Sucesso no Japão

Mais uma banda brasileira se arrisca nos caminhos do exterior. Aqui o vocalista André Matos fala da carreira, do primeiro disco, do sucesso no oriente e da relação com sua ex-banda, o Viper. Confira.

MT - Como e quando começou o Angra?
Andre
- "Foi em novembro de 1991. Nesse ano a banda vai fazer três anos. Na verdade era um momento em que nós nos encontramos e cada um tinha uma história diferente do outro. Eu tinha parado um tempo com banda, fiquei mais ou menos um ano sem banda e estava a fim de voltar. E a história dos outros era bem parecida, não que eles estivessem parados, mas estavam muito descontentes com as bandas deles. Estavam dando duro e não acontecia nada, mais por falta de seriedade do pessoal das outras bandas que não queriam levar nada a sério. A gente se conhecia do meio mesmo, de ter visto o outro tocar. Resolvemos primeiro se juntar para ver o que saía de som, fazer umas jams, tocar algumas coisas. E rolou legal. E disso achamos que poderíamos fazer uma banda".

O som dessas jams já era um som como é hoje?
"Era bem misturado. Pra gente fixar o que seria o estilo do grupo demorou bastante. Cada um trouxe suas idéias, as influências são muito diferentes. Isso é uma coisa que achamos legal, porque seria algo que poderia enriquecer mais o trabalho se fizesse a coisa certa. Seguimos isso a risca no início, quer dizer, ficamos ensaiando uns três meses todo dia, tentando dar uma lapidada no material que a gente tinha. Dessa época, surgiram músicas como Time e Carry On, até gravar a primeira demo no meio de 92".

Houve muitas mudanças na formação?
"Por mais nova que seja a banda, a gente já teve duas trocas. O Kiko entrou dois meses depois da banda ser formada. Antes tivemos dois guitarristas. O baterista também mudou. Vai fazer um ano que entrou o Ricardo. Essa é a melhor formação que a gente já teve. Acredito que seja a ideal".

Essa formação de hoje foi a que gravou o disco?
"Foi, menos o baterista que foi um convidado. Gravamos na Alemanha, no ano passado. Fomos para gravar o disco".

Já pensavam em gravar lá fora?
"Sim. Era nossa meta gravar lá fora. Por causa das condições. Quando fizemos a demo, falamos em conseguir um contrato lá fora, que é o que a maioria das bandas está tentando hoje, infelizmente. O Brasil não tem condições de investir nisso. Tentamos a JVC, que financiou a gravação na Alemanha".

E como surgiu esse contrato?
"Foi através do nosso empresário que a gente tem na Alemanha, que na verdade é o representante da gravadora na Europa. Esse cara já conhecia a gente através do nosso empresário aqui do Brasil. É o tipo de som que no Japão a gente sabia que podia dar certo. Esse tipo de som nunca deixou de estar no topo".

No Japão ele pode dar certo. Mas o que você acha que vai acontecer nos outros países?
"Agora a coisa esta começando a pegar de novo. O heavy melódico é uma coisa que rolou há quinze anos atrás. Depois veio um som mais pesado, thrash, Metallica. Até que a coisa foi ao extremo. O heavy melódico ficou meio esquecido. Mas a gente sempre gostou desse estilo e não poderia fazer outra coisa. É um campo dentro do heavy metal onde dá pra explorar mais o lado musical. Tem bandas de thrash que não deixam de fazer coisas interessantes, mas não deixa de ser algo limitado".

Vamos supor que sua banda só desse certo no Japão. Você ficaria chateado?
"Ficaria. Pra comecar o Japão não é referência pra nada. Acho que até o Chitãozinho e Xororó deve vender bem no Japão. Falar que faz sucesso no Japão, tudo bem, mas os caras compram de tudo lá. Não é por aí. O grande desafio é emplacar na Europa. Estados Unidos a gente já tirou da cabeça porque é um mercado muito estranho. Ou você pertence a uma puta gravadora grande ou nesse esquema independente não rola. Mas eu estou animado. Estive na Europa para fazer promoção, o disco saiu lá há pouco tempo. O público não conhece ainda, e foi uma receptividade legal. Falaram bem do nosso trabalho. Uma coisa que deu pra sentir na Europa é que está voltando o heavy melódico. Estão buscando coisas mais trabalhadas. Eu estou vendo isso com bons olhos, de repente estamos na hora certa".

