AVALIAÇÃO ORGANÍSMICA DA EXPERIÊNCIA: CONSICIÊNCIA, LIBERDADE EXPERIENCIAL E AFIRMAÇÃO NO TRABALHO PSICOLÓGICO E PSICOTERÁPICO.
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo
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AVALIAÇÃO ORGANÍSMICA DA EXPERIÊNCIA: CONSCIÊNCIA, LIBERDADE EXPERIENCIAL E AFIRMAÇÃO, NO TRABALHO PSICOLÓGICO E PSICOTERÁPICO
Afonso H Lisboa da Fonseca, psicólogo.
“Centro de avaliação. Esta noção refere-se à fonte dos critérios aplicados pelo indivíduo na avaliação de suas experiências. Quando esta fonte é (...) inerente à própria experiência, dizemos que o centro de avaliação está no indivíduo.” Carl R. Rogers.
“A consciência é a última fase da evolução do sistema orgânico, por consequência também aquilo que há de menos acabado e de menos forte neste sistema. É do consciente que provém uma multidão de enganos. (...). Se o laço dos instintos, este laço conservador, não fosse de tal modo mais poderosos do que a consciência, se não desempenhasse, no conjunto, um papel de regulador, a humanidade sucumbiria fatalmente sob o peso de seus juízos absurdos, das suas divagações, da sua frivolidade, da sua credulidade, numa palavra, do seu consciente. (...).Enquanto uma função não está madura, enquanto não atingiu o seu desenvolvimento perfeito, é perigosa para o organismo (...). Considera-se que o consciente é uma constante! Nega-se o seu crescimento, as suas intermitências! É considerado como ‘a unidade do organismo’! Sobrestima-se, desconhece-se ridiculamente, aquilo que teve a consequência eminentemente útil de impedir o homem de realizar o seu desenvolvimento com demasiada rapidez. Julgando possuir a consciência, os homens pouco se esforçaram por a adquirir; e hoje ainda estão nisso! Trata-se ainda de uma tarefa eminentemente actual, que o olho humano começa apenas a entrever, a de se incorporar o saber, de o tornar instintivo no homem (...).” F. Nietzsche.
“... a existência é culpada ou inocente? Então Dionísio encontrou sua verdade múltipla, a inocência, a inocência da pluralidade, a inocência do devir e de tudo que é. (...) A inocência é o jogo da existência, da força e da vontade. A existência afirmada e apreciada, a força não separada, a vontade não desdobrada, esta é a primeira aproximação da existência.” G. Deleuze.
“Toma cuidado! ... Ele está a reflectir: vai defender a sua mentira ... F. Nietzsche
As concepções de experiência organísmica, e de avaliação organísmica da experiência, têm um lugar fundamental no sistema conceitual desenvolvido por Carl Rogers. A experiência organísmica é, na concepção de Rogers, a fonte última de um conhecer saudável e criativo, que pode saudavelmente orientar a comunicação, o comportamento, a ação, da pessoa no seu mundo, e permitir-lhe uma avaliação e re-orientação destes. Num sentido psicodinâmico, a experiência organísmica é, por excelência, a fonte saudável de avaliação e seleção da experiência, e de constituição saudável da consciência, e da imagem de si da pessoa. Dimensões conscientes que constituem-se, e subordinam-se, no funcionamento saudável da pessoa, à dinâmica, potência, ritmos e intensidades próprios da experiência organísmica.
Rogers é claro ao indicar que, de um ponto de vista psicológico, a tendência atualizante desdobra-se na pessoa apenas de uma perspectiva eminentemente fenomenal. Ou seja, apenas através do vivido próprio e pontual da pessoa é que manifestam-se, a nível psicológico e comportamental, os influxos da tendência atualizante. De modo que a atuação da tendência atualizante na pessoa constitui-se basicamente como a sua própria experiência organísmica de si-e-do-mundo que lhe diz respeito, na necessária correlação fenomenal da pessoa com este mundo. Daí que seja a experiência organísmica, o vivido da pessoa, o fundamento intrínseco e o motor do funcionamento saudável e potente de sua personalidade. A concepção do funcionamento ótimo e saudável da personalidade não estaria distante da provocação de Nietzsche ao fazer uma apologia do ceticismo, em A Gaia Ciência[1]: “... Pois muito bem! Vamos lá, experimenta-te. Mas não quero voltar a ouvir falar de nenhuma questão que não autorize a experiência. Tais são os limites da minha ‘veracidade’”.
