O Batuque Radioativo

Depois de cativarem os públicos francês e japonês com seu primeiro álbum Angels Cry, os brasileiros do Angra traçam em seu novo trabalho um histórico do Brasil, desde a época do descobrimento até o momento atual, resgatando ritmos e elementos brasileiros. Com produção dos alemães Charlie Bauerfeind e Sascha Paeth, Holy Land traz o heavy melódico, marca registrada da banda, num mix que envolve música clássica e a ginga brasileira. E é sobre este coquetel mezzo heavy mezzo brazuca que os guitarristas Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt falaram à Guitar Player.

GP - Sei que vocês lêem, escrevem, compõem e tocam todos os estilos muito bem, desde o erudito, jazz etc. Gostaria que vocês falassem sobre isso.
Kiko Loureiro - Todos na banda são ecléticos, tiveram formação musical e escutam todos os estilos. O Rafael (guitarra) e o André (vocalista e tecladista) cursaram faculdade de música. Todos lêem partitura. O baterista estudou piano, tocava trumpete e está aprendendo guitarra. Gosto particularmente de jazz, tenho até uma guitarra acústica.
Rafael Bittencourt - Estamos sempre procurando adaptar novos estilos, mas o Kiko é mais familiarizado com o instrumento do que eu, mas a pesquisa é geral. Estou aprendendo banjo, nós dois estamos estudando cavaquinho, toco piano e até toquei tuba em uma orquestra.
KL - Pode não ser tão perceptível para o ouvinte, mas sabemos onde estão os elementos de erudito, de baião, de MPB, de country, como foi tudo foi descoberto e introduzido na música do Angra. Às vezes, fica meio distorcido subliminarmente dentro do heavy metal, um riffizinho de country.

GP - Como vocês descobriram a guitarra?
RB - Foi através do Angus Young. Sua figura me despertou o interesse pelo instrumento. Até então, não fazia idéia do que seria tocar guitarra. Comecei a tocar aos 13 anos. Minha primeira professora de violão, Dona Neuza, me ensinava: 'De noite eu rondo a cidade...'. Nossos grandes professores são os discos. Meu primeiro professor foi o The Number of the Beast. A primeira vez que vi alguém reproduzindo no violão uma música do Iron Maiden, quis saber qual o motivo de os mesmos acordes no violão soarem diferentes na guitarra. Demora para você captar e entrar no universo da guitarra.
KL - Eu entrei por acaso. Minha irmã tinha aulas de violão e não conseguia fazer uma aula inteira. Minha mãe então sugeriu que eu fizesse meia aula. Desta forma, aos 11 anos, comecei a aprender como destro, apesar de ser canhoto, porque eu usava o mesmo violão que minha irmã. Tinha essa coisa distante que era tocar peças clássicas no violão e, quando o professor ia embora, eu colocava os discos de metal, AC/DC, todas as bandas de heavy metal do final de 70. Hoje em dia não conseguimos só ouvir heavy, apesar de estarmos ligados nas bandas atuais. Ouço John McLaughlin, Tuke Andrens, os de fusion tipo Scott Henderson, John Scofield, John Coltrane. Dos brasileiros, gosto de Tom Jobim, Edu Lobo, Hermeto Paschoal, Egberto Gismonti, Rafael Rabello e Sebastião Tapajós.

GP - E os clássicos?
KL - Não ouço muito mais por falta de ter o material, do que por não gostar. Até já tirei umas peças lendo partitura. Gosto também de Helio Delmiro, Heraldo do Monte, Toninho Horta...
RB - As bandas de heavy metal, aliás, estão precisando de uma reciclagem que acontece gradualmente. Algumas bandas estão apresentando algo, diferente, como o Primus, Red Hot Chili Peppers, Dream Theater. É a linguagem metal, mas sempre misturada a outros elementos diferenciados. Os violonistas brasileiros me inspiram bastante, porque eles seguem uma "escola brasileira". O violão faz parte da nossa cultura.
KL - Na verdade, se fôssemos enumerar iríamos ficar um tempão aqui lembrando dos irmãos Assad, Zezo, Alemão... e ainda tem os grandes medalhões como Caetano Veloso, Gilberto Gil...

