Angra: Por que os anjos choram?

Talvez porque não saibam o que há de errado com os homens. Ou talvez porque refletidas nas lágrimas estejam todas as respostas. A banda Angra quer subir aos céus e perguntar. Mas por enquanto, em terra firme, espera a hora de gravar o próximo trabalho. Na Alemanha, e depois partindo para a terra do sol nascente, onde os japoneses, já tão americanos, esperam por toneladas de consumo. Por ora, o Angra conversa em São Paulo. O céu? Talvez esteja muito longe.

São Paulo, num dia de sol forte, fica parecendo uma sauna. O concreto fervendo cria um clima estranho. Como se você estivesse espremido num estádio no meio de 50 mil batedores de cabeça, assistindo a um show do... Angra! No meio da caldeira, um repórter apressado procura esta banda. Disseram que eles estão num estúdio. Entra em rua, sai de beco. "Mas que droga de farol, onde é que fica esta...". Na porta do estúdio, um careca despreocupado atende e abre o portão de ferro. Atrás das grades está o Angra. André Matos (vocal), Rafael Bittencourt (guitarra), Luís Mariutti (baixo) e... Ricardo Confessori (bateria). "Ué, o batera não veio?", "é, a gente resolveu não ensaiar... ei cara, porque você não pede pra "mesa" gravar a entrevista? A gente fala nos microfones e beleza...". O repórter sorri aliviado, afinal pouparam seu trabalho de "apontador de gravador". Quando ainda rolava aquele famoso "papo pra descontrair o entrevistado", o baixista dá um pequeno "berro" e descobre o inevitável. O "mesa", sem-vergonha viciado em reverb, coloca um efeito e a conversa fica com eco. "Deixa assim! Pode deixar, dá um ambiente, dá um molhinho (risos). Parece que a gente tá na rádio do Zé Bétio!". Legal. Estamos começando bem...

Cover - Tudo bem, a clássica primeira pergunta: Como aconteceu a formação da banda?
Kiko
(risos) - Mas é importante saber! Em 92 o André e o Rafael estudavam na mesma faculdade de música. Aí eles eram "amiguinhos" (risos) e resolveram montar uma banda.
Rafael - A nossa idéia inicial era fazer uma banda que tivesse algumas coisas diferentes. Que não fosse apenas "mais uma banda". Apesar disso, tem gente que pensa que nós somos só "mais uma banda".
Kiko - Pode ser que seja mesmo, vai saber! (risos)
Rafael - Dependendo do ponto de vista... (mais risos)

Cover - Mas houveram outras formações...
André
- Da formação original, nós somos os três remanescentes (André, Rafael e Luís). O Kiko entrou uns dois meses depois. Tinha outro baterista, o saudoso Marco Antunes, que foi substituído pelo Ricardo depois da gravação do disco.

Cover - O Angra é uma banda nova. E mesmo assim já está conhecida. Vocês tiveram muitas dificuldades?
André
- Nós ficamos mais ou menos um ano e pouco sem fazer apresentações em nenhum lugar. Só ensaiando. Isso pra preparar a banda. Queríamos que ficasse um negócio legal. E nem falava tanto que tinha banda, tal... foi meio diferente.
Rafael - E não só não tínhamos uma fórmula do sucesso como também não visávamos o sucesso. A idéia da banda, no começo, era fazer uma coisa que nós gostássemos.

Cover - Mas vocês não tiveram uma "estrada" antes de gravar o disco. Isso não dificultou um pouco?
Kiko
- Não houve a estrada de show. Quer dizer, todo mundo tem a experiência individual. Mas nós não estávamos preocupados com a perfomance de show, e sim com a composição. Nós temos um empresário que tem uns contatos legais, e quando gravamos a demo, mandamos a fita para o Japão. O pessoal de lá gostou. Daí mandamos para a Europa. O pessoal de lá já conhecia o André por causa do Viper... A única diferença é que a banda não se sujeitou a tocar em barzinhos...
André - E já sabíamos das "roubadas" que poderiam acontecer. Quer dizer, ainda pegamos "roubadas" em show. Isso, no Brasil, nunca se escapa. Agora, o quanto deu pra evitar, nós evitamos.

