6 - O impossível

Ah! esta vida da minha infância, a grande estrada por qualquer tempo, sóbria sobrenaturalmente, mais desinteressado que o melhor dos mendigos, orgulhoso de não ter nem país, nem amigos, que bobagem era. — E só percebo agora!
— Tive razão de desprezar estes caras que não perdiam a ocasião de uma carícia, parasitas da limpeza e da saúde de nossas
mulheres, hoje que elas pouco estão de acordo conosco. Tive razão em todos os meus desprezos: já que eu fujo!
Eu fujo!
Eu explico.
Ontem ainda eu suspirava: "Céu! não seremos o bastante de danados aqui embaixo! Eu já tenho tanto tempo nesta tropa! Eu os conheço todos. Nós nos reconhecemos sempre: nos enojamos. A caridade nos é desconhecida. Mas somos bem educados; nossas relações com o mundo são muito decentes". Será surpreendente? O mundo! os mercadores, os ingênuos! — Não fomos desonrados. — Mas os eleitos, como nos receberiam? Ora, há pessoas raivosas e alegres, falsos eleitos, já que precisamos de audácia ou de humildade para abordá-Ios. São os únicos eleitos. Não são abençoadores!
Tendo reencontrado dois tostões de razão — isto passa rápido! — vejo que os meus desconfortos provêm de não ter percebido logo o que somos ao Ocidente. Os pântanos ocidentais! Não que eu acredite a luz alterada, a forma exausta, o movimento perdido... Bom! eis que o meu espírito quer mesmo encarregar-se de todos os desenvolvimentos cruéis que sofreu o espírito desde o fim do Oriente... Está querendo bastante, meu espírito!
...Meus dois tostões de razão acabaram! — 0 espírito é autoridade, ele quer que eu esteja no Ocidente. Seria preciso fazê-lo calar para concluir como eu queria.
Mandei ao diabo as palmas dos mártires, os raios da arte, o orgulho dos inventores, o ardor dos saqueadores; voltei ao Oriente e à sabedoria primeira e eterna. — Dizem que é um sonho de preguiça grosseira!
No entanto, não pensei no prazer de escapar aos sofrimentos modernos. Não tinha em mente a sabedoria bastarda do Alcorão. — Mas não haverá um real suplício nisto que, desde esta declaração da ciência, o cristianismo, o homem brinca, se prova as evidências, se enche do prazer de repetir as provas, e só vive assim! Tortura sutil, boba; fonte de minhas divagações espirituais. A natureza poderia entediar-se, talvez! O burguês¹ nasceu com o Cristo.
Não será porque cultivamos a bruma! Nós comemos a febre com nossos legumes aguados. E a bebedeira! e o fumo! e a ignorância! e as abnegações! — Tudo isto estará longe o suficiente do pensamento da sabedoria do Oriente, a pátria primitiva? Para que um mundo moderno, se tais venenos são inventados!
Os homens de Igreja dirão: Está entendido. Mas o Senhor quer falar do Eden. Não há nada para vós na história dos povos orientais.
— E verdade; é no Eden que eu pensava! O que é para o meu sonho esta pureza das raças antigas!
Os filósofos: O mundo não tem idade. A humanidade muda de lugar, simplesmente. Estais no Ocidente, mas livre de viver em vosso Oriente, por mais antigo que o queira — e lá morar bem. Não seja um vencido. Filósofos, sois de vosso Ocidente.
Meu espírito, toma cuidado. Nada de partidos de salvação violentos. Exercita-te! — Ah! a ciência não vai rápido o suficiente para nós!
— Mas estou percebendo que meu espírito dorme.
Se ele estivesse bem acordado sempre a partir deste momento, estaríamos em breve na verdade, que talvez nos cerca com seus anjos chorando!... — Se ele tivesse ficado acordado até este momento, eu não teria cedido aos instintos venenosos, numa época imemorável!... — Se ele tivesse sempre estado bem acordado, eu navegaria em plena sabedoria!...
Ó pureza! pureza!
É este minuto acordado que me deu a visão da pureza! - Pelo espírito se vai a Deus!
Dilacerante infortúnio!

¹ Rimbaud cita o personagem Prudhomme, que representa o burguês limitado e satisfeito de si.

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