GP - E essas referências estão mais presentes neste último disco, não é?
RB - No fundo é a nossa influência. Quando você sai do país e dá de cara com uma série de bandas que estão na mesma, você acaba pensando que, no fundo, é só mais uma, mas o brasileiro tem algo que o diferencia.
KL - É quando você se volta para as suas raízes. A maneira do brasileiro tocar violão é diferente em termos de harmonia.
RB - Até os nomes são diferentes, violão e guitarra. Para eles, tudo é guitarra, acústica ou elétrica.
KL - O grande professor que eu tive foi o Mozart Mello. Estudei uns cinco ou seis anos com ele. Foi ele quem realmente me ajudou a abrir a cabeça para tudo isso e ele realmente toca todos os estilos, toca muito bem qualquer coisa, e isso fez com que eu aprendesse vários estilos, tivesse a noção de cada particularidade de cada estilo. Hoje em dia eu toco muito com um cara chamado Zé Walter, que é impressionante.

GP - Você e o Zé Walter estão fazendo algum trabalho juntos?
KL - Não. Na realidade, estou aprendendo jazz e música popular. Só de vê-lo tocar já tenho uma luz, que me desperta para algo que vou ficar em casa tentando fazer.

GP - Vocês estudam, utilizam algum método?
RB - Na verdade, por falta de tempo o ensaio é o estudo. Quando você aprende a tocar rock, vai de ouvido e tem uma série de falhas técnicas. Um cara que me deu uns toques foi o André Hernandez, aluno do Mozart também.

GP - Como foi trabalhar com os produtores Charlie Bauerfeind e Sascha Paeth pela segunda vez? Foi uma decisão de vocês ou da gravadora?
KL - Não, foi uma decisão nossa, gostamos do resultado do primeiro disco. Vamos lançar um EP no segundo semestre com produção deles também, com o material que restou do segundo disco. O choque de trabalhar com os alemães ocorreu no primeiro disco. Eles são muito severos em termos de precisão, são muito técnicos. O brasileiro deixa a música fluir mais.
RB - O Charlie é um cara que nos conhece já faz tempo e entrou neste espírito de experimentar.

GP - Como tem sido a recepção dos públicos europeu e japonês em relação ao segundo disco?
KL - No Japão, desde o primeiro houve uma identificação do público com a banda. Eles captaram a mensagem e compraram, tanto que foi disco de ouro. Na Europa, o país que está melhor é a França, entramos nas paradas de música geral. Na Itália, o mercado é bem menor, mas é razoável; na Alemanha também. O francês gosta de música diferente, com mistura de muitos elementos. É um fator positivo porque é a chance que temos para mostrar que o Brasil não é só aquela deturpação que eles assistem na CNN. Isto desperta um certo interesse pelo país e melhora a imagem. Numa entrevista para uma revista de guitarra japonesa, enquanto o fotógrafo montava o equipamento, fiquei tocando música brasileira. Ele nem quis saber dos solos do disco, só do batuque da música brasileira. A entrevista vai sair com levadinha de samba.

GP - E na América Latina?
KL - Só foi lançado na Argentina. É um mercado que ainda estamos conquistando. Lá o nosso público é pequeno. Foram lançados os dois discos quase que simultaneamente, Angels Cry e três meses depois saiu o Holy Land. Lá tem um circuito underground e alternativo muito forte. O público heavy metal é muito fiel, muito fanático.

GP - Vocês não acham que o público brasileiro, no geral, valoriza mais as bandas daqui depois que elas fazem sucesso no exterior?
KL - É, isso aconteceu conosco, e também com o Sepultura, P.U.S., Korzus.
RB - Brasileiro é meio complexado, precisa da aprovação do primeiro mundo, para sentir que pode comprar. Existe uma divisão entre o que é brega e o que é chique.
KL - Quando a banda vai para fora é porque tem condições de fazer um trabalho equiparado ao feito no exterior, de alto nível. Isto também conta, não é só o complexo que existe. Não teríamos condições de fazer o mesmo aqui no Brasil.