Assim, a avaliação saudável e potente do mundo que lhe diz respeito, e, em particular a avaliação de sua própria experiência, de seu próprio vivido, por parte da pessoa, tem um critério “interno”, inerente, intrínseco assim à própria experiência. A avaliação saudável e potente da experiência é, portanto, fundamentalmente experiencial, é avaliação experiencial organísmica da experiência. É, mais especificamente, assim, afirmação, afirmação da afirmação: afirmação da potência do devir da experiência organísmica, do vivido, da existência, em seus critérios e intensidades próprios. Com a concepção de avaliação organísmica da experiência, Rogers chega assim à afirmação da propria experiência organísmica da pessoa como fonte do critério de avaliação do mundo e da experiência, da pessoa.
A avaliação experiencial organísmica da experiência, como afirmação da experiência organísmica, é, assim, o critério e o princípio explicativo do funcionamento ótimo e saudável da personalidade. Na sua concepção do funcionamento ótimo da personalidade, Rogers preocupou-se, em última instância, com o critério de avaliação de sua experiência por parte do indivíduo, em especial de sua experiência de si. Num primeiro momento, sua preocupação centrava-se em descrever um critério que garantia a autonomia, e a criatividade, do indivíduo com relação ao controle heteronômico. Um critério que garantia a autonomia da pessoa com relação a critérios de avaliação oriundos na perspectiva de outros pessoas, ou de outras instâncias sociais. Num segundo momento, sua concepção entende um primado, uma ascendência da experiência organísmica, do vivido, do existencial com relação à consciência e à imagem de si da pessoa. Ou seja, no funcionamento saudável, a consciência e a imagem de si da pessoa são variáveis dependentes -- se é que podemos falar assim --, em relação ao primado da experiência organísmica, do vivido, do existencial. Há, na concepção e na teorização de Rogers, uma certa confusão epistemológica em torno do termo experiência. Confusão que revela a ambiguidade entre um uso empirista, e um uso mais propriamente fenomenológico do termo. Mas o critério que Rogers constata e elege no funcionamento ótimo da personalidade é inconfundível: no funcionamento ótimo da personalidade, a experiência é avaliada organismicamente, ou seja experiencialmente, fenomenológico-existencialmente. A saúde não está no bloqueio ou distorção da experiência organísmica, para fazê-la adequar-se às necessidades de uma imagem de eu funcional, ou às demandas da consciência ou do meio. Por outro lado, a qualquer forma de avaliação heteronômica, Rogers ressalta a própria avaliação factual que configura e impôe a experiência organísmica, como critério e processo de avaliação. Ou seja, Rogers ressalta assim a própria afirmação da experiência organísmica como critério e processo de avaliação. Este critério contrapôe-se a critérios de avaliação da experiência que se fundamentam em fontes externas à própria vivência fenomenológico existencial do indivíduo. Critérios externos estes que têm, segundo a formulação teórica de Rogers, uma função de modelagem de uma imagem de eu compatível com as demandas condicionais impostas pelas pessoas socialmente significativas, que satisfazem as necessidades de consideração positiva da pessoa, constituindo-se, desta forma, como centros externos, heteronômicos, de avaliação do mundo e da experiência da pessoa.
