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Ensaios
experimentais de Psicologia Ambiental AMBIENTE E COISIFICAÇÃO Afonso H Lisboa da
Fonseca, psicólogo. Uma expressão chula brasileira (se me
permite), bem ao gosto dele, deliciava a Henry Miller, e o fazia brindar
alegremente o bem humorado gênio brasileiro (“e, mais uma vez, o estrangeiro
se curvava ao nosso Brasil...”): se
merda fosse dinheiro, pobre nascia sem cú... Sem mundo, também, se todo o ambiente
pudesse ser convertido em dinheiro... Felizmente, impossível, nos dois
casos. Para os pobres e para o ambiente, para a Humanidade... Ainda que os
estragos sejam tantos e tão grandes. Mas há esperança! Apenas o ambiente coisificado pode
ser transformado em dinheiro... mesmo assim, nem todo... E a questão
politicamente central, o ambiente não é coisa. E nem para todos um ambiente
pode ser coisificado... Como dramaticamente rememora e
ilustra a impressionante cena narrada por Galeano[1], em Nascimentos,
Memórias do Fogo: O
funcionário do rei aguarda a bruxa, sábia em maldades, que virá prestar
contas. Aos seus pés jaz, de boca para baixo, o ídolo de pedra. A bruxa foi
surpreendida quando estava velando esta huaca escondida, e daqui a pouco
pagará por sua heresia. Mas antes do castigo, o funcionário quer escutar de
sua boca a confissão de suas conversas com o demônio. Enquanto espera que ela
chegue, se distrai pisando na huaca e meditando sobre os destinos destes
índios, que dá pena a Deus tê-los feito. Os
soldados atiram a bruxa e a deixam tremendo no umbral. Então
a huaca de pedra, feia e velha, cumprimenta em idioma quéchua a bruxa velha e
feia: -
Bem-vinda Sejas, princesa – diz a voz rouca, debaixo das solas do
funcionário. O
funcionário fica vesgo, e cai esparramado no chão. Enquanto
o abana com um chapéu, a velha se agarra à casaca do desmaiado e clama: Não
me castigues, senhor, não a quebre! A
velha queria explicar-lhe que nessa pedra vivem as divindades e que se não
fosse por causa da huaca ela não saberia como se chama, nem quem é, nem de
onde vem, e andaria pelo mundo nua e perdida. O ambiente pode ser coisa, ou não
coisa. Exatamente, e correlativamente a, nós próprios. Esta foi, por exemplo, a questão
central no início da colonização do Brasil. Os nativos entendiam que aquele
punhado de Europeus, branquelos, exorbitantemente vestidos, e fedorentos, não
poderia carregar em seus navios muito da infinidade de Pau-Brasil das
matas... (Estavam enganados, né?) Até gostaram da brincadeira, e ajudaram os
Europeus enquanto durou o ciclo do Pau Brasil... O problema foi quando os
engenhos começaram a ser montados, e começaram a produzir, e quando chegaram
os bois... Não se tratava mais, agora, somente
de abater e carregar o Pau Brasil, mas de abater a própria mata. Para plantar
cana, e criar gado. Depois, para evitar que os nativos e os negros, e os
mestiços, já então caboclos, mulatos e cafusos... tivessem, na mata, um meio
natural de sobrevivência, e resistência, e de apoio a sua vida e
desenvolvimento, e à não submissão à ordem escravocrática... Aí os nativos perceberam que,
definitivamente, havia algo de errado com a ordem cósmica... A mata era
rigorosamente sagrada para eles, compunha os seus sagrados campos de caça...
E abater a mata era a proposta e ativa disposição dos colonizadores, que nela
viam apenas Pau Brasil (já difícil, então, pela distância...), para
transformar em dinheiro; e um empecilho à produção do rico açúcar, e álcool,
e à criação do gado, que geraria a força bovina para a movimentação das rodas
do engenho, e proveria a carne para as populações escravizadas, livre
trabalhadoras, ou senhoriais. A mata não era coisa, nem era
coisificável, para o nativo. Fazia, indissociavelmente, parte do que eles
próprios eram, de seus corpos, de suas mentes, identidade, da ordem
cósmica... Para o colonizador, alienígena perverso, a mata valeu enquanto ele
pôde abater Pau Brasil das proximidades do mar, e enquanto não havia a
possibilidade do açúcar... e do álcool. Agora o que ele queria era o campo
limpo, “mata boa é mata morta!”, para o plantio da cana de açúcar, e para o
gado. E para não esconder e alimentar Índio, Negro e Mestiço; e os animais
ferozes e peçonhentos, não civilizados... Foi preciso acabar com o nativo, ou
escorraçá-lo para outras matas... E os que ficaram se perderam para sempre
num mundo sem matas, em busca da terra sem males, ainda que os descendentes,
transformados, estejam em nós e entre nós. O ambiente nos é intrínseco, e não se
pode, em definitivo, transformar em dinheiro. Porque apenas, coisas, o mundo
coisificado, a vida coisificada (ainda que não materiais) podem ser
transformados nas quantidades do dinheiro. O ambiente é ontológico,
intrínseco à ontológica ambiental, que somos. O ambiente não é coisa, nem é
coisificável, perfeitamente em correlação com nossa condição de sermos
alternativamente coisa, e de não sermos coisa. Com o diferencial de que o que
somos em termos mais essenciais não é da ordem das coisas. Que não mudam, não
criam, não se criam. Mas da ordem do possível, da possibilidade, da criação.
