CAÍ NO MUNDO  
Cor relatos de Viagens

 

Afonso H Lisboa da Fonseca

 

 

 

 

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Para escrever um simples verso, não basta lembrar-se do passado. É preciso saber esquecer, e ter paciência para esperar até que essas lembranças retornem novamente.

Porque um verso não é feito de memórias. Ele transforma-se em nosso sangue, e confunde-se com a própria existência. Só então chega o momento mágico quando nasce a primeira palavra, e ela traz consigo o verdadeiro poema.

R.M. Rilke


Dedicado aos viajantes.  Com quem compartilho a sedução pelo distante, e por seus povos, seres e lugares. Os viajantes que eu conheci pelo mundo que me tem sido dado a conhecer e viver, e os que eu não conheci -- mas que sei tão bem que existem, existiram e existirão sempre.

 

 

 

Que não caiam nem na descida
 nem na subida do caminho,
Que não encontrem obstáculos nem por trás nem adiante. Nem o que os golpeie. Concede-lhes bons caminhos, belos caminhos planos.
 

Popol-Vuh,
livro mítico da criação, dos Mayas. (Citado numa parede do Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México)

 

 

"May the road rise to meet you
May the wind always be at your back
may the sun shine warm upon your fields
and until we meet again
May god hold you in the palm of his hand."
 

(Que possa a estrada estender-se para encontrar-te
 Que o vento esteja sempre às tuas costas
 Que o sol brilhe cálido sobre os teus campos
 E até que nos encontremos novamente,
Que te sustente Deus na palma de sua mão
).

Velha Benção Irlandesa. (Em uma pousada no Cairo, Egito.)


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INDICE

 

VOLTA

TAL QUAL E TAL CALCUTÁ

TEMPO DA ÍNDIA, ÍNDIA DO TEMPO

GANGES

A TARDE DO TITICACA DOS ANDES

ISLA DEL SOL

CASA DOS ESPÍRITOS DE BANGKOK

NA FOZ DO TEJO

CAVERNA DE ELIAS

CHIANG MAI

TERRAÇO

POSTA RESTANTE

 


 

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VOLTA

 

Ah, (...) O mistério de cada ida e de cada chegada
(...) a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte...

F. Pessoa

 

Como volta a vontade da viagem!?

Volta pela re volta da vontade de voltar...

Não a um lugar específico...

Sem dúvida que a vários eu gostaria de retornar, e permanecer por mais um tempo... Mas não é exatamente dessa vontade de voltar de que eu estou falando. É, antes, da vontade da volta à própria viagem...  a vontade da volta à viagem verdadeira, a vontade da viagem e do viajante... o ócio particular da viagem, a estrada, a paisagem inédita, os ares ou os mares. A chegada a um novo lugar, completamente desconhecido. As novidades e riquezas brilhantes de outros povos, humanas. As pousadas – cada uma nova e diferente, mas pousada, sempre --, a deliciosa singeleza do café da manhã, a companhia saudável e camarada da familiaridade dos viajantes. O amanhecer. E a condenação, sempre e docemente resignada, à partida e ao adeus, na certeza, íntima e silenciosa, de que, onde quer no mundo que esteja um daqueles companheiros, aí estará também aquele espírito saudável e a vontade da viagem...

Depois de retornar brevemente à Tailândia, voltando da Índia (Bancoc preparava-se para as festividades do Aniversário do Rei. Havia no ar e nos rostos aquela ingênua e singela alegria de véspera de festa, que é tão própria aos Tailandeses), depois de retornar brevemente à Tailândia, eu me preparava para embarcar com destino a Hong Kong.

Com o dinheiro encurtando, e com o inverno grassando no Norte da Ásia, eu sabia que não seria daquela vez que eu realizaria o sonho de adentrar a China e o Japão. No máximo, eu roçaria o Sul da China, e não me arriscaria, sem agasalho adequado, a aterrisar no rigoroso tempo invernoso da China e do Japão. Do Aeroporto de Tóquio, eu embicaria para o Brasil, dando aquele último e fantástico salto, fechando o anel, daquela fantástica e literal volta ao mundo.

Antes, entretanto, havia pela frente Hong Kong, o Sul da China e Taiwan. Eu estava tranqüilo com relação à possibilidade de tudo aquilo. Ainda em Khajurao, na Índia, refletindo sobre a questão daquele trecho da viagem, o I Ching me dissera:

... não ir além dos portões não envolve culpa...

E eu entendera tranqüilamente, e me tranqüilizara, tranqüilizara a minha frustração.

 

Misturada com uma sentida despedida da Tailândia e do doce e suave Povo Thai, que tanto me cativara, começava a envolver-me a sensação de que, depois de oito meses, milhares de quilômetros de viagem, e cerca de cinqüenta cidades, de vinte países da América do Sul, Europa, Oriente Médio e Ásia, eu começava a voltar para o Brasil. Antes eu não podia deixar-me envolver por esta vivência... Era a preocupação com tomar o café da manhã em tempo, terminar de arrumar a mochila, procurar e tomar um motor riquixó na Khao San Road, cuidar para que ele não se acidentasse pelas apinhadas ruas de Bancoc, e que de fato me levasse ao aeroporto, pagar, fazer o check in... E aí poder relaxar e zanzar um pouco pelo aeroporto, já com tudo mais ou menos resolvido...

Mansa e tranqüilamente, eu gostava. Voltar fazia tanto sentido, e era tão sentido. Sentir-me de novo no Rio, São Paulo, Fortaleza, Recife, em Maceió... Depois de tudo aquilo, e da pessoa nova que eu era e em que me criaria depois de tudo aquilo...

 

Mas a viagem... a própria viagem..., que ali começava a encerrar-se, ...era, por outro lado, minha demais, e demais presente, para não me ser fundamental e carinhosamente querida. Havia ainda um imenso caminho pela frente. Na verdade um enorme desafio. O desafio, simplesmente, de garantir a minha volta para o Brasil, via Hong Kong, Sul da China, Tóquio e EUA, envolvendo toda a travessia aérea do Pacífico. Desafio, em particular, diante dos problemas de reservas de vôo e de passagens que eu estava enfrentando, e que ainda haveria de enfrentar muito mais, com a minha econômica Passagem de Volta ao Mundo.

Eu me tranqüilizara com relação a estes problemas. Em primeiro lugar, porque eu não sou de me afobar muito. Não ajuda e atrapalha. Em segundo lugar, porque, tentando resolvê-los anteriormente, reflexivo e algo preocupado com eles, em Nova Delhi, saindo de um escritório da Singapore Airlines, onde uma simpática e indiana atendente me aconselhara a tentar resolver os problemas de reserva em Bancoc, eu levantei o rosto e dei de cara com uma placa de um anúncio de propaganda qualquer, em um poste, que dizia

They take you home safely (Eles te deixam em casa em segurança).

Mentalmente eu repliquei: Ok!  E me tranqüilizei.

Havia ainda um simples e incrível ‘advinho’ velho, de um templo de Bancoc, logo quando eu cheguei, que, lendo a minha mão, me garantiu, dentre outras coisas: Você fará uma viagem sem acidentes graves, pode ir tranqüilo.

Creio que não é apenas 'wishfull thinking' quando penso que ele se referia igualmente a minha vida. E eu lhe disse, Olhe lá, eu ainda vou para a Índia e a China... E ele emendou com segurança perfeita: Pode ir tranqüilo! Repetindo ciganas do interior do Nordeste do Brasil, lendo a minha mão, ele também me disse, dentre outras coisas, que eu espero que ele tenha razão, Ninguém, pode lhe matar...

Talvez tudo isto me tranqüilizasse com os problemas de vôo e de passagem, apesar de todas as distâncias que eu ainda tinha que percorrer e das dificuldades que eu tinha pela frente, várias das quais eu nem suspeitava.

Eu zanzava pelo Aeroporto de Bancoc... num estado de espírito elevado e especial. A sensação, apenas pressentida e plena, de que, depois de oito meses de viagem, eu iniciava a minha volta querida para o Brasil misturava-se toda com a nostalgia do início do fim da viagem, com a saudade, já, da viagem. Permeando e impregnando tudo, a minha sentida despedida da Tailândia e do Povo Thai. A saudade já da singeleza, beleza, ingenuidade, inteligência e força Thai.

Fortemente presentes em mim, ainda, as ressonâncias intensas e confusas de minha passagem de trinta e cinco dias pela Índia...

Eu degustava os últimos momentos com os Tailandeses, zanzando pelo aeroporto. Depois de ter perambulado em despedida pela Khao San Road, eu me demorava perambulando intencionalmente, digerindo, elaborando, a esmo pelo aeroporto, carregando a mochila no carrinho.

No carrinho!!! ... 

Era mesmo o começo do fim da viagem... A velha mochila a cujo peso, às vezes descomunal e onipresente, a que eu me acostumara, inevitavelmente às costas, por tantos e tantos lugares... agora confortavelmente carregada no carrinho que deslizava pelo moderno aeroporto...

Ali no aeroporto, e na Khao San Road, eu chegara, há dois meses, às duas horas da manhã, virgem de Ásia, absolutamente ignorante de Tailandês, ou de qualquer língua asiática, e um pouco preocupado com tudo aquilo... Agora, cerca de dois meses depois, eu zanzava feliz, e em paz, pelo aeroporto, perfeitamente seguro e relaxado, para degustar o prazer carinhoso de estar na Thailândia e com os Thailandeses. A sua firmeza, a sua delicadeza, as mulheres, lindas e simples, que pareciam porcelana viva (uma imagem que me veio em Hong Kong) --, e me impressionavam de um modo suave e forte.

Eu zanzava pelo aeroporto, tendo já ultrapassado o horário prudente de passar pelo "Controle de Passaporte", e dirigir-me ao portão de embarque, para tomar o avião da Air Lanka, empresa do Sri Lanka, com destino a Hong Kong. Um misto de alegria suave e tristeza, saudade ambígua, misturada com o cansaço, mantinha-me na inércia daquele zanzar.

Cresceu, aos poucos, dentro de mim uma música muito brasileira, uma música cuja letra sintetizava preciosamente toda aquela deliciosa contradição, o início da volta e o voltar ao Brasil, o prenúncio das dificuldades práticas da volta; a despedida da Tailândia e dos Tailandeses, a vontade de voltar ao Brasil, e a vontade, já, de voltar à Tailândia. E, aos poucos, a vista tremulava, com os olhos cheios d´água:

"...Porém um dia
Eu voltarei,
eu juro por Deus
e pelos olhinhos teus...”

 

Aquela lembrança sintetizava tudo. Para todos efeitos, para mim mesmo, eu cantei muito aquela música.

Zanzei ainda pelo aeroporto em pequena e privada apoteose. Estavam comigo todas as alegrias daquelas duas passagens pela Tailândia, a alegria da festa simples do povo, das paisagens, dos templos, dos campos de arroz, dos rios, dos monges peregrinos. Toda a sua grandiosidade, às vezes tão simples e ingênua, dos templos dos ledores de sorte, das matas, de vetustos monges soltando, com uma alegria infantil, balões enormes, que levavam os males para longe, de seus mares e praias. Do rio de Chiang Mai coalhado de pequenos "barcos" de fatias de tronco de bananeira, transportando uma vela na escuridão da noite, uma moeda e hastes de incenso...

Vivi tanto, e intensamente, na Tailândia, aquele trecho de brasileira música...

E preparei-me para embarcar.

Terminado o controle de passaporte, eu quis dizer algo para o eficiente funcionário. Queria dizer "adeus" a um Tailandês:

Congratulations for your nice country, eu disse.

Ele sorriu, como só os Extremo-Orientais sorriem, e disse: Just come back again! (Volte!)...

Embarquei.

Em poucos momentos, eu sobrevoava as florestas e campos de arroz da Tailândia e do Vietnam, ainda ligado na saudade, degustando ainda e dizendo adeus ao singularíssimo universo Thai.

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TAL QUAL E TAL CALCUTÁ

 

“Calcutá venerava a brutalidade sanguinária até nas suas lendas e na escolha dos deuses que adorava. A sua padroeira era Kali, a deusa hindu da destruição, feroz bebedora de sangue, cujas estátuas eram ornamentadas com guirlandas de serpentes e de crânios humanos. Todos os dias milhares de pessoas se posternavam perante os seus altares. No passado, tinham sido imoladas crianças em sua honra, e os seus adeptos ainda lhe sacrificavam animais antes de mancharem a cabeça e o rosto com o seu sangue.

         (Dominique Lapierre/Larry Collins em Esta Noite a Liberdade)

 

 

Desci do ônibus velho, de lata e madeira, de assentos duros, igualmente de madeira, cobertos de plástico, apinhado de gente e coisas, sem espaço para as pernas entre um banco e outro, e que chacoalhava descontroladamente, durante os trinta ou quarenta minutos do percurso entre o Aeroporto Dum-Dum e as cercanias da Sudder Street, no Centro de Calcutá.

Descobri, depois, que o intrigante nome do aeroporto -- Dum-Dum -- não provinha de uma das centenas de dialetos falados na Índia, como eu ingenuamente havia pensado, mas do fato de que havia sido ali o local onde, pela primeira vez, se havia utilizado as cruéis e  mortíferas balas dum-dum, que explodem dentro da vítima, causando estragos irremediáveis... A permanência desta homenagem à crueldade, no nome do Aeroporto, de Calcutá revela de um modo singularmente claro o tanto que é ainda forte na Índia o império do terror e da maldade cruas. Talvez revelem algo do lado do ethos destrutivo de Calcutá.

Eu não sabia que era esta a origem do nome do aeroporto. Se eu soubesse eu estaria mais assustado ainda... Porque eu estava -- de qualquer forma, desnecessariamente -- assustado! Eu que já me acostumara, sem temer, às ameaças, fictícias ou reais, de uma nova cidade. Mas eu estava um pouco assustado quando  desci em Calcutá, nos meus primeiros momentos na Índia.

Não exatamente quando eu desci do avião, da simplória Air India, que me trazia da simpática, e apesar de tudo, organizada e rica Bancoc. Mas quando eu desci daquele ônibus na Jawaharlal Nehru Road, defronte do iteressantíssimo Museu de Calcutá, em busca da Sudder Street, onde eu deveria encontrar, segundo a indicação do "Lonely Planet", o excelente guia de viagens, a região dos hotéis econômicos, onde os mochileiros se hospedavam. Nada de pânico, mas eu estava assustado...

Durante os trinta ou quarenta minutos anteriores, eu chacoalhara no ônibus, com o entusiasmo, a excitação e a curiosidade dos primeiros minutos na Índia. Passávamos por ambientes mais ou menos rurais, onde as famosas vacas passeavam lentamente, e as mulheres, de sarees lindamente coloridos -- os sarees, as mulheres e as cores que tanto me impressionaram na Índia, pela incrível mistura de pobreza, dignidade e beleza -- carregavam, potes, cântaros de bronze, pequenas trouxas ou outros tipo de objetos, nas cabeça. A cor escura, mas não exatamente a cor dos negros, o cabelo bem preto, grosso e liso, a baixa estatura e a vivacidade dos Bengalis chamavam-me a atenção. E, apesar do choque inicial de aterrizar abruptamente no Quarto Mundo, vindo do Sudeste da Ásia, eu estava alegre e entusiasmado, com espírito esportivo e moral elevados.