Para Rogers a simbolização consciente desta vivência organísmica pode estar distorcida por bloqueios e interceptações da experiência. Defesas psicológicas, que visam impedir que cheguem à consciência elementos dissonantes com uma imagem de eu que é desejável pelas pessoas socialmente significativas, e, no limite, desejável pela própria pessoa, carente da consideração positiva dessas pessoas socialmente significativas. No funcionamento ótimo da personalidade, estas defesas psicológicas estão reduzidas a um mínimo. E o indivíduo goza de liberdade experiencial, que permite-lhe que a potência de sua experiência organísmica possa constituir, de um modo significativo e substancial, a sua consciência e a sua imagem de eu, permitindo-lhe usufruir do melhor de suas capacidades e criatividade, em sua relação com o seu meio, em particular com as dificuldades desta relação.
Estas concepções estão fundamentalmente influenciadas pelas perspectivas da psicologia organísmica, do existencialismo, e da filosofia da vida. Perspectivas, em particular que reconhecem, num primeiro plano, a inocência e a benignidade do vivido, a inocência da existência tal como ela se manifesta como vivido, a inocência e a benignidade do corpo, do organismo, e o interêsse e valor na sua afirmação plena, segundo os ritmos, critérios e intensidades que lhe são intrínsecos, segundo os padrões de sua auto-regulação organísmica. É importante obseravar que, neste momento, Rogers já está inteiramente no avesso do avesso do avesso da inversão socrática, como Nietzsche a designou. Para Nietzsche, Sócrates marcou o momento de uma inversão no desenvolvimento da cultura da Civilização Ocidental. A cultura pré-socrática grega valorizava fundamentalmente a benignidade e a afirmação do corpo, dos instintos, dos sentidos, do vivido. A emergência da perspectiva socrática definiu uma nova perspectiva, que depreciava, desabonava, estas dimensões do humano e relegava-as a um plano inferior e pejorativo. Instalando dimensões abstratas, tais como a consciência, o espíritual, o teórico, no topo da pirâmide de valores. A esta inversão Nietzsche chamou de inversão socrática. Nietzsche definia como o seu intento o de fazer uma inversão da inversão socrática, e reinstalar o corpo, os instintos, os sentidos, o vivido, a experiência -- num sentido fenomenológico e existencial do termo --, no topo da pirâmide de valores. Na verdade fazer do vivido a própria fonte dos valores, fonte da avaliação, e do conhecimento, fonte do ético e do verdadeiro.
Toda uma nova perspectiva desenvolve-se, em psicologia e psicoterapia, direta ou indiretamente, a partir desta perspectiva de Nietzsche, conjugada com a perspectiva da fenomenologia e do existencialismo de Kierkegaard. Uma perspectiva que busca resgatar a concepção de uma inocência e benignidade do corpo, dos instintos, dos sentidos, do vivido -- da experiência. O valor de sua afirmação, e o desenvolvimento de valores e modos de ser que potencializem a sua afirmação. Ou seja, toda uma perspectiva que descobre o valor da afirmação do vivido e da experiência, e que busca fazer, em psicologia e psicoterapia, a inversão da inversão socrática, que Nietzsche propunha. Este me parece ser um sentido fundador e fundamental da psicologia e psicoterapia fenomenológico-existencial organísmica, dita humanista. Para tal, existe a premissa do valor próprio da afirmação do corpo, dos instintos, da existência, do vivido, da experiência, em contraposição às perspectivas vigentes em nossa cultura, sejam elas de cunho religioso, científico ou filosófico, que preconizam o ideal ascético (a vida tal como ela existe está essencialmente errada, é necessário algo além dela para justificá-la e fundamentar a sua negação) -- e a inversão socrática. Que preconizam um primado da consciência sobre a experiência organísmica, e um controle heteronômico da pessoa, a partir de referenciais de avaliação extrínsecos a sua experiência. Deleuze comenta e expôe um fundamento da apreci-ação da vida, da apreci-ação da existência, de uma afinidade pelo vivido, pela experiência organísmica, de uma biofilia, como dizia Fromm: “... a existência é culpada ou inocente? Então Dionísio encontrou sua verdade múltipla, a inocência, a inocência da pluralidade, a inocência do devir e de tudo que é. (...) A inocência é o jogo da existência, da força e da vontade. A existência afirmada e apreciada, a força não separada, a vontade não desdobrada, esta é a primeira aproximação da existência.”[2]
