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Ensaios
Experimentais de Psicologia Ambiental A
UTILIDADE DO AMBIENTE SÓ PODE SE DAR Afonso
H Lisboa da Fonseca, psicólogo. Na especificidade, e na efetividade, da atualidade
de seu ser, na sua efetiva e fenomenológico existencial presença -- como tudo
--, o ambiente só pode ser vivido ontológicamente. Nesse sentido, o ontológico se refere a um modo
existencial de sermos, ao logos, sentido, deste; um modo de vivência,
fenômeno-lógico. Ou seja, um modo de sermos que se caracteriza,
segundo a Fenomenologia Existencial, pela predominância da insistência no pólo ontológico de nossa abertura para o
Ser, em nossa vivência de ser-no-mundo, em nossa existência. Ser-no-mundo,
existência esta que, além de ontológica, em um pólo, é Ôntica, no outro pólo, quando a vivência da possibilidade emergente
no pólo que vivenciamos enquanto Ser, ontológico, se cristaliza, curada em
coisa, mundo; mundaniza-se, instrumentaliza-se -- numa terminologia
heideggeriana. Nesse sentido, somos existencialmente ontológico e ônticos. De modo que existencialmente, somos, como humanos, ambíguamente
anfíbios.Em particular enquanto
ambi-entais. Claro que somos mamíferos, primatas; mas,
metaforicamente, em termos de nossa ambigüidade existencial, e ambiental,
enquanto ser-no-mundo. Nesta
ambigüidade, num primeiro sentido, podemos ser, momentânea, e
alternativamente, ônticos ou ontológicos, segundo a momentaneidade da alternância
de nossa existência, íntegra na dialógica entre os pólos ôntico e ontológico
de sermos. Eu-isso, ou eu-tu. E, como humanos, somos ainda, ambíguos, existencial, e ambientalmente,
ambíguos,
no próprio âmbito de nosso modo ontológico de sermos. No qual insistimos
na abertura para a possibilidade do ser ambiental, para o ambiente como o tu
de uma movimentação dialógica com uma alteridade radical, com a qual estamos
necessariamente implicados, enquanto ontológica vivência de ser no mundo:
ambígua movimentação da implicação recíproca, na dialógica dualidade eu-tu. No intrínseco contínuo ontológico-ôntico,
ontológico-coisa, ontológico-mundo, que existencialmente somos, enquanto
ser-no-mundo, contínuo ontológico-coisa da temporalidade do desdobramento de
possibilidades, cura, das
possibilidades inerentes ao Ser -- eu-tu/eu-isso, numa terminologia de Martin
Buber --, o pólo ontológico de sermos, o existencial, é, portanto, um modo de
sermos de pré-coisa, de pré-ôntico, pré-ente, pres-ente, o nosso presente. Presente, modo pré-ente, pré-coisa de sermos, que é vivência,
interpretação, compreensiva, que se caracteriza por sua intrínseca atualidade: pela ação --
especificamente: a atualização de possibilidades inerentes à fonte do possível – que é o ser:
consciência ativa compreensiva, e/ou motricidade compreensiva igualmente
ativa. Que compartilhamos, todos, enquanto o nosso modo ontológico,
existencial, fenomenológico de sermos. Modo de
sermos vivencial, que se
caracteriza por ser, enquanto tal, pré-reflexivo, pré-conceitual,
pré-teorético; infenso ao teorético.
O modo teorético
de sermos, propriamente, se define como um modo de sermos de momentâneo e
alternante distanciamento com relação à dimensão ontológica de Ser. Um modo
de sermos de distanciamento com relação à dimensão do modo vivencial de
sermos; de distanciamento do modo de sermos ontológico, fenomenológico
existencial; o modo de sermos de nosso presente; para especificamente
contemplarmos e apreciarmos as possibilidades que temporalmente curaram como
coisa, na momentaneidade da insistência na abertura para o Ser de nosso ser
no mundo. Enquanto modo de ser, o nosso pres-ente, o modo
ontológico de sermos igualmente, não se situa no modo de sermos em que se
constitui a dicotomia sujeito-objeto: a intencionalidade
fenomenológica, qualidade característica deste modo de sermos, se
configura como um modo de vivência no qual vigora uma correlação entre
sujeito e objeto, tão intrínseca e necessária, que é anterior a qualquer
possibilidade de dissociação. De modo que o modo ontológico de sermos se
caracteriza por ser um modo de sermos no qual não vigora a dicotomização
sujeito-objeto. É, assim, um modo de sermos em que não vigora a objetividade,
nem a subjetividade, e, muito menos, algo de ser como uma inter-subjetividade.
