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O pensador franc�s Pierre L�vy �, sem sombra de d�vida, uma refer�ncia obrigat�ria para aqueles que procuram entender a emerg�ncia do ciberespa�o e sua rela��o com as variadas dimens�es da vida social.
O conjunto de sua obra � marcado por uma an�lise antropol�gica do ciberespa�o e de sua influ�ncia no campo do conhecimento, da filosofia, da cultura, da economia e da educa��o.
Obras como O que � o virtual e Cibercultura trouxeram contribui��es decisivas para a tem�tica do ciberespa�o, apesar de sempre terem um car�ter pol�mico e controverso nos meios acad�micos. N�o poderia ser diferente com o seu mais recente trabalho: A conex�o planet�ria � o mercado, o ciberespa�o, a consci�ncia, publicado pela Editora 34.
O livro come�a com um Manifesto dos Planet�rios, no qual o autor define o longo per�odo de exist�ncia do Homem na terra, como sendo um processo que se deu a partir da dispers�o, da ruptura com o nomadismo, do adensamento populacional, da ocupa��o de todo o globo e do momento atual que seria a conex�o de todos os seres humanos, de suas subjetividades, tendo como l�cus desse encontro o ciberespa�o.
Partindo desta premissa de uma nova realidade de conex�o dos seres humanos, ele prop�e que aqueles que vivem e reconhecem este novo momento se juntem e repensem elementos essenciais da realidade anterior: na��o e nacionalidade; religi�o; concep��es pol�ticas e ideol�gicas; mercado e comunica��o.
No manifesto, o autor prop�e que se tenha uma vis�o mais din�mica da situa��o, afirmando que a rela��o de domina��o existente (que ele diz ser ineg�vel) acaba por se desdobrar numa rela��o de condu��o a um futuro comum e positivo. E vai al�m, entre a luta por mudar um governo ou modelo ou mudar de pa�s, ele prop�e que seja adotada a segunda alternativa, generalizando esta l�gica at� mesmo para as rela��es de trabalho e amorosas.
Ainda no manifesto, ele afirma que caminhamos rapidamente para a proclama��o da Confedera��o Planet�ria e conclui: �Imaginem a festa mundial que se seguir�.
Este primeiro cap�tulo acaba por explicitar e sistematizar a vis�o, muito criticada de L�vy, do social como um processo natural, em rela��o ao qual os Homens devem se adaptar e tirar os melhores frutos, sem cr�tica. Fica clara a ades�o de L�vy � l�gica atual do sistema de poder pol�tico e econ�mico.
No cap�tulo seguinte - A economia virtual, o autor procura demonstrar os motivos de seu apoio ao modelo atual de capitalismo e mercado. � quando fica ainda mais expl�cita ades�o e o deslumbre com o mercado: �A distribui��o � tudo, porque o consumo � tudo� ou �O imp�rio mundial sob a domina��o norte-americana mais ou menos branda � hoje em via de consolida��o � logo n�o ter� nenhum rival�. E explicita sua vis�o desse processo: �N�o importa o que pensemos, que sejamos contra ou a favor, devemos admitir que a maior parte dos ind�cios de que dispomos apontam para um futuro cada vez mais marcado pelo mercado capitalista, a ci�ncia e a t�cnica� e completa �A atitude cr�tica se voltou para o passado�.
O pensador franc�s afirma ainda que crescentemente ocorre uma fus�o entre as dimens�es materiais e espirituais no �mbito do mercado, dizendo que n�o h� lugar para separar as atividades t�cnicas e materiais das inst�ncias intelectuais e espirituais da humanidade.
Sinalizando uma vez mais com sua vis�o de �naturaliza��o� do processo social, L�vy afirma: �O �capitalismo�, assim como a morte e a sexualidade para a evolu��o biol�gica, � talvez uma artimanha da evolu��o cultural para mobilizar as pessoas, acelerar as circula��es, ampliar e flexibilizar o porte dos la�os sociais e difundir as inova��es� e conclui com sua vis�o exageradamente otimista, para n�o dizer distorcida, da realidade � �A instaura��o efetiva do liberalismo, que sup�e um estado muito avan�ado da �tica e da espiritualidade de uma popula��o, conduz, efetivamente a um aumento da riqueza geral�.
