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O
PARADIGMA ROGERIANO Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo. A
característica primordial do paradigma
rogeriano é a do primado, em seu âmbito metodológico, da compreensão. Ou seja, o primado do modo compreensivo de sermos. Compreensão ativa/ação compreensiva.
Uma vez que o modo de sermos da compreensão
é especificamente ativo – é vivência
de atualização de possibilidades; e
a ação, como tal, é especificamente
compreensiva – ou seja, é sentido, é
logos, fenômeno-logos, cum-preensão
ex-pressiva da potência do possível,
em seu ineditismo próprio. É
especificamente no âmbito deste modo sermos-- modo vivencial, fenomenológico
existencial, compreensivo -- que se
dá a ação, a atualização. Como vivência do possível,
de possibilidades, potencialidades;
e vivência do desdobramento, atualização,
dessas possibilidades; nos processos da ação como vivência, da vivência como ação; ação compreensiva,
compreensão ativa. No privilégio deste modo de sermos, o elemento central
da concepção e metodológica rogeriana. Como
característica mais essencial de nós próprios, somos vivência, pré-reflexiva,
pré-conceitual, fenomenológico existencial, de força, potência, possibilidade, potencialidade. Como tal, tal como entendemos a partir de
Aristóteles, o potencial, o possíve vividol, se desdobra vivencialmente em ato; vivencialmente se constitui em ação, no processo que, em fenomenologia existencial, se entende
como interpretação. Exatamente
por isso, por sua característica específica de vivência, compreensiva; e de vivência
(compreensiva igualmente) de desdobramento de possibilidades,
eminentemente inéditas, sempre, o nosso modo fenomenológico existencial de
sermos -- pré-reflexivo, pré-conceitual, vivencial, compreensivo -- se
distingue do nosso modo reflexivo, teorizante, de sermos; e do nosso modo
comportamental. Sendo
força, potência, possibilidade, assim, em nossos níveis fenomenológico
existenciais mais originários -- potência e possibilidade vivenciais, que
naturalmente tendem a se desdobrar, a se ex-pressar fenomenológico
existencialmente, em ação --, somos fundamentalmente animados por uma tendência atualizante. Muito
propriamente, Rogers observou que é fenomenológicamente que a tendência atualizante se dá.[1]
Isto porque é vivencialmente, fenomenológico existencialmente, que se
constitui, em sua possibilidade e dedobramento, a ação. Ou seja, é de modo vivencial,
consciência fenomenal, fenomenológico
existencial que a possibilidade, que a cada momento nos constitui, se
constitui, e se desdobra em ato, em
ação; se atualiza. O
fenomenológico, o vivencial -- no qual se dá assim a
vivência do possível, e a vivência do seu desdobramento, em ação -- se dá,
especificamente, ao modo de sermos da compreensão
(cum-preensão), na qual se
apreende como sentido, logos, a pressão de potência do possível, e do seu
desdobramento, que se ex-pressa; a ação,
a atualização fenomenológico
existencial. De
modo que a vivência do possível, e a
vivência de seu desdobramento em ação,
se dão especificamente neste modo compreensivo
de sermos, fenomenológico existencial
compreensivo. Vivenciativo. Modo de
sermos em que somos logos, sentido vivencial de desdobramento de possibilidade. Na
medida em particular que em nosso modo reflexivo
de sermos -- o nosso modo teorizante
de sermos, conceitual e conceitualizante -- se dá uma re-petição, como re-flexão abstrata
(corpo, sentidos vivência abstraídos), teorização, conceituação; e não a
vivência excitante de um possível
inédito, e da possibilidade do processo de seu desdobramento em ação. O
próprio do modo reflexivo de sermos é – não a compreensão. Que é im-plicação
–, mas a ex-plicação. A explicação é o modo característico de
nosso modo reflexivo de sermos. A explicação como modo de sermos
distanciante da fonte que somos (o modo
fenomenológico existencial compreensivo de sermos) do ineditismo do possível. Distanciamento propriamente para
re-incidir, re-fletir, sobre os produtos realizados de seu passado
desdobramento e atualização. Nenhum
psicólogo ou psicoterapeuta fenomenológico existencial ex-plica, no âmbito de seu logos metódico. Seu interesse e
privilégio, tanto para si como para o cliente, é o modo de sermos da implicação; como este modo
fenomenológico existencial, compreensivo, de sermos, em que somos a pré-cum-preensão e cum-preensão da potência do possível,
em seu ineditismo, e de seu desdobramento ativo.