Coisa não se cria e recria, não se gera e regenera, continuamente; e nós não
só nos criamos e recriamos, geramos e regeneramos continuamente, como
vivenciamos fenomenal e poieticamente esta criação e recriação, a partir da
vivência e atualização fenomenais de possibilidades que nos constituem a nós
próprios enquanto potência, e às quais constituímos. Coisas não agem, e nós
agimos, e nos sabemos na ação. Na ontológica da dialógica ambiental
que somos, o ambiente ativamente se cria e recria continuamente, na medida em
que com ele somos/ativamente devimos; na medida em que nos criamos e
recriamos, na ação que atualiza possibilidades. Se não por isso -- e isso é também
fundamental --, meramente porque dinheiro é da ordem da quantidade. Só tem
esta qualidade, aumentar ou diminuir quantitativamente; o que não transforma
gente em gente, diria Heller. E nós, o ser ambiental que somos, ambi-entes,
somos, ontológicamente, da ordem do múltiplo, da multiplicidade, da
multiplicidade das possibilidades de necessidades, da multiplicidade de
qualidades. O dinheiro, as necessidades de ter, de posse, dizem respeito,
apenas, a um tipo, do múltiplo espectro de qualidades de possibilidades de
necessidades que nos constitui, e que constituímos. Um sábio professor, e poeta, filosofava:
A terra é do fazendeiro, mas a paisagem
é do poeta...[2] E nossa linda Leila Diniz se acometeu
deste verso, e o cometeu: Brigam
Espanha e Holanda, pelos direitos do mar/ Brigam Espanha e Holanda, pelos
direitos do mar/ Brigam porque não sabem... O mar é das gaivotas/...E dos que
o sabem amar... O mundo nos é Ontológico, na medida
em que é inextrincavelmente constituinte do ser que somos, em nossos níveis
mais básicos e essenciais. E onto-lógico, em termos específicos de que é dado
como sentido, e compreensão (cum-preensão, da potência do possível, em attum,
ato, atualização, atualidade), em nosso modo mais básico, potente, e
originário, de ser. Somos o ente (ambi-ente) que, em
nossos modos não originários e não potentes de ser [nosso modo re-flexivo,
teorizante, re(a)presentativo, e comportamental], se cinde, se fragmenta, se
des-integra (ou se dis-integra), na dicotomia sujeito-objeto, em corpo e
mente, cisão eu mesmo e mundo exterior. Infelizmente de um modo cada vez mais
prevalecente, regular e usual. Em nossos modos mais originários e
essenciais de ser/devir, fenomenológico existenciais, não podemos separar ou
abstrair o mundo do que somos. Daí que somos ambi-entes, estes seres
ambíguos... Mas ambíguos somos, ambivalentes,
ambi-entes somos, não na ambigüidade da dicotomização sujeito/um objeto –
como o somos na condição do que somos ao modo de sermos da re-flexão, da
teorização, ou do comportamento. Na condição de nosso modo ontológico de
sermos, somos ambíguos, ambivalentes, ambi-entes, na dia-lógica tensa que
envolve o eu-tu. Tensa dia-lógica porque especificamente pressionada, na
inter-ação, pela pré-tensão, preensão, da potência, da força do possível, que
se nos dá como cum-preensão-e-atualização, atualidade, cum-plicação,
im-plicação, coma força do possível que somos a cada momento, com a
possibilidade -- o que, especificamente, quer dizer ação, inter-ação. Ou seja, podemos ver hoje em dia o
nobre Movimento dos Sem terra; mas, felizmente, nunca poderemos ver um
Movimento dos Sem Mundo... Pelo menos enquanto existirem humanos. Somos
seres, e, indissociavelmente, pré-ser, e devir, de quem o mundo é
indissociável... Nos nossos níveis mais originários, essenciais. É bem verdade que a qualidade do
mundo ambiente é inextrincavelmente correlativa à qualidade da condição
humana. E, como deteriorou, ou deteriora, ou
nunca saiu da deterioração, a condição humana de grandes massas da
humanidade, o mundo inevitavelmente deteriora para elas, às vezes de modo
insustentávelmente drástico. Basta ver as condições de vida, e de mundo, de
populações da periferia de Recife, ou Salvador; ou por qualquer lugar do
Brasil... Ou de Bombaim, Calcutá, ou Bangladesh, Bolívia, ou Venezuela... E a alienação, aí incluída esta
alienação – especificamente pelas imposições do reflexivo e do
