ANGRA - Amadurecendo com Dignidade

Numa entrevista exclusivíssima para a Cover Guitarra, a moçada do Angra fala sobre o passado, o presente e o futuro.

Propositalmente, resolvi fazer esta entrevista com 4/5 do Angra - o vocalista André Matos estava meio adoentado na ocasião e não pode comparecer à entrevista - alguns meses depois do lançamento de Holy Land. Calma, eu explico: logo depois do lançamento de um disco, é normal que um artista ou grupo fique num estado de êxtase total. Algum tempo depois, a impressão sobre o próprio trabalho passa a ser um pouco mais racional... A intenção era levar até vocês a verdadeira sensação que a banda teve e passou a ter após o lançamento deste bom disco. Pois então, aqui está ela...

Cover Guitarra - Na minha opinião, houve um avanço musical imenso entre o Angels Cry e o Holy Land. Vocês também sentem que houve uma evolução musical?
Kiko Loureiro (g)
- Essa diferença reside no fato do Holy Land ter sido um álbum composto pelos cinco caras da banda, enquanto que o Angels Cry foi formado por composições individuais, da época em que todos tocavam em outras bandas antes de formar o Angra.
Rafael Bittencourt (g) - Quando formamos o Angra, tínhamos os mesmos propósitos, ou seja, tocar heavy metal com qualidade, coisa que estava faltando no mercado nacional e internacional. Só que ainda não tínhamos um entrosamento, e sim uma 'amizade de Black Jack' (conhecido bar roqueiro de São Paulo). Essa diferença a que você se refere está no fato de termos tocado durante dois anos em shows e ensaios, mesmo sendo músicas do Angels Cry.
Kiko - Quando você grava com um produtor profissional, ele exige muito mais empenho e estudo. Na hora da gravação, deu pra gente ter uma idéia de como se deve estudar para gravar um bom disco e fazer um show legal, tocando bem e com precisão. Então, o primeiro disco serviu para a gente ter a noção de como fazer...
Rafael - Aí, no segundo disco, a gente já começou compondo juntos. Nós fomos para um sítio, onde ensaiamos com metrônomo, gravamos baixo e bateria pra ver como iria ficar... Fizemos tudo isso para chegarmos com tudo em cima.

Disciplina e Estereótipos

CG - Então vocês tiveram um trabalho muito mais rigoroso de pré-produção...
Kiko
- Foi isto que levou o Holy Land a sair com outra qualidade. Outra coisa foi o fato de termos gravado pela segunda vez com o mesmo produtor (Charlie Bauerfeind). A gente teve um diálogo muito melhor. Da primeira vez, nós éramos um bando de moleques e foi difícil dialogar, pois o cara queria que fossemos o estereótipo de uma banda heavy metal, aquela coisa tradicional, onde é garantido o sucesso. Ele não deu espaço para a gente viajar muito...
Luís Mariutti (b) - E eu acho que nem o pessoal da banda se permitiu viajar...
Rafael - E no segundo disco, aconteceu uma coisa que não tinha ocorrido no primeiro... Nós ficávamos tocando nos ensaios e gravando as coisas que saiam, tipo riffs, bases, viagens e até coisas de vocais... A gente estava tocando no quarto e, de repente, um riff surgia e era imediatamente gravado.
Kiko - Na realidade, nós não estávamos com muitos critérios, como analisar se o que estávamos tocando era heavy metal, se estava dentro do estilo ou não. Nós simplesmente íamos gravando...
Luís - E olhe que nós nem gravamos as coisas mais estranhas...

CG - Ficou muita coisa de fora do Holy Land?
Ricardo Confessori (d)
- Ficou. O disco saiu brasileiro por acaso. Porque o título do álbum veio depois que nós percebemos a quantidade de sons que tínhamos nesse estilo. E muita coisa no estilo mais heavy ficou de fora, coisas mais tradicionais.

CG - Pelo que estou percebendo, nesse período de pré-produção, vocês fizeram uma 'colcha de retalhos'...
Ricardo
- Com certeza. Eram duas horas só de idéias...
Rafael - Muitas músicas saíram assim, da maneira como foram iniciamente concebidas. E muitas outras saíram de uma outra maneira, ou seja, as idéias iniciais eram levadas pra casa por alguém que tivesse outras idéias a serem acrescentadas, e voltavam já prontas, como no caso da Holy Land... Todas as músicas são fruto de um trabalho em conjunto. Eu acho que só tem uma faixa que veio de uma só pessoa, que é aquela balada clássica Deep Blue, que veio do André...

