REPORTAGEM REVISTA NOVA ESCOLA- OUTUBRO 2002
O DESAFIO DA ESCOLA TOTAL
NOVA ESCOLA- O senhor aponta o livro O Novo Pacto Educativo um déficit de socialização nos alunos. Como isso atinge a sala de aula ?
JUAN CARLOS TEDESCO- O conceito de déficit sempre traz dificuldades de entendimento, pois parte do princípio de que há um “ótimo” que precisa ser alcançado e, às vezes, isso não existe. Mas de fato, o desenho atual da escola supõe que as crianças detenham os códigos básicos, como respeitar a autoridade do professor e ser capazes de escutar alguém ou de não se pegar a tapas com o vizinho da carteira. Acontece que, nas última décadas, e não apenas na América Latina, mas no mundo todo, a família vem perdendo a capacidade de oferecer essa socialização primária, em muitos casos pela ausência da figura paterna; ou porque a imagem paterna muda duas ou três vezes ao longo da infância. Além disso, a criança hoje se incorpora cada vez mais cedo a instituições diferentes da família, como pré-escolas, creches ou mesmo alguém que cuide delas para que a mãe trabalhe. Esses adultos são menos importantes que os pais, do ponto de vista afetivo. Por isso, a primeira socialização está se realizando sem tanta carga afetiva, como no passado. Não se pode simplesmente transmitir conhecimento se a socialização primária, embutida de valores e afetos importantes, não está completa. Isso tem reflexos no desempenho dos professores e no próprio desenho da instituição escolar.
NE- Nesse sentido, o papel da escola cresceu ?
TEDESCO- Sim. O mudança mais importante na educação suscitada por essas novas demandas é que ela deve incorporar de forma sistemática a tarefa de formação da personalidade. Não deve formar só o núcleo básico do desenvolvimento cognitivo, mas também o da personalidade; ou seja, tende a assumir características de uma instituição que chamo de “escola total”.
NE- Qual é a influência da televisão nesse déficit de socialização ?
TEDESCO- Precisamos ter uma atitude menos defensiva e mais ativa diante da TV. A melhor forma de alguém se contrapor aos seus efeitos negativos é promovendo ativamente o prazer da leitura, da convivência em equipe, dos jogos coletivos. Quase todas as atividades na escola envolvem o grupo. Fortalecer essas dimensões faz com que o aluno descubra outros prazeres. Penso que também é preciso ensinar a ver criticamente a programação, da mesma forma como ensinamos a ler pelas entrelinhas. Um bom leitor de jornais sabe identificar os grupos de interesse vinculados a ele, a ideologia dominante, etc.
NE- Que papel o computador vem desempenhando ?
TEDESCO - Acho que as novas tecnologias, estão acima de tudo, recuperando o valor da leitura e da escrita. Na internet, não é imagem que predomina. È preciso manejar o código da leitura e da escrita de forma intensa. Há várias linhas de análise a respeito do impacto dos computadores: para alguns autores, as novas tecnologias representam um progresso importante por permitirem combinar textos, passar de um a outro, construí-los com grande facilidade; para outros mais céticos, elas significam um retrocesso no tempo dos pergaminhos e papiros. Nessa análise, ler na tela de um computador, representa a falta de portabilidade daquela época, que o livro permitiu superar.
NE- Como o senhor avalia esse impacto ?
TEDESCO- Minha impressão é que esse debate não deve alterar o fato de que necessitamos utilizar as novas tecnologias ativamente. Mas é preciso distinguir a necessidade de tansmitir a todos o domínio delas da necessidade de acreditar que tudo deva ser ensinado com elas. Há conteúdos nos quais a figura do mestre (com um livro) é insubstituível. Acho também que na América Latina, precisamos superar uma fenda muito grande no acesso às novas tecnologias, e isso não implica ter apenas computadores nas escolas, mas uma conectividade eficiente. Se o professor gasta 15 ou 20 minutos de sua aula tentando se ligar à internet, isso produz um efeito negativo, dispersa os alunos e atrapalha o processo de aprendizagem.
NE- Uma pesquisa feita na Argentina sobre o principal objetivo da educação mostrou que, par 61% dos professores é “desenvolver a criatividade e o espírito crítico” e para 28%, “a transmissão de conhecimentos atualizados e relevantes”. Por que esse resultado preocupa tanto ?
TEDESCO- Acho que muitos professores defendem o objetivo de formar o cidadão participativo, mas desconfio de que a intenção não esteja acompanhada pela prática que leva a isso. Transmitir conhecimento é a base para o desenvolvimento do espírito crítico. Não há oposição entre uma coisa e outra; um é decorrência do outro. Para ser criativa, a pessoa aprende a tocar um instrumento terá de passar muitas horas estudando e repetindo. A repetição é uma condição para a criatividade, não é contrária a ela.
NE- A repetição é importante na aprendizagem ?
