ser a referência e o critério fundamentais.
Como
conclusão, podemos dizer que um critério fundamental para o desempenho de um
terapeuta fenomenológico existencial organísmico, de um terapeuta centrado na
pessoa, é o privilegiamento da perspectiva de seu próprio vivido, de sua
própria experiência organísmica ao longo da relação com o cliente, como
referência de suas atitudes e comportamentos na relação com ele.
Ou seja, para
o psicoterapeuta -- ainda que reconheça, assuma-os e atualize-os -- não
interessa valorizar desmedidamente a sua condição e poderes institucionais na
relação com o cliente. Não interessa valorizar primordialmente a sua condição de
técnico ou de aplicador de uma teoria específica.
Interessa
valorizar a sua relação imediata e inter humana com o cliente, a partir de sua
própria perspectiva vivencial organísmica do processo desta relação. Ou seja,
interessa-lhe valorizar uma abertura para o seu próprio vivido, uma abertura
para a sua própria experiência organísmica pessoal, pontual e intransferível,
ao longo do processo da relação com o cliente. Interessa-lhe cultivar a sua
própria liberdade experiencial, que
lhe permita uma disponibilidade fluída de sua experiência organísmica,
interessa-lhe, sobretudo, valorizar privilegiadamente esta sua experiência
organísmica, o seu vivido, como referência e mobilizador de seus valores, de
suas verdades, de suas atitudes, comportamento e ações, na relação com o
cliente.
Em termos
psicodinâmicos, e numa linguagem da teoria do processo da terapia da Abordagem
Centrada na Pessoa, isto significa estar livre o terapeuta do estado de desacordo que se pode instalar
entre a experiência organísmica e a consciência, em função de interceptação e
de bloqueio e/ou distorção do fluxo desta experiência, em seu processo de
simbolização como consciência.
Desta forma, a
possibilidade da genuidade do terapeuta na sua relação com o cliente decorre da
constância de sua própria liberdade experiencial como pessoa. Ou seja, decorre
da possibilidade de que o fluxo de sua própria experiência organísmica possa
constituir livremente o processo de sua consciência. Da mesma forma que
constituir livremente o processo de sua comunicação, comportamentos e atitudes,
na relação.
Dadas estas
condições, relativizados -- ainda que devidamente considerados -- a condição e
os papéis institucionais, os seus conhecimentos técnicos, filosóficos, ou
teóricos; assumidos os valores e atitudes do respeito pelo outro, por sua
diferença, por sua singularidade, e pelo seu vivido, como fundamento e produção
do sentido de seu eu e do mundo que lhe diz respeito; valorizada a sua própria
experiência organísmica na relação com o cliente, o psicólogo ou o terapeuta
podem, efetivamente, considerar genuinamente o cliente de um modo positivamente
incondicional, podem potencializar-se para uma compreensão efetivamente
empática do cliente, ao longo do processo de sua relação dialógica e inter
humana com ele.
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Centro de Referência
da Abordagem Rogeriana
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[1]D’ARTIGUES, André - O QUE É A FENOMENOLOGIA, São Paulo, Moraes, 1992.
[2] BUBER, Martin - DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO, São Paulo, Perspectiva, 1984.
[3] BUBER, Martin - EU E TU, São Paulo, Moraes, 1983.
[4] BUBER, Martin - Op. Cit.
[5]. Wood e O’Hara apontam para este caráter da
relação empática. Cf. Rogers e outros
[6] Cf. BUBER, Martin EU E TU, São Paulo, Summus, 1983. E DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO,
São Paulo, Perspectiva, 1985.
[7].op. cit.
[8]. BUBER, Martin, op. cit. p. .32.
* Eventualmente
usamos aqui os termos terapeuta e cliente, mas o processo da relação pode desenvolver-se e
efetivamente desenvolve-se entre quaisquer parceiros humanos.
[9] cf. BUBER, Martin, DO DIÁLOGO E DO DIALÓGICO. São Paulo, Perspectiva, 1982.
[10] op. cit.
[11] BUARQUE DE HOLLANDA, Aurélio DICIONÁRIO AURÉLIO ELETRÔNICO, Rio,
Nova Fronteira, 1994.