À medida em que nos aproximávamos do Centro Urbano da cidade, à alegria e ao entusiasmo somava-se uma certa preocupação. Terminava a memorável tarde daquele dia, em que eu cruzara pelos céus o Norte da Tailândia,o Laos,  Burma, o Golfo de Bengala e o Delta do Ganges, assim como a região Ocidental de Bengala; e eu antevia as dificuldades de ter que procurar por lugar em hotéis lotados, carregando uma mochila idiotamente pesada, e à noite...

Mais do que isto, assustava-me perceber que, à medida em que nos aproximávamos do centro urbano, deixávamos a região mais ou menos rural e adentrávamos um mar de favelas apinhadas, no pior sentido, feiras, e um meio urbano super-povoado, miserável e caótico. E à noite...

No sentido econômico da organização do espaço urbano, era como se Calcutá não tivesse centro, e fosse só periferia.

Não desci do ônibus... Noite já, fui violentamente puxado para baixo pelo peso de minha pesada mochila, e por um erro de cálculo com relação à real, e anômala, altura entre o batente do ônibus e o chão.

O cobrador do ônibus tinha gritado "Sudder Street!". Eu e um japonês -- que vinha do Nepal, e que se juntara a mim porque estava sem guia de viagem, e aparentemente mais perdido do que eu -- juntamos "as trouxas" e começamos a nos encaminhar no sentido da porta do ônibus, tentando contornar ou passar por sobre sacos de todos os tipos, embrulhos, cestas e tudo o mais que se amontoava dentro do ônibus. Cheguei à porta e, rapidamente, antes que o ônibus partisse novamente, tentei descer, encaminhando na frente a mochila. Foi aí que o meu cálculo não previu a anômala e exorbitante altura do batente do ônibus até o chão. Meu tórax, braços e parte superior do corpo foram violentamente puxados em direção ao chão pelo peso da mochila, que eu me recusava a largar. Enquanto que, para o meu desespero, meus pés ficavam colados no metálico batente do ônibus. Se fosse numa piscina seria perfeito. Mas era no chão da Jawarhalal Nehru Road, apinhada de transeuntes, às 19:00hs da noite.

Consegui descolar os pés do batente e pousá-los violenta e atabalhoadamente no chão. Ato contínuo, e abrupto, tive que saltar e soltar a mochila, para não tropeçar nela e ir, inteiro, ao chão. Pelo menos, a gora eu podia soltar a preciosa mochila por um instante: estávamos ambos no chão já, e não havia o risco de o ônibus ir embora comigo e a mochila ficar...

Evitado o tropeço na mochila,  o centro de gravidade do corpo ainda estava em desalinho total, e o desequilíbrio ainda era grande, e eu percebia que o movimento brusco me levava perigosamente em direção à calçada (eu que já chegara  ao chão engatinhando, depois de descer de um ônibus, no Rio, bruscamente freado pela cabeça socada na dureza da parede de um muro, enquanto o motorista me olhava acintosamente) ... "Chegar em Calcutá de quatro, nessa rua movimentada,  vai ser foda", passou-me meteoricamente pela cabeça. O japonês eu não sabia onde se metera... Divertia-se, certamente, com todo o desastre ainda do alto do batente do ônibus.

Como passava muita gente, colidi violentamente e, instintivamente, agarrei-me, com o primeiro indiano que encontrei em Calcutá. Ele sentiu  o impacto. Aí pensei, também meteoricamente, ainda, "Que merda! Vou cair e ainda vou derrubar o cara, e ainda vou cair por cima dele, por cima da calçada, vou matá-lo..."

Foi aí que eu senti, de um modo claro, a força da Índia... O pequeno Bengali, com um pano laranja amarrado na cabeça, e certamente assustado, e sem entender nada do inesperado " ataque" daquele misterioso, enorme, barbado e  surpreendente ser, pendeu, perigosamente, uns dois ou três preocupantes passos mais, em direção à calçada e sustentou-se. Fomos parando e nos firmando, numa fração de segundos. Acho que, no final do movimento, ele entendeu o drama. Balançou, mas não caiu... Desvencilhou-se rápido de mim, e sumiu na escuridão, e na torrente de gente que passava entre o ônibus e a calçada.

O cobrador e o japonês olhavam, deliciados, a cena, ainda do alto do ônibus.

Assegurando-se de que tudo estava seguro, o Japonês desceu em seguida.

Eu reconquistei a minha mochila, e, mais que depressa, pendurei-a nas costas. Traumatizado, tentei, sem conseguir na escuridão, examinar um corte que eu levara no dedo da mão, na lata velha do ônibus, tentando me segurar do puxão da mochila.

Moral abalado, aquele corte era o pior e o mais preocupante... Ligeiramente aterrorizado com ele, adentrei a noite de Calcutá.

Meu receio com o corte é que, perigosamente displicente, eu não tomara a vacina contra tétano, antes de entrar na Índia. Aliás, não tomara também a vacina contra febre tifóide, nem contra raiva, nem contra cólera, nem contra pólio, nem o reforço imunológico contra hepatite, nem estava protegido contra malária... Todas as vacinas e providências obrigatórias para quem visita a Índia, mesmo que as autoridades locais não as exijam. Meus cuidados tinham que ser redobrados. E um corte na lata velha e enferrujada de um ônibus, que trafegava por aqueles lugares, infestados de bodes e cabras, como percebi depois, não era um bom começo... O risco de tétano, ainda que não fatal, crescia enormemente.

Junto com o Japonês, bati os hotéis de Sudder Street e ruas próximas... Praticamente todos lotados. Conseguimos quartos em um pequeno e precário hotel de uma rua estreita da região. O Japonês sumiu no hotel e em Calcutá. Revi-o depois, solidariamente sacolejando novamente, em um precário ônibus de Satna para Kajurao.

O quarto era, literal e rigorosamente, minúsculo. O banheiro ficava fora do quarto, em um outro cubículo, quase no quintal. Um banho ali, todavia, era, e foi sempre, uma benção, tal era o estado de empoeiramento e calor em que eu chegava no hotel, vindo das ruas da cidade.

Tomei um banho, tratei cuidadosamente, com própolis, o corte na mão, e saí ousadamente para a noite das ruas de Calcutá. A curiosidade era grande, e eu precisava comer, antes de dormir.

Ruas escuras, apinhadas de gente. À noite as ruas ficam mais movimentadas e apinhadas do que de dia. Pedintes famintos e semi-mortos, incrivelmente obstinados em sua atividade de pedir. Lama, merda de vaca, e freqüentemente de gente, e poeira, muita poeira, por todo canto. Mas o ambiente era animado. Um ambiente quase festivo. Em particular quando passava um dos freqüentes cortejos de casamento, com seus carros iluminados com luzes fluorescentes e suas bandas. De qualquer forma, como nos países do Oriente Médio, a noite é incrivelmente alegre e movimentada em Calcutá.

Por via das dúvidas, comi num restaurante chinês, onde o comida costuma vir quase fervendo...

 Apesar de minúsculo, o quarto estava ótimo. Em particular porque me poupara de continuar procurando pela noite nos hotéis de Calcutá, e mesmo do risco de não conseguir, e ficar na rua. Sobretudo, eu estava exausto. E uma cama era uma preciosidade incalculável. Por outro lado, era um lugar onde eu podia me isolar das multidões das ruas, sempre apinhadas. Do barulho, da sujeira, dos pedintes, da promiscuidade das ruas de Calcutá. Eu os toleraria, se não estivesse cansado. Mas, cansado, eu precisava de um refúgio, e era aquele bendito cubículo.

Longitudinalmente, tinha quase  que só o tamanho da cama. Transversalmente, mais uns oitenta centímetros. O suficiente para caber uma pequena mesa. Na parede, um enorme e desproporcional ventilador, que era um dilema. Desligado, eu sufocava com o calor, os mosquitos atacavam massivamente, trazendo o risco de malária e dengue. Ligado, o quarto parecia submetido a um vendaval, apesar de permanecer abafado, e eu era sempre jogado na iminência de um resfriado. Com tudo, era melhor assim , e dava para  tolerar. Várias vezes me tranqüilizei trancado ali, e achando ótimo e providencial, depois de um banho, para ler, consultar o guia e mapas, planejar a viagem, fazer contas... De qualquer forma, dava bem para tolerar...

Experienciar Calcutá envolve a vivência de realidades  gritantes da degradação humana, que, não raro, dão-nos a forte e asquerosa impressão de com o gente pode simplesmente virar lixo. Esta é uma impressão forte de Calcutá, a banalidade da transformação de gente em lixo. As onipresentes crises matinais de tosse dos tuberculosos, os leprosos com todos os tipos de mutilações, outros tipos diversos de mutilados, os pedintes, as mulheres passadas de desespero, as crianças desnutridas e famintas, ou simplesmente semimortas... Tudo isto, e muito mais, é simplesmente a banalidade das ruas de Calcutá.

Incômodos e desagradáveis sempre, talvez os corvos  não sejam tão soturnos como ali. Onipresentes, com a desagradável postura de estarem sempre lhe acompanhando e reagindo a você, com os seus gritos roucos, eles se tornam definitivamente intoleráveis,  quando percebemos que eles competem e lutam com uma parte significativa da população pelos restos de comida, nos monturos e depósitos de  lixo nas ruas da cidade.

Pela manhã, a aparentemente invulnerável paz de meu minúsculo cubículo era incomodamente invadida, e atravessada, antes de eu acordar. Tosse... A princípio, a consciência vaga de alguém, ou algumas pessoas, tossindo, arrancando-me do sono... Volto ao sono, porque isto logo deverá passar... Mas a tosse, as tosses, não passam. Começo a ficar irritado, para, logo em seguida perceber a impertinência de minha irritação: se pudessem não estariam tossindo...

A irritação vai aos poucos transformando-se em angústia, à medida em que não passam os acessos. O sono já foi para as cucuias... A princípio parecia normal, mas cada vez parece menos. A princípio parecia controlável, ma s a tosse tem uma obstinação lenta, que vai tomando conta de quem tosse, e aumentando o meu desconforto, e aflição. O sujeito tosse, tosse, tosse, tosse, tosse... Vai pelo fôlego, engasga, sufoca, tosse, tosse, vai pelo fôlego -- e eu atônito e aflito --, até que, por fim, parece vomitar. Só então, um pouco de silêncio, e de alívio...

Entendi, depois, que eu presenciava uma audição do ritual da hemoptise de um tuberculoso. E não era um hotelzinho qualquer... Dava a impressão de ser alguém "de posses"  que viera tratar-se na cidade... Era assim todas as manhãs, rigorosamente todas. E era algo do que mais me afligia em Calcutá.

Chocante, também, os leprosos mendigos, enfiando na sua cara o coto dos membros comidos pela doença, como argumento para que lhes demos alguns trocados.

Os argumentos dos pedintes são chocantes, sempre, em Calcutá. Em particular porque são tremendamente reais, evidência explícita de sofrimentos terríveis, de fome crônica e sempre cotidiana e criticamente agudizada.

A mulher gruda atrás de mim. Incomoda porque são impressionantemente persistentes. Podem lhe seguir por centenas de metros, imploram, tocam em você... - Babá (De Baghwan, Senhor), hungry! (Faminta). Referindo-se à criança, e leva a mão à boca, em súplica de comida. Olho para a criança em seus braços. Os olhos, semiabertos, têm um olhar vago e vítreo, semicomatoso. Não estava com fome, estava morrendo... Dou-me conta de que nada do que eu der resolverá aquilo, são milhões naquela mesma situação, nascendo e morrendo precoce e inexoravelmente. A Índia, em especial Calcutá e as grandes cidades, dão a sensação de serem um impressionante laboratório da morte. Impressiona pensar o povo que emerge desta elaboração...

O centro administrativo e comercial de Calcutá tem algo de insólito, que talvez reflita os paradoxos da cidade, e da Índia. Calcutá foi o centro do Império Britânico das Índias Orientais. Houve a intenção de construir um centro urbano ao estilo britânico. Prédios  do século XIX e largas avenidas, como uma moderna cidade européia. Tudo isto, entretanto, conservou-se praticamente da mesma forma que os Britânicos deixaram, quando abandonaram a Índia, na década de quarenta. E a impressão é como se, ao estilo de uma floresta que invade uma cidade fantasma, aquele centro urbano, e aqueles prédios,  foram sendo insidiosamente invadidos por aquele povo humilde e multitudinário, de pele escura. Nos lugares onde esperávamos encontrar Ladies e Lords, clerks ingleses, encontramos aquela gente morena, miúda, forte e esperta, ainda que geralmente paupérrima, ou simplesmente remediada, seus verdadeiros donos.

Por dentro dos prédios, constatamos que a manutenção deles parou, igualmente, no tempo da partida dos britânicos. E constatamos a dimensão da infiltração da "floresta", nas entranhas da "cidade fantasma", no formigamento de pequenos burocratas indianos que infestam esses prédios, já que a maior parte deles são repartições públicas da paquidérmica burocracia estatal.

Calcutá gravita em torno desses paradoxos, das desconcertantes articulações entre as  fantasmagóricas remanescências do Império Britânico com a proliferante, e paupérrima existência de seus orgulhosos e fortes Bengalis. Ali no Centro, próximo de BBD Bagh (Dalhousie Square), há uma esquina onde vivem amontoados e tranqüilos milhares de ratos, comprimidos num canto de prédio. Não são molestados por ninguém, porque são, na verdade, animais divinos, e atração turística, representativos de um dos deuses do enorme Panteão Hindu.

A cidade é Bengali, é Hindu, é Muçulmana. Mas suas remanescências britânicas revelam a sua origem, como entreposto de comerciantes ingleses, que ali se estabeleceram na primeira metade do século XV. Foi próspera e miserável. Em geral, juntas as duas condições.

A balança pendeu irremediavelmente para o lado da miséria quando da partição que os Britânicos fizeram da Índia, antes de deixarem-na. As plantações de juta, a fibra de ouro, que garantiam a riqueza da região, ficaram do lado de Bengala Oriental, que constituiu a região do Paquistão Oriental, Muçulmano, que depois transformou-se em Bangladesh. Enquanto que as fábricas de beneficiamento da juta e o porto de exportação ficaram em Calcutá, Bengala Ocidental. Um, o Paquistão Oriental, tinha as plantações e o produto, mas não tinha as fábricas de beneficiamento e o porto de exportação. A outra, Calcutá, Bengala Ocidental, tinha as fábricas de beneficiamento e o porto, mas não tinha o produto e as plantações. O resultado foi a decadência abrupta, a atrofia econômica e social, e a disseminação ainda mais intensa da miséria. Quando a seca se somava a todo este quadro,  já altamente deteriorado, levas de refugiados invadiam Calcutá, compondo os números de sua gigantesca e paupérrima população.