Somos inevitavelmente implicados quando
desses momentos de ser. Na vivência desses momentos, ontológicos, fenomenológicos,
não somos nunca uma exterioridade, não somos ex-plicação. Mas somos, devimos, visceralmente implicados, como compreensão ativa, na
atividade compreensiva, de desdobramento de possibilidades. No
nosso modo comportamental de
sermos, é igualmente o possível, e a atualização de possibilidades, a ação,
que estão especificamente ausentes. Na medida em que o comportamental se constitui especificamente como o modo de nossa
atividade padronizada, re-petitiva, que ignora a vivência da possibilidade, e
de seu desdobramento. Em
assim sendo, é, própria e especificamente, no nosso modo de sermos
fenomenológico existencial, vivencial, compreensivo, que vivenciamos o
possível e o seu desdobramento em ação, atualização; que vivenciamos a
tendência atualizante, que nos configura, e em nós se configura. Em que somos
atualizantes. Mais especificamente,
é, especificamente, nesse modo de sermos que mudamos; que nos superamos, que
criamos; sendo este, especificamente, como tal, produtivo, o nosso modo estético e poiético de sermos. O
modo fenomenológico existencial de sermos, pré-reflexivo, pré-teórico,
pré-conceitual; não comportamental; é desta forma, duplamente, da ordem da compreensão, e da ordem da ação. Ou seja: ação compreensiva, e/ou compreensão
ativa. Esta ação, é bom que se
observe, pode ser ação meramente
compreensiva – quando se dá meramente como vivência compreensiva; ou compreensiva e motora – quando, além
da incontornável compreensão,
envolve também a motricidade. A
premissa metodológica fundamental do paradigma rogeriano em psicologia e
psicoterapia é assim, pois, a do privilegiamento, em seu âmbito metodológico,
tanto para o cliente, como para o terapeuta ou psicólogo, e para o grupo,
deste modo fenomenológico existencial de sermos; modo vivencial,
compreensivo, no qual somos ativos, compreensivamente ativos, ou ativamente
compreensivos; ou seja, no qual vivenciamos e somos compreensão ativa, ação
compreensiva. De
modo que, pensando bem, o paradigma rogeriano não é, em seu âmbito
metodológico, teorizante; não é reflexivo, não é científico, não é moralista,
nem prático; pragmático, sobretudo, ele não é. Privilegia mesmo um modo de
sermos que não é da ordem da realidade,
mas da vivência da possibilidade, e
da dinâmica de seu desdeobramento, O
âmbito fenomenológico existencial do modo de sermos da ação compreensiva, ou da compreensão
ativa, não é, igualmente, da ordem de sermos da dicotomia sujeito-objeto,
ou da ordem das relações de causalidade, de utilidade. De
modo que podemos nos abrir para este modo de sermos, modo dialógico de sermos,
inclusive, e em particular, na sua característica de dialógica inter humana -- em que somos, na inter-ação, fontes, inter humanamente dialógicas, de possíveis, e
dos desdobramentos, como ação,
desses possíveis. Mas
não podemos manipular objetivamente os elementos da ação, na medida em que
agimos incorporando e desdobrando, na criação, a força plástica do possível,
em seu processo de atualização. A
consideração positiva pela experiência
do outro, e a liberdade
experiencial da genuinidade do
terapeuta/psicólogo/facilitador só são possíveis no âmbito metodológico
do privilegiamento da ação
compreensiva, da compreensão ativa, que assenta na dialógica expressiva,
e interativa, do possível, na sua atualização, como ação compreensiva, compreensão ativa. Assim,
não compreendemos ao outro na ação compreensiva, na medida em que,
no âmbito da compreensão, nem ele é
objeto, nem nós somos sujeitos. Somos compreensão com ele, no âmbito da ação
compreensiva, da compreensão ativa.
Que como inter-ação, ação dialógica, aquiesce, na
expressão, cum a prensão, do possível, com a sua inerente
ato-alização. |