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Roberto Souza Reis*
Nesse momento em que se comemora
os 500 anos do Brasil, uma quest�o se torna muito importante, o que comemorar?
Estamos comemorando a descoberta do brasil pelos europeus? Neste caso a
comemora��o festiva deve ser deles, afinal desde 1500 at� os dias de hoje, quem mais se
apropriou do potencial desta terra foram eles.
Estamos comemorando a chegada dos
portugueses? Ent�o veremos; temos motivos para comemora-la? Desde que chegaram, os
europeus colonizaram, escravizaram, levaram embora muitas riquezas e impuseram sua cultura
sobre a cultura dos nativos que aqui estavam h� milhares de anos, tornando os
"�ndios" objetos �teis �s suas necessidades econ�micas e sociais.
Comemoramos o nascimento de um
pa�s?
Bem, j� que alguns hip�critas
consideram a carta de Pero Vaz de Caminha, a certid�o de nascimento do Brasil isto seria
correto. Mas, podemos mesmo considerar civilizat�rio o processo pelo qual esta sociedade
se estabeleceu e permenece assentada at� os dias atuais, um processo onde a escravid�o,
o estrupo a mortandade e a acultura��o foram fatores determinantes para a sua
consolida��o, pode ser isto chamado de soci�vel?
Que tal ent�o, comemorarmos 500 de
hist�ria?
H� a� um grande,
imensur�vel problema. A nossa hist�ria est� muito longe de n�s, pois em um pa�s onde
a hist�ria sempre foi contada pela sua elite, desde a coloniza��o portuguesa at� os
dias do atual soberano D. Fernando Henrique, "O garboso", o processo hist�rico
tem sido sempre muito excludente ent�o, de qual hist�ria fazemos parte,
j� que vamos comemorar?
Pensemos: A descoberta foi um grande feito de estado cat�lico
portugu�s, estamos de fora.
� nossa independ�ncia, devemos a fam�lia real portuguesa, na figura de D. Pedro I -
n�o participamos enquanto povo - estamos de fora.
A aboli��o, devemos mais uma vez a
"grande fam�lia imperial" desta vez a figura, � a princesa Isabel, estamos
agradecidos, por�m estamos de fora.
Nossa rep�blica, essa devemos a
Marechais e grandes homens da elite - o povo est� de fora.
E tem sido sempre assim,
algum branco ilustre, rico e caridoso personagem de nossa hist�ria sempre nos d� de m�o
beijada aquilo que tanto ansiamos, portanto, n�o participamos nunca das transforma��es
sociais, pol�ticas e ideol�gicas, dessa na��o, assistimos bestializados essas
transforma��es ocorrendo e nos sentimos passivelmente gratos por tanta bondade das
nossas elites.
Ent�o n�o h� motivos para
comemora��o?
H� sim, e os motivos s�o diversos
por�m est�o escondidos nas entrelinhas da hist�ria, vamos comemorar as
resist�ncia, as formas de cultura que nos restaram imaculadas, das sujeiras
europ�ias, vamos comemorar um povo que � mais humano que os europeus, mais alegre que o
mundo, apesar de tudo, mais vivo que a pr�pria vida, que est� em busca da
consolida��o de suas id�ias e que est� tentando despertar para a sua pr�pria
hist�ria e transforma��o de sua realidade. Sem esperar das elites aquilo que
quer, um povo que est� amadurecendo para a sua participa��o nas transforma��es
sociais. Por�m muito mais importante que comemorar � refletir. Pensar a hist�ria
do Brasil, repens�-la, rev�-la, reconstru�-la, mas desta vez destacando a popula��o
suas dores, suas amarguras, suas felicidades, seus conflitos. Estamos agora vivendo
a oportunidade �nica de nossas vidas como pessoas e como cidad�os. Pois temos uma
realidade dura para enfrentar cheia de viol�ncia, fome, desemprego, corrup��o, falta de
sa�de e educa��o, temos essa realidade diante de nossos olhos, e para
mud�-las basta abrirmos esses olhos e acreditarmos que as mudan�as dependem de n�s e
n�o de nossos patr�es, governos ou intelectuais; n�s somos o povo, e s� n�s
podemos agir a favor de nossos interesses, que n�o s�o os da nossa elite, do outro lado
existe sa�de, educa��o ou seja existe dinheiro porque a renda que nos falta sobra para
eles.
Buscar a transfoma��o dessa
realidade passa pela Revolu��o das Id�ias, ou seja, precisamos mudar a nossa maneira de
pensar as coisas e a nossa pr�pria vida, temos de parar de esperar pass�velmente e agir,
come�ando pela educa��o, nos dedicando a escola e
acreditando que ela � a nossa maior aliada na busca de transforma��o por uma realidade
melhor e mais digna.
* Professor de Hist�ria da EE Maria Elisa Valle de Menezes