CG - Na verdade, vocês ficavam fazendo jams sessions...
Rafael
- Enquanto estávamos no sítio, só rolavam jams, embora nunca com a banda inteira. A gente desapertava o 'pause' e tocava. Quando achava que já estava bom, parávamos e apertávamos o 'pause' novamente (risos).

Raízes Nacionais, Racionalismo e o Sepultura

Vocês disseram que só se tocaram dessa essência brasileira no disco depois que as músicas já estavam gravadas. Quando o embrião do Holy Land começou a ser feito, vocês não tinham isso em mente?
Rafael
- Na realidade a banda começou com esse ideal. Só que é uma coisa muito delicada misturar heavy metal com a 'brasilidade'. E a gente nunca quis forçar a barra para nada. Nós sempre tocamos o que queríamos, tanto que o Angels cry é um álbum de profunda sinceridade, onde já haviam algumas tentativas desta aproximação com as raízes brasileiras... O próoprio nome da banda foi pensado em cima disso, porque é um nome em português. O que acontece é que se precisa de muita familiaridade com ambos os polos para se poder juntar. No sítio, a gente chegou num ponto que, depois de tantos treinos, as coisas começaram a fluir com naturalidade. É como tocar um instrumento. No começo, você fica ensaiando e depois você começa a tocar o instrumento realmente. Você nem pensa mais, você simplesmente toca...
Ricardo - No Angels Cry tem uma faixa - Never Understand - que era um baião mais heavy, no qual a gente não quis botar percussão porque talvez pegasse mal... Mas no Holy Land foi inevitável. Ele até poderia ter saído sem percussão, mas chegamos à conclusão que isto iria dar um clima nas músicas.

Eu já ouvi muita besteira quando se fala em mistura de rock com influências brasileiras, como pessoas que dizem que o Sepultura e o Angra estão caminhando na mesma praia. Enquanto o Sepultura usou elementos mais primitivos, vocês incorporaram um astral meio sinfônico, chegando até a pesquisar o catálogo do Marcus Pereira (selo especializado no resgate de todas as sonoridades brasileiras)...
Kiko
- O que acontece, tanto para nós como para o Sepultura, é que quando se está lá fora, você é mais uma banda no meio de uma multidão. Sabendo que existe alguma coisa que diferencia sua banda das outras, é justamente com essa diferença que você tem que jogar.
Luís - Se bem que eles exploram mais o lado percussivo, enquanto nós exploramos a melodia...
Rafael - Nós nos orgulhamos de estar classificado no mesmo grupo que o Sepultura, porque é uma banda brasileira fazendo coisas brasileiras.

CG - Agora que já se passou algum tempo desde o lançamento do Holy Land e aquele entusiasmo inicial já passou, mudou alguma coisa na maneira com que vocês vêem o disco hoje?
Rafael
- Sim. A gente já vê com menos emoção e mais racionalidade. Tinham músicas que eu achava que eram grandiosas e que hoje percebo que nõ são tanto assim.
Ricardo - Eu nem escuto o disco...
Kiko - Eu escuto e continuo gostando, mas vejo que poderia ter feito coisas diferentes, que poderia ter melhorado o resultado final. Num todo, eu achei que foi super bem dosado. Ninguém quis aparecer muito... Talvez eu mixasse de uma outra maneira um pouco diferente, mas as composições são boas.

CG - Ficou algum material de fora? Ou melhor, vocês gostariam de ter incluído no Holy Land algumas destas canções que sobraram?
Rafael
- Eu tiraria "Lullaby for Lucifer", que ficou totalmente fora de contexto do álbum e colocaria "Freedom call". Na verdade, elas foram trocadas porque "Freedom Call" é uma excelente música e nós precisávamos de uma faixa neste nível para o EP que estamos lançando (que se chama... Freedom Call)
Luís - Ela é uma excelente música, mas não estava muito trabalhada na época do disco. Estava crua.
Kiko - Nós deveríamos ter trabalhado mais em cima dela. Não se deve guardar música boa para EP porque ele não é muito importante...

E na verdade, EPs não servem para isso...
Rafael
- Exato. "Lullaby..." não foi bem mixada, deixando de corresponder ao restante do trabalho.

