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Trinta anos de punk, 16 anos sem Raul, um filme sobre Ray Charles e uma colet�nea que eu montei com Roy Orbison e Traveling Wilburys. Tudo bem, uma coisa por vez.

Em agosto o mundo comemorou (ou n�o) o nascimento do punk, que habitualmente � classificado como algo que reaproximou o rock de suas origens. Isto n�o deixa de ser verdade, mas vai muito al�m deste princ�pio b�sico. De Dead Boys a Dead Kennedys, os alfinetes personificavam a dor de uma forma �mpar, atrav�s de uma honestidade t�o brutal que chegava a ser agressiva. N�o eram as guitarras, o cuspe, a dan�a. Os golpes do punk vinham da forma como os suburbanos ingleses e norte-americanos transformavam ignor�ncia em poesia e injetavam bom-humor onde haviam flores de papel sujo. Convivi com uma mlher que sofre de depress�o e posso dizer que nenhuma outra can��o personificou de forma t�o brilhante as manifesta��es desta doen�a quanto �She Talk To Rainbows�, obra-prima do finado Joey Ramone, presente no �lbum �Adi�s Amigos�, o �ltimo �1, 2, 3, 4� dos Ramones.

Ali�s, j� que o tema s�o tr�s acordes, o Banco do Brasil desorganizou uma mostra com filmes fundamentais ligados a cena punk rock como �Repo Man� e �Mate-me Por Favor�. O problema � que o evento ocorreu numa slaa com 50 lugares e a n�o ser que morasse no pr�prio local, seria invi�vel comparecer �s sess�es. Certas coisas s� acontecem em certos lugares.

Tamb�m no m�s de agosto, h� 16 anos, Raul Seixas morria de pancreatite, ap�s anos de porres, justamente quando lan�ava um disco incr�vel ao lado de Marcelo Nova. �A Panela do Diabo� traz um esp�cie de epit�fio de Raul, que n�o poderia ser escrito de outra forma. Em �Banquete de Lixo�, o poeta retrata v�rias passagens de sua vida, como o ex�lio em Nova Iorque, durante per�odo em que o Brasil foi governado por militares e o show em Serra Pelada, quando apanhou at� provar que era ele mesmo, j� que anda sem documentos e havia raspado a barba.

Ao que tudo indica, Raul Seixas n�o conseguiu conviver com a desilus�o de ver sua utopia naufragar, n�o conseguiu convier com sua dor, como um homem que eu conhe�o. Ele sai cedo vestido de contador e volta � tarde, vestido de algo que provoca piedade.

Pela primeira vez, o sofrimento norte-americano me comove. Desta vez, S�o Pedro errou feio. Atingiu a terra do Jazz, a terra do Blues, como definiu o jornalista �lvaro Pereira J�niro, o lugar menos americano dos EUA.

O Mississipi transbordou, as �guas invadiram New Orleans e fecharam os bares da Bourbon Street, um m�s depois da morte de um dos �ltimos  artistas de Blues d velha guarda, Mr. R. L. Burnside.

Ironicamente, B.B. King, que completar� 80 anos, talvez promova algum show com renda revertida �s v�timas do furac�o Katrina. Talvez componha algo em homenagem � mo�a, que como as damas presentes em suas can��es, arrasou tudo aquilo que encontrou pela frente.

Suspeito que, fosse New Orleans um reduto de branco abastados, George W. Bush j� teria sido deposto ap�s as medidas atrapalhadas e ineficazes diante do caos.

Na minha mem�ria ficar� a imagem que uma rede registrou de um grupo de mulheres negras desdentadas, que cantavam �Jesus is On The Main Line�, gospel de dom�nio popular. Espero que elas estejam certas.

Dois homens que usavam �culos escuros. O negro era cego e tocava Jazz, Soul, Funk e Blues. O brnaco tinha um p� no Country, mas ambos foram fundamentais para o rock. Assisti Jamie Fox numa estupenda interpreta��o de Ray Charles (o que lhe valeu o Oscar de melhor ator), e na mesma semana ouvi Roy Orbison cantar �California Blue�. Enquanto Charles era o soco na mesa diante do sofrimento, Orbison era a l�grima que escorre suave pelo rosto.

Roy, Ray, Ramones, Raul tem algo em comum: a dor como personagem.

Isto � arte, a capacidade de representar a vida, mesmo que seja de forma grandiloquente.
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Luiz Alberto Carvalho, 25, estudante do 3�.ano de Jornalismo da Universidade Santo Amaro/SP
([email protected])
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Ter�a, 20 de setembro de 2005
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Roy, Ray, Ramones, Raul e Katrina
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