GP - Como vocês compuseram este disco?
RB - Fomos para um sítio, ficamos quase três meses lá. Foi a solução encontrada para descansar e compor, pois tínhamos prazo. Aos poucos foi fluindo, podíamos tocar a qualqer hora em cima da montanha.
KL - No final era ensaio todos os dias, preparar as músicas novas para gravar na Alemanha, preparar o show de despedida em Sao Paulo, com músicas do primeiro disco, que seria basicamente como a turnê européia que viria a seguir. França e Itália foram os países mais legais pela similaridade do público com o público brasileiro. Os alemães, talvez pelo fato de estarem mais acostumados, porque lá eles têm show todos os dias, são mais frios.
RB - O trauma da guerra ainda é muito presente. Mas eles também aprendem com a nossa liberdade de espírito, expressão...
KL - Eles não têm o timing do improviso. Se você coloca uma nona no acorde eles reclamam. Por exemplo, com relação ao nosso disco, eles acharam que a percussão estava desafinada. Mas a música aconteceu e eles perceberam que o efeito ficou interessante. No fundo, estava desafinado mesmo. Berimbau não é afinado. Mas se você pegar uma escola de samba, por exemplo, o naipe de tamborins sempre tem uma diferença. Mas essa é a graça, a sonoridade, o suingue.
RB - E teve um lance engraçado. Quando chegaram as percussões feitas no Brasil lá na Alemanha, tudo em ADAT (N.R.: fita para gravação digital), os produtores colocaram no computador e começaram a ouvir junto com as músicas. Eles diziam que, às vezes, tudo se encaixava, mas a tendência é você estar sempre tocando em layback, que é um pouquinho atrasado, um pouco relaxado, deixando a música te arrastar. Aí eu falei: "Sabe o que é, esses estilos todos foram feitos em mesa de bar e são todos feitos depois de muito consumo de cerveja e, depois de várias, você está mais lento".

GP - Como foi o lance da orquestra?
RB - Tinha um CD só com som de cordas, violinos, solos, pizzicatto, etc., que custava US$ 800, e outras coisas em três dimensões, um som de orquestra mesmo, bem similar.
KL - Fora a percussão, teve uma flauta transversa e uma viola, porque quando você precisa de uma melodia solo é importante a presença do músico. No geral, o sampler imita bem, mas se for um solo de violino, ou lago assim, não fica tão bem porque não há a interpretação do instrumentista.

GP - Quais equipamentos vocês utilizaram?
KL - As guitarras são Washburn MG 120 e a N4, que nos patrocina há um ano e meio. No disco usei a Dry Gibson Les Paul e uma Fender Strato para variar um pouco a característica de timbre. Também usei uma Tagima. De repente, você pega uma guitarra para gravar determinados acordes, depois outra etc. Tinhamos três cabeças Marshall, Mesa Boogie, Vox usado pelo Brian May, do Queen, que tem um timbre bem característico, bem comprimido. Ao vivo, ampli Marshall. Meu som de base é sem efeito nenhum. Também uso uma Washburn, Zoom 9050, um Cry Baby, encordoamento 0.10, porque eu afino meio tom abaixo. As palhetas são 1.14, porosas, Dunlop, que estão deixando de ser fabricadas. Elas são menos pontudas, você só encontra mais arredondadas, o que dá uma certa diferença ao tocar.
RB - Troquei meu encordamento para um híbrido, que é a mistura de 0.9 com 0.10, e o mais fácil de encontrar é o SIT. Vou mudar para 0.10 porque as cordas ficam muito moles. Meu ampli é um Marshall 9200, com dois canais de 100 watts e um pré-ampli Marshall. Na verdade, nosso som está mais legal ao vivo, pois tivemos tempo para pesquisar...