ENTREVISTA
Sábado não é um dia apropriado para fazer uma entrevista,
mas já que o papo era com João Gordo, tudo bem.
n Em que buraco o Gordo estava metido quando os Ratos surgiram?
GORDO - Eu fiquei uns anos morando em Angratuba, no interior de São
Paulo, e era o maior revoltado. Só eu era punk na cidade. Se não
entrasse no esquema dos caras de lá tava fudido. Virei sambista,
mestre de bateria da escola de samba. Ensinava os moleques a
tocar tamborim. Se eles não tocassem eu batia neles. Era eu e o
Hitler. Não tocou... baqueta na cabeça.
n E como foi o encontro com Jão e Jabá?
GORDO - Voltei pra São Paulo, comprei uma fita dos Ratos de Porão
na Punk Rock (uma loja que existia nas Grandes Galerias, no
centro da capital) e fiquei fã dos caras. Depois fui com Redson
do Cólera - de quem eu infelizmente era amigo - nas gravações
do Sub, a primeira coisa que os Ratos gravaram.
n Como foi a estréia do Gordo no vocal?
JÃO - Foi num show da PUC, em São Paulo, comigo na bateria e
Mingau (atual Inocentes) na guitarra.
GORDO - Eu falei besteira. Disse: "Quero falar três coisas
pra vocês. Pau no cu de Deus pau no cu da Globo e pau no cu do
ABC".
JABÁ - Até hoje tem nego do ABC querendo pegar o Gordo de pau
por causa disso.
n Rolava muita treta?
GORDO - Até hoje o público aqui do Brasil é muito ignorante. Não
sei se é para aparecer. Os caras pensam que punk é brigar, dar
facada. Como é que os caras queriam fazer um movimento assim? Os
caras do ABC dizem que tocavam mais pau que as bandas de São
Paulo. E realmente era uma puta barulheira. Os caras já eram
grindcore, enquanto as bandas de São Paulo eram mais certinhas.
Estava armada a treta.
JÃO - Chegou num ponto, depois que saiu nosso primeiro disco,
Crucificados Pelo Sistema, o movimento acabou por causa das
brigas. Esse disco nem teve show de lançamento.
GORDO - O Napalm, que tinha sido construído por alguns punks,
onde trabalhava eu, Clemente (Inocentes) e o Mingau e o Calegari
do 365, não deixava as bandas de punk tocarem lá. Só teve um
show punk lá. O Ricardo Lobo, dono de lá, dizia que punk traria
briga
n Então que tipo de show rolava no Napalm?
GORDO - Eu vi lá Legião, com Renato Russo no baixo, Capital
Inicial, Plebe Rude, Titãs do lê - lê - lê, Ultraje Rigor...
Tudo horrível. Os caras estavam começando e nós já tinha
disco.
n Se não tinha show nenhum como é que vocês faziam pra se
virar de grana?
GORDO - Eu trabalhava de torneiro mecânico numa firma de Vila
Maria.
JABÁ - Eu perdi um trampo por causo do Blota Jr. Trampava com
solda, era soldador eclético, e um dia tive que pedi pro o meu
chefe ora sair mais cedo. A gente ia passar o som pra entrar ao
vivo no programa do Blota Jr. O chefe me liberou e disse que ia
assitir na TV. No fim nem passamos som nem fomos pro ar. Um punk
tinha matado um cobrador de ônibus e a gente tinha combinado se
o papo fosse esse não entrava no programa. Meu chefe ficou a
noite inteira assistindo o bagulho e nada da gente. No outro dia
me mandou embora do trampo.
n Soldador, torneiro mecânico... Foi assim que o metal entrou na
vida de vocês?
GORDO - É. O Spaghetti entrou na banda e já era metaleiro
cabeludo. Aí pros punks os Ratos virou "heavy". Os
caras queriam nos matar. Nos chamavam de traídor.
JÃO - Só não teve briga porque a gente tem sangue bom.
JABÁ - Eu fui acertado de jeito. Levei até machadada na cabeça.
Tava na loja Punk Rock, quando já tinha mudado pra Augusta. Lá
juntava a maior galera no sábado de manhã, e tinha uns carecas
falando de paz. Falaram que eu tinha catado um irmão deles e me
dechavaram. Fiquei debulhado que nem um cachorro.
n Quando foi que vocês conheceram o pessoal do Sepultura?
