| N�o me parece necess�rio um estudo aprofundado para se afirmar que, no Brasil �moderno�, as rela��es sociais se pautam por um autoritarismo disfar�ado de democracia. Para Maur�cio Tragtenberg vivemos, depois da ditadura militar, uma �ditadura sorridente�. Basta, para perceber isso, observar a concentra��o da riqueza e a centraliza��o do poder pol�tico institucional e a resigna��o absoluta a esse estado de coisas que domina o esp�rito do brasileiro. Como � poss�vel construir uma sociedade justa e �tica se as rela��es de domina��o e de explora��o s�o a regra? O que � ser cidad�o? A luta por cidadania nas quase duas d�cadas e meia de ditadura militar no Brasil encerrou uma necessidade hist�rica: superar o autoritarismo dos milicos. Mas o que foi ele, sen�o um regime de exce��o que se pautou pela priva��o das liberdades individuais e coletivas? ; um modelo de poder institucional que operava pela l�gica da cal�nia e da difama��o, da persegui��o e da tortura de seus contestadores? Lutar por cidadania era, portanto, uma urg�ncia hist�rica, da qual n�o se poderia prescindir naquele momento, pois, como � que se pode viver sufocado e violentado sem poder pensar e se expressar livremente? Recordemos sempre daqueles que com sua coragem e esp�rito de rebeldia enfrentaram a indignidade do poder fascista dos milicos brasileiros da d�cada de 1960 at� o ano de 1984, e tamb�m daqueles que transformaram sua arte num ato incondicional de resist�ncia � tirania expl�cita. Com o fim da ditadura militar, passamos a viver sob a �gide da tirania da indig�ncia social travestida de democracia: uma �ditadura sorridente�. Que outro esc�ndalo maior que este? Certamente o da luta celerada pelo poder pol�tico do Estado, que se legitima pela necessidade conservadora de inclus�o e de seguran�a, estas t�o propaladas palavras de ordem, que inibem, por seu conte�do pseudoigualit�rio, qualquer possibilidade de questionamento no �mbito da sociedade. Mas, como disse o fil�sofo franc�s Gilles Deleuze, com rara clarivid�ncia de pensamento: �N�o h� Estado democr�tico que n�o esteja totalmente comprometido nesta fabrica��o da mis�ria humana�. A l�gica da mentalidade vigente afirma: se h� exclus�o n�o pode haver plenitude da cidadania. � por aqui que vemos se consolidar a urg�ncia em se incluir a todos em nossa sociedade democr�tica, por�m sem questionar o incluir em qu�. A resposta � incluir no padr�o PC (politicamente correto). F�brica de mesmice. Ser cidad�o, nesse sentido, significa adotar o ideal de uma vida conformista e conservadora dos abastados da sociedade democraticamente constitu�da; � instaurar a indiferencia��o, onde toda tens�o derivada de injusti�as sociais historicamente constitu�das se dilui em favor de uma falsa igualdade entre pobres e ricos. �Perigo, perigo�. O que se espera do �bom cidad�o� na atual sociedade capitalista, n�o � que ele tome parte diretamente das decis�es que digam respeito a sua exist�ncia, mas que ele, no melhor estilo �cemit�rio de vivos� (Lima Barreto), seja resignado e que seja inclu�do no mundinho med�ocre do consumismo e da arrog�ncia burguesa. Contudo, n�o se pode falar de cidadania sem lembrar da no��o de democracia. Voltemos, portanto, rapidamente � Gr�cia antiga, e interpelemos o seu paradigma democr�tico. Assim, o que foi a experi�ncia democr�tica da Atenas de P�ricles? Quem era cidad�o ateniense ali? Todos podiam freq�entar a Agora? N�o. Todos os membros da sociedade grega tinham voz pol�tica? Tamb�m n�o. Nossos indigentes e nossos pobres de hoje est�o sem voz pol�tica, e, mesmo com o fim da ditadura dos milicos, continuam na obscuridade verbal, mas o pior, resignadamente. Nas sociedades consumistas o que se busca incessantemente � a acomoda��o por interm�dio da aceita��o passiva de tudo o que lhes � empurrado goela abaixo. Ser cidad�o tamb�m � virar as costas e fechar os ouvidos aos sem voz pol�tica ao mesmo tempo em que dita como as pessoas devem se comportar/conformar: seguir a lei de Gerson. Eu fecho com Tragtenberg e Deleuze: ap�s a ditadura militar, uma ditadura sorridente sob o signo da democracia se instalou silenciosa, por�m, escandalosamente ao mesmo tempo na moderna sociedade brasileira. A busca por cidadania, inclus�o social, qualidade de vida (seguran�a) encobre o que nossa sociedade expressa o que tem de mais conservadora, ressentida, autorit�ria, mas com pinta de solid�ria. A este respeito n�o deixem de assistir ao novo filme de S�rgio Bianchi (ainda sem data para estrear) �Quanto vale ou � por quilo? �. _____________________________________________________________________________________________ Zeca Soares |
| SALA DOS PROFESSORES |
| Ter�a, 15 de mar�o de 2005 |
Cidadania Sorridente |