ANDRÉ
MATOS - FIREWORKS
Num
mercado que não lança nada de criativo há anos, que é o do
Heavy Metal Melódico, a banda Angra tem se destacado como
honrosa exceção, seu novo trabalho Fireworks, inova novamente
trazendo uma sonoridade que evoca as raízes do movimento Heavy,
o vocalista e compositor da banda, André Matos fala nesta
entrevista exclusiva para a Revista Eletricidade um pouco sobre
esta nova sonoridade.
Eletricidade: Vocês acabaram de voltar da
Europa onde começaram o trabalho de divulgação do novo disco,
como foi a recepção por lá, já dá para ter uma idéia da
performance do novo trabalho?
André Matos: Nós estivemos na Europa e no Japão,
fizemos divulgação de uma maneira geral e a repercussão foi
muito grande, principalmente por parte da Imprensa, recebemos as
melhores críticas possíveis, também dos fãs , quer dizer,
todo o pessoal que já ouviu o disco praticamente vem para a
gente e diz que gostou realmente do disco.
E isso a gente pôde ver na realidade com o lançamento do disco
em Paris, íamos fazer uma sessão de autógrafos na Virgin
Megastore onde se esperava algo como 300 pessoas e no final
tinham 1.300. Tivemos uma bela receptividade e já começamos a
tocar por aí: no Brasil já fizemos quatro shows e estreamos
dois shows na Argentina.
Eletricidade:
E sobre o Japão, vocês acham que a crise
econômica dos países asiáticos pode vir a afetar o trabalho de
vocês por lá?
André Matos: Não só nós, mas qualquer banda, uma
banda que vendia 100 mil cópias agora vende na faixa de 70 (mil
cópias). Enquanto a crise não desaparecer vai continuar essa
redução do mercado de uma maneira geral, mas a gravadora estava
muito preocupada em manter o ritmos das coisas, por isso levou a
gente para lá de novo para fazer divulgação e fez um belo
trabalho.
A gente está indo para o Japão em Dezembro também para tocar,
vamos fazer quatro concertos lá e depois na Europa a gente deve
fazer quarenta concertos em Janeiro e Fevereiro.
Eletricidade: No novo
trabalho Fireworks vocês buscaram intencionalmente um certo
afastamento da tecnologia que dominava o disco anterior Holly
Land, por que? Vocês neste sentido não têm medo de estar
remando contra a maré do mercado que dita coisas cada vez mais
eletrônicas e tecnológicas?
André Matos: Foi exatamente essa a
intenção porque a gente com o Holy Land utilizou as técnicas
de gravação mais modernas possíveis e enfim foi um disco que
precisou realmente disso porque é um disco muito complicado,
muito rico para se trabalhar e com Fireworks a gente já tentou
simplificar bem mais as coisas e exatamente o que estava fazendo
falta para a gente era essa sonoridade mais antiquada, então por
isso a gente optou por uma técnica de gravação que não é
necessariamente a mais moderna, quer dizer... fitas de rolo,
analógico e tocando com instrumentos antigos... Isso trouxe para
o disco uma característica bem especial, ele ficou bem diferente
daquilo que se esperava, mas ao mesmo tempo nós ficamos super
satisfeitos porque remeteu muito à sonoridade dos grupos que nos
influenciaram.
Eletricidade:Quanto
ao repertório do Angra, no disco anterior vocês chegaram a ser
bastante criticados por alguns daqueles fãs mais radicais que
não costumam aceitar muito bem a incorporação de outras
influências ao Heavy Metal, como vocês lidam com esta fatia do
público? Este radicalismo acaba influenciando na escolha do
repertório do disco e dos shows?
André Matos: Não, na verdade isso não aconteceu,
inclusive se você reparar bem tem uma música no disco que se
chama "Gentle Change" que poderia estar no Holy Land, e
nós fizemos questão de colocá-la para mostrar que continuamos
fiéis a uma coisa que descobrimos e que a gente apoia, enfim, a
decisão de fazer o Holy Land do jeito que ele era foi muito
importante na carreira da banda porque estabeleceu um estilo,
antes disso, todo mundo comparava o Angra ao Helloween, ao Iron
Maiden e depois do Holy Land ninguém compara com mais ninguém:
é o Angra.
E agora a gente se sente exatamente na liberdade de poder
misturar as duas coisas, então tem coisas que são herança do
Holy Land, vamos dizer assim, como tem coisas que são herança
do Angel's Cry , e tem coisas que são novas e isso não
pressionou a gente para escolher o repertório do disco e
tampouco pressiona para a gente escolher o repertório de shows.