GORDO - Depois de lançar o Descanse Em Paz eu fui com uma amiga
na BH batalhar uns shows. Quando nós chegamos lá, calhou de ser
o mesmo dia do show do Venon, com o Sepultura abrindo. Eu já
conhecia o som do Sepultura mas achava muito tosco. Aí vi num
jornal de lá que o Ratos era a influência deles. Pensei:
"Preciso conhecer esses moleques". Descolei o telefone
do Paulo na Cogumelo e liguei pra casa dele imaginando uma mansão.
A maioria dos heavys são burguesinhos. Acabei indo na casa dos
caras. Cheguei lá encontrei lá uns sujeitos podres e ragados.
Me liguei! Fiquei amigo dos caras na hora e foi aí que
conseguimos gravar o Cada Dia Mais Sujo e Agressivo pela
Cogumelo, que era a gravadora que tinha lançado o disco deles.
Depois armamos um show histórico no Mambembe, em São Paulo. O
primeiro com uma banda heavy e uma banda punk juntas. Foi a maior
fofocada. Todo mundo com medo de ir. Baixaram os carecas na
porta, quebraram uns vidros, mas foi só isso. A partir daí começou
a misturar mais as coisas. Os heavys passaram a aceitar mais a
gente.
n (P/ GORDO) Você sempre foi uma figurinha muito conhecida mesmo
fora do underground. Agora que você está na MTV, não pinta
aquele lance de sua figura ser mais conhecida que o próprio
Ratos?
GORDO - "Sempre foi assim. Atualmente, eu não sou mais o
'João Gordo do RDP', eu me tornei 'João Gordo da MTV'. Mas tô
cagando e andando pra isso."
n O Cada Dia Mais Sujo e Agressivo foi gravado também em inglês.
Isso ajudou para o contato coma RoadRunner?
JABÁ - A gente tinha acertado com a Eldorado pra fazer o Brasil
e eles armaram um lance com a RoadRunner de trocarem uns pacotões
de discos. Eles mandaram pra lá uma pá de bandas daqui, entre
elas os Ratos, com Cada Dia Mais Sujo e Agressivo. Mesmo com
aquele inglês tosco os caras nos contrataram pra lançar pra lançar
cinco discos.
GORDO - O inglês do Brasil ainda é bem tosco. O cara gravava um
pedaço e emendava com outro.
n Brasil foi feito pensando no mercado internacional?
JABÁ - "Era pra ser um disco pro mercado nacional mesmo.
Quando rolou o lance com a RoadRunner a maioria das dezoito músicas
do repertório já tava pronta."
JÃO -"Para ajudar, o disco saiu lá fora sem encarte. Nem o
Gordo sabe as letras em inglês."
GORDO - "Quando eu canto essas músicas lá fora é tudo que
não existe. Eles nem percebem."
n E o disco vendeu bem lá fora?
JÃO - "Vendeu umas uma."
GORDO - "Vendeu pero no mucho. Pra falar a verdade os Ratos
é "pero no mucho". Lá fora a gente não é famoso,
mas é manjado. Os caras conhecem mas nunca ouviram nem compraram
o disco. Tá começando a pegar público agora, com os
shows."
n E como está sendo a repercussão do CD Just Another Crime... ?
GORDO - "Aqui no Brasil está meio fraco. Mais fraco que o
Anarkophobia. Acho que é porque é cantado em inglês o pessoal
ficou 'meio assim'. O barato agora é Raimundos, Chico Science,
uma busca à raízes nacionais, nacionalismo do Tetra. E nós
queremos sair fora dessa merda (risos). Eu gosto de Raimundos, não
estou falando mal."
BOKA - "Nós temos o nosso público que não diminui, não
somos uma banda que faz um som que de repente todo mundo começa
a gostar."
JÃO - "Tem muita gente que nunca foi num show nosso,
pivetada que não pode entrar em casas nortunas."