Cover - Mas vocês não acham que se fizermos uma comparação de hoje e dez anos atrás, o rock deu uma "esfriada" em termos de mídia?
Rafael
- Não!
Luís - Ah, você diz Barão Vermelho...

Cover - Na verdade foi a primeira vez que o rock feito por brasileiros alcançou o topo, grandes gravadoras...
Kiko
- É verdade. Hoje em dia não existe mais isso. Mas é questão de modismo. Mas o público de rock é fiel. E eu acho que a qualidade está crescendo. Hoje em dia você tem mais material didático, mais informação, instrumentos acessíveis...
Rafael - O pessoal está com mais grana, está mais interessado em aprender, em montar um conjunto... Hoje em dia, um cara que vive de música, às vezes vive tão bem ou melhor do que um cara que é médico, advogado...

Cover - Atualmente você encontra poucas bandas brasileiras de rock em grandes gravadoras. Mas aí você que o maior show do ano, e talvez o da década, foi o show dos Stones, que é uma banda de rock. Isso não é estranho?
Luís
- Mas eu acho que para o nosso lado, que é o heavy metal, nós temos que dar Graças a Deus. Há um tempo atrás era ridículo os lugares que você tinha pra tocar... se bem que ainda têm... Mas tem mais bandas. Pô, o Monsters of Rock tinha quatro bandas nacionais. Nunca houve um festival assim aqui. E há um tempo atrás você tinha programas de rádio especíificos que tocavam heavy, e não uma programação inteira.
André - Mas isso que ele falou tem muito a ver, porque o som que a gente faz é um som pra exportar, na verdade.

Cover - E um outro sintoma é a questão da 97 FM que perdeu o perfil rock. No Rio a única rádio rock que existia acabou... Veja, eu não estou depreciando o rock, pelo contrário. Só estou analisando algumas coisas que estão acontecendo.
Kiko
- O lance é que o rock está crescendo. Mas tem gente maior ainda que o rock.
Luís - Mas se você mostrar um trampo profissional, bem feito, que qualquer pessoa vai olhar e pagar um sapo, achar legal... mesmo estando o rock meio fora da mídia, não tem essa. É o caso do Sepultura. Caiu na estrada, se deu bem. Porque os caras fazem um thrash bem feito. Ninguém tem que falar nada dos caras, estão fazendo um grande sucesso lá fora, provaram o que tinha que provar.
André - Nós não estamos fazendo rock no sentido de defender o rock... Se no Brasil a cultura não é de rock, nós temos que entender um pouco isso, e respeitar. É claro que as coisas estão mudando, mas aos poucos. Sabemos que se aqui a gente não faz tanto sucesso, no Japão nós nos damos muito melhor do que no Brasil. O próprio fato de isso acontecer, quem sabe abra um pouco os olhos da moçada.

Em cima dessa discussão toda, na opinião de vocês, qual é o futuro do rock no Brasil?
Rafael
- A tendência é crescer. Já está crescendo. Se continuar do jeito que está... Porque o que faz o sucesso é o consumidor. Cada vez mais você vê moçada nova, de 11, 12 anos nos shows de rock.
André - O que ajuda muito nisso é esse lance de bandas de fora tocando no Brasil. Os grandes empresários viram que os ingressos dos Stones esgotaram em pouco tempo. Quer dizer, um dia a Rede Globo vai enxergar isso.
Kiko - Como já enxergou o Rock In Rio, mas ainda não está bom...

Cover - Ainda não deu pra fazer show internacionais?
Kiko
- Não. Tem gente que pensa que nós fomos para a Europa gravar e fazer shows. Devemos ir agora e gravar o segundo disco na Alemanha.

Cover - Uma vez o André Cristovão disse que se colocarmos no papel os gastos para se gravar um disco lá fora fica mais barato do que aqui. Esse foi o motivo de gravar na Alemanha?
Kiko
- É, se você tem pouco dinheiro, vai ter que gravar num estúdio aqui mesmo. Mas se você tem uma certa grana, compensa ir lá pra fora. Além do conhecimento que os caras têm em heavy metal na Europa. Porque aqui no Brasil, se você pedir um produtor desse estilo, não vai encontrar direito. E lá nós trabalhamos com um produtor e um pessoal que vive disso.