Ainda que não seja um modo de sermos em que vigore
a dicotomização sujeito-objeto, é, própria e especificamente, o modo
ontológico de sermos da relação eu-tu, o modo dialógico de sermos, o
modo de sermos da dia-lógica. No qual o ambiente não é um objeto, não é uma
coisa, nem uma coleção de coisas, mas é o tu de uma dialógica, com cujo mistério, enquanto alteridade radical,
estamos vivencialmente envolvidos: especifica, própria, e necessariamente implicados,
na vivência compreensiva, compreensão,
inerente à implicação, que própria e
especificamente não comporta a explicação, teorética, no âmbito de seu momento próprio de
vivência. Não existe
explicação que possa levar à compreensão (Takuan Soho). A explicação é
especificamente teorética. E é, especificamente, afastamento do modo de
sermos da compreensão, da implicação. Ontológicamente, assim, o ambiente que não é objeto,
que não é coisa, dá-se, propriamente, ao modo de sermos da compreensão,
e da implicação. Se Freud explica, a vivência, o ontológico, o
dialógico, são da ordem da compreensão, e da implicação. Um outro
aspecto importante é que o modo ontológico de sermos, e, por implicação, o
ambiente vivido enquanto possibilidade que se desdobra em atualização, em
ação propriamente dita, não são da ordem das relações de causa e efeito. Na
momentaneeidade de sua vivência essencial, eles não são da ordem da causalidade.
Buber diria, não
podemos fazer acontecer, mas não aconteceriam sem nós... Já que acontecem
como
possibilidade que se desdobra hermeneuticamente, como compreensão, implicação, no âmbito
da dialógica
com uma alteridade radical, e potente, com a qual estamos
inextricavelmente implicados. Como a onda do surfista, o pulso do possível (que ainda pulsa, todavia...), que não podemos fazer acontecer, mas que
não aconteceria sem nós mesmos... dita o ritmo, a temporalidade própria,
e a direção. Podemos desfrutar compreensivamente de sua hermenêutica,
atualizá-la, mas não podemos conduzi-la para onde queremos, como o fazemos
com o objeto. Não podemos usar o possível, a possibilidade, e sua
atualização, num relação de causa e efeito. O ambiente ontologicamente vivido, assim, não é da
ordem da causalidade. Da mesma forma que o ambiente ontologicamente
vivido não é da ordem da realidade. A realidade é o pólo ôntico de ser no mundo da
possibilidade realizada, acontecida, curada em ente, curada em coisa, curada
em mundo, a possibilidade decaída. O ambiente, por seu turno, no pólo
ontológico da vivência de ser no mundo, insistência
na abertura para o Ser enquanto fonte do possível -- na formulação da
existência segundo Heidegger --, o ambiente ontologicamente vivido, é potência
e movimento que é próprio à potência de possibilidade, ou seja, é
desdobramento vivencial de possibilidade, no que chamamos de ação.