GORDO - "E o que estraga o Brasil é o público. Tem muita
tetra ainda que assusta o público. Na Argentina é muito melhor
que aqui, são bem mais civilizados. Teve um show do Cólera um
tempo atrás. A banda não toca a quinze anos. Os caras vão lá
é saiu o maior pau. A partir do momento que não tem show, não
existe movimento. Como vou ser traidor de uma coisa que não
existe?"
n Just Another Crime... In Massacreland não deve boa repercussão
de crítica nem de público, ao contrário dois outros dois últimos
volumes de Feijoada Acidente?...
GORDO - "(interrompendo) Massacreland é o disco secreto dos
Ratos, pois a RoadRunner (gravadora do RDP naquela época) lançou
e 'escondeu' (não divugou). Já no Feijoada Acidente? -
Internacional teve uma ótima repercussão na Europa, o que deu
um respeito monstro pra gente."
PEDRÃO - "Esse ultimo álbum (Feijoada) foi o disco do
Ratos que mais repercutiu nos EUA, mesmo sem a divulgação da
gravadora. Os caras de revistas e fanzines descolavam o Cd e
escreviam sobre ele.
n Então Massacreland teria sido uma espécie de "erro"
do Ratos?
GORDO - "Esse disco foi reflexo de uma fase de transição.
A gente estava um pé no trash metal, as músicas estavam meio
misturadas e a banda estava meio que em cima do muro. Além
disso, a gente tinha acabado de ficar sem baixista, o que piorou
as coisas. Como o f.d.p. viado do Monte Conner (um dos chefões
da RoadRunner americana) ficava dizendo que éramos 'too fast to
sale' (veloz de mais para vender), resolvemos fazer um disco mais
na 'manha'. Nós queríamos provar para a RoadRunner que havia
mercado pra gente lá fora, por isso, fizemos um disco em inglês
e mais devagar."
n Houve também influência do Alex (Newport, produtor do disco e
integrante da banda Fudge Tunnel), que deu um toque industrial
aquele Cd?
GORDO - "Eu realmente não sei onde é que você viu
industrial naquele disco."
n Que tal as guitarras?
GORDO - "Ali, eu acho que foi um negócio mais grunge, pois
estávamos convivendo muito com bandas dessa linha, como Pin Ups
(João Gordo namorou muito tempo a baixista dessa banda, Alê).
PEDRÃO - "Uma vez Gordo chegou a falar que Massacreland era
uma mistura de Pantera com Nirvana (risos)."
n Quando vocês olham encartes como, por exemplo, Cada Dia Mais
Sujo e Agressivo, o que vocês pensam?
GORDO - "Nada, faz tempo que eu não vejo aquilo. É legal,
tem Igor mocinho, Garotos Podres. Foi uma época que nós estávamos
começando a pegar público metal. Eu comecei a perceber que
tinha muitos heavies que gostavam de nós. E eu gostava de
English Dogs, etc. Em 84, eu cantei com uma camisa do Venom. E até
hoje, você vai em Manaus, tem uns caras te chamando de traidor
do movimento."
n A RoadRunner dá apoio para essas turnês?
GORDO - "Cheguei a conclusão que eles não gostam da gente.
É que só fazemos o circuito underground. Para isso eles não dão
apoio nenhum. A única vantagem é que a gente viaja pra gravar.
Se bem que eu já ouvi falar em vitrines nossas em lojas de CDs
com caixinha especial de papelão e até uns ratinhos de
borracha."
JABÁ - "Isso é coisa da Roadracer (filial americana da
RoadRunner)."
GORDO - Eu acho que os caras de lá gostam mais da gente. Também,
na RoadRunner só tem yuppiezinho trampando sem tesão. Segundo o
Max, ex-Sepultura, na Roadracer, só tem doido trabalhando. Mas nós
não damos mole. Da ultima vez em que a gente foi na RoadRunner
os caras vieram falar conosco e nós: "No money, no
english". Ha - ha- ha! Eles não acreditam.
n Mas sem apoio e vendendo pouco dá pra descolar uma grana?
GORDO - Dá pra comprar CD, um sandubinha aqui, uma marolinha
acolá e já miou. Só da pra sustentar os vícios.
JABÁ - Dá pra da uma força para os coroas em casa também.
n Como foi a turnê pelo exterior?
GORDO - "Nós fomos tocar lá porque aqui não tinha o que
fazer (risos). A gente aqui não toca no Brasil."
n Porque vocês não tocam? Você ainda acha que existe um
preconceito com a banda?
