| Prezado desconhecido, respeit�vel desconhecida, escreverei sobre quando a festa acaba. Sobre o jogador que vai buscar a bola no fundo da rede, ap�s o gol. Sobre o acompanhante que procura o brilho nas gostos de soro, no quarto escuro, sentado na cadeira ao lado da cama. Escreverei sobre aqueles que houvem hist�rias tolas, contadas entre solu�os e l�grimas que escorrem pelo rosto. Um brinde �queles que caminham pelas cal�adas vazias da Avenida Paulista. �queles que tem apenas um c�o como companhia. �Seven Nation Army� e mang�s pornogr�ficos levaram pessoas � sala. Garrafas de Contini subiram, ningu�m desceu. Mas, apenas ap�s o fim da festa � que cada um pode reconhecer o pr�prio rosto, quando o olhar fixa a imagem que aparece no espelho e enxerga o cansa�o, a maquiagem borrada, as cantadas rejeitadas, o arrependimento do beijo e da trepada. A festa acabou e agora eu sei quem sou. Sem valetes ou cheques especiais. Medimos homens e mulheres tamb�m pela quantidade de cagadas que s�o capazes de cometer. Pela sobriedade diante do caos ou o desespero diante da paz. Ningu�m aprende atrav�s do acerto e da sorte. Ningu�m � capaz de aprender com o prazer, apenas com a dor. Escrevo para quem n�o figura nos livros de hist�ria, para os alienados e para voc� que n�o bebe e n�o vai ao samba; n�o observa dentes escancarados, sorrisos falsificados e n�o esconde as chagas espalhadas pelo corpo. N�o importa se a vida � incapaz de lhe compreender, porque a vida � assim mesmo. Robert Johnson, bluesman do Mississipi, diz a lenda, assinou um contrato com o Diabo, comp�s 29 can��es e morreu agonizando. Alguns afirmam que o dem�nio veio buscar sua alma, mas os c�ticos acreditam que ele apenas bebeu um copo de veneno oferecido por um marido tra�do. Johnson nunca conheceu a fama, mas entrou para a hist�ria da m�sica quando os Rolling Stones chamaram a aten��o para seu nome, ao gravarem �Love In Vain�, uma das faixas do antol�gico album �Let It Bleed�. Stevie Ray Vaughan foi um guitarrista branco do Texas, que lan�ou cinco �lbuns solos em vida, e um ao lado do seu irm�o, o tamb�m guitarrista Jimmy Vaughan. No auge da popularidade, que alcan�ou ap�s �In Step� (pelo qual recebeu um Grammy como melhor trabalho de Blues, em 1990), morreu num acidente de helic�ptero. Na mesma noite, fizera um show ao lado de seus �dolos, Eric Clapton e Buddy Guy. Meu vizinho, um grande homem com um grande cora��o morreu de c�ncer h� cinco anos. Ele fumava muito. Escrevo ao baixo astral, � baixa estima, �s mentiras, � solid�o, aos antisociais, aos intrat�veis, aos que n�o aprendem. Escrevo para nenhum livro na estante, nenhum tra�o cult na alma. Escrevo para n�o salvar nenhuma alma, n�o mudar nenhuma vida. A festa acabou e levou embora, al�m de cds dos Ramones, Devo, Iggy Pop, Stone Temple Pilots e Cindy Lauper, abra�os, afagos, sorrisos e alegria. Agora, o que fazer diante dos pratos sujos, das cadeiras quebradas, dos pap�is espalhados? O que fazer diante da realidade? ________________________________________________________________________________ Luiz Alberto Carvalho, 25, estudante do 3�.ano de Jornalismo da Universidade Santo Amaro/SP ([email protected]) |
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| Ter�a, 10 de maio de 2005 |
| A festa acabou! |