A morte está presente em todo canto, e a cidade toda dá uma impressão forte de ser, na verdade, um imenso ritual à sua deusa, a deusa que lhe dá o nome: Kali -- Kalicut, Kalcáta --, uma divindade da morte e da destruição, consorte de uma das encarnações de Shiva, condensação do lado destrutivo e mortal desse deus da criação. E isto parece ser parte importante da consciência de todo habitante de Calcutá.

A verdade, todavia, é que, ao lado da abundância da morte, do definhamento e do morrer, Calcutá palpita impressionantemente de vida e exerce, de fato, um fascínio muito incrível e particular. Parece ser o principal laboratório onde a Índia realiza a sua maior proeza, talvez. A alquimia incrível de criar-se a partir da exuberância extrema da morte.

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O TEMPO DA ÍNDIA, A ÍNDIA DO TEMPO

 

 

Não é à toa dizer que a Índia é o seu tempo. Afinal de contas quem mais do que a Índia, e alguns de seus vizinhos culturais, mereceria mais o reconhecimento de seu ser como atualidade e atualização de um tempo particular?

 Diz-se que se pode amar ou odiar a Índia; ou ambas as coisas. Mas que logo sentir-se-á saudades da Índia. E é verdade! E é do tempo da Índia, em particular, que se tem saudade. Ou de seus tempos, tão particulares. E saudáveis.

Tempo divino do Ganges, que desce da “morada dos deuses”, o Himalaia, como “a sagrada cabeleira”, que generosamente oferece a água para a purificação; e, em particular, para o sagrado mergulho regenerador na divindade.

Tempo lento do fogo das piras crepitantes, emolduradas pelo silêncio profundo, nas margens do sagrado Rio, nos "portões" para a eternidade, onde são cremados os seus mortos bem amados e bem aventurados.

Tempo lento do amanhecer de Varanasi, a multimilenar Benares, na sagrada lentidão dourada do Rio, tempo inebriado pelo haxixe, penetrado pelos mantras dos gurus e dos sadhus, e pelas pacíficas figuras de sua gente risonha, a distribuir guirlandas de flores brancas, alaranjadas e amarelas enquanto o sol ascende lentamente...

 

O Ocidental que chega à Índia percebe, de imediato, que algo de irremediável e massivo aconteceu com o tempo. É como se alguma engrenagem do tempo houvesse irrecorrivelmente emperrado, como se tudo se movesse, às vezes fervilhantemente, mas mais lenta, ritmada, e sem dúvida alegre e vividamente. Mais tranqüilamente.

É como se, definitivamente, o relógio não contasse mais, ou se tivesse tornado secundário...

É curioso... mas, inquestionavelmente, parece que são as vacas as senhoras do ritmo do tempo da Índia. Não é à toa que lá elas são sagradas  --, com o seu jeito vagabundamente divino, a perambular absolutamente despreocupadas pelas ruas e pelas feiras.

O tempo da Índia é perfeitamente compatível com o tempo da perambulação.

É isto... a santidade das vacas...

Os Indianos certamente aprenderam e aprendem que as vacas são as senhoras do tempo, um tempo que é tão peculiarmente deles, e eles...

O Ocidental que chega a uma grande cidade da  Índia tem logo uma experiência desconcertante, e deliciosa. Acostumado que é a que sejam os carros mais velozes do que ele próprio, é bem treinado na celeridade para atravessar as ruas. Espera isso, naturalmente, nas ruas, por exemplo, de Calcutá, de Delhi ou Bombaim, mas logo descobre, entre desconcertado e deliciado, que na Índia os carros são na verdade mais lentos do que ele próprio. Reduz a marcha, quase pára, para ver o carro que ainda vem lá longe, sem qualquer perigo de atingi-lo qual um bólido.

Nas proximidades das ruas e avenidas mais urbanizadas de Calcutá, a grama do Maidan, um imenso parque central, sem cercas, está sempre ali. E ainda, ao tempo dos carros pouco velozes, nas avenidas, alterna-se o tempo dos rebanhos de cabras, o tempo das cabras, que atravessam a avenida principal do centro da cidade, em direção ao pasto cotidiano na grama do Maidan. Não consigo escapar da imagem que guarda algo da possibilidade de que o trânsito da Av. Rio Branco parasse, regular e cotidianamente, para dar passagem a rebanhos de cabras que fossem pastar na grama do Aterro do Flamengo... Mas não existe mar à vista.

A grama do Maidan, em pleno centro urbano de Calcutá, cheia de bolinhas de cocô de cabra. Tem algo da grama dos campos do Afeganistão e de seus pastores.

A algumas centenas de metros, no mesmo parque, o paquidérmico Memorial da Rainha Vitória, pesadamente -- como ela própria -- instalado por sobre a grama. Dizem que os ingleses o construíram invejosos, para rivalizar com a beleza do Taj Mahal...

Meus Deuses ! Como entendiam pouco de leveza e de sublimidade, de inefabilidade! De beleza!

Em certos lugares, no centro urbano de Calcutá, há uma insólita mistura de tempos...

É como se estivéssemos, nós que víamos os filmes colonialistas do Império Britânico, em um filme de ficção científica... Há o tempo flagrantemente anômalo da urbanidade moderna,  o tempo dos prédios urbanos, de quando os ingleses coloniais quiseram transformar o centro de Calcutá num moderno centro urbano ocidental... Prédios que abrigam, hoje, repartições públicas Hindus... E o tempo dos funcionários e cidadãos Hindus, o tempo da Índia, que aparece, em particular, na poeira aqui e acolá -- apesar de os Indianos varrerem e espanarem obsessivamente --, na manutenção e reformas tipicamente Hindus, tão distantes do modernamente sóbrio e elegante estilo original.

Os ingleses acabaram presos por um sultão num enorme buraco no chão do Maidan. Os que sobreviveram foram embora para sempre. E o tempo moderno dos prédios foi e vai sendo progressivamente invadido, sem pressa, pelo pachorrento tempo sem pressa da vaca. Os indianos estão lá, dentro dos prédios, às vezes pululantemente, mas nada têm a ver com o moderno tempo dos prédios...

É como se fosse o tempo da lenta inexorabilidade da floresta  invadindo uma cidade abandonada. Os prédios pararam e decaem, mas o tempo não. O tempo eterno e despreocupado das vacas, do povo da Índia, tem apenas um outro padrão, um outro ritmo, mais lento e despreocupado, mas, inexorável, não dá mostras de que parará.

As brumas do Planalto do Deccan, no Centro Norte, são outra escala do tempo da Índia.

A vaca é uma escala do tempo do cotidiano. Mas ela não poderia dar conta da vastidão e dos enormes tempos e espaços do Planalto do Deccan... A enormidade  plana, com a qual só o Céu pode rivalizar, a tudo engole no tempo de sua imensidão: vilas, cidades, pessoas, árvores, vegetação, vacas, animais, e em especial os sons... Tudo parece distante, longe, e longemente diminuto, à terra aderido, como se só céu, nuvens e terra contassem... É a desproporção da imensidão plana,  e do céu, que a tudo reduz, e a tudo torna diminuto.

 As onipresentes brumas do Deccan, em seus tempos tão próprios e sutis, e quase imperceptíveis, convivem bem com a monumentalidade dos espaços e tempos do Deccan. E são como que mediadoras entre os humanos, e as humanas coisas, e as infinitudes do Deccan.

Fresca manhã cedinho, elas podem a tudo envolver, velando as distâncias infinitas e os infinitos horizontes, criando um aconchego, uma  proximidade e intimidade ilusórias e frágeis. Estamos dentro de nuvens, que, num certo sentido, prolongam ainda os efeitos da escuridão da noite.

Ao longo da manhã, elas  espicham-se preguiçosamente, lentamente, adelgaçam-se, rarefazem-se, e libertam o tempo e o espaço das planuras do Deccan.

De certa forma, permanecem sempre, durante todo o dia, rarefeitas, rarefazendo-se, à medida em que o dia progride... à distância, em baixa altitude, intimamente solidárias com o diminuto de vilas, cidades, pessoas,  animais, árvores, ruídos e barulhos, aderidos à terra, perdidos no silêncio da enormidade do espaço-tempo, que é sempre, sempre, maior.

Caindo a tarde, tudo parece ficar mais lento e silencioso... e a bruma adensa-se progressivamente, branca, como se fosse, paradoxalmente, o limiar da escuridão da noite, com a qual lentamente se confunde. Só então cede a bruma, só então cedem os espaços e os tempos do Deccan. Até o novo amanhecer...

Todos e tudo funcionam no fundo ao ritmo da bruma, que espicha-se lenta pela manhã ou ao cair da tarde, em sua negociada convivência com os infinitos do Deccan.

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GANGES

 

“Morrer em Benares é para todo hindu a suprema benção. Se a morte o surpreende no interior de um perímetro de sessenta quilômetros em torno da cidade, Shiva, a sua divindade tutelar, liberta-o do ciclo perpétuo das reencarnações e permite à sua alma fundir-se para a eternidade no paraíso de Brahma. É por isso que se vem a Benares não para aí viver, mas para morrer.
Os transportadores desceram até o rio os despojos do primeiro candidato do dia à celeste viagem e mergulharam-no no Ganges pela última vez. Um deles abriu a boca do defunto para aí deixar cair algumas gotas de água. Depois colocaram o corpo sobre a fogueira. Os
intocáveis de serviço cobriram o cadáver com lenha e despejaram-lhe em cima um pote de ghi, manteiga purificada.
Com o rosto e o crânio raspados, o corpo purificado pelas abluções rituais, o filho mais velho do defunto deu cinco vezes a volta à fogueira para um último adeus. Um servidor do templo vizinho, dedicado a
Ganesh, o deus com cabeça de elefante, entregou-lhe então uma tocha acesa no fogo perpétuo do santuário. Pô-la sob a lenha e um monte de chamas saiu da pirâmide de lenha. Os homens da família sentaram-se à volta do braseiro, que projetava para o céu de verão um gêiser de fagulhas. Um ruído seco saiu de repente do crepitar das chamas. Os fiéis recolheram-se mais profundamente murmurando uma ação de graças. O crânio de defunto acabava de rebentar, abrindo assim à energia cósmica os canais em que circulara a energia vital.(...)”

(Dominique Lapierre/Larry Collins - em Esta Noite a Liberdade)

 

 

 

Cheguei pela manhã a  Varanassi (a milenar Benares), vindo de Calcutá, depois de uma noite relativamente confortável, na cabine-dormitório do vagão de um trem expresso. Apenas um pouco preocupado com a minha mochila, devidamente presa, a cadeado, ao pé da poltrona...

Na plataforma da movimentadíssima estação, encontrei um europeu meio enlouquecido porque haviam roubado toda sua bagagem, incluindo dinheiro e documentos, durante a noite, no trem. Chegou-se a mim, muito transtornado para falar-me do acontecido. Desapareceu no meio da multidão, em busca das autoridades ferroviárias e policiais, antes que eu pudesse lhe oferecer alguma ajuda. Não sei o que eu poderia fazer, mas eu era solidário... As chances de encontrar seus pertences eram mínimas. E fiquei torcendo para que sua condição de europeu lhe ajudasse a se safar daquela.

Ao mesmo tempo, comemorei intimamente, e preocupei-me. Comemorei, em primeiro lugar por não ter sido roubado durante a noite no trem. E, em particular, por não ser um viajante tão ingênuo quanto ele. Durante a noite, a minha mochila estava devidamente acorrentada no banco da cabine do trem. Meu passaporte, algum dinheiro, cartão do seguro de saúde e passagem estavam no bolso de um cinto interno por dentro das calças. O "grosso" do dinheiro estava em bolsos secretos. Se alguém quisesse me roubar, teria que levar-me as calças... Mesmo assim, sobraria algum dinheiro no tênis... Se levassem o tênis, aí não teria jeito, eu ficaria liso mesmo...

No hall da estação tive uma desconcertante demonstração da perseverança e chatice proverbial dos indianos, quando querem ser chatos.

Entrei na fila para confirmar a minha reserva para Khajurao, daí a cinco dias. Um condutor de ciclo riquixó achegou-se a mim e ofereceu-se para levar-me a uma pousada. Recusei, mas ele continuou do meu lado. Aparentemente ele tinha se decidido a me levar. Esta ousadia me irritava mais ainda. Era magro, de cabelos grisalhos, ainda que não fosse muito velho. Recusei com grosseria -- contra os meus princípios, de segurança --, mas ele continuou insistindo... Confirmei a minha reserva, e dirigi-me ao estacionamento da estação, em busca de um riquixó. Nem que fosse igualzinho ao do homem que me assediava, mas eu não iria com ele!

Pesquisei os preços. Eram mais caros do que os dele, e os condutores não me pareciam muito confiáveis. Tentei os auto riquixós, mas eram o dobro. O homem continuava grudado do meu lado, impassível, com a maior cara de “Não disse?”, ainda que não tocasse no assunto e fingidamente dissimulasse...

Chamei-o a um canto e saquei o meu Guia da Índia. Mostrei-lhe o mapa de Varanassi, mostrei-lhe exatamente a pousada onde eu queria ir. Era uma pousada recomendada pelo guia, na margem do rio... De imediato ele disse: “Está lotada!” Eu sabia que esta era a jogada dos “touts” (caça turistas) para levar visitantes às pousadas que lhes davam comissões. Comissões que, evidentemente, entravam no preço da diária que eu iria pagar. Eu disse que não adiantava. Que eu queria ir para aquela pousada que eu estava mostrando. Ele insistiu que estava lotada. E que, além do mais, havia “fight”(luta) entre policiais e estudantes no centro da cidade, e muito tumulto. Era perigoso ir até lá. Na noite anterior, contou-me, três estudantes haviam sido mortos pela polícia. 

(Na verdade, como constatei depois, havia uma rebelião de estudantes universitários que não pertenciam à classe Brâmane contra a reserva do mercado de empregos para estudantes Brâmanes. A rebelião era duramente reprimida pela polícia.)

 Não arredei pé, em parte acreditando que era exagero dele para não me levar. Com o guia na mão eu me fazia de intransigente. É preciso ser duríssimo na argumentação com um indiano. Do contrário, você não tem nenhuma chance...

 Com um acréscimo no preço, ele aquiesceu em me levar aonde eu queria, meio aborrecido.

 De fato, havia muito nervosismo no apinhado centro da cidade. 

Num dado momento, a multidão começou a correr em direção contrária à que nos dirigíamos. Ele saltou de seu assento e me mandou ir atrás dele, entrando numa pequena clínica. Arranquei e arrastei a minha mochila do riquixó e corri para a varanda da clínica. Disse ele que podia haver tiros. Senti, então, que não era mentira a estória do conflito entre a polícia e os estudantes, e dos tumultos no centro. Não consegui perceber porque a multidão corria, ainda que houvessem policias por todo canto, invariavelmente armados com os onipresentes e tristemente famosos bastões de bambu. 