A gente toca muito as músicas antigas também... eu acho que é
uma fatia do público que vai também apreendendo algumas coisas
com o tempo, e muita gente que "metia o pau" no Holy
Land no começo, fala que hoje ama o disco, é o que eu tenho
visto por aí. E talvez seja um disco que demore alguns anos para
ser entendido na sua totalidade, por isso eu acho que qualquer
tipo de crítica mais precipitada, deve ser levada em
consideração, mas não tão completamente a sério, porque
muita gente muda de opinião depois de um tempo
Eletricidade:Vocês
gravaram no estúdio Abbey Road, como é que rolaram as
gravações por lá? Deu tempo de fazer aquela foto tradicional
atravessando a rua que todo mundo que vai prá lá acaba tirando?
André Matos: Sabe porque não deu
tempo, porque eu não descobri aonde era a esquina... (Risos)
Eu bem que procurei a tal da esquina, mas ela não fica em frente
ao estúdio sabe... alguém falou: - não, é mais para
lá...não deu tempo porque eu tinha que gravar e acabei não
indo na esquina dos Beatles, mas gravei na mesma sala que eles e
isso foi uma puta emoção... uma coisa que a maioria dos
músicos desejaria vivenciar, o estúdio tem uma atmosfera, tem
um clima todo especial, e é com muito orgulho que a gente bota
isso no disco: Gravado no Abbey Road, é uma coisa que
adicionou muito ao disco.
Eletricidade:
Chris Tsangarides o produtor de Fireworks é um nome já
tradicional do Heavy Metal, faz quase parte da história deste
gênero, como é trabalhar no estúdio com este tipo de produtor,
a banda deu carta branca a ele ou vocês acabaram querendo
colocar a mão na massa e dando palpite sobre este ou aquele
aspecto da gravação?
André Matos: Foi muito tranqüilo
trabalhar com o Chris, ele não mexeu muito nos arranjos das
músicas, a preocupação maior dele foi com o som e foi nesse
ponto que a gente "casou" bastante, quer dizer, a gente
pôde compor livremente e ele se preocupou em conseguir uma
sonoridade de alta qualidade profissional, que a gente desejava
mesmo. Foi uma química legal que rolou entre a gente e ele
gostou muito de trabalhar com a banda também, foi uma boa
experiência.
Eletricidade: Como é o processo de
composição de vocês, vocês preferem ouvir tudo o que cair nas
mãos ou se isolar para não haver nenhuma interferência
externa?
André Matos: Do meu ponto de vista pessoal eu não
ouço nada, eu tenho tempo de ouvir antes disso, mas na hora que
eu começo a compor eu prefiro não me influenciar por nada e
deixar sair as idéias que já estavam rolando.
Não é que eu seja radical: - Não vou ouvir mais música! Mas
eu não procuro ouvir música com o intuito de me inspirar. Acho
que inspiração é uma coisa que ou você já tem na sua
cabeça, ou ela não pinta dessa maneira.
Eletricidade: O Mercado
de CDs pirata vêm crescendo assustadoramente no Brasil, na
opinião de vocês existe alguma solução para este problema?
André Matos: É difícil dizer
porque num sistema executivo, que é a Polícia no caso,
deficiente como a nossa, não tem condições de controlar isso,
fica muito difícil e então.. eu li numa revista outro dia:
"CD PIRATA: DENUNCIE SE VOCÊ VIR!!! "
Bem, você pode denunciar, mas você não tem garantias de
alguém vai lá pegar, e tem outra coisa, vamos falar a verdade:
a culpa não é do coitado do cara que está vendendo CD Pirata
na rua, esse cara vendia... sei lá, relógio por 10 reais e de
repente descobriu que vender CD Pirata dava mais dinheiro, então
ele foi vender, e é um cara que está com fome e precisa vender
alguma coisa para sobreviver porque o nosso país também não
dá condições para quem está por baixo, sem emprego. Não é
esse cara que a gente tem que pegar, tem que pegar os caras que
fabricam que são os piores porque não é o camelô que vende
alguns, ele é pequenininho, mas o dono da fábrica de CD Pirata
que é o grande vilão da história.
Eu comparo isso ao tráfico de drogas...o traficante de rua não
é o cara que faz um grande mal, mas o cara que está comandando
o tráfico é o grande mafioso, então na minha opinião acho que
a Polícia ou a Fiscalização ou sei lá quem, deveria se
preocupar mais em descobrir do mesmo jeito que se preocupa em
descobrir aonde estão os traficantes onde estão as matrizes
destes CDs Piratas. E isso é de interesse de todo mundo; é do
interesse dos músicos, é do interesse das gravadoras, até
mesmo do público porque um CD Pirata não é da mesma qualidade
que um CD normal, você nunca vai comprar um CD que tenha as
letras, num acabamento igual...