Cover - Explica melhor a relação de vocês com a Alemanha.
Luís
- Tudo o que acontece com o Angra fora da América Latina é esse cara da Alemanha que cuida.
André - Nós tínhamos muitos recursos lá. Um estúdio fechado 24 horas para a banda...

Cover - Eu gostaria que vocês entrassem em detalhes sobre a gravação do disco.
Luís
- Nós tínhamos um produtor e uma boa equipe. E eles estão acostumados a fazer esse tipo de som. Então você chega lá e não existe essa história de procurar efeito pra guitarra. Os caras já sabem o que tem que fazer.
André - Nós usamos 3 estúdios. Um para os overdubs (guitarras, baixo, bateria), outro para a mixagem e outro que tinha um puta piano e nós usamos o estúdio apenas porque tinha esse piano.

Cover - Foi muito fácil gravar?
Kiko
- Não! Foi difícil pela exigência dos caras. Quer dizer, foi fácil porque pra eles é um trabalho normal, corriqueiro, usual... O que aqui no Brasil nós pensávamos que era bom, chegamos lá e vimos que era uma porcaria.

Cover - Duas perguntas: A saída do baterista acarretou algum problema? E ele saiu justamente quando vocês foram gravar na Alemanha. O que aconteceu?
Luís
- A primeira: a saída do baterista atrasou um pouco a gravação.
Rafael - A segunda: ele teve algumas divergências com o produtor.

Cover - E como vocês acharam outro baterista?
Luís
- Isso foi fácil. Nós já tínhamos tocado com o Ricardo, ele estava saindo do Korzus.
Kiko - Mas quem gravou o disco foi um baterista alemão. Bom pra caramba!

Cover - Eu soube que ele teve dificuldade de fazer ritmo de baião. Mas vocês compuseram um baião mesmo?
Kiko
- É, tem uma levadinha meio de baião... É um baião-heavy.

Cover - Mudando de assunto, como nasceu o nome Angra?
André
- Angra é uma palavra indígena que significa "aquele que nasceu para o rock" (risos).

Cover - Sei! Da tribo dos Angranins...
Luís
(mais risos) - Significa "aquele que nasceu pra balançar a cabeça".
André - Falando sério, Angra é uma palavra indígena que quer dizer "deusa do fogo". A idéia era arrumar um nome em português. Achávamos que deveria ser um nome fácil, que soasse bem...

Cover - Vamos falar um pouco de estilo? Vocês se dizem uma banda de heavy metal. Dave Mustaine, o líder do Megadeth, em sua última passagem pelo Brasil afirmou que faz o "mais puro heavy metal". Bom, mas há uma grande diferença entre o som do Megadeth, do Angra e de outras bandas que se auto-intitulam de heavy metal.
Luís
- Há realmente diferenças entre o Megadeth e o Angra. Mas eu acho que ambas se parecem pelo fato do peso. Agora, o nosso heavy tem mais influências clássicas.
Rafael - As bandas que estão nascendo hoje em dia são frutos de tudo que já aconteceu, nos anos 80 principalmente. E nós ouvimos muitas coisas diferentes. Antigamente tinha aquela coisa de dizer "ah, tal banda é tal estilo, esta é thrash, a outra é "poser"... Hoje, o heavy metal acabou um pouco com esses rótulos.
Kiko - Mas nosso som é calçado no heavy metal tradicional: Iron Maiden, Sabbath, Judas Priest... Tem a ver com a harmonia do metal.

Cover - Quanto às letras, elas são todas em inglês. Por quê?
Luís
- Porque o estilo do heavy metal é cantar em inglês. E o nosso pensamento é sempre voltado pra fora. Nós não tínhamos nenhuma garantia que iríamos conseguir alguma coisa aqui no Brasil. Eu acho que o rock 'n' Roll fica legal em português. Tipo um Barão Vermelho. Agora, heavy metal não tem como.
Rafael - É o estilo da melodia. Notas agudas, longas. E tem outra coisa que é a sonoridade da língua. Além do fato de ser universal. Você pode levar sua mensagem para o mundo inteiro.