Ainda cauteloso, eu não tinha medo. Na verdade, eu estava excitado por presenciar tudo aquilo.

Acalmado o tumulto, seguimos, com dificuldade, no meio do povaréu, o nosso caminho em direção à pousada. Chegando lá, recebi a informação desagradável de que, de fato, a pousada estava lotada... Insisti em irmos para uma outra indicada no guia. Seco, o homem disse que também esta estava lotada... Insisti para que fôssemos até lá. Ele foi, de má vontade. Não deu outra, estava também lotada... Aí, tive que ceder e pedir-lhe que me levasse até a pousada que ele sugerira.

 Era um pequeno hotel, próximo do centro e pertencente a uma família de Brâmanes. Um pouco mais caro, mas um pouco mais tranqüilo, ainda que pobre e simples, como a maior parte dos hotéis da Índia.

O homem do riquixó cobrou-me um pouco mais pela ida à segunda pousada. E perguntou-me se eu queria que ele viesse me buscar depois. Sorri, e disse que não. Ele disse que de qualquer forma passaria... Fiquei preocupado, mas felizmente ele nunca mais apareceu.

Decepcionei-me com os Brâmanes.

Da imagem tradicional que temos da Índia, eles seriam sábios, a classe de onde saem os sacerdotes e os dirigentes... Talvez alguns o sejam. Aqueles do hotel não pareciam assim. Capitalistas incipientes e de uma mal disfarçada ganância, proprietários de hotel em uma pequena cidade com um grande potencial de visitantes... O filho do dono, um rapaz de vinte e poucos anos, com quem tive mais contato, é que me impressionou mais negativamente. Era alto e de tipo elegante. Pele escura -- nada Ariana -- e cabelo bem liso e bem preto. Procurava ser gentil e acercava-se de minha mesa sempre que eu fazia refeições no pequeno restaurante do hotel. Tentou explicar-me, partidariamente, segundo os interesses de sua casta, os motivos  da luta entre os estudantes e a polícia. 

Comigo ele não teria muita chance. Já fui estudante em tensão com a polícia, ainda que, talvez em situações menos perigosas. Mas os argumentos dele destilavam a baba da pior arrogância e egoísmo de todas as classes dominantes. Segundo ele, os estudantes não Brâmanes queriam acesso aos empregos reservados aos Brâmanes, mas não tinham competência, não estudavam, por isto que não podiam , seria um absurdo dá-lhes acesso àqueles empregos. Transpirava de sua postura, do seu sotaque, afetadamente britanizado,  e do conteúdo de sua argumentação o típico ranço do imperialismo inglês, tão freqüentemente assimilado, desgraçadamente, por pessoas que julgam-se classe dominante na Índia.

Interessou-se por mim. Percebi depois, surpreso, que ele me invejava, de um modo mesquinho, e preocupante. Certamente não por mim, mas pela minha condição de Ocidental, misturado, talvez, com a hostilidade por meu tipo semítico... 

Um dia, no jantar, sentado à minha mesa, junto com dois de seus empregados, disse com mal disfarçada inveja: “Você é forte!”. Imaginava onde era a América do Sul, mas não tinha a mínima idéia do que era “Brasil”. 

Naquela noite convidou-me para jogar um estranho jogo, parecido com o jogo de damas, junto com os dois empregados. O jogo era aparentemente muito praticado, e apreciado, por eles, e, por mais que me ensinassem, eu não tinha a mínima competência. E ele visivelmente deleitava-se em ganhar de mim. 

"Covarde sem vergonha..." eu me apoquentava, cá comigo, enquanto ele celebrava...

 Comecei a ficar preocupado. Felizmente isto se deu já na véspera de partir. Não fosse assim, e eu teria discreta e rapidamente procurado uma outra pousada.

 

Logo que pude, depois de chegar, procurei as margens do Ganges, centro efetivo da cidade. Tudo em Varanassi converge para lá. É como se não apenas geograficamente, mas psicologicamente, também, houvesse um declive que a tudo levasse para as margens do sagrado Rio. 

A cidade é permanente e regularmente invadida por grupos e multidões de visitantes. Dia e noite. Visitantes hindus, quero dizer, além dos visitantes estrangeiros, que são uma pequena minoria, comparados com multidões de Hindus.

Para eles, os Deuses de seu multitudinário panteão habitam o alto dos Himalayas. Os rios que de lá descem, o Brahmaputra, o Ganges e o Indo, que escorrem pelas terras de Bangladesh, do Planalto Centro-Norte da Índia e pelo Paquistão, são sagrados. O Ganges, em particular, é a “cabeleira dos deuses”, de modo que é o mais sagrado de seus espaços religiosos. Banhar-se no Rio é comungar com as divindades. E Varanassi, a multimilenar Benares, é a mais sagrada cidade de suas margens. Todo Hindu tem como objetivo sagrado de sua vida ir, pelo menos uma vez na vida, ao Ganges, em Varanassi, em peregrinação. A Índia tem como que novecentos milhões de Hindus -- fora os Jainistas, Muçulmanos, Budistas e Sikhs, além de uma pequeníssima minoria de Cristãos. Pode-se, por aí, imaginar o que é o movimento contínuo de visitantes a Varanassi.

Uma das mais curiosas e impressionantes fontes dessas visitas, todavia, são os funerais. Para um Hindu, ser cremado às margens do Ganges, e ter as suas cinzas atiradas no Rio, é o maior valor de sua existência. De modo que chegam, diariamente, dia e noite, à apinhada Varanassi, dezenas e mais dezenas de cadáveres para serem cremados em piras às margens do Rio.

As margens têm escadarias que acompanham as suas curvas, e descem até à água, nelas penetrando, os Ghats (portões). São áreas de banhos rituais, onde os peregrinos se purificam. Em dois deles há crematórios, nos quais  fazem fogueiras de variados tamanhos, com madeira trazida por barcos. Em cima da fogueira coloca-se a padiola com o cadáver, e acende-se o fogo ritualmente. O cadáver queima por mais de dez horas.

Os visitantes estrangeiros podem presenciar o ritual, ainda que poucos ousem chegar lá perto. Filmagens e fotografias são rigorosamente proibidas e reprimidas com hostilidade. O simples porte de uma filmadora ou de uma máquina fotográfica pode gerar problemas.

 O filho mais velho do morto tem a cabeça completamente raspada, veste-se de roupas brancas, circula a fogueira por algumas vezes, e fica ali, próximo à fogueira, em geral acocorado. Um homem, não sei se sacerdote ou funcionário, revolve periodicamente as cinzas e brasas, e a massa do corpo resultante da carbonização. Ao final do período da cremação, o parente que ficou em vigília, dirige-se à água do Rio e enche de água uma vasilha de barro. Volta até a fogueira, fica de costas para ela, e joga nela, de costas, a vasilha com água que nela espatifa-se, levantando o vapor da água. O homem que revolvia as cinzas e brasas com uma vara de bambu retira a massa restante do cadáver, que tem então mais ou menos um palmo de diâmetro, dirige-se até o Rio, e ritualmente atira-a em suas águas. A pequena massa segue lentamente, descendo ao ritmo da corrente. Está encerrado o ritual... Isto é mais ou menos o que pude perceber.

Existem cerca de cem Ghats ao todo. Em dois deles há grandes crematórios.

Dia e noite chegam os corpos. Nos mais variados meios de transporte. Desde corpos que vêm em padiolas, às costas de parentes e amigos, até corpos que chegam, também em padiolas, em caminhões, carroças, carros particulares, táxis, lombo de animal, etc. Todos enrolados em tecidos brancos com fitas predominantemente amarelas. Sua passagem é um episódio freqüente e banal pelas apinhadas ruas de Varanassi.

Os peregrinos simplesmente, que vêm apenas em suas visitas rituais, espalham-se pela cidade, e preferem o amanhecer para suas contritas, elaboradas e belas práticas à beira do rio. As fogueiras com os cadáveres queimam por dia e noite.

Logo que pude dirigi-me às margens do Rio. A cidade está delas separada por um emaranhado de becos e vielas. De frente para o Rio, há toda a sorte de antigos e antiqüíssimos prédios religiosos, em particular templos. Ultrapassando-os damos de frente com a paz do Ganges e de suas escadarias. É um grande rio, mas não chega a ser muito largo. A outra margem está visivelmente à frente, e é singularmente árida.

Nas escadarias fui “assaltado” por crianças pedindo dinheiro, vendedores de souvenir, de colares de flores, e até por massagistas! Um deles pegou a minha mão e começou a fazer massagens. Recusei polidamente, mas ele continuou massageando, como se dissesse, “tá vendo como é bom”... De fato era... uma massagem fantástica. Na mão apenas e eu já estava amolecendo. Queria fazer a massagem, mas tinha receio de que, além da massagem, eu ficasse sem o dinheiro e sem os documentos... Fiz um esforço e, a contragosto meu e dele, por motivos diferentes, me desvencilhei.

Criando coragem para enfrentar sozinho o desconhecido insólito daquele lugar, dirigi-me, seguindo a margem, para o maior dos crematórios, que ficava um pouco mais adiante, rio abaixo. 

Fora este assédio de vendedores no Ghat principal, o resto do percurso era tranqüilo. Os Hindus pareciam ignorar os estrangeiros com naturalidade. Apesar da curiosidade e decisão de ir até o crematório, eu receava invadir áreas sagradas e restritas, e receava em particular que me confundissem com um Muçulmano, em função das tensões entre Hindus e Muçulmanos, que degeneraram, pouco tempo depois, em sangrentos tumultos com milhares de mortos. Um “muçulmano” no lugar mais sagrado dos Hindus, não me sentia numa posição muito segura. Com tudo, eu não estava, ainda, muito ciente dos problemas que estavam ocorrendo, e que explodiram, por fim com a derrubada da Mesquita de Ayodha, a onze quilômetros dali, alguns dias depois. Felizmente, quando isto ocorreu, eu já estava a centenas de quilômetros dali, em Jaiselmer, no extremo Oeste, na fronteira com o Paquistão. Lá a situação era de causar alguma apreensão, mas teria sido certamente muito mais séria se eu estivesse na região de Varanassi e Ayodha.

Dirigi-me até o crematório, na disposição de que “enquanto não me barrarem” eu prosseguiria. Só os meus receios me interrompiam eventualmente. Os Hindus parecem ignorar os estrangeiros, mesmo em seus lugares sagrados.

O cheiro forte de carne queimada indicava a proximidade.

Numa curva do Rio, lá estava. Várias fogueiras, em estágios diferentes de seu processo. Algumas ainda começando, com a padiola em cima, com o corpo. Outras ainda por começar, com o corpo também em cima. Outros corpos chegando. Ancorados na margem, vários barcos carregados de madeira. Devia ser cara, porque devia vir de longe. Não parecia haver florestas nas proximidades.

Cheguei mais próximo, até confundir-me com a pequena multidão que por ali estava. Hindus de todos os tipos, penitentes e peregrinos também. Dos que trajavam apenas uma pequena tanga, com o corpo coberto de cinzas, os cabelos grandes e desgrenhados, com figuras vermelhas desenhadas no rosto, até aqueles vestidos de calça escura e camisa de algodão branca, de mangas compridas e devidamente abotoadas. Aos poucos, senti-me à vontade, e fiquei contemplando a fascinação daqueles fogos e dos rituais. O cheiro de carne queimada já não me incomodava. E eu me deliciava por estar ali.

Havia uma construção que tinha uma lage como telhado, em um canto da margem. Algumas pessoas subiam ali para ter um melhor ponto de observação. Resolvi ir para ali, também. Tive que me embrenhar ainda mais no meio daquela multidão, até subir por trás da construção e chegar à sua lage. Era um ótimo ponto de observação, de onde se podia ver todo o crematório e a sua movimentação. Fiquei ali por algum tempo, atento e absorto.

Aproximaram-se de mim três ou quatro jovens e puxaram conversa em inglês, com o jeito simpático e alegres dos Indianos de se aproximarem de estrangeiros. Eram dos que estavam vestidos com calças e camisas de algodão, de mangas compridas, devidamente abotoadas. Eram estudantes da Universidade Hindu de Benares. 

Mencionei a luta entre policiais e estudantes, e eles me explicaram ávida e excitadamente quais eram as causas do conflito. Entendi perfeitamente as suas razões. Era difícil estudar durante anos e não poder trabalhar porque os empregos estavam reservados para os Brâmanes. E toda revolta era severamente reprimida e punida. Aqueles estudantes eram claramente militantes ativos e decididos contra a situação vigente, e entusiasmavam-se por poder falar com alguém 'de fora daquilo tudo', e poder contar a sua versão e os seus problemas. Na noite anterior, três estudantes haviam de fato sido mortos pela polícia em confrontos de rua. Eles tinham forte a consciência de que eram como eles, e que poderia ter sido um deles, ou todos eles. Tudo estava impregnado de morte, de várias formas, naquele momento. Impressionava-me o que parecia ser o caráter desesperado e sem alternativas daquela situação, e a obstinação e força daqueles rapazes, e, sem dúvida, a sua tranqüilidade, bom humor e alegria, no meio daquilo tudo. Tranqüilidade, bom humor, alegria, obstinação e força tão tipicamente indianos.

Depois quiseram saber de mim. Entusiasmaram-se quando eu lhes disse que era psicólogo. Sabiam do que julgavam ser a importância da psicologia, ainda que tivessem apenas uma vaga idéia do que se tratava de fato. Conversamos sobre seus estudos e sobre a Universidade Hindu de Benares...

 O Brasil para eles era praticamente o nome de um país, apenas. Nunca haviam conhecido um brasileiro. Tratavam-me como um ser de um país muito desenvolvido. E, sem dúvida, comparado com a maior parte da Índia, o Brasil parece Primeiro Mundo. 

A um dado momento, um deles saiu-se com uma observação que me surpreendeu e divertiu, para tentar explicar a estranheza que eles sentiam com relação a mim. Disse que vendo-me e conversando comigo pareciam estar vendo e conversando com o personagem de um filme! (!?)

 Surpreendido e divertido, perguntei por quê. Ele explicou que era o meu jeito de vestir e de falar... No momento, eu certamente vestia uma calça jeans, camiseta e tênis...

Fiquei um pouco mais por ali. Conversando e acompanhando os rituais. 

A incrível tarde começava a chegar ao fim, e eu resolvi voltar. Não queria ficar por ali sozinho, à noite. Não por medo dos mortos. Mas por medo de certos vivos, certamente. Ainda que, mesmo assim, aquilo dali fosse certamente mais seguro do que a Av. Atlântica, no Rio de Janeiro, às oito horas da noite...

