| Desta vez havia um ursinho de pel�cia no porta-malas, mas eu pensei em como era h� algum tempo, quando parei num sem�foro da Avenida Pacaemb� e olhei para o lado. Havia um garoto bonito, mas com um olhar perdido, dentro de um carro com avarias, sem qualquer acess�rio ou vidros escurecidos. A m�sica que escapava pela fresta entre o vidro e a parte superior da porta do ve�culo foi o que me atraiu. Quem ouve Johnnny Cash, o cantor norte-americano que morreu no ano de 2003, em pleno dia dos namorados? Conhecido como �man in black�, por se vestir sempre de negro, Cash deixou como �ltimo registro de est�dio �American IV: The Man Comes Around�, �lbum com vers�es para m�sicas de Nine Inch Nails e Depeche Mode, entre outros. Era isto o que o rapaz ouvia, uma reuni�o de m�sicas secas, diretas, intimistas. Quando ele virou a cabe�a, percebi um olhar perdido e sabia que ele ia exatamente para o lugar onde j� estive por diversas vezes: lugar nenhum. Dirigia como eu j� dirigi, sem dire��o, s� para ver a cidade, pela companhia do c�u, das estrelas, dos buracos no asfalto. Pela Avenida Paulista, pela Consola��o, pelo Pacaemb�, Adolfo Pinheiro e qualquer outra via longa que ainda n�o conhecesse plenamente. Diante das imagens que observei pelas ruas onde passei, lembrei que o Valentine�s Day tamb�m pertence aos que ouvem Heavy Metal com os amigos, sob a janela de casa, na noite dos mot�is lotados. Ou �s garotas que se reunem para matar a melancolia no Clube das Mulheres. �s prostitutas que n�o beijam e aos clientes que pagam alto. Tamb�m pertence ao cigarro diante do p�r-do-sol, num final de semana na praia. Mas, principalmente, pertence a quem viveu despedidas recentes e ainda concerta um cora��o manco. Aos que implantaram cercas eletrificadamente seguras e plaquetas blindadas, incapazes de impedir Little Susie de colocar flores mortas na janela, como diria �Dead Flowers�, dos Rolling Stones. Um dos truques maternos � diluir rem�dio amargo em �gua com a��car e quando o tempo passa, criatividade vira sin�nimo de artimanhas para esconder a fragilidade. Substituir o l�quido doce por �Creep�, do Radiohead, por exemplo, faixa dois de �Pablo Honey�, um disco de 1993, quando a banda ainda queria ser o Nirvana, antes de descobrir que poderia alcan�ar o sucesso de uma forma muito mais �gil, se produzisse algo completamente experimental, desde que o creme da imprensa musical n�o entendesse e automaticamente apontasse como genial, pois se os cr�ticos, com sua capacidade �mpar de atribuir r�tulos n�o entendem, ent�o, s� pode ser algo genial. Doses maiores, caminhos longos e �Feel Flows�, parte da trilha caprichad�ssima de �Almost Famous�, ou �Quase Famosos�, que inclui ainda The Seeds, Allman Brothers e Elton John, parece uma noite bonita com p�ssimas not�cias. H� algo muito triste na obra alegre dos Beach Boys. Acabou a linha reta, alcan�o o retorno da Avenida Santo Amaro. L� todos os cartazes de shows, v� todos os amassos em pontos de �nibus, observei cada luz de poste, que se apagou ap�s eu passar. Uma das mais belas m�sicas de uma das minhas bandas preferidas, num �lbum subestimado fecha um tempo inteiro de interroga��es. �Needles & Pins�, de Road To Ruin, dos Ramones, deixa um gosto de pregos e alfinetes na boca. � tudo parte de meu melodrama pessoal, meus pr�prios par�metros de intensidade, que aumentam a propor��o de algumas coisas, diminui o calor do que parecia ser quente. Perdas s�o sempre estranhas, deixam um �eu vou sentir sua falta� escrito em lugares improv�veis, mas o Dia dos Namorados tamb�m � para voc�. Mesmo que n�o tenha ningu�m, mesmo atrasado, feliz Dia dos Namorados. _________________________________________________________________________________ Luiz Alberto Carvalho, 25, estudante do 3�.ano de Jornalismo da Universidade Santo Amaro/SP ([email protected]) |
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| Quarta, 21 de junho de 2005 |
| Mesmo para voc� que n�o tem ningu�m |