Cover - Mas vocês sabem que isso é meio polêmico. Têm pessoas que criticam essa postura...
Kiko
- Sei, você está falando do Frejat que em entrevista pra você disse que banda brasileira fazendo rock em inglês não significa nada.
Rafael - Ele é uma pessoa careta, entendeu? É um cara já mais velho, conservador, aquela coisa de rock no Brasil, Mutantes, tal...
Kiko - Eu acho que ele está certo. É a visão dele... E outra, ele é bom pra fazer letras em português. E ele está acreditando muito mais no rock no Brasil do que nós. Faz um rock nacional. Nós não.
André - Como nós somos de outra geração, estamos acostumados a ouvir um outro tipo de som. Para nós é impossível fazer letras em português. Não é que não tenhamos vontade, mas não tem nada a ver. Eu acho que se por um lado eles contribuem para o rock nacional, nós contribuímos levando o som para fora do país. Do mesmo jeito que o Frejat diz que para o rock brasileiro cantar em inglês não significa nada, eles não significam nada do Brasil pra fora. E é isso que tentamos fazer.

Cover - Veja, minha posição aqui não é defender nenhum lado, mas, para aprofundar a discussão, o que vocês acham dessa nova geração de bandas que está surgindo e que só canta em inglês, espelhada em grupos de sucesso como o Sepultura...
André
- Mas é justamente essa a questão, o Sepultura não faz um rock brasileiro.

Cover - Então o heavy é uma música sem pátria?
Rafael
- Exatamente. O Barão até faz um rock brasileiro, colocam bastante percussão... Mas o estilo deles vem do blues, e o blues não é brasileiro.
André - Eu acho que quem curte Barão Vermelho vai fazer rock em português. Quem curte o nosso som vai fazer música no nosso estilo. Agora não é o momento ideal pra se fazer letras em português.
Luís - Mas eu até acho que o pessoal do Barão pode falar, porque eles foram a única banda que conseguiu segurar o público de rock mesmo. Porque o resto...
Kiko - Eles tiveram esse mérito. Na época em que eles começaram todo mundo fazia letras em português. Hoje é outra coisa. Isso pode voltar. Vai ter uma época em que vai ser tudo em português, ou francês... (risos)
Luís - Ou alemão. (risos)

Cover - Vamos falar um pouco do disco Angels Cry. Ele já está ficando antigo, pois vocês já vão gravar outro...
André
- Para o Brasil, ele não é tão antigo assim. Não tem nem um ano. E nós estamos trabalhando em cima desse disco ainda. Para o Japão, ele já passou de um ano. Nós estamos preocupados com a gravação do segundo disco por causa do Japão.

Vocês continuam tendo uma boa aceitação no mercado japonês?
Kiko
- Quando o disco foi lançado, ficamos em terceiro lugar na parada geral. Foram quase 100 mil cópias vendidas no Japão.
Luís - Aqui no Brasil também surpreendeu porque na 97 FM a nossa música ficou em primeiro lugar desde junho até novembro. E agora começou a rolar na 89.

Cover - O Japão é um mercado que consome todo tipo de música, de todas as épocas. Vocês não se preocupam um pouco com isso?
Rafael
- Esse nosso estilo de música é bem o que eles gostam. Um heavy metal com melodia. Mas lá não tem esse de heavy melódico, os caras não rotulam. O mercado lá é diferente mesmo, porque você vê umas bandas que não fazem mais sucesso há uns dez anos e lá ainda estão nas paradas.
André - Nos EUA o esquema já é diferente. Você tem que estar na MTV, tem que estar com gravadora grande te bancando. Estão nem nos preocupamos com os EUA. Nós só temos um esquema grande no Japão. Na Europa, o esquema é médio mas é bem feito. Aqui no Brasil a gente se vira! Apesar disso, nós já vendemos umas 20 mil cópias...