GORDO - "Tem um certo preconceito, um certo medo. Nós
cobramos um quantia razoável para tirar o cu daqui de casa e ir
tocar."
n Mas ainda existe esse preconceito?
GORDO - "Existe, lógico que existe. Então para não ficar
parado, nós armamos esses shows na Espanha, Ilhas Canárias e
França. Foram 18 shows. Tocando lá nós ficamos afiadaços, e
quando chega aqui não tem show. Chegamos em Junho e estamos até
hoje sem tocar. Lá você toca desde para 60 pessoas com para
seis mil. onde tocamos num festival."
n De todas as turnês que vocês fizeram lá fora, qual foi a
melhor?
JÃO - "Foi a de Dezembro de 90, quando tocamos com o
Extreme Noise Terror, Fugazi, um negócio bem punk. Tem muitas
bandas que mentem, falam: "Pô, nós fomos, fizemos uma turnê
de 300 shows, nos demos muito bem". Não é por aí não. Não
ficamos inventando, vivendo de exageros. É difícil ser grande lá
fora."
n Tem bandas brasileiras que exageram?
GORDO - "Tem, lógico que tem. Não vou ficar falando nomes
aqui. Fora o Sepultura que é verdade, o resto é tudo
mentira."
n Estes dois discos de covers foram um tributo ao punk?
JÃO - "Foi um tributo a nós mesmos. Só nós para fazer um
disco em português, com as bandas brasileiras. A gente viveu
aquilo, conheceu muitas pessoas e lembra com as músicas foram
feitas. E no outro CD nós colocamos músicas do mundo inteiro
que poucas pessoas conhecem."
n Em maio de 97, o Sarcófago deu uma entrevista pra RB (número
130) e, ao lembrar do show do D.R.I. no Brasil, em 92 (que acabou
em pancadaria nos camarins, envolvendo o D.R.I., o Sarcófago e o
RDP), o vocalista/guitarrista Wagnar disse vocês ficaram com dor
de cotovelo por não estar tocando naquele show e, por isso,
arrumaram aquela confusão toda. Ele disse ainda que vocês
estavam bêbados e armado com corrente...
GORDO - "Puta merda, Sacórfago de novo (risos)?!?! Cara,
tudo isso aí é verdade, estávamos morrendo de dor de cotovelo
por não abrir pro D.R.I.. (mais risos)."
JÃO - "Aquele show foi uma bosta, eu não queria abrir pra
eles, não. E o Sarcófago é do capeta? O G.G. é que estava com
a corrente."
GORDO - "Não, Jão, eles estão certos. Eu me tornei fã do
Sacórfago, amo os caras (gargalhadas). E esse último disco
deles, como é o nome?(o reporter informa The Worst). Isso The
Worst, é um puta disco, uma obra de arte, a melhor coisa que eu
já ouvi na minha vida. Eu adoro o Sacórfago (gargalhadas
gerais). Do que vocês estão rindo? É verdade! Tudo que ele
falou naquela entrevista está certo. Nós fomos os causadores da
discórdia, ficamos putinhos por não abri pro D.R.I. e arrumamos
a confusão."
JÃO - "E eles são os bonzinhos e vão todos pro céu (mais
gargalhadas). E esse último disco é inspirador, principalmente
a bateria (Jão imita som de bateria eletrônica, debaixo de
muito riso)."
n E o CD nacional tem alguma músicas dos Ratos?
JÃO - "Quatro ou cinco, mas só uma é inédita, 'Direito
de Fumar', não é uma apologia ao tabaco. Você está pagando
para morrer então tem o direito de fumar onde quiser. Também
tem músicas do Sub e do Crucificados Pelo Sistema."
n Essa música tem uma vida meio curta?
GORDO - "Mas eu faço música para ficar na boca do
povo."
n Você que foi o responsável por organizar o projeto?
GORDO - "O Jão veio com a idéia do nome e eu desenvolvi o
resto. Só uma banda ou outra é que nós discutimos."
n Vocês fizeram alguma pesquisa?