TEDESCO- Se o aluno apenas repete e memoriza, não. Mas quando ela é usada como forma de explicar um processo, tudo muda de sentido. Para isso é preciso, sempre, saber “para que” estou fazendo algo. Há uma fábula francesa que explica bem essa necessidade. Um homem se dirigia em procissão à Catedral de Chartres e, no caminho, encontrou um trabalhador quebrando pedras, muito angustiado e aborrecido. Ao ser indagado do motivo, explicou: “Estou aqui fazendo esse trabalho desumano, tenho dores pelo corpo, tenho sede, nenhum outro trabalho e estou condenado a fazer isso pelo resto de minha vida”. Mais adiante encontrou outro homem fazendo a mesma coisa, mas com a feição mais satisfeita. Este lhe contou: “Consegui este emprego que me permite ter um salário e dar de comer aos meus filhos. Estou contente com esse trabalho que me permite viver”. Mais adiante, encontra um terceiro homem também a quebrar pedras, mas com um rosto de extrema felicidade. Este lhe disse:”Estou construindo uma catedral !”. Saber para que se está fazendo alguma atividade é fundamental para dar um sentido à aprendizagem.
NE- No Brasil, a Lei de Diretrizes e Bases incentiva a autonomia de escolas e professores. Isso no entanto, é pouco explorado. Nos outros países da América Latina dá-se o mesmo?
TEDESCO-Há uma tendência recente em todos os países, de dar mais autonomia à escolas. Mas é um processo lento, pois implica mudanças profundas. O professor está acostumado a ter autonomia individual, que começa quando ele fecha a porta da sala de aula. Lá dentro ele pode, inclusive, fazer o contrário do que propõe as leis educacionais. Essa cultura empobrece o profissionalismo porque privatiza a responsabilidade pelo resultado. Precisamos incentivar a autonomia institucional. É a escola que deve ser autônoma, não a sala de aula, para que a responsabilidade diante dos resultados seja coletiva. Só que isso, é no fundo, dar autoridade e cobrar responsabilidade pelos resultados. Exige, portanto, um trabalho de capacitação dos professores e formação de equipe, sob o risco de resultar num salto no vazio.
NE- Formar boas equipes significa manter os professores nas mesmas escolas por vários anos, o que sabemos que é muito difícil...
TEDESCO- É preciso criar mecanismos para que esses docentes permaneçam mais tempo no mesmo lugar. E justamente nas regiões pobres é onde se nota mais dificuldade em se manter equipes, pois as pessoas mudam rapidamente.
NE – Que mecanismo seria capaz de diminuir a rotatividade ?
TEDESCO- Um bom exemplo são as zonas de educação prioritária (ZEP), inspiradas no modelo francês e que alguns países latino-americanos já adotam. Define-se uma área que se considera mais importante do ponto de vista educacional e nela os professores têm melhores salários, prêmios pelo bom desempenho dos alunos, apoio em termos de material didático, equipamentos, etc. Há uma série de medidas possíveis para tornar mais atrativo o trabalho n essas zonas, mas é preciso definir prioridades. O que ser vê porém, é que as regiões mais pobres possuem as piores escolas, quando deveria ser o contrário. Os maiores desafios educacionais encontram-se nas primeiras séries das escolas pobres.
NE- Quando o senhor fala que a autonomia implica capacitar os professores que estão trabalhando, está pensando em qual tipo de trabalho ?
TEDESCO- Não há uma fórmula, mas acho que a melhor capacitação é a que é feita no próprio ambiente de trabalho, como quando os professores se juntam para discutir a avaliação, padrões didáticos ou indisciplina. Além disso, é importante contar com serviços de assessoria, pessoas e grupos que possam ser consultados.Todos os profissionais necessitam de serviços de assistência. Outra forma muito eficiente é a visita a escola que têm bons resultados. Elas funcionam como centros de demonstração. É um jeito de superar a formação teórica e abstrata oferecida pela maioria das faculdades.
NE- como o senhor avalia o reflexo da crise econômica argentina nas escolas ?
TEDESCO- É claro que a crise também atinge a educação. Em primeiro lugar, porque não há recursos, embora a escola seja, provavelmente, uma das poucas instituições que se mantém funcionando na Argentina. Só que o verdadeiro problema está mais adiante. Hoje 50% da população argentina encontram-se abaixo da linha da pobreza e as crianças que nasceram nos último anos estão passando por condições de vida deterioradas. O desenvolvimento cognitivo e da personalidade se faz antes dos 6 anos de idade. Caso a crise se prolongue, a situação vai ficar muito preocupante. Também não sabemos o que está acontecendo na subjetividade das pessoas. Quais valores, quais representações para a sociedade e as instituições os pais estão passando a seus filhos ? Tais efeitos são muito difíceis de se medir. Por outro lado, essa situação está revelando enormes esforços de solidariedade. São vizinhos, professores, diversos grupos e associações tentando manter a escola funcionando à custa de trabalho solidário. Com isso, agregam-se valores positivos e se promove uma cultura de solidariedade. É uma forma de reagir ao capitalismo selvagem que gerou essa situação.
O Novo Pacto Educativo, Juan Carlos Tedesco, 150 págs., Ed. Ática)