Improvisos X Método Alemão

CG - Vocês já estão em turnê com o Holy Land há algum tempo. Vocês costumam improvisar quando estõo tocando no palco?
Kiko
- Muito pouco, pois as músicas são todas fixas. Há somente dois momentos no show em que nós improvisamos, "Carolina IV" tem o seu início e o final improvisados, e "Make Believe", que tem o final com alguma coisa improvisada de linha de baixo e virada de batera. Às vezes, alteramos detalhes pequenos, como as palhetadas e outras coisas que vão facilitar o nosso trabalho nos shows. Luís - Agora, na 'cozinha', nosso tipo de som não permite improvisação. O que rola é precisão. O nosso estilo é muito calcado na precisão. A gente ensaia vezes e mais vezes do mesmo jeito.

CG - Como foi a experiência de gravar com um produtor alemão (Charlie Bauerfeind)? Vocês irão repetir a parceria no próximo disco ou vocês nem pensaram nisto?
Rafael
- A gente já decidiu que não é bom gravar na Alemanha. Não por causa dos equipamentos, e sim pelo desgaste causado. Por exemplo, quando fui gravar as guitarras, eu já estava lá há 2 meses. O André, quando foi gravar as vozes, já estava lá há 3 meses. Ele já tava pirado, não dava mais para conversar com ele. Ele queria ir embora. Tinha ficado 3 meses lá sozinho... Então o negócio foi mal planejado.
Luís - Ele poderia ter ficado no Brasil esse tempo e depois pegar um avião para lá. Como tínhamos acabado a turnê, resolvemos ficar por lá.

CG - Mas não tem aquela coisa de estar todo mundo junto? Aquela curiosidade de ver o outro gravando?
Luís
- Teoricamente sim. Mas o trabalho de gravar é árduo, então é melhor que você evite ficar no estúdio, pois tudo é muito repetitivo.
Rafael - Veja, nós tivemos duas semanas de pré-produção, nas quais ficamos de sete a oito horas dentro do estúdio. Quando o Ricardo começou a gravar as baterias, ele ficava oito horas na mesma música (!!!)...
Ricardo - E eu gravei a bateria durante muito tempo porque não usei guitarra guia, só o metrônomo. Se o guitarrista estiver tocando super bem, 'tá limpo'... Se for feita uma guitarra mal gravada, isso acaba me atrapalhando.

CG - O interessante é que Holy Land é um disco intrincado, mas sem malabarismos virtuosísticos...
Rafael
- Os japoneses falam que a gente deveria colocar mais coisas, mais frases... Só que o estilo é outro. Este disco tem coisas difíceis de serem executadas precisamente, mas valorizando a melodia. É muito mais difícil fazer cinco caras suarem juntos do que separados.

CG - Qual foi a grande lição que vocês tiveram durante a gravação do Holy Land?
Luís
- A minha foi que você sempre é uma bosta (gargalhadas gerais). Por mais que você esteja tocando bem, o cara te põe lá em baixo. Na primeira gravação, eu falei que tinha que fazer um solo de baixo na "Never Understand". Aí, o produtor falou que iria colocar um som bem legal para eu fazer o solo, e colocou o volume no zero.
Kiko - O lance é que o cara está acostumado a gravar com músicos muito bons, que chegam lá e resolvem.

CG - Vocês não acham que ele pode fazer isso com os caras do Helloween também?
Rafael
- Na verdade é um jeito meio alemão de ser, de querer tudo muito certinho. Se você for um cara inteligente, vai sacar que o que ele está falando é verdade, não é nenhum tipo de psicologia. No Brasil, o nível de exigência é muito baixo, então, quando você vai lá pra fora, fica assustado. Mas os alemães são assim mesmo, olhe o carro que eles fazem, por exemplo. Ele é perfeito em todos os detalhes. E tem outra, o cara não quer colocar o nome dele em nenhuma roubada.
Ricardo - Ele é um bom produtor, que trabalha com gente boa. E nós aprendemos bastante com ele. Tanto que, hoje em dia, a gente ensaia muito mais por causa dele.
Kiko - E os shows melhoraram também, pois nós adquirimos o hábito de estudar em casa juntos, treinar mais... Acho que essa foi a lição que todos nós aprendemos, juntamente com o fato de acreditarmos mais no nosso som. Luís - E não abaixar a cabeça. Se eu sou um bosta, eu vou estudar pra cacete e melhorar...
Kiko - E você começa a ver que depois de muito suor, você fica bom. Você começa a ver o seu valor. Se você quer fazer determinada coisa, faça bem.