Ainda neste cap�tulo o autor faz um elogio � especula��o, como sendo uma aposta no futuro, elemento de inova��o e abertura de novos horizontes econ�micos. Afirma tamb�m que a id�ia de poucas empresas dominando na forma de monop�lio ramos inteiros da economia global devia ser vista como algo positivo e desej�vel.
O terceiro cap�tulo do livro � A subida em dire��o � noosfera, trata da amplia��o do papel da cultura e da subjetividade nos tempos atuais de conex�o planet�ria. Nesta parte do trabalho, o autor retoma seu conceito de intelig�ncia coletiva (conex�o de subjetividades potencializando qualidades) e procura desenvolv�-lo como uma necessidade e uma realidade na perspectiva do que chama de um hiper-cer�bro global. Neste sentido, desenvolve toda uma leitura da necessidade da aceita��o das diferen�as culturais nacionais, da troca intensa entre ocidente e oriente, e defende o interc�mbio, a unifica��o. E aponta o papel decisivo da Internet como o espa�o por excel�ncia para a intensifica��o desta troca, desta unifica��o da esfera subjetiva da humanidade.
Afirma que o computador deve figurar entre outros �objetos antropol�gicos� como o fogo, a arte e a escrita, pois todos, ao seu tempo, aceleraram o processo de hominiza��o.
No campo da evolu��o da troca cultural, o rumo geral apresentado por L�vy � de fato positivo, mas desconsidera sobremaneira os impasses, os conflitos, e a tend�ncia hegemonista que determinadas culturas tem em rela��o � outra. Portanto, fica mais no campo do desejo e da proposta e menos no campo da an�lise concreta das tens�es, conflitos e confrontos que marcam esta �conex�o� que vai se realizando.
E esta vis�o acima do real, do conflitivo, aparece ainda com mais for�a no cap�tulo seguinte � A expans�o da consci�ncia, no qual o autor revela sua vis�o de como se constitui a sociedade hoje, acima das diferen�as de classe e das disputas reais. A express�o m�xima dessa vis�o � assumida claramente no seu chamado �credo espitemol�gico�, no qual afirma: �O mundo n�o precisa de cr�tica, o mundo precisa de amor�.
L�vy afirma que a identifica��o com uma classe, com uma casta, ou com um t�tulo � sempre uma retra��o da consci�ncia. Mas, o n�o reconhecimento da exist�ncia delas e de seu papel no conflito social, tamb�m n�o representa uma retra��o, poder�amos perguntar. 
Na vis�o sociol�gica de L�vy, n�o existem categorias sociais, mas somente pessoas capazes de ter o cora��o e o esp�rito mais ou menos vasto. Uma verdadeira sociologia do amor. Em diversos momentos deste cap�tulo nos deparamos com vis�es que se distanciam sobremaneira da busca cient�fica e beiram trabalhos de auto-ajuda ou de misticismo.
E esta verdadeira prega��o, volta com for�a no fechamento do trabalho, na conclus�o. O autor afirma: �A humanidade logo ir� compreender que quanto mais ela amar a si mesma, mais ela evitar� as guerras, os conflitos, as viol�ncias, as agress�es, as obsess�es, a ignor�ncia, os preconceitos e a estreiteza de esp�rito, e mais formas ela perceber�.
Como se v�, A conex�o planet�ria se constitui num momento de mais clara afirma��o das convic��es de Pierre L�vy. Convic��es que apareciam de maneira dispersa e menos intensa e clara em outras obras, apesar de j� terem sido identificadas e criticadas.
Uma vis�o contradit�ria, j� que ele defende o sistema e a l�gica que perpetra justamente o oposto dos valores que ele acaba por levantar como perspectiva. Falta conex�o entre suas posi��es sobre liberalismo e capitalismo, seu desejo de amor e fraternidade e a realidade. S�o universos distintos que n�o dialogam.
No entanto, pelos m�ritos e dem�ritos, o livro � indispens�vel para quem pensa a sociedade contempor�nea e o ciberespa�o.

* A conex�o planet�ria � o mercado, o ciberespa�o, a consci�ncia � Pierre L�vy, Ed. 34, S�o Paulo, 2001.
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Rovilson Robbi Britto � jornalista e professor, mestre em Comunica��o e Mercado pela C�sper L�bero, doutorando da ECA/USP ([email protected])
SALA DOS PROFESSORES
Ter�a, 08 de mar�o de 2005
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A conex�o planet�ria de Pierre L�vy
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