JÃO - "Eu tenho uma cabeça meio computadorizada para estes
negócios, tenho uma memória muito boa. E a maioria foi tudo de
cabeça, só que tive que confirmar algumas coisas. Sobre o AI-5,
eu não sabia onde encontrar os caras, e a gente não lembrava do
meio da música. E a fita que eu tinha também não dava para
entender esta parte. Então tive que compor, nós fizemos está
parte. Você tinha que sacar as intenções dos caras, tanto
quanto a parte instrumental quanto a vocal."
n De todas essas bandas, poucas ainda estão ativa.
GORDO - "Eu acho que muitas bandas estão voltando por causa
deste disco. O Fogo Cruzado está voltando, Patife Band. Eles se
reanimaram."
n Uma vez você me disse que o disco Ao Vivo foi pra descolar uma
grana.
GORDO - "Foi pra tapar o buraco."
n E este novo?
GORDO - "A mesma coisa (risos). O RDP fez tudo que uma banda
normal poderia fazer: lançamos discos, ao vivo, coletânea, de
covers."
n E o novo baixista Pica-Pau, está bem na banda?
JÃO - Está já se integrou legal. Não tem mais perigo de mudar
a formação porque a coizinha tá muito boa. Tem os velhos, que
são eu e Jão na frente, e a molecada atrás."
n E já tem planos para o próximo disco?
GORDO - "Já. Vamos vamos começar a compor depois que
voltarmos da turnê que nós vamos fazer. Vamos para o mesmo
lugar de sempre (Europa). Só que não vou falar mais nada agora
se não o pessoal faz macumba. Tem um monte de gente que faz
torcida contra. Todo mundo quer que agente acabe mas ninguém
consegue. Devemos gravar no segundo semestre do próximo
ano".
n Vocês incluem músicas desses dois discos nos shows?
GORDO - "Sim. Lá for é mais músicas do CD internacional.
Aqui mais músicas do Cd em português".
n Tem algum material novo?
GORDO - "Em Outubro nós começamos a ensaiar para o novo
disco. Vai ser um disco de covers de bandas antigas de punk
brasileiro. De coisa que ninguém nunca ouviu falar, anos
setenta."
n Isso é um retorno as raízes punks da banda?
GORDO - "Não, só para encher a lingüiça mesmo (risos).
Tem coisa que nem foi lançada. A gente tem isso em demo como músicas
do grupo AI - 5."
n Mas quantas faixas?
GORDO - Sei lá, agente não toca aqui (risos). É difícil fazer
um set list, pois a gente tem muita música."
n Quem teve a idéia da capa?
GORDO - "Nós, eu e o Jão. A nojeira quem fez foi o
fotografo."
n Isto também foi uma gozação em cima do disco dos Guns?
JÃO - "É, a feijoada nossa é mais indigesta que o
espagheti deles".
n Vocês prentendem mandar um CD para eles?
GORDO - "Eu não. Quero mais que eles se fodam. Odeio Guns
n'Roses".
n E para os grupos lá de fora?
GORDO - "Vamos começar a mandar agora. Mas tem gente que
nunca vamos conseguir achar."
n Como foi a turnê que vocês fizeram em maio pela Europa?
GORDO - "Foram 17 shows, a maioria na Espanha, um em
Portugal e um na França. Foi lindo. Tocamos tanto para 30
pessoas quanto para 9 mil. Tocamos em alguns lugares pequenos,
'pueblos', cidadezinha em volta de um castelão medieval, tinhas
uns clubes em volta. Não tinha o que fazer nós íamos tocar lá".
JÃO - "Era um show no meio de semana, para peencher espaço."
n Mas esses shows já estavam agendados?
GORDO - "Tem uns que foram agendados na hora."
JÃO - "Nesse que tinha menos pesssoas, escreveram na porta
uns três dias antes que agente ia tocar."
GORDO - "Tocamos com o Beer Mosh e o Alcoolica, que são bem
grandes lá. O show de Barcelona contou com 9 mil pessoas, mas
pelo menos umas 5 mil pessoas era o nosso público. Nós como
atração principal."
n E o que deu para sentir nessa segunda viagem?
GORDO - "O público gosta muito da gente lá. Nós estamos
afim de voltar lá ano que vem, o disco está vendendo legal. O
LP saiu no Japão, Europa inteira e Argentina. Nos EUA ainda não.
Me parece que no Japão eles lançaram um EP primeiro com 'Ultra
Seven no Uta'."
n Você viu esse EP?
