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Podem acusar o pr�mio da Academia de Hollywood de ser injusto, mas creio ser necess�rio todos observarem que, toda essa m� fama deve-se �s ocasi�es em que o Oscar foi utilizado com o objetivo de tentar fazer justi�a �queles que a hist�ria da premia��o e suas estat�sticas promoveram como injusti�ados. Como quando creditou-se a reden��o das com�dias � premia��o de �Shakespeare Apaixonado�, de John Madden, que desbancou �O Resgate do Soldado Ryan�, de Spielberg, certamente aquele que merecia o pr�mio.

Uma boa surpresa aconteceu na 78a. cerim�nia, quando os premiados foram realmente os melhores dad categoria em que destinou-se a estatueta careca e dourada. O grande campe�o n�o fora a superprodu��o �O Aviador�, do genial Martin Scorsese, mas sim o melodrama de Clint Eastwood, �Menina de Ouro�. O que o segundo tinha de melhor? Simples: foi a obra do cineasta que melhor soube contar a sua hist�ria; aquela que tinha tudo para cair num dramalh�o intrag�vel, foi absolutamente bem dosado. Mas n�o se pode tirar o m�rito, onde realmente estava, dos demais concorrentes, que veremos a seguir tamb�m em �Ray�, �Em Busca da Terra do Nunca� e �Sideways � Entre Umas e Outras�.

Eastwood, ao lado dos seus �imperdo�veis meninos e lobos� e sua �menina de ouro�, e na altura dos seus 74 anos, pode-se tranq�ilizar-se em saber que o seu nome j� faz parte da galeria dos maiores cineastas da cinematografia norte-americana e portanto, mundial. Atingiu uma maturidade na arte de conduzir uma hist�ria que poucos realmente conseguiriam ou conseguir�o. Eu n�o sou de chorar, mas a sua menina dourada, que muito mereceu o carequinha de ouro, �trancou� a minha garganta. Eu n�o sou religioso, mas quase me fez ajoelhar para orar pela personagem. � um filme que realmente sabe explorar as sensa��es no seu expectador e permanecer na sua mem�ria por muito tempo depois. Mas, tudo faz parte de um conjunto de not�veis e o dom�nio sobre a t�cnica do seu trabalho, como no roteiro indicado de Paul Haggis, que soube dosar a emo��o, sem nunca faz�-la artificial, na linha t�nue entre a fal�cia e a pureza natural das emo��es. Os atores est�o num grande momento, desde o pr�prio Eastwood, na corajosa miss�o de interpretar o protagonista e levar nas costas a responsabilidade da mensagem humana do filme �mais que tudo, um libelo � vida, frente � sua antagonista, no ciclo necess�rio e natural das coisas. Hilary Swank como Maggie, mostra-se t�o senhora de si na personagem, que certamente � indiscut�vel a posi��o que conquistou de ser uma das poucas atrizes por duas vezes oscarizadas (j� recebeu o pr�mio por �Meninos n�o Choram�). J� Morgan Freeman, como narrador da pel�cula, num �olhar cl�nico�, mostra que do in�cio ao fim desta comovente hist�ria, prega-se um duelo de egos entre os protagonistas, da �lutadora�, que brigou para nascer como prematura, para sobreviver como gar�onete, para viver mostrando todo o seu potencial e para morrer com dignidade ao mestre, que resistiu viver sem f�, em nome da f�, sem amor, sem dor at� ter o seu ego ferido. � uma batalha de egos, em que vence a dignidade ego�sta que preocupa-se com o bem comum, sobre o ego�smo indigno, do medo de perder aquilo que se aprendeu a amar. � uma batalha de tudo e de todos, numa vida em que somos lutadores da nossa pr�pria vaidade.

Premiar Martin Scorsese por um bom filme, seria entregar a estatueta por algo menor do que aquela obra que acabamos de analisar ou menor do que a grande maioria das obras do pr�prio cineasta. Ele retirou todo o peso realmente tr�gico da trama �O Aviador�, que trata da loucura do bilion�rio exc�ntrico Howard Hughes. Scorcese preferiu centrar-se mais nos sucessos da personalidade da personagem: seus avan�os e recordes na avia��o e suas obras no cinema. Mesmo que muitos tor�am o nariz na escolha de melhor atriz coadjuvante para Cate Blanchett, cabe lembrar que ela, na verdade � uma das melhores interpretes do cinema atual e sua atua��o como Katherine Hepburn, mesmo que caricata no in�cio (breve refer�ncia a cl�ssicos c�micos como �N�pcias de Esc�ndalo�, �Levada da Breca� e outros), ganha densidade e drama com o passar da narrativa. Ganha humanidade e propriedade sobre o humano. A montagem, assim como a fotografia, faz parte de uma grande homenagem � �poca do cinema, em que ambas as personagens tiveram seu auge: a Era de Ouro hollywoodiana (d�cadas de 30, 40 e 50). Ou seja, d�o o clima exato, mesmo que muitos reclamem do ritmo lento da narrativa, que � proposital. A dire��o art�stica � de uma ambienta��o impressionante, enquanto o figurino da excepcional Sandy Powell trabalha n�o apenas um emprego de �imita��o� das vestimentas da �poca, mas sim uma luta para personificar caracter�sticas pessoais daqueles que retratam, com riqueza de detalhes, inclusive em movimentos sutis. Afinal, como disse Shakespeare: �Se conhece o homem pelo que se veste�. Enfim, a pel�cula de Scorsese � um primor de t�cnica e did�tica, mas falta o entusiasmo que o cineasta j� exalava com talento em trabalhos mais inspirados (vide �Taxi Driver�, �O Touro Indom�vel� ou �Os Bons Companheiros�).