No caminho da volta, um pequeno incidente advertiu-me de que talvez houvesse alguma hostilidade contra mim por ali, e fez voltar os meus cuidados. Do alto de uma das torres de um dos milenares prédios jogaram uma fruta podre contra mim. Parecia uma laranja, ou mais precisamente um jenipapo, o que, evidentemente, não era... Espatifou-se no chão, a poucos centímetros de mim... Fiz de conta “que não era comigo”... e continuei caminhando impassível. Talvez tivesse sido apenas um gaiato, que junto com os Homens Santos, também não falta por ali. Ou talvez alguém que me achasse com cara de turista, e não gostasse de turistas por ali... Ou então alguém que me achasse com cara de Muçulmano, e se indignasse com a minha presença por ali, ou alguém que me achasse com cara de um Sikh sem turbante, como uma vez me definiram por lá. De qualquer forma não olhei para cima, nem para trás, e voltei caminhando mais ou menos lentamente. “Nem tão devagar que pareça provocação, nem tão rápido que pareça que você está com medo...”

 

Um outro condutor de riquixó “grudou” em mim. Os Indianos pobres “grudam” na gente. Sejam homens de riquixó oferecendo seus serviços, sejam pedintes, sejam vendedores... Só lhe largam, aparentemente, quando você lhes atende. É desagradável. E depois de algum tempo na Índia, fica-se saturado com a persistência daquele tipo de assédio. Começa-se a ser grosseiro, mas eles nem se importam...

Laldi Lalan, todavia, não era desagradável, apesar de ser forte, insistente e perseverante nos seus pontos de vista. Não tentava arrancar dinheiro a qualquer custo, e buscava se racional quando tentava lhe convencer. Falava manso e era simpático e modesto. Cerca de cinqüenta anos, orgulhava-se de ser um profissional do riquixó, ciclo riquixó.

Fazia ponto na sombra de uma grande árvore, nas proximidades do hotel onde eu estava. Não tinha boas relações com os donos do hotel porque tratava diretamente com os seus clientes, sem a intermediação do hotel, e sem receber comissões do hotel. Achei-o logo simpático.

Encontrei-o pela primeira vez quando me dirigia às margens do Rio. Ele ofereceu-se para me levar aonde eu quisesse. Ficaria à minha disposição e eu lhe pagaria só o valor dos percursos. Consegui não só um transporte, para os constantes passeios, mas um excelente e simpático guia local. Levou-me aos locais que eu já queria ir, por sugestão do meu guia de viagens, e a outros que não estavam no guia: aos vários ghats do Rio, ao Templo Dourado, dedicado a Shiva, à Grande Mesquita de Aurangzeb, ao Templo de Durga, o Deus Macaco dos Hindus -- um dos curiosos templos indianos habitados por centenas de macacos que perambulam por todos os lados, e que podem ser às vezes hostis aos visitantes. (Durga, afinal, é um deus guerreiro). Levou-me ao correio e indicou-me lugares de compras.

Quando eu queria, antes do amanhecer, estava me esperando,  para me levar às margens do Rio, onde eu queria ver e ouvir os rituais matinais de purificação, os banhos, os mantras, os Sadhus (Homens Santos) de cabelos desgrenhados e de cara leve e tranqüila, passeando pelas margens do rio, ou sentados em tablados às suas margens, a sua mais própria morada.

Laldi Lalan cuidava da minha segurança, indicando lugares onde era necessário ser mais cauteloso, me aconselhando a evitar beber ou fumar qualquer coisa que me oferecessem, podia ser narcótico, e acontecia de turistas acordarem roubados de seus pertences, depois de fumar ou beber algo oferecido por pessoas em Varanassi.

Uma tarde sugeriu-me visitar uns artesãos que trabalhavam com tecidos de seda. Foi a única vez que agiu como um “tout”, que leva turistas a estabelecimentos com os quais mantêm contratos, e ganham comissões pelo que os turistas compram. Não ganhou nenhuma comissão através de mim, porque não estava nos meus planos comprar seda ou algo similar. 

Persistente, sugeriu-me levar na casa de um músico tradicional de Varanassi, Manilal. Por esta eu me interessei, e caí de boa vontade em sua "armadilha", ainda sem saber ao certo que se tratava de uma.

Era uma casa pobre. Quando cheguei houve um certo alvoroço pela chegada do estrangeiro. Depois entendi que convocavam outros músicos que acompanhavam Manilal em suas performances. Manilal parecia um Sadhu. Cabelos, presos por um pente, e barba compridos, enrolado em um sari branco. Extremamente simpático. Segundo ele, já havia sido levado para apresentações na Alemanha. E poderia vir ao Brasil, se eu conseguisse a passagem, um contrato para dois ou três meses de apresentações "patrocinadas pelo Ministério da Educação"; e "uma autorização do Ministério das Relações Exteriores", explicava-me ele detalhadamente, como seu eu tivesse o maior acesso ao Poder em Brasília... Com relação a sua comida, eu não precisaria me preocupar, dizia ele. Ele mesmo a prepararia diariamente. Parecia que havia aprendido sobre estes pré-requisitos em sua experiência alemã.

Levaram-me para uma pequena sala, forrada de esteira e tecido branco, dentro da pequena casa. Curiosos, crianças e adultos, olhavam pela janela. Serviram-me chá, como sempre o fazem. Desconfiado, quis recusar, mas achei que poderia ser ofensivo. Além do mais, Lalan me dava uma certa segurança. Humilde, acocorou-se na soleira da porta da sala, com um copo de chá. Era de casa, pelo visto. Chequei para ver se o meu chá era do mesmo bule que o de todos, e se todos já o estavam tomando, antes de arriscar o primeiro gole. É uma coisa imprudente beber algo de estranhos quando se está viajando, em particular por ali. Mas há situações que não dá para evitar, ao mesmo tempo em que tudo leva a crer que há uma relativa segurança. Tomei e relaxei de minhas preocupações...

Eram quatro os músicos, com Manilal. Iniciaram a apresentação... Por mais de duas horas desfrutei de um recital da mais típica música indiana executada por aquele grupo de mestres de  Varanassi. Recostado sobre as almofadas, no chão, daquela casa simples, mas limpíssima, como muito freqüentemente parecem as casas indianas, e os próprios indianos. Manilal parecia, de fato, um virtuoso de sua arte. Tocavam e trocavam idéias, que, em hindi, eu não entendia, após cada peça. Deliciei-me.

Ao final veio a “facada” que eu muito ingenuamente acreditei que não viria. Simpáticos e delicados, sugeriram que queriam que eu pagasse o que seria mais ou menos o equivalente a três diárias do hotel onde eu estava... Negociei. Sempre há que se negociar com um indiano... E ficou pela metade. Eu devia ter entendido que toda aquela mordomia não podia ser de graça... Mas valeu demais a pena.

 

No último dia, eu tomaria o trem antes do meio dia, para Khajuraho. Queria ir às margens do rio mais uma, e pela última, vez (naquela viagem). Combinei com Lalan para me apanhar no hotel antes do amanhecer. 

Era noite ainda, com o céu estrelado, quando lá chegamos, depois de percorrer, por uns dez minutos no seu ciclo riquixó, o caminho desde o hotel, no frio manso da madrugada. Ele ficou no ponto onde chegamos, e, descendo pelas becos, eu fui caminhar ao longo do rio, de suas areias e escadarias, limitadas pelos milenares prédios sagrados de Benares. Aquela é a hora que os devotos preferencialmente escolhem para suas práticas religiosas, e há geralmente muita gente por ali. Caminhei por entre aquele povo, maravilhado, e maravilhado, de vez em quando, com o brilho de uma estrela, tão claramente brilhantes, naquela escuridão do pré-amanhecer; esquecido quase que completamente do fato de que era ali um estrangeiro de tão longe...

No íntimo, ainda que não pensasse, guardava e queria guardar fundo dentro de mim a convicção da constatação de Espinosa, de que, sou humano, e nada do que é humano me é estranho... 

Ao longe, a chama do fogo dos crematórios perdurava durante a madrugada.

Por vezes, eu parecia invisível, tal era o fechamento para mim da consciência daquele povo e de suas práticas. Eles entoam mantras sagrados. Os homens banham-se contrita e ritualmente no Rio, apenas com uma exígua tanga; as mulheres envoltas em seus saris. Enquanto se banham, fazem toda uma série de práticas e de orações. Lavam obsessivamente as roupas brancas. Alguns vão de barco até o meio do Rio e lá executam práticas sagradas, atiram flores e outros objetos rituais na água. Outros vão até os Templos e oratórios na margem, antes de dirigirem-se à água. Sadhus e mendigos, e certamente mendigos Sadhus, caminham ao longo da margem. 

Um aproximou-se de mim, com vários colares de flores na mão, e me pediu dinheiro, fazendo um gesto de que era para comer. Dei-lhe um trocado e ele ficou eufórico. Mandou que eu abaixasse a cabeça, e colocou em volta do meu pescoço um colar de flores alaranjadas, muito comuns na Índia e em particular por ali. Fiquei alegre com aquilo, ainda que me achando um pouco ridículo. Por minha iniciativa, eu não colocaria um colar daqueles no pescoço, mas, colocado por alguém de lá, eu assumia com alegria...

Os tons dourados do sol do início do amanhecer, que vem por detrás das terras da margem oposta, trazem o lento transbordamento de uma mansa sensação de plenitude, que, pode-se sentir, é compartilhada por todos. Uma interessante mistura e intersecção de apoteose e de recomeço... Há uma crescente e silenciosa alegria, que transpira na suave intensificação dos mantras e das práticas rituais, à medida que a luz do dia lenta e silenciosamente dissipa a escuridão. É como se a sensação de plenitude e alegria acompanhasse o desdobramento da luz. Agrada olhar no rosto das pessoas que se sabia que estarem ali, também, sem que lhes víssemos os traços, no meio da escuridão. É uma alegria recíproca. Como se compartilhássemos efetivamente a transição cósmica da escuridão do dia para a insinuação das claridades da manhã.

Dia claro, sentei em um batente de uma escadaria e fiquei observando tudo ao redor e ao longe. Em particular, umas pessoas próximas, que se banhavam ritualmente. Lembro bem de um homem forte e alto, de cabeça raspada, que banhava-se de modo profundamente compenetrado. Próximo, também, num dos tablados que são comuns por sobre o Rio, e onde ficam Sadhus em contemplação, ou conversando com devotos, havia um homem, baixo e de pele escura, sentado, contemplando o Rio. Chegaram mais uns dois, que não tinham aparência de “Homens Santos”, e ficaram conversando. Fiquei observando-os, enquanto o primeiro preparava um fumo para colocar em um pequeno canudo, que eles costumam usar para fumar, prendendo-o entre o indicador e o anular, ou entre o mínimo e o médio de uma mão, enquanto fecham as duas em concha, e puxam a fumaça pela abertura que fica entre os polegares.

Eu os contemplava e contemplava o Rio, e a tudo que por ali se passava, quando um Sadhu aproximou-se do tablado. Conversou com os outros e sentou-se, começando a preparar, também, fumo para fumar, contemplando o Rio. Era conhecido e reverenciado pelos outros. Percebeu-me ali, a poucos metros, um pouco acima, sentado no batente da escadaria, e me chamou. Fiquei meio desconcertado e surpreso, mas fui. Chegando próximo ao tablado sobre o Rio, ele me convidou para sentar no tablado, onde ele estava com o primeiro homem, enquanto que os outros dois estavam em pé ao lado. Sentei. Ele tentou trocar algumas palavras, mas aparentemente não falava inglês, ou não queria falar inglês. De qualquer forma, mostrava-se muito simpático e receptivo, hospitaleiro em seu tablado sobre o Rio,  enquanto preparava o seu fumo, silenciosamente. 

Silenciosamente compartilhei daqueles momentos. 

Preparado o fumo, que ele amassava nas mãos, ele socou-o no pequeno canudo diligentemente, e acendeu-o em seguida, dando lentas baforadas. Tragou-o, ofereceu-o aos outros, e igualmente me ofereceu. Ficamos ali, silenciosamente, sem nada fazer, apenas contemplando o Rio, o contemplado Rio, e fumando, comungando silenciosamente.

Em pouco senti que o fumo não era só tabaco. Era certamente haxixe, como descobri depois. É um coadjuvante que eles usam na 'viagem' da contemplação do Ganges. Ficamos um tempo ali... Em seguida, ele decidiu-se a ir embora. 

Eu fiquei mais um tempo com os outros homens, mas o clima não era o mesmo... Um deles, sem que eu entendesse por quê, pareceu começar a dar sinais de hostilidade, e eu percebi que era hora de “picar a minha mula”. Mesmo porque aproximava-se a hora de eu pegar o trem.

Saí meio zonzo, e devagar, mas bem. 

Encontrei Lalan, que me esperava. Reprovou-me pelo fumo. “Você fuma, dorme e acorda sem nada. Além do mais, eles podem, mas se a polícia lhe pega...” Não adiantou eu lhe explicar que eu não sabia que era haxixe...

Pouco depois, ainda zonzo, eu procurava pelo meu trem na Estação Ferroviária, com destino a Khajuraho.

Estes foram alguns dos pequenos presentes que eu trouxe de minha passagem por Varanassi. A milenar Benares.

Nemastê!

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TARDE DO TITICACA DOS ANDES

 

Por sete dias quedamo-nos ali... As águas cristalinas e frias: o Titicaca a alguns passos; a planura vastíssima e silenciosa do Altiplano; as montanhas eternamente nevadas dos Andes, de picos brilhantemente brancos em nossa volta; as tímidas lhamas e alpacas, tranqüilamente pastando; as plantações de batatas dos descendentes dos Incas: seus barcos de Totora, a pele escura, curtida pelo intenso e cristalino sol da cordilheira, os gorros coloridas, com longos protetores  sobre os ouvidos; o rosto grave, de uma seriedade profunda, vincado aparentemente pela resistência secular a uma tristeza e melancolia infinitas...

Tudo isto parecia concentrar-se mansa e lentamente num paroxismo curiosamente intenso e silencioso, ao longo silencioso da tarde.

Que coisa mais incrível e impressionante é a silenciosa, e quieta, tarde das planuras do Altiplano Boliviano, do Titicaca e das montanhas nevadas dos Andes!

O silêncio e a quietude são o consistente e firme fundo de tudo, e a tudo emprestam o seu ritmo. Parecem adensar-se progressivamente ao longo do dia. A tarde é o momento ciclicamente reiterado do espetáculo de sua eloqüência, a eloqüência paradoxal e impressionante do silêncio, e da quietude de gigantes. Verdadeiros deuses, sem dúvida: o Lago, o Altiplano, as Montanhas, sob a claridade do sol e do límpido e cristalino azul do céu.

Sua quietude e silêncio majestosos imperam soberanos e a tudo submetem... devoram. As progressivas sombras da tarde com eles se compõem, e a noite é a sua apoteose e denominador comum.

Nos Andes, as estrelas brilham mais intensas, através da transparência cristalina do ar das alturas e da pureza negra do céu.

 

O Altiplano, as montanhas, o Lago e o céu, o sol, as estrelas dos Andes foram o lar de um povo que soube estar à altura deles. Um povo que entendeu que só podia co-habitar com a sua grandiosidade e beleza majestosa, com os seus mistérios, se os divinizasse, se os sacralizasse, se os ritualizasse, e a eles prestassem o tributo contrito e respeitoso de uma reverência religiosa.

