9 - Adeus
Já é outono! — Mas por que lamentar um
eterno sol, se somos levados à descoberta da claridade divina — longe das
pessoas que morrem sobre as estações.
O outono. Nosso barco levantado por brumas paradas vira para o porto da miséria,
a cidade enorme de céu manchado de fogo e lama. Ah! os trapos podres, o pão
encharcado de chuva, a embriaguez, os mil amores que me crucificaram! Será que
nunca acabará este vampiro rei de milhões de almas e corpos mortos e que serão
julgados! Me revejo com a pele roída pelo lodo e pela peste, vermes nos cabelos
e nos sovacos e vermes maiores ainda no coração, deitado entre desconhecidos sem
idade, sem sentimento... Poderia ter morrido lá... Horrível lembrança! Detesto a
miséria.
E temo o inverno porque é a estação do conforto!
— As vezes vejo no céu praias sem fim cobertas de brancas nações alegres. Um
grande navio de ouro, acima de mim, agita suas bandeiras multicolores sob as
brisas da manhã. Criei todas as festas, todos os triunfos, todos os dramas.
Tentei inventar novas flores, novos astros, novas carnes, novas línguas. Pensei
adquirir poderes sobrenaturais. Pois é! Devo enterrar minha imaginação e minhas
lembranças! Uma bela glória de artista e contador levada embora!
Eu! eu que me disse mago ou anjo, dispensado de toda moral, sou devolvido ao
chão, com um dever a procurar, e a realidade rugosa a abraçar! Camponês!
Estarei enganado? A caridade seria irmã da morte para mim? Enfim, pedirei perdão
por ter-me alimentado de mentira. E vamos. Mas nenhuma mão amiga! E onde pedir o
socorro?
Sim, a nova hora é pelo menos muito severa.
Pois posso dizer que a vitória me é dada: os rangeres de dentes, os assobios de
fogo, os suspiros pestilentos se atenuam. Todas as lembranças imundas se apagam.
Meus últimos lamentos fogem — ciúmes pelos mendigos, bandidos, os amigos da
morte, os atrasados de toda espécie. — Danados, se eu me vingasse!
É preciso ser absolutamente moderno.
Nada de cânticos: manter o passo que foi ganho. Dura noite! O sangue seco fuma
na minha face, e não tenho nada atrás de mim a não ser este horrível arbusto!...
A luta espiritual é tão brutal quanto a batalha dos homens; mas a visão da
justiça é prazer só de Deus.
No entanto é a vigília. Vamos receber todos os fluxos de vigor e ternura
verdadeira. E na aurora, armados de uma ardente paciência, entraremos nas
esplêndidas cidades.
Por que falava de mão amiga! Uma bela vantagem é que posso rir dos velhos amores
mentirosos, e cobrir de vergonha estes casais da mentira — eu vi o inferno das
mulheres lá; — e me será permitido possuir a verdade numa alma e num corpo.
Abril / agosto 1873.