Em Busca da �Terra do Nunca�, numa primorosa atua��o de �Jonnhy Depp�, como o aristocrata l�dico Senhor Barrie, autor da pe�a teatral Peter Pan, � uma viagem id�lica produzida pela Miramax, que enfeitou, como sempre o faz, um filme comercial em fachada de filme de arte, para que possa lucrar com a propaganda em cima de premia��es. Dirigido pelo promissor Marc Forster, de �A �ltima Ceia�, o n�vel de sentimentalismo � sutilmente dosado, ao contr�rio do que poderia acontecer, se o filme fosse feito por outro de m�o menos firme. O artif�cio utilizado foi o mais �bvio, mas � o mesmo onde muitos erram: evite os excessos, evite o dramalh�o. A trilha sonora, vencedora do Oscar, nem de longe figura entre as inesquec�veis composi��es da hist�ria do cinema, mas deve-se muito � ela a substitui��o do efeito �f�cil� do escapismo nos dramas normalmente filmados, comum, mas que Jan A.P. Kaczmarek contorna em incontest�vel percep��o, sendo sempre necess�rio. A dire��o art�stica, que media entre o realismo e a fantasia, � um primor em quest�o do bom gosto e coer�ncia que predominam, ainda bem, por toda a produ��o.

�Ray�, o de menor for�a entre os indicados, principalmente por seu roteiro se deixar seduzir pelo caminho f�cil do drama, resiste principalmente pelo incontest�vel valor do trabalho de Jammie Foxx, na interpreta��o do personagem t�tulo, nesta cinebiografia de Ray Charles (recentemente morto e que acompanhou boa parte das filmagens). Ao contr�rio do que muitos pensam, na verdade aqueles que ainda n�o viram o filme, Foxx n�o apenas imitou os trejeitos do m�sico cego, mas na verdade � a grande for�a dram�tica da trama, sendo emocionante naquilo que lhe cabe como obriga��o: emocionar, sem que em nenhum momento lhe falte a propriedade para faze-lo. O ator cria um personagem forte para o cinema e n�o t�o somente recria uma personalidade real. Muito do impacto da presen�a de Jammie Foxx, fa�amos justi�a, deve-se tamb�m aos aspectos t�cnicos do filme, como a mixagem sonora, laureada, assim como o ator, numa combina��o perfeita na �nfase das cenas musicais, da articula��o da voz do ator com o �udio das grava��es originais remasterizadas pela voz do pr�prio Ray Charles. Ambas as estatuetas foram aquelas que realmente seriam justas serem obtidas pela pel�cula. Quanto � dire��o de Taylor Hackford, apesar de gostar da qualidade que ele costuma imprimir aos filmes de interesse inicialmente comercial, sua indica��o foi um exagero, mesmo que com ela tenha conseguido melhorar o roteiro fraco, mas que, afinal, por culpa do pr�prio Hackford, tenha sido autorizado para a filmagem. E nesse quesito � imperdo�vel, numa produ��o que demorou uma d�cada para ser iniciada.

Por �ltimo, o bastante simp�tico �Sideways � Entre Umas e Outras�, conquistou, por sua narrativa aparentemente despretensiosa, o Oscar de roteiro adaptado. De autoria do pr�prio diretor Alexander Payne, trata-se da hist�ria de uma jornada en�loga de dois amigos quarent�es pelas vin�colas da Calif�rnia. Um querendo aproveitar sua semana de despedida de solteiro e o outro, que s� pensa em depreciar-se e ter autopiedade, como complemento pr�prio ao fracasso das suas empreitadas mal realizadas: casamento, livro, ou qualquer outra coisa que fa�a. O �nico problema da pel�cula est� na impress�o que temos de que � for�ado o visual de produ��o independente, em sua fotografia descuidada, mas que � muito bem esquecida, pelo calor das interpreta��es.

Em suma, os filmes apontados como os cinco melhores do ano pela Academia foram bem escolhidos e merecem serem vistos. Este � o meu conselho: assista-os, depois conversaremos.
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Paulo Roberto Nunes, 23, estudante do 3�.ano de R�dio e TV da Universidade Santo Amaro/SP
([email protected])

CINEMA
Ter�a, 05 de abril de 2005

E... Justi�a para todos!
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