E assim o fizeram os Povos dos Andes: o Lago sacralizou-se, as montanhas divinizaram-se. Templos foram consagrados à água, nos quais ela podia ser coletada da chuva e dos rios e fluir por cuidadosos caminhos rituais, caprichosa e arduamente talhados nas pedras, e jorrar em pequenas cascatas nos “altares”, onde era reverenciada em sincera veneração. Templos também foram devotados às estrelas, ao céu, à lua e ao arco-íris. Montanhas constituíram-se em deuses e deusas, e como tais foram reverenciados.

Assim, os Povos dos Andes conviveram com o mistério e grandiosidade de seus elementos, sem ser por eles esmagados, tragados, ou por eles enlouquecidos. Assim foram eles, e são, dignos do Altiplano, das montanhas, do Lago, do céu, do cristalino sol e das estrelas, da quietude e do silêncio dos Andes.

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ISLA DEL SOL

Daí, atravessando o Estreito de Tiquina, e margeando sempre o incrível azul do Lago, ornado pelo branco das montanhas nevadas, chegamos a Copacabana, já nas proximidades da fronteira da Bolívia com o Peru.

Copacabana foi o ponto de partida para uma incrível viagem à Isla del Sol, no meio do lago. Ilha sagrada dos Incas, que, de Puno, Cuzco e Machuppichu a ela se dirigiam para realizar os seus rituais mais sagrados.

Navegamos por quatro horas pelo Lago. Sempre e sempre extasiados, literalmente, com a sua beleza, com a beleza das montanhas e com a sua incrível conjugação. Ora verde, ora azulada, ora quase preta, a sempre gélida e cristalina água.

Contornando uma outra ilha, avistamos a Isla del Sol, que é quase toda uma montanha...

Nosso barco dirige-se para um pequeno cais. Um lugar singelamente paradisíaco. Ficava em uma pequena praia de pedras, como são, em geral as praias do Titicaca. Da praia, imediatamente, iniciava-se a elevação da montanha. No topo da qual situava-se a pequena aldeia Quechua, de descendentes dos Incas, construída de pedras e palhas, praticamente como no tempo de seus antepassados.

Aí nos hospedaríamos.

Subindo a montanha, em linha quase reta, uma imensa e íngreme escadaria, com centenas de degraus. Paralelo e próximo à escadaria, um pequeno regato descia em queda acelerada desde o alto da montanha, até chegar à prainha de pedras, e verter-se para dentro do Lago. Flores ornavam ambos os lados da escadaria e do regato.

Tudo aquilo compunha com o lago, com as montanhas e com o nosso enebriamento e fascínio um paradisíaco cenário de irrealidades e beleza.

 

Mal o barco aproxima-se do cais, descem saltitantes pela escadaria abaixo, como que para completar o clima edênico, cinco ou seis indiazinhas alvoroçadas com a nossa chegada, acompanhadas por duas lhamas. Riem muito e trazem flores.

Somos “presenteados” com as flores e pedem-nos dinheiro em troca... Não falam o espanhol, mas falam abundantemente, e riem muito. Segundo um intérprete improvisado, comentam que eu pareço com uma das lhamas (a mais curiosa alusão à minha barba com que já me defrontei...), que tem um nome de homem...

Acompanham-nos, na penosa subida da escadaria; um sobre-esforço, a respiração forçada com o já rarefeito ar para nossos pulmões. Ajudam-nos com as mochilas. Outros garotos juntam-se ao grupo. A algazarra aumenta. Foi o nosso Comitê de Recepção na Isla del Sol.

Na aldeia, ficamos em um alojamento especialmente construído pra hospedar visitantes.

O final da tarde é absoluta e rigorosamente monumental...

Curtido da varandinha do alojamento, diante do lago. Relaxados, agora, em cadeiras simples, ficamos mudos de perplexidade, maravilhados, diante da quietude e da beleza monumentais; reverentes, como que para não atrapalhar... Tudo reitera a apoteose eloqüente do silêncio e da quietude das montanhas nevadas, no seu sólido e eterno lugar, e refletidas no quietíssimo e deslumbrante espelho do lago.

Sobre nós a noite desce “o pano” da impressionante cena do final da tarde. Somem na escuridão o lago, o contorno e o reflexo das montanhas eternamente nevadas. Estávamos literal e euforicamente boquiabertos, e plenos da alegria da beleza. E exaustos, quando nos vimos completamente envolvidos por ela. Não havia luz elétrica na ilha...

Jantamos trutas do lago (as onipresentes), com arroz e um arremedo de salada, acompanhados do igualmente onipresente chá de coca.

Antes de dormir, perambulamos passeando e conversando pela aldeia, que vivia a vida de sua noite, no interior das paredes de pedras de suas pequenas casas.

Um garoto nos guiou pelas estreitas ruelas. E era tão profundamente especial viver a noite de um lugar que ali estava, praticamente como era no tempo dos Incas.

Nos dias seguintes, percorremos a ilha de ponta a ponta, e visitamos as ruínas antigas de seus antigos templos, sempre em elevações voltadas para o Lago.

 

Quando partimos, tínhamos a perfeita consciência de que deixávamos para trás um espaço tão carregado de irrealidades, mas que naqueles dias tinha sido tão incrivelmente real e palpável. Os garotos nos acompanharam novamente na descida da escada até o cais, e até o barco. O regato gorgolejava ao lado, as flores, o lago, a montanha.

 

Quatro horas cruzando a água e as fronteiras da Bolívia e do Peru, até Copacabana.

 

Daí, a Puno, Cuzco e Machuppichu. À lembrança perene, e à saudade da singela, encantadora e rigorosamente deslumbrante Isla del Sol.

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A CASA DOS ESPÍRITOS DE BANGKOK

 

Cheguei a Bangkok por volta de 2hs da madrugada, vindo de Singapura. Sem conhecer a língua do país, e sendo-me Bangkok uma cidade inteiramente desconhecida, e enorme, e asiática, resolvi ficar no aeroporto até o dia amanhecer, e só então procurar hospedagem.

Comecei, entretanto, a ligar para algumas pousadas listadas pelo guia de viagens.

Os Tailandeses são simpáticos, mas o seu inglês é péssimo, quando não é simplesmente incompreensível. Vozes sonolentas informavam-me sempre que as pousadas estavam lotadas. “Full”, respondiam monossilabicamente, dando a impressão que era aquela a única palavra que conheciam de inglês.

Depois de várias tentativas infrutíferas, um recepcionista me deu o sinal positivo de que havia vaga. Fiquei em dúvida se corria o risco de perder a vaga, e esperava até o amanhecer, ou se corria o risco de  tentar chegar lá àquela hora da madrugada. Pelo mapa, não parecia difícil, e resolvi tomar um táxi, recurso que decidira só lançar mão em situações extremas ou especiais, o que era o caso, e seguir para a pousada, perto da Praça do Monumento à Democracia e da Khao San Road.

 Chovia forte, e o clima era abafado. O motorista tentou me explicar, em seu péssimo inglês,que, naquela época, chovia todas as noites.

Eu me deliciava com a passagem pelos movimentados “Mercados Noturnos” da cidade, em plena atividade àquela hora. Os feirantes diurnos preparavam-se para o amanhecer. Uma atividade incrivelmente vigorosa, emoldurada pelo o vazio e pelo silêncio da noite.

Na pousada recebeu-me um rapaz que namorava com uma garota num sofá da recepção. Conversamos rapidamente, preenchi a ficha e recebi a chave,  apartamento “415”.

O prédio da pousada era um dos muitos de Bangkok, e da Ásia,  sobre o qual se vai acrescentando andar por sobre andar, aparentemente sem o mínimo critério técnico de engenharia. Não havia elevador e eu subi andando os quatro lances de escada. No quarto andar, um longo corredor, onde eu comecei a procurar “a porta do 415”...

Prá meu desconcerto, o corredor encerrava-se na porta “414”...

 Fazendo o fundo do corredor, uma porta mostrava uma pequena sala, que não tinha número algum. Dentro dava para ver um altar com um grande e belo Buda Tailandês dourado...

Aproximei-me. De fato era um pequeno oratório Budista, com a grande imagem, inúmeras imagens menores de Buda, imagens de Ganeesh, flores de lótus, velas, e muito incenso...

Deram-me certamente a chave errada... “415” não há, pensei, preocupado em ter que descer os quatro lances de escadas, novamente... carregando a mochila...

Investigando melhor a pequena sala, descobri uma porta do lado esquerdo... Entrei na salinha e aproximei-me da porta. Não tinha numeração, mas era do mesmo lado da porta dos apartamentos... Pensei comigo: “Não é possível que tenham me dado um apartamento dentro do oratório...”

Não só era possível, como fora isso que acontecera...

Num misto de surpresa e desconfiança, meti a chave na fechadura e, ela girou... e abriu a porta.

Receoso, e voltando um pouco ainda o olhar para o altar, empurrei, atravessei em seguida a porta, com a sensação de estar cometendo um sacrilégio...

Para a minha total surpresa, em particular considerando o aspecto simples da pousada, encontrei-me no interior de um ótimo apartamento...

Totalmente inesperado... O chão com um belo e caro ladrilho azul escuro, uma bela cama, ar refrigerado de ótima qualidade (em geral eram ventiladores no teto), telas nas janelas, banheiro amplo, azulejado, e bem cuidado, cortinas... Continuei com a pulga atrás da orelha... A porta ainda aberta, por via das dúvidas.

Aos poucos fui me acostumando, em particular pelo cansaço e pela qualidade do apartamento, a cama enorme, e super convidativa... Pensei tratar-se de um apartamento para monges. Na falta de um deles, e com a pousada lotada, eles deveriam utilizá-lo com outros hóspedes... Fui até a porta. Fiz uma sincera e compenetrada reverência para o Buda do altar, e, seja o que Deus quiser,  fechei-a atrás de mim...

Banho tomado, cansado, mas sem sono devido à agitação e à mudança de fusos horários, deitei-me na cama... o altar atrás da parede, e peguei uma revista...

Li por um tempo, e quase cochilava já, com a revista nas mãos. Num dado momento comecei a perceber que a revista tremulava levemente...

 Parei para observar, intrigado... De fato, a revista balançava levemente... Não era eu, apesar do cansaço, que estava tremendo... Continuei observando. Ao início sem muito interesse.. mas  em seguida atento, por causa da insistência do balanço.

Percebi que na verdade não era só a revista que tremelicava, a revista balançava porque o meu corpo todo balançava... Não, não era eu que tremia, o corpo balançava porque a cama inteira balançava!...

Por um momento tive um receio, e achei engraçado...

Mas entendi que o balanço não tinha nada a ver com o altar. Na verdade, a revista balançava porque o meu corpo balançava, com o balanço da cama, e esta balançava porque o chão e todo o quarto balançavam!

 Devia ser algum problema de elasticidade do solo ou da construção, que fazia o solo trepidar à passagem de um veículo grande. Devia ser isto, apesar de eu não perceber por onde passavam grandes veículos àquela hora da noite e numa rua pequena como a da pousada. Mas eu sabia que isto podia acontecer, e já o presenciara antes.

Cansado, adormeci.

Um dia depois, lendo o Guia da Thailândia, li que toda casa e todo prédio Thailandês tem uma “Casa dos Espíritos”. Para eles, esta “Casa dos Espíritos” é necessária para que os espíritos se conservem dentro de um único aposento da casa, e não perambulem por toda a casa, perturbando as pessoas. O recurso de que se utilizam para atrair e manter os espíritos naquele aposento é o de construí-lo como o melhor aposento da casa. Desta forma os espíritos preferem manter-se nele... Aí eu entendi a qualidade singular daquele apartamento naquela pousada simples... Entendi, um pouco assustado, e igualmente deliciado, que eu estava numa Casa dos Espíritos de um prédio de Bangkok, contíguo ao oratório... Eles são muito reverentes, mas não perderiam as diárias de um hóspede tendo aquele apartamento desocupado.

Li isto deitado na confortável cama. Felizmente, já no início da tarde do dia seguinte, depois de um sono reparador. Eu não sabia se me amedrontava ou se ficava honrado. No íntimo, entretanto, eu tinha a sensação da segurança íntima de estar em paz com os espíritos. Em especial com os espíritos Thailandeses, e eu não tinha nenhuma motivação ou necessidade de abandonar  aquela cama e aquele apartamento... De fato a cama tremia, e continuou tremendo, ao logo dos dias em que eu me hospedei naquele quarto. Não foi coisa da minha cabeça. Mas isto não me incomodava muito, contanto que o prédio não desabasse comigo junto.

De manhã, nos dias em que lá permaneci, quando eu me levantava e abria a porta, depois do banho, e dava de cara com o altar, com o Buda e os outros Budas, com as flores, velas e incensos, diariamente renovados, tudo aquilo parecia-me  muito mais uma especialmente protetor do que uma ameaça. Na verdade, eu sinceramente considerava um privilégio...

Alto astral matinal, eu fazia a minha sincera e contrita reverência, erguia as mãos postas, na forma da flor de lótus, à altura da testa, e acima, concentrado na generosidade, benignidade e bem-aventurança do Buda . Como é simples, bonita e sincera a religiosidade dos Thailandeses...

Tendo tomado o café matinal, eu saía leve e alegre para a incrível viagem no tempo da Ásia que é visitar os mosteiros, palácios e museus de Bangkok, para o encontro com a ingenuidade, beleza e firmeza de seu povo. Com os seus Budas famosos, com as suas  gestuais e delicadas danças tradicionais, fantasticamente harmoniosas, com o boxe violento e com a apimentada e singularmente deliciosa comida.

Bangkok é uma festa. As pessoas gostam de se encontrar nas ruas, gostam de comer e beber nas ruas, e tudo tem sempre um clima de risos e celebração... À noite muitas esquinas viram restaurantes populares ao ar livre. Alguém instala um fogão e umas mesas e começam a materializar-se, como que por encanto, pratos deliciosos de carnes, legumes, arroz... E as pessoas comem e conversam animadamente.

Os “tuc-tuc” (taxi triciclo) infernizam os ouvidos e fazem o traço de união entre a cidade velha e a cidade nova. As motos, os enxames de motos de Bangkok, buscando o seu caminho no tráfego intenso das ruas da cidade, ensinam que os tailandeses buscam ainda, na era tecnológica, as trilhas da linha de menor resistência...

Demorei-me mais em Bangkok do que os três ou quatro dias que costumam ficar os mochileiros, resolvendo os problemas de meu visto para a Índia. Imagino que o pessoal da pousada começou a ficar meio cismado com aquela figura Centro-Asiática que demorava-se tão confortavelmente em sua “Casa dos Espíritos”.

E eu nem ligava, azar o deles...

