Carta Dita do Vidente

Rimbaud a Paul Demeny

Charleville, 15 de maio 1871

Resolvi lhe dar uma hora de literatura nova;
começo imediatamente com um salmo de atualidade:

Canto de guerra parisiense

A Primavera é evidente
Pois do coração das Propriedades verdes
O vôo de Thiers e de Picard
Deixa seus esplendores bem em frente!

Ó Maio! que delirantes anjinhos!
Sèvres, Meudon, Bagneux, Asnières
Ouçam os bem-vindos contra Paris
Semear coisas primaveris!

Eles têm quepe, espada e tambor
Não a velha caixa de velas
E suas canoas sem temor
Cruzam o lago de águas vermelhas!

Mais do que nunca somos devassos
Quando caem em nossos lares
As bombas, amarelos aços
Nas madrugadas particulares!

Thiers e Picard são amores
Que colhem girassóis
Com petróleo pintam Corots
Suas tropas zumbem nos paióis...

São amigos do grande truque
E deitado nas flores, Favre
Corta cebolas para chorar,
Cheira pimenta e mostra o muque!

A grande cidade tem a rua quente
Apesar das duchas de petróleo
E realmente precisaremos
Sacudir o vosso espólio...

E os Rurais descansando
Agachados ou de quatro,
Ainda ouvirão galhos quebrando
Nos vermelhos combates!

Rimbaud

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