8 - Manhã
Não tive eu uma vez uma juventude amável,
heróica, fabulosa, a escrever sobre folhas de ouro — muita sorte! Por que crime,
por que erro, terei merecido a minha fraqueza atual? Vocês que pretendem que
bichos soltam soluços de tristeza, que doentes desesperam, que mortos sonham
mal, tentem contar a minha queda e meu sono. Eu não posso me explicar mais do
que o mendigo com seus contínuos Pater e Ave Maria. Não sei mais falar!
No entanto, hoje, creio ter terminado o relato do meu inferno. Era mesmo o
inferno; o antigo, aquele que o filho do homem abriu as portas.
Do mesmo deserto, à mesma noite, sempre meus olhos cansados acordam à estrela de
prata, sempre, sem que se emocionem os Reis da vida, os três magos, o coração, a
alma, o espírito. Quando iremos, para lá das praias e dos montes, saudar o
nascimento do trabalho novo, a sabedoria nova, a fuga dos tiranos e dos
demônios, o fim da superstição, adorar — os primeiros — Natal sobre a terra!
O canto dos céus, a marcha dos povos! Escravos, não vamos amaldiçoar a vida.
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