 

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NA FOZ DO TEJO

 

À medida que a tarde termina, aquele farol no forte, na ilhota em meio à Foz do Tejo, esmaecido pela bruma branca, vai ganhando um ar ainda mais irreal...

 Na verdade, ele some cada vez mais, desaparece, esboroando-se, à medida em que se adensam a bruma e a escuridão... Cada vez mais pálido, cada vez mais velado, cada vez mais inexistente, naquele espaço da certeza de sua existência...

Sua rotativamente cíclica e vigorosa luz, um lindo e surpreendentemente intenso tom verde, brilhante, da cor viva da esmeralda realiza, todavia, o caminho inverso. Surgiu a partir de um certo momento no final da tarde, empalidecida, ainda, pelas claridades do dia. Mas, à medida em que o farol some, fantasmagórico, engolido pela névoa e pela escuridão, sua luz destaca-se, cada vez mais intensamente verde, e cíclica.

Desaparece e recomeça a aparecer, em seu rítmico percurso circular. Reaparece como um ponto, que vai se adensando e se intensificando, até a sua intensidade e brilho máximos, para ir, em seguida, desaparecendo, até quase sumir. Depois do intervalo de ausência de seu cíclico ritmo, volta novamente a adensar-se, a adensar o seu brilho.

A Intensificação da escuridão vai tornando a sua luz, também, cada vez mais intensa e brilhante, garantindo, assim, com a intensidade de seu brilho cíclico, a existência noturna do farol, do forte e da ilha, que, de outra forma, inexistiriam na fechada escuridão da noite.

             Catalazete-Oeiras, Lisboa, Portugal.(30.07.1992)

 

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CAVERNA DE ELIAS, EM HAIFA 

 

A encosta do monte debruça-se sobre o Mar Mediterrâneo Oriental, no Norte de Israel. É uma linda paisagem, e uma vista privilegiada por sobre o mar. Abaixo, a antiga Cidade de Haifa, com o seu Porto milenar.

Ali, segundo a Tradição Bíblica, Elias marcou um confronto com o sacerdote da Religião Baal. Tratariam de disputar sobre qual dos Deuses de cada uma das duas religiões seria o verdadeiro Deus. Se não me engano, a disputa ocorreria em torno da capacidade de cada um dos dois contendores provocar a chuva. Reuniram-se numa caverna na encosta do morro...

Elias venceu, fazendo chover, enquanto que o Sacerdote Baal não logrou o feito.

Tão remoto é o episódio na história bíblica, que é compartilhado em seu sentido religioso por Judeus, Árabes e Cristãos. A “Caverna de Elias”, como ficou conhecida, é assim um lugar monoteísticamente sagrado, tanto para o Judaísmo, como para o Islamismo e para o Cristianismo. É ali, no fundo, e na escuridão de uma caverna, iluminada pelas luzes das velas dos devotos, cercada pelo ambiente silvestre simples da encosta do morro, um dos lugares tradicionais onde judeus, árabes e cristãos se encontram e não brigam. Oram e compartilham o imaginário daquele pequeno lugar, naqueles momentos em que ali estão.

No dia anterior, eu tentara encontrar a caverna, descendo a encosta do morro, por dentro do mato, pelas trilhas cobertas de pequenas pedras. No topo do morro, parte alta da Cidade de Haifa, encontra-se uma pequena capela, no local onde José, Maria e Jesus teriam repousado, quando voltavam do Egito. Por ali,  eu podia sentir perfeitamente o ambiente compartilhado por Elias e pelo Sacerdote Baal, a vegetação do morro, a linha da costa do que hoje é Haifa, e o Mar Mediterrâneo estendendo-se azul em direção ao Ocidente.

Mas não consegui encontrar a caverna naquele dia. Em particular porque eu estava muito cansado, e não me dispunha a descer muito o morro para não ter que, também, subir muito na volta.

Naquela tarde, eu perambulei pela parte alta de Haifa. Comi, comprei coisas e visitei o interessante Jardim de Esculturas, plantado num ponto de onde se tem uma bela vista da Costa. Passei também por um curioso Templo Hindu, cujo profeta foi morto na Índia e os seguidores construíram em Haifa o Templo Sede de sua religião.

Na tarde seguinte, depois de visitar o Museu Naval de Haifa, e o Museu da Imigração de Israel, descobri a avenida que passa na base do morro e tomei o caminho até a Caverna de Elias, e fui lá.

A entrada, no bosque que dá acesso à entrada da Caverna, tem a aparência de um local de pic-nic de romeiros. Dentro do conjunto de pequenas cavernas uma pequena multidão se aglomera num ambiente de fervor religioso, que transpira uma curiosa alegria. Tudo é escuro, abafado e úmido, iluminado pelas chamas das centenas de velas que são continuamente acesas. Ali oram juntos judeus, árabes e cristãos, dissimuladamente celebrando, talvez, o tempo e o lugar de sua unidade. As pessoas, em particular as crianças, distribuem confeitos com uma comovente transpiração de alegria. Como tem muita gente, fiquei com as mãos cheias de confeitos, e depois os bolsos. Não sei muito bem de qual religião eram os fiéis que os distribuíam. Um senhor Judeu, de barbas negras e aparência simples de agricultor -- dava a impressão de ser daqueles que nunca saíram de Israel --, aproximou-se e perguntou, bem humorado e risonho, pelo meu solidéu. Observou que ali era um lugar sagrado... Expliquei-lhe que eu era do Brasil... Ele certamente não entendeu o que é que aquilo significava, e continuou rindo...

Zanzei por ali, no ambiente abafado e úmido, agravado pela respiração daquela quantidade de pessoas, ainda recebendo confeitos, que eu não sabia onde pôr, mas que eu achava que seria grosseria recusar...

Quando saí da caverna, a claridade, o ar fresco, a amplitude, a ausência das velas, e daquela curiosa multidão que orava, e alegremente se presenteava na penumbra, trouxe-me forte a impressão de que aquele lugar da caverna era um mundo à parte, um mundo tão subterrâneo e tão vivo...

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CHIANG MAI

 

Monges, entre solenes e ingenuamente infantis, vestidos em suas túnicas da cor de açafrão, soltando imensos balões coloridos no terreiros dos templos... Balões que haveriam de levar e dispersar no alto céu as coisas ruins do passado ano. O céu azul pontilhado de ascendentes balões coloridos vagando ao vento, depois de se libertarem da superfície da terra e da altura das montanhas cobertas de matas...

Fui visitar um templo, numa manhã, e encontrei os monges, misturados com os meninos no terreiro, soltando os balões, contemplados pelas fantásticas silhuetas de águia que invariavelmente fazem o acabamento dos beirais dos telhados dos templos da Thailândia.

Entre rituais e lúdicos, desembrulhavam os enormes balões, da altura de uma sala. Os balões não tinham tocha em seu interior. Eram colocados sobre a fumaça negra de um fogo aceso em uma lata no chão, e lentamente começavam a inflar-se com a fumaça e com o ar quente. Um laço, preso por uma vara, sustentava a sua extremidade superior, enquanto não estivesse completamente inflado. A tensão crescia à medida em que o ar quente armava plenamente o balão. Inicialmente inerte, ganhava aos poucos vida e autonomia, constituindo-se como personagem ao qual estavam todos atentos. E que personagem... capaz de galvanizar as emoções e as atenções de todos.

Assim que possível, a vara era retirada do laço, e o balão agora sustinha-se sozinho, apenas segurado cuidadosamente em sua base, para que não iniciasse prematuramente o seu vôo.

A excitação aumentava com os arroubos ascendentes do balão. Os monges riam e brincavam com e como as crianças, exteriorizando toda a deliciosa mistura Thailandesa de ingenuidade, alegria espontânea, reverência e ritualismo. Orientavam e ordenavam, também, como guias experientes dos procedimentos e técnicas milenares da singela cerimônia...

Plenamente inflado, ao balão era permitido satisfazer os seus impulsos ascendentes. Delicadamente, as mãos o acompanhavam e orientavam, até onde permitia a altura de um braço humano... A seguir, os momentos mais intensos de tensão e de apreensão... Inseguro e cambaleante, o balão estava só... Transitava perigosamente por entre as pontas agudas dos telhados dos prédios do templo, mas endireitava-se aos poucos, empinava e ganhava altura... Alegria generalizada, alívio, mil comentários na difícil língua Thailandesa, risos, e aqui e acolá, sempre,  uma ponta de orgulho ingênuo pela proeza.

O balão ganhava os céus. Primeiro contra o verde das matas que subia a encosta das montanhas circunvizinhas... aos poucos, em seguida, contra o azul puro dos céus tailandeses. E passava aos poucos a fazer parte, nas alturas, da suavemente ascendente e colorida comunidade balões que pontilhava os céus de Chiang Mai naqueles dias. Acompanhavam-no todos deliciados, fascinados, à medida em que ele, aos poucos, perdia-se na numerosa comunidade de coloridos balões do céu azul e puro de Chiang Mai, no Norte da Tailândia.

Era o festival do Loi Krathong, que os Tai comemoram na Lua Cheia de Outubro, como uma grande festa.

***

Logo que cheguei e dirigia-me ao meu quarto, em uma pousada toda construída de madeira, a simpática proprietária chamou-me a atenção para os meus sapatos. Delicadamente explicou-me que ali eu só podia entrar de pés descalços.

Nunca o meu tênis, companheiro de todas as horas, me parecera tão grande e inadequado...

***

 

Uma tarde, na tarde do dia da lua cheia, ela me informou que haveria, à noite, uma cerimônia no templo, e que eu estava convidado.

Quando voltei de andanças pela cidade, no início da noite, todos os muros e portões da pousada estavam cheios de pequenas velas achatadas, que já são fabricadas dentro de um pequeno recipiente de barro cru. O fogo das centenas de velas fazia linhas pontilhadas por toda a extensão dos muros da pousada.

Tomei o meu banho e um chá com torradas, no pequeno e simples restaurante ao ar livre na frente da pousada.

Daí a pouco, a proprietária chegou com algumas bandejas grandes, cheias das pequenas velinhas, que estão por toda a parte de Chiang Mai nesses dias do Loi Krathong, e muito incenso. Deu-me uma das bandejas e convidou-me para ir até o templo, que ficava do outro lado da rua, um pouco mais abaixo. Outras pessoas carregavam as outras bandejas.

Seguimos, eu ela e mais umas três ou quatro pessoas que trabalhavam na pousada, em direção ao templo. O templo tinha bastante gente, mas nada de superlotação. Descalçados os sapatos na entrada, dirigimo-nos ao altar principal, onde um grande Buda dourado imperava sobre inúmeras outras imagens búdicas menores. Já havia muito incenso, flores e velas.

Nossa tarefa seria dispor todas as velinhas que trazíamos por sobre o altar. Era como se fosse uma oferenda da pousada, e só então entendi que eu ia como hóspede.

Eram muitas velinhas, já que trazíamos quatro ou cinco bandejas cheias. Sentados no chão, distribuímos as velinhas pelo altar.

O templo era simples, as pessoas mais simples ainda, mas era simplesmente fascinante estar ali. Fascinava o pequeno brilho bruxuleante da infinidade de velinhas, o cheiro forte e perfumado do incenso, o colorido das flores, a sublimidade do grande Buda dourado, todo iluminado, e, sobretudo, a sinceridade e sublimidade simples da devoção Tai. Nada de grandes ostentações, tudo muito simples, interior e pessoal, mas transparecendo uma grande profundidade e intensa sinceridade: a belíssima saudação Tai, de mãos postas, em forma de flor de lótus, elevada à altura da testa com uma inclinação do corpo, uma oração, ou algo parecido, sentado sobre os calcanhares, inclinando-se eventualmente, até a testa tocar o chão. Tudo muito compenetrado, sincero e profundo. E pronto. Alguns permaneciam desta forma, outros davam-se por satisfeitos e saíam risonhos.

Distribuímos velas, incensos e flores pelo altar. E enquanto eles oravam eu me entregava a tudo aquilo, como a melhor forma de participar. Uma atitude de oração ocidental me parecia inteiramente despropositada...

O pessoal da pousada foi embora, e eu ainda fiquei por ali por mais um tempo... Curtindo aquele momento. Um monge começou a leitura de um Sutra. Em tailandês, evidentemente. Mas eu fiz questão de escutar, mesmo sem nada entender...

Voltei para a pousada e fui convidado por um grupo de pessoas ligadas à pousada, no qual estava a proprietária, que tomava cerveja em uma das mesas no pequeno restaurante. Conversamos animadamente num inglês macarrônico. Rimos muito, enquanto eu me deliciava de tomar cerveja com Thailandeses, na Thailândia, como se estivesse numa mesa de bar no Brasil. A cerimônia nos tinha aproximado.

Lembro que havia um rapaz do Laos na mesa. Eram todos muito amigos dele, e explicaram-me, às gargalhadas, que ele estava clandestinamente na Thailândia. Não entendi porque riam tanto por causa disto, claramente havia algo que eles compartilhavam secretamente sobre o companheiro. Imaginei que certamente não era boa coisa. O Norte da Thailândia, faz fronteira com o Laos e Burma, atual Myammar, região conhecida como  Triângulo de Ouro, por ser a região de maior produção de ópio do mundo. Problemas com tráfico de drogas podem dar cana feia em Chiang Mai, e na Thailândia como um todo, por isso eu me antenei um pouco. Mas, de qualquer forma, o ambiente era bom, e de alegria. Não parecia haver maldade.

Naquela noite, não se podia dormir cedo em Chiang Mai. Era a noite da lua cheia. Lua cheia de outubro, última noite do Loi Krathong. Todos estavam como que eletrizados pela lua.

Multidões circulavam alegremente pelas ruas. Soltavam-se fogos chineses em grande quantidade. Fogos muito similares aos de São João. Havia um desfile e shows por toda a cidade.

Para todos, o ponto alto era colocar no rio uma pequena oferenda flutuante, formada por três hastes de incenso, uma vela, flores e uma moeda, que eram armados sobre uma fatia larga de um tronco de bananeira.

Todos armavam a sua pequena oferenda flutuante e dirigiam-se para o rio, em particular no final da noite. Sob a luz da lua cheia. Milhares de pessoas depositavam a sua pequena oferenda flutuante e luminosa no Rio Ping, e estas eram carregadas aos montes pela correnteza, rio abaixo. Era como se fosse uma enorme procissão de pequenos pontos luminosos descendo o rio, enquanto mais e mais pessoas nele lançavam as suas oferendas, para depois divertirem-se nos bares e bazares da margem até o dia amanhecer.

Além dos templos e das florestas, das belas fazendas de borboletas e de orquídeas, e das arrepiantes fazendas de cobras, dos Povos das Tribos das Montanhas, Chiang Mai foi muito isto naquele Outubro, o Loi Krothang, com sua mistura de religião, ingenuidade, alegria e festa.

E eu saúdo sempre a saúde e a pureza do povo Thai.

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TRERRAÇO
Nos domínios de Apolo

 

 

A chegada a uma ilha grega é sempre uma festa.