GORDO - "Ainda não recebi, mas deve ser lindo!"
n Falando um pouco dos shows, teve algum que saiu briga?
GORDO - "Não, lá não sai tetra. Todo mundo é civilizado.
Esse show foi mais foda que nós fizemos um tempo atrás, eu fui
pra lá doente. Estava com nervo ciático inflamado. Chegou nesse
show, comecei a detonar. Em Portugal eu fui parar no hospital.
Cantei quatro shows sentados, fiz acupuntura, foi foda, paguei
todos os meus pecados."
n E nos outros shows não aconteceu nada de estranho?
GORDO - "A gente foi tocando e pirando. E vendo que o valtão
não servia para nós. Só vivendo junto que agente vê se o cara
é legal ou não. No avião a gente já decidiu tirar o Valter.
Foi o teste dele. Ele gravou o disco e teríamos que ver ao vivo
e a convivência com ele. Ele é muito diferente da gente. Nós
somos doidos, e ele é muito bonzinho."
BOKA - "Fizemos mais de vinte shows com ele."
n Vocês são black metal e o Valter white metal?
GORDO - "Por aí (risos). Nós somos o Euronymous e ele é o
vocalista do Stryper (risos)"
n Mas saiu alguma tetra com ele?
GORDO - "Não, foi na boa. Incompatibilidade de gênios. Nós
todos somos filhos da puta e ele é muito bonzinho. A convivência
é impossível. Ele gravou o disco legal, vai receber os direitos
direitinho."
n E onde vocês descolaram o novo baixista?
PICA-PAU - "Eu tocava na banda do Kichi (roadie do Ratos),
no Kangooros In Tilt, e toquei no Lobotomia.
GORDO - "Ele já fez uns dez shows com a gente."
n Depois da turnê pela Espanha, vocês vieram tocar na
Argentina. Como foi?
GORDO - "Nós tocamos com o Decide e o Cannibal. Foi um show
só. E tocamos sozinho no Uruguai."
BOKA - "Foi assim: sábado na Argentina, sexta no Uruguai e
no outro sábado na Argentina de novo, com uns metaleiros. É
foda, a gente só toca com bandas ruins!"
JÃO - "Na Argentina, nós temos mais públicos que o Decide
Cannibal. Nós já tocamos sozinho pra mesma quantidade de
pessoas."
GORDO - "Nós não estávamos abrindo, os nomes das bandas
no mesmo tamanho. Como sempre, tivemos problemas técnicos na
hora, cabo que falha."
n E essa mistura de hardcore com death metal?
GORDO - "Eu achava que esses caras com Glen Benton tudo uns
cuzões, mas até que eles tocaram legal. Glen Benton com aquela
cruz queimada na testa jogando futebol, tomando café da manhã
conosco. É teatro. Os caras do Cannibal Corpse são gente
fina."
n E alguém perguntou se ele ia se matar mesmo?
GORDO - "Não, não vai mais não, se acha! Com esse chaveco
ele vendeu 150 mil discos." (risos)
n Alguma dessas bandas já conhecia os Ratos?
GORDO - "Já."
n Em termos de show no Brasil com tá?
GORDO - "Fraco. Nós vamos tocar em Salvador com uma banda
de death, pra variar."(risos)
n Falando sobre sua passagem no SPA...
GORDO - "Eu voltei podre da Espanha, não tinha nenhum show
por aqui por causa da Copa e da mudança de dinheiro. Chegamos
sem baixista, tudo horrível, me deu crise. Minha empresária
deslocou um SPA de graça, fiquei 25 dias, emagreci 15 quilos, já
engordei 3."
n Isto também serviu para calar a boca daqueles que ficam
falando que o RDP é traidor do movimento punk?
GORDO - "Isso daí é para nós mesmos. Estou cagando pra
esta molecada nova, que odeia o RDP e nem sabe porque, já virou
tradição. O que importa é nosso público lá fora. Lá fora nós
somos muito punk, muito underground, muito respeitado. Foi
divertido gravar e ensaiar. Foi auto-diversão."
n Vocês acham que as bandas de rock devem engajar em campanhas
tipo contra fome ou Aids?
GORDO - "É legal fazer isso, mas aqui no Brasil não da
certo."
n O que vocês acharam de não participar do Monster of Rock?