comportamental, decorrentes da deterioração das condições de vida –, a
alienação do mundo ambiente, não prejudica, apenas, a vivência e as
qualidades do mundo, do ambiente, das pessoas das massas, e das massas,
despossuídas; daquelas jogadas, e mantidas, no mero limite das mínimas
condições de sobrevivência. Estas perdem em qualidade do mundo ambiente na
medida em que seu espectro de multiplicidade de possibilidades de
necessidades vai sendo, ou sempre foi, pelas condições econômicas, culturais
e sociais, drástica e violentamente restrito ao grupo das necessidades de
ter. No caso, de ter um mísero salário, que possibilite a mera sobrevivência,
para dar conta do trabalho assalariado; e de, para ele, criar filhos... [3] Ou seja, temos, enquanto humanos, um
espectro de possibilidades de necessidades extremamente rico, e ricamente
múltiplo, e imprevisível – aí incluídas as possibilidades de necessidades, de
carecimentos, pelas dádivas, ontológicas, do ambiente; da vivência dialógica das
qualidades do ar, das qualidades das águas, das qualidades do céu, das
qualidades dos terrenos naturais, das florestas, dos animais, dos silêncios,
dos outros seres humanos, de um corpo ambiental (e não meramente subjetivo,
e/ou objetivo) saudável, ativo, e erótico... Com as condições e qualidades de vida
deterioradas, o ambiente disponível, e as próprias necessidades de um
ambiente natural e rico, vão sendo extintas; na medida, em particular, em que
o espectro das possibilidades de necessidades vai empobrecendo, e sendo
restrito ao grupo do tipo de necessidades relativas ao ter, à posse; ter e
possuir um mero salário que permita a sobrevivência, e o trabalho, em
condições proletárias. Curiosamente, na esfera das classes
afluentes, se dá, também, e por meios diversos, o mesmo processo da
alienação, decorrente e gerador da deterioração das qualidades de vida[4], e
da qualidade do ambiente das classes despossuídas. Não nascemos com necessidades
prontas. Em particular as necessidades humanas. Nascemos com impulsos de
necessidades, que se plasmam em necessidades, na relação, durante o nosso
desenvolvimento, com os objetos do mundo, em particular com as objetivações
humanas.[5] Na sociedade em que vivemos há uma
hipertrofia, e tendência massiva, a uma produção de bens. Mas,
especificamente, de bens mercadorias; de objetos vendáveis/compráveis –
fetiches --, destinados só pretextualmente à satisfação de necessidades
humanas; mas, de fato, produzidos e destinados à reprodução e valorização do
capital. Daí a imensa e proliferante produção e reprodução de bens
mercadorias. Como em nenhuma outra sociedade. Todos estes objetos desta forma
produzidos, dentro da multiplicidade de possibilidades de tipos de
necessidades humanas, dizem respeito, apenas, ao estreito grupo do tipo das
necessidades de ter. Ou seja, são objetos que têm como característica
definidora a de que devem ser comprados, tidos, possuídos. Na medida em que predomina, portanto,
no tipo de sociedade em que vivemos uma produção massiva de bens, que se caracterizam
como objetos estritamente afetos às necessidades de ter, para essas classes
afluentes, e para todos e todas, evidentemente, se vai desdobrando um
progressivo empobrecimento, e restrição, do espectro da multiplicidade de
possibilidades de tipos de necessidades. De necessidades, inclusive,
naturalmente, concernentes ao ambiente, ao mundo, em particular aos tipos de
objetos humanos não vendáveis/compráveis, como o ambiente ecologicamente
desfrutável, e não comprável em seu inútil, e delicioso, desfrute. Como observamos, as necessidades se
desenvolvem na relação com os objetos que lhe dizem respeito. E, se o mundo é
pobre em objetos humanos -- aí incluída a pobreza em termos de um ambiente
desfrutável, e característicamente não pertinente à compra, à posse, às
necessidades de ter --, uma restrição conseqüente no desenvolvimento da
multiplicidade de possibilidades de necessidades, inclusive das ambientais, é
inevitável. E o espectro de nossas possibilidades de necessidades se reduz e
se restringe, na direção do desenvolvimento, apenas, do tipo de necessidade