Eletricidade: É uma judiação porque agora que a Indústria
Brasileira está chegando ao ponto de publicar a letra, de fazer
uma coisa legal....
André Matos: Exatamente... Fazer uma impressão
igual ao que tem lá fora, caixinha transparente...
De repente isso aí "ferra tudo" porque, é claro, um
CD custa "vinte paus" e você compra um por cinco e é
um problema para os músicos, porque pára de arrecadar, pára de
fazer a "máquina rodar" e vai chegar a um ponto em que
os músicos não vão ter mais condições de trabalhar.
Eletricidade: E falando em mercado
brasileiro, na sua opinião, o gosto (ou mau gosto) musical do
público é reflexo da situação econômica do país?
André Matos: Não, porque eu
conheço vários países lá de fora que tem o mesmo "mau
gosto", tipo: EUA, Alemanha, Japão, o que vende mais nesses
países também é a musica de péssima qualidade, então eu não
acredito que seja reflexo da economia.
Eletricidade: De uma certa forma a gente
consegue perceber a evolução do Angra de um disco para o outro,
qual a opinião de vocês sobre aquelas bandas que continuam
paradas no tempo e no espaço, como o Iron Maiden, por exemplo?
André Matos: Acho que são bandas que preferem
apostar no que é certo e não arriscam, então eu por exemplo
pessoalmente falando como ouvinte, como fã já parei de escutar
Iron Maiden há muito tempo.
Eu parei quando eles lançaram o "Seventh Son of a Seventh
Son", daí em diante não me agradou mais.
Eletricidade: Quais são os planos do Angra
para o Brasil, quando sai a próxima tournê?E se você puder dar
as datas para gente...
André Matos: É claro, nós já começamos a tocar
no Brasil, já fizemos dois shows no Paraná, um em Manaus, um em
Belém, fomos para a Argentina e fizemos dois shows em Buenos
Aires; e continuamos com a tournê, até o final de Novembro nós
estamos tocando no Brasil, você pode descobrir aonde estão as
datas pelo site da banda porque eu não tenho na
cabeça todas, até o final de Novembro tem várias, mas uma
importante é em São Paulo, dia 16 de Novembro no Olympia, vai
ser o grande lançamento do disco.
ANGRA
- FIREWORKS (PARADOXX MUSIC)
Quem disse que o Heavy Metal morreu, certamente ainda não ouviu
este novo lançamento do Angra: Fireworks é Heavy Metal da
melhor qualidade e representa para o Angra um retorno em grande
estilo para uma sonoridade mais tradicional dentro do Heavy
Metal, depois de Holy Land, um disco que tinha na sua sonoridade
uma influência brasileira mais acentuada.
Fireworks
é um trabalho mais maduro, mais equilibrado, refletindo ainda
mais o crescimento de uma personalidade própria por parte do
Angra, que aqui se distancia ainda mais daquilo que os críticos
musicais chegaram a chamar de imitação do Helloween, e que hoje
em dia, depois de Fireworks se tornou tão injusto que chega a
ser ofensivo.
A banda optou pelo produtor Chris Tsangarides, bastante conhecido
no meio heavy por seus trabalhos com o Judas Priest e Black
Sabbath entre outros, que trouxe para as melodias já bem
trabalhadas da banda, uma sonoridade mais próxima do que se pode
chamar a melhor fase do Heavy Metal, as influências da banda
mais óbvias, como o Iron Maiden, por exemplo se limitam à fase
mais criativa da banda, de séculos atrás.
Isso fica até mais claro depois que analisamos a letra de Metal
Icarus, que utiliza figuras mitológicas para expressar o
descontentamento do Angra com a cena Metal atual.
O resultado são músicas como Petrified Eyes, que tem o solo de
guitarra mais bonito do disco e Lisbon, a música escolhida para
primeiro single de Fireworks, bastante climática e com um belo
arranjo de orquestra.
Também merecem destaque faixas como Gentle Change, que se
aproxima mais em estilo do disco anterior Holy Land e a própria
faixa título, esta sim, uma música com uma sonoridade bem
característica do Angra.
O Angra mostra que está evoluindo musicalmente, Extreme Dream,
por exemplo, tem um verdadeiro duelo de guitarras iradas, muito
bem executado por Rafael Bittencourt e é claro, Kiko Loureiro.
As orquestrações gravadas no Estúdio Abbey Road, em Londres, são só mais um "pequeno" detalhe dentro deste belo trabalho da banda, que sem sombra de dúvida é o melhor da carreira do Angra até agora.