GORDO - "Normal, estamos acostumados. Eu participei por
tabelas de todos os grandes festivais. E tudo interesse de
gravadoras e empresários."
BOKA - "Acho que não existe convite para esses
festivais."
JÃO - "Quando tiver um Continental Sem Filtro Rock..."
(risos)
n Como rolou esse história de que você comeu um bolo inteiro
pra gravar os vocais de Vá Se Virar e Estilo de Vida Miserável?
GORDO - "O meu plano é que os vocais do Ratos ficassem cada
vez mais ininteligíveis (risos). Quando eu terminava de gravar
perguntava: 'Dá pra entender o que eu cantei?' se a resposta
fosse 'Não', eu dizia: 'Então, tá ótimo!' (mais risos). Além
disso, agente sempre zoava que em algumas bandas parece que o
vocalista comeu um bolo pra cantar. Eu resolvi testar isso e deu
certo. As palavras são apenas articuladas, e não cantadas. Mas
se você pega as letras do encarte, dá pra acompanhar sem
problemas. Ficou gutural."
n O produtor de Carniceria Tropical, Billy Anderson, foi indicação
de Jello Biafra (ex-Dead Kennedys). Como isso correu?
GORDO - "A gente ia fazer o disco com o Tom Soares (produtor
que já trabalhou com Shelter, Sick Of It All etc.) mas ele começou
a fazer muito cu doce.
PEDRÃO - "A banda ainda estava na RoadRunner (o selo atual
do RDP é Paradoxx), por isso, havia facilidade de contato com o
cara (muitas bandas com as quais ele trabalhou são do selo). Já
estava tudo acertado, mas ele estava muito ocupado e passou adiar
constantemente a gravação."
GORDO - "O cara é meio estrela mesmo, cobra muito caro e é
metido."
PEDRÃO - "Depois disso, o Pica-Pau mandou um fax para o
Jello Biafra, pedindo que indicasse um produtor pra gente. Ele
indicou alguns e, entre eles, estava o Billy, que se monstrou
interressado quando entramos em contato."
GORDO - "O cara é muito gente fina, doidão, punk, o mestre
da barulheira pesada. Ele deixou o disco monstruoso."
n A gravação e mixagem foram feitas em diferentes estúdios.
GORDO - "As músicas mais complicadas a gente mixou no
Different Fur, um estúdio (de San Francisco, California) onde já
gravaram Satriani, James Brown, etc. As mais hardcore foram no
Hyde Street. O Green Day e o Dead Kennedys já gravaram lá. O
lugar é tosco, antigo, cheio de equipamento velho."
n A capa do Cd confunde bastante, pois parece uma foto de
garrinpeiros da Serra Pelada ou vítimas de um vulcão. Mas, na
verdade, é a foto de um bloco carnavalesco. Como vocês chegaram
a ela?
GORDO - "O trabalho é da mesma fotografa de Massacreland,
Nair Benedicto. A foto é do bloco de lama (de Paraty, RJ), mas
ninguém aparece sorrindo, ao contrário, parece que todos estão
indo para o matadouro."
n Porque só tem uma faixa em inglês (Ideologic Police) no álbum
novo?
GORDO - "Eu não estava mais afim de cantar em inglês. Eu não
domino a língua e, como ninguém entende nada que eu canto
mesmo, preferi cantar em português. Só que faltou a idéia para
fazer a letra e o Boka fez, em inglês."
JÃO - "A verdade é que o pessoal não curte muito o RDP em
inglês. Nem lá fora! A prova disso é o próprio Massacreland,
que se fosse de alguma outra banda, teria havido uma melhor
repercussão."
n (P/ JÃO) As guitarras estão bem mais pesadas nesse álbum. O
que você fez de diferente em relação aos outros discos?
JÃO - "Eu meio que padronizei as guitarras dos tempos de
Anarkophobia. O timbre é mais simples, no entanto, o produtor
trabalhou legal nelas. Fica até mais simples para eu gravar
assim, pois os timbres dos amplificadores estavam muito
bons."
GORDO - "O timbre tirado direto dos amplificadores é o
melhor que existe. Eles desmetaliza tudo."
n A faixa Pedra tem 'scratches' e a participação da galera do
Pavilhão 9. Você acha que a mistura de hardcore com rap
funciona bem no RDP?