de ter, de necessidades de posse de bens vendáveis/compráveis, e que
reproduzam e valorizem o capital. Proliferantemente produzidos e disponíveis. Versejava lacônico e meditativo, como
eu dizia, o professor, poeta, K. Sato, A terra é do fazendeiro, mas a
paisagem é do poeta... Só o desfrute, e a vivência rica, eco
e onto lógica, do ambiente natural podem permitir a liberdade de
desenvolvimento e atualização da multiplicidade e diversidade de possibilidades
de necessidades humanas. O desenvolvimento da carência, e a própria carência,
a necessidade humana, pela vivência de um ambiente rica e naturalmente
múltiplo. A riqueza das necessidades humanas por um ambiente rico e natural,
e, inclusive, não humano, só pode se desenvolver no desfrute regular e
natural de um meio ambiente rico e natural. Que não é coisa, nem
transformável em coisa, que não é comprável ou vendável, que não é da ordem
da posse, e das necessidades de ter. A restrição do espectro de possibilidades
de necessidades, pela predominância da relação com objetos do tipo meramente
vendáveis/compráveis -- que é apenas um dos tipos da multiplicidade de
possibilidades objetos humanos de necessidades --, leva à perda do
carecimento, pela diversidade, pela pluralidade de necessidades humanas, em
sua multiplicidade característica. Aí incluídas as necessidades, os
carecimentos por um ambiente natural e humanamente rico, e múltiplo, em sua
não humana multiplicidade. [6] De modo que nas classes aquinhoadas ocorre,
também, a perda das necessidades pela riqueza ambiental, na medida em que
aumenta o seu poder de empobrecimento, de degradação e de destruição
ambiental, a redução deteriorante do mundo e do ambiente ao restrito grupo
dos objetos compráveis, pertinentes ao grupo das necessidades humanas de
posse, de compra, de ter. Concomitantemente, se instala e se
desenvolve a vivência de uma condição alienígena em relação ao ambiente, em
relação ao mundo, cada vez mais percebido como hostil, complexo e indesejável.[7]
Instala-se de modo tendencialmente crônico, e aumenta, a cisão corpo-mente,
eu-mundo, eu-vida, na medida em que se instala e desenvolve a cisão
civilização e ambiente natural... Por mais que se tenha feito mau uso
das idéias de Marx, por mais que se constate equívocos eventuais que ele
possa ter cometido na formulação de sua utopia, ele foi efetivamente genial.
E uma de suas compreensões mais geniais foi esta de entender que nós não
nascemos, como dissemos, com necessidades humanas prontas. Mas com possibilidades
de necessidades.[8] E as necessidades vão sendo desenvolvidas, plasmadas, à
medida que nos relacionamos com os objetos realizados, objetivados. Se há um
empobrecimento no espectro da multiplicidade de possibilidades de objetos do
mundo em que vivemos – tudo tende a ser reduzido a mercadorias, objetos
fetiches, proliferantes, que dizem respeito apenas às necessidades de ter --,
há inevitavelmente um progressivo empobrecimento do espectro das
possibilidades do processo de elaboração de necessidades... Nós podemos perder, e inclusive não
elaborar, as nossas necessidades humanas. As necessidades de ser humanamente
natural, e naturalmente humano... Desta forma; podemos perder as necessidades
de ser humanos... Perder o que Marx entendeu como a riqueza humana, ou seja a
multiplicidade de necessidades de ser humano... Perder, inclusive, a riqueza
humana de carecimento, de necessidades, por um ambiente naturalmente rico,
ricamente natural... Em termos humanos, empobrecimento significa perder a
riqueza da multiplicidade de necessidades... É esta a genial constatação de Marx, o homem rico é, simultaneamente, um homem
carente... [9] Um homem que tem carências, necessidades, humanas;
carecimentos, necessidades, estes, que se definem por sua multiplicidade;
multiplicidade de necessidades e carecimentos de modos humanos de ser... A riqueza, em termos humanos, está
definida pela multiplicidade da necessidade de ser humano... Em específico
porque nós podemos perder as nossas necessidades... Em específico, podemos perder a