A ação que pode ser meramente
compreensiva, ou compreensiva e motora. Mas sempre,
específica e propriamente compreensiva, a ação, interpretação compreensiva,
fenomenológico existencial. A
experiência da explicação, a
experiência do conceitual, do teorético, é experiência ‘paralítica’; assim como somos ‘paralíticos’, inativos, quando
experienciamos a objetividade, quando experienciamos o objeto. E não menos
quando da experiência da subjetividade, do sujeito; e quando experienciamos a experiência da
causalidade, das relações de causa e efeito. Somos inativos quando da
experiência do útil, e não menos quando da experiência da utilidade e da
utilização; quando somos pragmáticos, práticos e funcionais; da mesma forma
que na experiência do real, e da realidade. Porque todas essas experiências
se dão no âmbito do modo ôntico de sermos, e a esfera própria da ação, da atualização,
da interpretação fenomenológico existencial, compreensiva, implicativa, é a
esfera da momentaneidade de nosso modo ontológico de sermos, fenomenológico
existencial, eu-tu: assim como a vivência do ambiente em sua onto-lógica;
dia-lógica. De forma que o ambiente não é experienciado como
coisa, em seu onto-logos. O ambiente dado como devir em sua vivência
ontológica, como possibilidade que se desdobra em ação, o ambiente vivenciado
como insistência na abertura para o
seu ser, é vivência, é ação, compreensivação:
ação, interpretação, meramente compreensiva, ou compreensiva e motora. E não
tem as qualidades próprias à inércia das coisas, dos entes, dos seres, do
pólo ôntico do ser no mundo; não tem as qualidades da coisa, da possibilidade
exaurida, decaída, curada Tudo isto, por outro lado, ele é, sim, ao modo
ôntico sermos. Mas não ao modo de seu onto-logos, de sua vivência
ontológica, que é pré-ontologia, pré-ente, presente, e que se caracteriza
pela vivência da atualidade; pela ação. Como experiência ôntica, o ambiente
se constitui então como útil, como utilizável, como utilidade. Aí, sim, ele
pode se constituir como ambiente prático, pragmático, técnico, e
comportamental. Guardando sempre a possibilidade do retorno à sua
interpretação e avaliação ontológicas. A vivência ontológica do ambiente é eminente e
especificamente estésica, e âmbito próprio e particular de uma estética, de
uma estética ambiental. Esta estética
ambiental, única possibilidade de apreensão, de interpretação
compreensiva, compreensão, e em particular de avaliação, do ambiente, em sua
ontologia, enquanto atualização, ação, das possibilidades de seu ser, vir a
ser, é que é a referência de avaliação, do valor, e da verdade, do ambiente.
A estesia na qual o ambiente se dá em sua ontologia -- em seu onto-logos ambiental,
é própria a uma estética ambiental, somente na qual é possível a vivência
ontológica do ambiente, na atualização das possibilidades de seu ser, enquanto
ser no mundo. A estética ambiental é que é, própria e especificamente, assim,
a fonte de valor e de verdade ambientais. E esta é da ordem da vivência, e
não da realidade; é da ordem da vivência, e não da ordem em que se dão o
útil, a utilidade, a ordem em que se dá uma pragmática. A utilidade e as possibilidades de uso do ambiente
só podem ser propriamente avaliadas e constituídas, assim, estéticamente. Ou
seja, no âmbito do modo de sermos da vivência de sua inutilidade, e potência.
A avaliação propriamente dita do ambiente, e de seu uso, é inerente a sua
vivência ontológica, fenomenológico existencial. Ou seja: a avaliação do
ambiente só pode ser dar no âmbito de sua inutilidade, de sua estesia, de sua
estética. De modo que só podemos determinar a utilidade do
ambiente a partir da vivência muito própria de sua inutilidade ontológica. Da
vivência ontológica da possibilidade de seu ser, vivida como possibilidade
ontológica de ser no mundo, que se desdobra e cura em coisa, e no próprio
mundo. Talvez seja a isso que LaoTsu se refere quando
observa: Quereria
alguém arrebatar o mundo e dele fazer o que quisesse? O mundo é um canal sagrado, que não deve ser
indevidamente manipulado, nem agarrado. Só assim podemos participar da sustentação e da
pródiga fecundidade ambientais, ao invés de, meramente, espoliá-lo e
aniquilá-lo. A pragmática da utilidade do ambiente rigorosamente
se subordina à pragmática de sua inutilidade ontológica. De sua avaliação e
verdade estésicas, estéticas. |