GORDO - "Acho que sim, pois as idéias são as mesmas. Nós
lutamos pelas mesmas coisas, a diferença está no tipo de músicas
que fazemos. Aliás, em termos de radicalismo, os rappers são até
muito mais fechados que nós."
n (P/ GORDO) E por falar em rap, a última vez que entrevistamos
a banda, você estava ouvindo muito Cypress Hill. Ainda curte
esse tipo de som?
GORDO - "Não, só estou ouvindo barulheira, tipo Patareni,
Agathocles e Crust da Suécia."
n Porque o título do último Cd está em castelhano?
GORDO - "É porque é um termo mais universal. Em português
ficaria "Açougue Tropical", o que seria muito feio.
"Carniceria" é um termo bastante conhecido nos EUA e
Europa. O Dorsal Atlântica também tem uma música chamada
Carniceria."
n Depois da última fixa, Colisão, tem um discurso esquisito com
uma voz distorcida. O que é aquilo?
GORDO - "(dando sonoras gargalhadas) Você não imagina o
que seja aquilo? É uma crítica ao disco do Nasty Savage que
saiu na Rock Brigade que tem o Kerry King, do Slayer, na capa (número
18 de 86)."
PEDRÃO - "A gente estava folheando uma edições antigas da
Rock Brigade e encontramos essa crítica. Não conseguíamos
parar de rir. Era uma coisa muito absurda, pois não falava das músicas
ou do disco, mas apenas em 'espadas de fúria', 'meteoritos
caindo do céu' etc. Aquela voz é minha, mas está com a rotação
alterada e, em vez de falar do disco do Nasty Savage, eu mudei o
texto e coloquei como se fosse uma crítica ao Cd."
n Nessa época da última entrevista pra RB, O Ratos tinha
acabado de ficar sem baixista. Agora, um dia antes desta outra
entrevista, o Pica-Pau saiu da banda. O que aconteceu?
GORDO - "O Rafael (nome verdadeiro do Pica-Pau) é um cara
gente fina e inteligente, mas tem uns problemas aí.
JÃO - "É, ele tem problema com a falta de problemas
(risos). Ele tem equipamento classe A, tem tudo o que quer, mas
é meio depressivo. A gente até já esperava que isso iria
acontecer alguma hora."
GORDO - "Acima de perder o baixista, nosso medo era perder o
amigo, pois gostamos muito do cara."
PEDRÃO - "Ele também é tatuador, e resolveu seguir esse
caminho. Foi uma decisão dele e temos que respeitar isso."
n Como ele comunicou isso pra vocês?
GORDO - "No dia do show do Suicidal (16/12/96). Ele veio até
mim e disse que tinha perdido o tessão de tocar, que não havia
gostado do disco novo e que havia optado por ficar apenas
tatuando."
JÃO - "(imitando Pica-Pau) 'O carro importado da minha mãe
me oprime, o Honda Civic do meu pai me deixa
deprimido.(risos)"
GORDO - "Não vou deixar de ser amigo dele por causa
disso."
n Vocês já tem alguém em mente para substituí-lo?
GORDO - "Não, Nós ainda estamos pensando em como vamos
fazer pra testar novos baixistas."
n Depois de 16 anos de carreira, já da pra defender
financeiramente só do Ratos?
JÃO - "A gente vive de brisa (risos). Não dá pra viver só
da banda, nós fazemos várias outras coisas pra sobreviver. Se
fosse depender de dinheiro, o Ratos já tinha acabado há muito
tempo. É fácil você manter uma banda por 16 anos quando ela dá
dinheiro, o difícil é segurar uma barra como a do Ratos. Por
isso, Pica-Pau não agüentou e saiu."
GORDO - "Quem paga as minhas contas é a MTV. O RDP é a
nossa paixão. E tem gente que acha que sou rico!"
JÃO - "A maioria das bandas hoje começa com tudo
planejado, fazendo o som da moda pra ganhar dinheiro e 'catar'
mulher. Quando a gente começou, eu não pensava sequer gravar um
disco, imagine então ganhar dinheiro com uma banda... Além
disso, não vamos nunca ceder para outros estilos, senão, perderíamos
um público fiel e não conseguiríamos arrumar nenhum
outro."