riqueza das necessidades humanas de ser... Daí que o homem rico é, simultaneamente, o homem carente de uma multiplicidade de manifestações humanas da
vida. (Marx). As necessidades de posse, de ter, de
comprar, não são ruins em si. Não é desumana a perspectiva das três venturas
humanas dos Japoneses: produzir, vender e comprar. Os objetos compráveis
humanos são, também, essência humana objetivada. O problema é o da redução da
multiplicidade do espectro de possibilidades de necessidades. A riqueza humana
se define pela multiplicidade de necessidades humanas. Pela multiplicidade de
necessidades de ser humano. Perder as necessidades de ser humano,
perder a multiplicidade de necessidades humanas é, especificamente,
empobrecer, em termos da antropologia marxiana. Por isso que a perda das necessidades
por um mundo ambiente diversa e ricamente multifacetado, a perda das
necessidades das qualidades do mundo ambiente, em sua não humana e
multifacetada diversidade, decorre do empobrecimento, e determina o empobrecimento
das necessidades, e do próprio ser humano. Determina a pobreza do processo de
produção de necessidades naturais e humanas concernentes ao ambiente, e a
pobreza da natureza dessas próprias necessidades. Não há como empobrecer sem
que se empobreça também o ambiente; da mesma forma que não há como possa o
ambiente empobrecer, sem que, correlativamente, se desdobre o empobrecimento
humano. Somos um ser que implica, e se implica, inextrincavelmente, no
ambiente. Somos um ser ao qual é implícito o ambiente. Rico ou pobre o ambiente /as
necessidades de ser humano, o mundo, o ambiente, estará sempre presente, na
medida em que estejam presentes os humanos. Porque o mundo ambiente é
ontológico do que somos. Na verdade, não somos o sujeito
psicológico, isolado. Confrontado com um mundo objetivo, realizado, e
utilizável. Coisificável, vendável, comprável... Somos, na verdade, uma presença, um
ser/devir do qual o mundo, o ambiente, são indissociáveis, inalienáveis.
Somos (em nosso modo ontológico de ser, fenômeno-lógico, eksistencial) esse
ser que é integração momentânea, da cisão, que em nosso modo
despossibilitado, impotente, de ser -- teórico, reflexivo, conceitual,
comportamental -- percebemos como uma dicotomia sujeito-mundo/ambiente-objeto.
Na verdade, não há nenhum exagero ou equívoco em dizer que o ambiente somos
nós. A deterioração das condições de vida,
e a deterioração do ambiente, tanto para as classes despossuídas, como para
as classes aquinhoadas, são os dois lados de uma mesma moeda. E é uma
conseqüência, natural, do modo de ser e do modo de vida de uma sociedade em
que se desenvolve uma hipertrofia da valorização, e da produção, de bens que
dizem respeito massivamente apenas à estreita faixa dos objetos que podem ser
comprados, possuídos, tidos. E que, desta forma, atrofia os demais tipos de
possibilidades de necessidades do espectro multifacetado de necessidades
humanas. Marx é primoroso ao entender que o
mais importante tipo de objeto da necessidade, do carecimento, humano, é,
especificamente, a outra pessoa. Esse ser, por excelência, ambiental e
erótico (não entender sexo, apenas, por favor). Ser o ser humano o objeto,
por excelência, da necessidade humana, quer, especificamente, dizer que o
ambiente também o é. Porque somos, por excelência, este ser ambiental, este
ambi-ente. E, como diria Buber, o objeto deve consumir-se para tornar-se
presença. No eu-tu da dialógica eco-lógica que somos em nossas dimensões
mais ontológicas. Referências: [1] GALEANO,
Eduardo MEMÓRIAS DO FOGO. NASCIMENTOS. [2] Prof. e
poeta K. Sato. Mestre zen. [3] HELLER, Agnes THEORY OF THE NEED IN MARX, [4] HELLER, Agnes op. cit. [5] HELLER, Agnes op. cit. [6] HELLER,
op. cit. [7] Os
massacres perpetrados por jovens nos EUA, em escolas, lanchonetes, lojas,
parques, respondem a esta condição de um mundo e de outros vividos como
alienígenas, hostis, e perigosos. [8] MARX,
Karl MANUSCRITOS ECONÔMICOS E FILOSÓFICOS. Ver também
HELLER, Agnes THEORY OF THE NEED IN MARX. FROMM, Erich CONCEITO MARXISTA DO HOMEM, Rio de Janeiro,
Zahar,. [9] HELLER,
Agnes op. cit. |