Vocês ainda não tocaram no exterior. Em qual lugar você gostaria de tocar primeiro?
"Aí caramba, no Japão (risos). Lá a gente sabe que vai rolar legal. Tá em casa. Mas o que deve rolar é a gente ir para a Europa, onde faríamos uma turnê menor, em clubes pequenos. E no Japão seriam shows nosso, grandes, cinco, dez mil pessoas. Mas a gente tem que estar preparado. Acho que tem que ter uma experiência no exterior antes. Não tem que ir logo de cara".

O que você achou desse disco?
"Fiquei contente. Muitas coisas mudaram quando a gente foi gravar. Se você pegar a demo e depois o disco vai ver muitas diferenças. Isso acontece porque quando você grava uma demo e não tem experiência, e quando começa a dar de cara com os produtores, eles te provam pela experiencia deles o que é mais certo. Tem horas que você até leva isso a mal, fica pensando que o cara quer meter a mão no nosso trabalho. Mas depois de um tempo, você começa a pensar bem e vê que eles estão certos. Som de guitarra, em dois minutos tem o som pronto. E os arranjos também, nós aprendemos muito como executar nossas músicas de uma forma mais precisa. Tivemos que dar duro, repetir muita coisa, dia e noite trampando no estúdio".

E a respeito da cover que vocês fizeram?
"Pessoalmente, sou muito fã da Kate Bush, tenho todos os discos. A idéia foi do Luís, num ensaio. Fizemos primeiro uma versão mais pesada. Na hora de gravar, achamos que essa versão pesada não estava batendo com o clima da original. Dava pra fazer um meio termo. É uma realização gravar essa música. Não só pra expressar a minha admiração por ela, mas aquela coisa de criança, você ter essa oportunidade é legal. O pessoal acha que nós estamos tentando nos exibir, quer ser melhor que a Kate Bush, que eu posso cantar naquela altura, mas nada a ver. É uma homenagem".

E sobre o concurso do Iron que você foi um dos classificados?
"Eram 400 concorrentes no mundo todo, dos quais 20 seriam finalistas. E eu estava entre esses vinte, não sei em qual posição. Nunca me passou pela cabeça entrar no Iron Maiden. Em primeiro lugar, eu acho que eles iriam escolher um cara de lá. Me solicitaram o material e eu não ia deixar de mandar, mais pra ver onde ia chegar. Eu tinha acabado de gravar o disco do Angra. Se tivessem me chamado, ia ficar numa sinuca".

É impossivel não vincular o seu passado com o Viper...
"Eu acho que mereço essa ligação porque, se o Viper chegou a algum lugar, tambem é devido ao meu esforço. Tenho uma grande parcela de contribuição no sucesso do Viper. E o fato de ter deixado a banda foi uma decisão pessoal minha. Eu estava a fim de estudar música, e a banda estava indo para uns caminhos que não batia muito com o que eu pensava. Eu não tive problemas de ordem pessoal, mais musical".

Alguém uma vez me disse que você tinha saído porque não queria mais fazer rock. Isso é verdade?
"Não, isso não é verdade. Tanto que eu passei um ano e voltei com o Angra. Eu parei tudo para estudar música, tinha acabado de entrar na faculdade. Mas continuei ouvindo rock e não consegui ficar longe. Já era pra eu ter saído do Viper há muito tempo, mas eles pediram para eu ficar mais um tempo pra divulgar o Theatre. Na propria gravação do Theatre eu tive problemas com o pessoal da banda, eu queria fazer arranjos diferentes, colocar clássicos, dar uma enriquecida. E o pessoal da banda começou a ficar meio mordido com isso. Não sei se porque eles não gostam desse estilo ou até uma falta de compreensão. Mas o fato é que deu uns quebra paus, tipo 'mexeram na minha música, esta muito rococó, viadagem'. Eles queriam fazer algo mais pesado, mas não era a minha praia. Então tudo bem, eles querem fazer o que eles gostam e eu vou fazer o que eu gosto. Não tinha outra banda em mente, mas depois encontrei pessoas de cabeça aberta, que gostam desse estilo. É incomparável a liberdade que eu tenho no Angra hoje e a que eu tinha no Viper. A razão musical foi a principal de eu ter deixado a banda".