Descrevendo o funcionamento ótimo da personalidade, em sua liguagem fenomenológico existencial organísmica, Rogers[3] define três características básicas de tal funcionamento da personalidade: (a) a atitude aberta ante a experiência; (b) o funcionamento existencial; e (c) a confiança no organismo. A abertura à experiência, a liberdade experiencial, oposta a uma atitude de defesa com relação à experiência, característica da necessidade de preservação de uma imagem de eu rígida, dissonante com relação a esta experiência organísmica e compatível com demandas heteronômicas. Uma sintonia, afirmação e identificação com a pontualidade da experiência, da existência, do vivido. Uma identificação com esta pontualidade da existência, e com o fluxo vívido e vivido de seu devir. E a liberdade para constatar e afirmar o organismo, mais especificamente a experiência organísmica, como “um guia competente e seguro”. Desta forma, Rogers descreve um critério do funcionamento pleno e saudável que radica-se, no limite, na afirmação do organismo, tal como ele se manifesta como vivido, como experiência organísmica. Que radica-se, assim, na eleição do vivido, da experiência organísmica, como critério de avaliação. Liminarmente, ele descarta como critério qualquer centro de orientação e avaliação do comportamento que esteja “fora” da própria vivência fenomenológico-existencial da pessoa. Esteja este centro em outras pessoa, nos grupos de referência da pessoa, na religião, na moral, nos costumes, na política ou outros. O que interessa fundamentalmente é a valorização de um modo de funcionamento que centre-se habitualmente no frescor fugaz e nas intensidades do vivido, da experiência organísmica, e que possa afirmá-los em sua potência, ritmos e intensidades próprios. Por outro lado, é primordial discriminar esta experiência organísmica e sua afirmação do funcionamento da consciência, em suas modalidade não fenomenais e reflexivas. O frescor emergente da experiência organísmica dá-se justamente nas modalidades pré-reflexivas originárias, vivenciais, da consciência. A um nível existencial é esta modalidade pré-reflexiva da consciência que constitui e configura o que chamamos de experiência organísmica. De modo que a consciência intelectual, reflexiva, ainda que tenha o valor de seu lugar próprio não se caracteriza como um critério e guia competente para o que Rogers chamaria de funcionamento ótimo da personalidade. Neste funcionamento, a experiência organísmica, o vivido, configura-se como força que constiui a consciência e a imagem de eu da pessoa. Configura-se, desta forma, como força, como multiplicidade de forças que constituem a sua comunicação, o seu comportamento, a sua ação, o seu ajustamento criativo, no mundo que lhe diz respeito. A pessoa não tem um organismo, uma experiência organísmica, não tem um vivido; ela é, como devir, a sua experiência organísmica, ela é o seu vivido. Vivido que a inspira e a constitui, que constitui a imagem do seu eu, e que, desejavelmente, constitui a sua ação, e a cri-ação e devir de seu ser-no-mundo. Esta perspectiva de concepção do corpo, do organismo, da experiência organísmica, do vivido, assume-os como eminentemente ativos, como afirmativos, benignos e desejáveis. Atividade e afirmatividade estas com relação às quais interessa portanto desenvolver valores e atitudes afirmativos. Interessa afirmar a afirmação que eles já configuram. De modo que a avaliação organísmica da experiência é, fundamentalmente, a afirmação e a atualização da experiência organísmica, e a constituição de sua afirmação e atualização como fonte de avaliação e dos valores, como critério da avaliação, dos valores e do verdadeiro. Volta à Página de
[1] NIETZSCHE, F. A GAIA CIENCIA, Lisboa, Guimarães e C.ª, 1984. [2] DELEUZE, Gilles NIETZSCHE E A FILOSOFIA, Rio, Editora Rio, 1976. [3] ROGERS, Carl, KINGET, G. Marian PSICOTERAPIA E RELAÇÕES HUMANAS, Belo horizonte, Interlivros, s/d.
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