Muitas festas, na verdade, muitas festas. É esta a impressão. Contrastando com a soberba mono tonia da viagem, dos mares e céus azulíssimos, contra o ocre queimado das terras desérticas que aparecem, a chegada é festa só. A aproximação, as cúpulas azuis, e as casas branquinhas, branquinhas; o porto, cheio, literalmente cheio, de gente que parte, e pronto a encher-se de gente que chega; a agitação no navio; os mochileiros, arrumando sacos de dormir ou mochilas no convés, ou debruçados na amurada, contemplando o espetáculo; o ritual da operação de aproximação, administrada pelos milenares marinheiros gregos... Logo as escadas apertadas e calorentas... E atravessamos o piso mais baixo do navio, o ventre do navio, onde, amontoados, veículos de todos os tipos impacientam-se para sair, contidos pelo encerramento ainda das operações de abordagem...

E, súbito, estamos no porto singelo, em terra firme... Ou seja, no meio da festa, de um turbilhão de gente que vai entrar ou que saiu do navio, dos que vieram se despedir, e dos que vieram receber, dos veículos entrando e saindo... Dos marinheiros gritando e gesticulando os gestos de orientação e manobra...

Os “agentes” dos hotéis e pousadas, tentando agarrar clientes a qualquer custo, não são das figuras mais agradáveis, mas são às vezes muito úteis... Era um senhor magro e baixo, com um casaco gasto sobre roupas simples. Ofereceu-me a pousada para a qual ele trabalhava. Perguntei o preço. Era caríssimo para o meu apertado orçamento... Nada feito, eu disse, decepcionado, e preocupado em procurar um outro, ou subir do porto para a cidade para procurar de porta em porta...

Ele voltou a me procurar, “é só você?”, perguntou. “É!”, respondi. “Tem um pequeno quarto, eu posso falar com Moskola, para ver se está disponível." Assim mesmo, como se a Moskola fosse uma conhecida para mim, também... “Quanto é?”, eu perguntei... E ele disse que Moskola é quem tinha que decidir, mas que ficava em torno de uns U$12,00.

U$12,00 !!! Era uma pechincha. Paguei para ver, e aceitei subir até a pousada dele para ver do que é que se tratava, junto com um pequeno grupo de hóspedes que ele arrebanhara...

Moskola era uma jovem simpática, e elétrica, a gerente da pousada. Confirmou os U$12,00, e, depois de acomodar os outros hóspedes, foi me mostrar o quarto.

Era uma pousada modernosa e meio cafona, de três andares, cheia de mármores e granitos, ajambrados de mau gosto. Subimos até o terceiro andar, de lá ela embicou para mais um lance de escada... Eu pensei comigo, “Vôte, não são só três andares?”... “É no terraço”, explicou antes que eu perguntasse...

As casas Gregas, como as casas do Oriente Médio, têm invariavelmente um terraço no local que para nós é o telhado... Uma coisa tão simples e tão saudável e deliciosa...

O quarto era num terraço simples, de chão de cimento bruto, e praticamente sem uso, a não ser para estender roupas e lençóis, ao céu e ao sol de Paros – uma das Ilhas Cíclades, onde, segundo a mitologia, nascera Apolo.

“Quarto”, era força de expressão... Não obstante muito limpo, com chão de cerâmica branca, a contrastar com o chão do resto do terraço, paredes bem caiadas, um cabide, uma pequena janela e uma boa altura, não passava de um cubículo, de mais ou menos dois metros e dez, por dois. Quase que só o suficiente para um colchonete no chão, e um lugar para colocar a mochila... O banheiro era no andar de baixo.

Em compensação, a tarde era linda dali... A clara e brilhante tarde das Cíclades. O “quarto” era pequeno, mas eu teria à minha disposição todo o terraço, coisa que ninguém tinha... De vez em quando vinha uma funcionária estender lençóis. Atrás, subiam as colinas, quase desertas, com cabras aqui e acolá. Em algum lugar tinha um vilarejo, com um conjunto de casinhas brancas, uma igreja ou algo assim. Pela frente, o mar de Paros; e Antíparos, a ilha gêmea de Paros, e o canal a separá-las. Dos lados, algo da cidadezinha de Paros... E, no final da tarde, eu teria todo o por do sol sobre o mar azulíssimo e de cambiantes cores pastéis do crepúsculo para me deliciar...

Ri comigo mesmo. Por U$12,00 eu conseguiria a melhor hospedagem da Ilha, ainda que fosse tudo muito simples e mais que monástico. Nem cama tinha. Mas a cerâmica era nova e limpinha, branco neve...

Não hesitei, “Eu fico !” E Muskola, de imediato, sumiu, depois de despedir-se, pela porta que levava à escada que ia dar ao terceiro andar, no seu ritmo elétrico, deixando-me só no meu “castelo”...

Chegar à amurada era uma delícia, da mesma forma que sentar ou deitar por ela protegido.

As manhãs eram quentes. Mas eu não precisava dali entre as 09hs da manhã e às quinze horas. Depois de ler, e do banho matinal, eu fechava tudo e saía à caça de um café da manhã num dos botecos da redondeza.

Delícia da manhã da Grécia... Diferente das sombras da manhã de Olympia, ou da manhã de Atenas, mas deliciosa... Roscas matinais, frutas, pães, azeitonas, yogurt, suco, queijo e um café com leite...

Alguma coisa para o lanche, e direto para o pequeno cais, de onde saíam os barcos para as praias de Antíparos... Aparentemente, todo mundo ia para Antíparos. E os barcos eram muitos, sempre cheios de turistas... Vinte ou trinta minutos, e estávamos desembarcando no pequeno cais. Daí, andar pela praia, e procurar um lugar onde houvesse um arbusto, que pudesse dar também um pouco de sombra... O sol era de rachar...

Já passava do meio dia...

O sol era de rachar, mas mergulhar no mar da Grécia é algo de muito especial... A água é limpíssima, parece a água de uma caixa d’água, de tão limpa. E friinha, bem friinha, em flagrante contraste com sol escaldante que cozinha os miolos. Era quase como se a gente sentisse o corpo ferver, ao entrar na água, psssssss... Não tem areia só pedra e cascalho na borda, e barro, mais distante, ou pedrinhas. Por isso a água é limpíssima, cristalina... Peixinhos, sempre, únicos ou aos bandos... Aproximam-se, e se a gente ficar quieto ele começam a bicar delicadamente os cabelos das pernas, ou a pele dos pés, e a gente vê tudo...

As mulheres, turistas européias, invariavelmente de top less, estiradas ao sol, jogando frescobol, ou se banhando, ou em animados papos. Tudo na maior naturalidade...

A hora do lanche, uma hora especial... Um sanduíche ou uma massinha, um suco, uma fruta, bem guardados na mochila...

Lá pelas três da tarde, hora de arrumar as coisas, e começar a voltar...

Chegar em Paros era como voltar para casa...

Umas vezes, eu pegava um pequeno ônibus local, e ia fazer o circular, para conhecer as praias mais distantes. Era o meu "city-tour"...

 

Na volta da praia ou do passeio, um banho refrescante, a esteirinha numa sombra, no chão do terraço, um soninho legal... E depois uma boa leitura...

Eu lia das quatro até as sete, que ainda era dia claro, na sombra que aumentava, protegido pela amurada do terraço. Lá fora, ao alcance de um pequeno esforço, estavam as colinas, as casinhas, o mar, Antíparos, o canal, e o vilarejo. Aqui, era eu, o chão de cimento, a esteirinha de ráfia amarela e branca trançada, e a sombra... Ah! Havia também os lençóis estendidos, num canto, e o vento... O cálido vento grego do meio da tarde...

Lembro que eu lia textos de psicologia e de filosofia, tinha um romance, o I Ching, o Tao Te Quing...

E, presente de grego: ao final da tarde, invariavelmente, uma bandinha, como essas bandinhas mesmo do interior, começava a tocar. Disseram-me que era numa praça, em frente a um mosteiro, lá prás bandas das casinhas na colina. Eu só ouvia as retretas, de vez em quando empurradas pelo vento... Mas era uma delícia... Imaginava velhinhos tocando, homens e mulheres aqui e acolá escutando, crianças tomadas banho, brincando enquanto escutavam, instrumentos antigos e usados, tuba, tarós, caixas, pratos e flautas, cornetas, talvez... Era uma invariável invasão, e depois companhia, da leitura vespertina...

A leitura se interrompia, eventualmente, para ir até o cais, e ver as cores do pôr do sol no mar de perto da água. Ah, os azuis, os rosa e amarelos do pôr do sol do mar da Grécia...

Ou quando a fome começava a dar sinal...

Aí era vestir algo mais composto, e descer para os pequenos restaurantes, aqueles mais botecos, longe dos restaurantes mais turísticos... Carneiro invariavelmente, assado na brasa, guisado, ou ao vinho... Com um vinho para acompanhar...

Barriga cheia, e satisfeito do lugar, era sair a passear pela orla, onde os artesão vendiam tudo que era artesanato, aos turistas, que enxamevam para cima e para baixo... Até chegar o sono, e o recolhimento ao minúsculo quarto...

Esse Apolo sabia o que fazia, em particular quando decidiu nascer e viver neste lugar...

Nesses seus domínios, eu passei seis dias, dominado. Pela Grécia e pela simplicidade antiga e bem humorada do povo grego. Reverente e satisfeito...

 

Numa tarde, já não era mais tempo de leitura à sombra e ao vento da tarde de Páros. Tudo estava já arrumado, e o convés do navio me esperava, em direção a Pireus, e, mais uma vez, de volta a Atenas...

Despedi-me do meu delicioso cubículo e do incrível e amigo terraço, de Muskola e do seu agente.

Muskola divertiu-se de que eu tivesse ficado tão bem no cubículo do terraço, quase despercebido. Diferente dos hóspedes dos quartos de dentro, sempre exigentes e reclamando.

Eu tinha meus motivos...

 

 

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POSTA RESTANTE

 

Não se afobe, não
Que nada é p'rá já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar
Em silêncio
Num fundo de armário
na
Posta-Restante
Milênios, Milênios
no ar
(Chico Buarque)

 

Poucos lugares são tão ansiosamente almejados pelo viajante livre como a Posta Restante. O viajante larga-se no mundo, despede-se e distancia-se dos entes queridos e de sua terra, e embrenha-se, e embebe-se, em mundos diferentes, gentes estranhas. Os mundos são diferentes, as gentes são estranhas, mas, em sua metamorfose ambulante, talvez nunca o viajante seja tão ele próprio.

Os mundos são diferentes, as gentes podem ser estranhas, mas a Posta Restante é um lugar eminentemente heterogêneo, com relação a estas diferenças e estranhezas: ali, no pacotinho dos envelopes, que asseguram frescor e genuinidade, o viajante pode encontrar os entes queridos, pode, por um momento, estar em seus lugares queridos, saber das notícias... de um jeito que só as cartas trazem. É como um improvável encontro balístico. Como o encontro de duas trajetórias que haverão de efêmeramente cruzar-se no guichê da Posta Restante.

Por isto, poucas decepções são tão sentidas na viagem quanto chegar à esperada posta restante, e não encontrar as esperadas cartas...

Antes que tudo, o viajante espera em particular chegar àquela cidade para cuja posta restante ele pediu que os entes queridos enviassem a correspondência. A cidade da posta-restante combinada...

Chegado à cidade, a primeira providência, assim que possível, é despencar-se em direção ao correio e ao guichê da posta-restante. Freqüentemente, ainda com a mochila às costas. Os segundos nos quais o funcionário folheia o maço de cartas, cartas que esperam outros viajantes, são momentos de angústia...

E é invariavelmente inaceitável quando ele diz que não tem nada p’rá você... Reagimos com a atitude de negação típicas das situações de perda: - Tem certeza? Dá p’rá verificar novamente?... Não nos conformamos que as ansiadas, ou a ansiada carta não esteja lá... - Porra!...

Culpamos logo a ineficiência e a má vontade do funcionário. Ele não verificou direito! - Veja pelo meu primeiro nome... Nada. - Veja pelo meu segundo nome... Nada. - Veja pelo meu primeiro nome de família... Nada. - Veja pelo meu segundo nome de família... Nada. Veja pelo menu nome inteiro... O funcionário já puto da vida... Nada. - Merda!

Sentimo-nos abandonados, profundamente tristes, deprimidos... Uma vontade de sair andando, andando, andando, sem parar, até consumir e curar aquela tristeza.

Uma colega de viagem alemã esperava receber onze cartas quando chegasse a Delhi. E comentava isto, contando nos dedos, com incontida alegria, no trem em que transitávamos de Agra para Delhi.

Da estação ferroviária, fomos direto à Posta-Restante, na Conaught Place, antes mesmo de procurarmos por um hotel... Nada. Não havia uma única carta para ela. Nem umazinha...

Ela foi ficando triste, taciturna e calada. Começou a andar numa velocidade que, para acompanhá-la, eu precisava fazer um esforço olímpico... Reclamei e ela reagiu com uma grosseria. Eu respondi com outra. E só não fomos aos tapas porque éramos mais ou menos civilizados... Ela ficou taciturna e silenciosa por todo um dia, e quase nos estranhamos.

Foi assim também naquela cidade no interior da Índia.

Eu havia combinado com várias pessoas que escrevessem para lá. Quando cheguei, larguei a mochila em um hotel, tomei um riquixó e despenquei em direção ao Central Post Office, torcendo para que o condutor soubesse onde era, para não me atrasar. Entrei no prédio envelhecido e empoeirado, cheio de velhíssimos balcões de madeira, como o são as repartições públicas na Índia, e dirigi-me ao guichê da posta-restante.

Nada...

Os Correios da Índia têm uma longa tradição de posta restante, por causa do grande número de viajantes que sempre transitam por lá. Recebi as cartas em casa, cerca de seis meses depois, enviadas pelos remetentes, que as tinham recebido de volta... Cheguei nos correios daquela cidade, para apanhar as cartas, alguns dias antes delas. Elas chegaram, e eu já não estava mais lá. “Dormiram” por meses no escaninho da letra de meu nome, naquela posta restante, até que foram mandadas de volta aos remetentes, enquanto durava a decepção daquela tarde. De qualquer forma, bendita burocracia Indiana, que me permitiu recebê-las em Maceió, cerca de seis meses depois... O mesmo aconteceu com minha amiga alemã de Delhi. Ela teve a sorte de encontrar as suas cartas numa outra passagem pela Cidade.

Encontrar as cartas esperadas na posta-restante é uma das mais deliciosas experiências da viagem. É como se o mundo ficasse mais claro, e parasse. A gente se afasta tanto do ambiente imediato que é como se ele se distanciasse, sumisse, congelasse. Na verdade, ele continua lá, em seu ritmo próprio de sempre. A gente é que se retirou... Que se sentou no primeiro banco que encontrou, na primeira mesa, ou no meio fio ou batente da calçada mais próxima, e se retirou do mundo, para degustar a preciosidade que chega tão bem guardada no frágil envelope...

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