Luís Mariutti (Angra) fala sobre preconceito

Excepcionalmente nesta edição do Rock Brasil, a Fire Rock traz, para quem havia perdido, uma das melhores e mais comentadas entrevistas de 97 - Luis Mariutti, baixista do ANGRA; Sucesso no Japão e Europa, comenta com exclusividade para a FIRE, como são tratados os músicos brasileiros no exterior.
Vale a Pena Conferir novamente!!

FR - Vocês estão sempre fora do Brasil, portanto, na sua opinião, como é visto o músico brasileiro ? Ainda existe a imagem de "Jungle Boys" na qual o Sepultura foi inicialmente rotulado?
LM - No começo, passamos um pouco de dificuldade, principalmente em estúdio. Chegamos na Alemanha para a gravação do primeiro disco como uma banda desconhecida e inexperiente em estúdio e fomos, neste ponto, discriminados, eles não acreditavam no potencial da banda, chegando a tirar sarro da gente, os caras eram também bastante exigentes no sentido da qualidade musical, tivemos também problemas com o primeiro baterista que não conseguiu gravar o disco.
A maior dificuldade foi o lugar onde nos ficamos. Era uma casa vazia em um bairro onde não havia nada. Era acordar, ir para o estúdio, gravar e voltar .
O respeito deles por nós como músicos aumentou bastante no segundo disco e na gravação de Painkiller, onde o produtor veio para o Brasil, nós gravamos muito mais rápido, nós sentimos aí a diferença de estarmos gravando aqui no Brasil.

FR - E vocês se sentiram menosprezados neste sentido?
LM - No começo sim, talvez pela inexperiência da banda, na verdade, com relação ao empresário, nós tínhamos a idéia de que a banda paga o empresário, então ele deveria ser um empregado da banda e isso rolou meio ao contrário, tivemos que negociar muito, mas hoje em dia o esquema está diferente.

FR - As bandas brasileiras ainda são vistas lá fora como curiosidade?
LM - São vistas como exóticas, pelo fato de sermos brasileiros e os caras conhecerem pouco sobre aqui. O Sepultura inseriu no exterior uma imagem de Brasil associada à favela e tudo mais e isso chama muita atenção. Mesmo na parte de som nós misturamos percussão e tudo mais, o que é uma coisa exótica, chama a atenção e é legal.

FR - Com relação à organização dos shows na Europa, vocês são tratados em outros países da mesma forma que as bandas locais ?
LM - Não, ainda não. Por exemplo na Alemanha, o circuito é mais underground, então, a estrutura dos shows é menor, as casas são menores, só que sempre fomos tratados numa boa, os técnicos e o pessoal das casas são bem atenciosos com a gente, as bandas que dividem os shows com o Angra também tem nos tratado muito bem.

FR - Nós sabemos que na França o povo é muito nacionalista, em geral não gostam de falar inglês, etc.; na sua opinião o que levou vocês a fazerem tanto sucesso na França, mesmo sendo uma banda brasileira cantando em inglês ?
LM - Na França, temos um empresário que está trabalhando muito bem, chamado Oliver e somos tidos pela mídia e pelo público francês como Progressive Heavy Metal, mas o que nos ajudou bastante foi fazer um show acústico lá, com isso ganhamos bastante credibilidade do público.

FR - Na Alemanha, vocês presenciaram algum caso de nazismo ?
LM - Nós não chegamos a presenciar, mas ouvimos falar que grupos neonazistas lá são muito fortes, mas nós não sentimos isso na pele. É lógico que você vê várias pessoas remanescentes da Guerra e tudo mais, e até um pessoal neurótico com isso, já que a Alemanha foi devastada na Guerra. Nós ficamos numa pensão onde havia um senhor que havia se ferido na Guerra e ficado meio biruta, cuidando de pombos o dia inteiro, sem conseguir fazer mais nada.
O povo Alemão é muito perfeccionista e às vezes, autoritário mesmo, tem um pouco disso no nosso empresário, só que não chega a ser um lance nazi, apenas aquela coisa deles serem perfeccionistas e quererem meio que ditar o que você tem que fazer ou não.

FR - O que você acha do cara que sai do Brasil com o baixo na mão e vai tentar a vida na Europa como músico ?
LM - É claro que se você for sem uma estrutura já não é tão legal, se você for brasileiro, então, é bem mais difícil, a não ser que você já tenha um esquema montado. Agora, se você estiver querendo arrumar um emprego como músico ou como qualquer outra coisa, é preciso chegar lá falando pelo menos inglês e, pelo menos na Alemanha, você tem que mostrar muitas qualidades, senão não rola