5 - Delírios II

Alquimia do verbo

A mim. A história de uma de minhas loucuras. Há muito tempo eu me gabava de possuir todas as paisagens possíveis, e achava irrisórias as celebridades da pintura e da poesia moderna.
Eu amava as pinturas idiotas, enfeites de portas, cenários, telas de saltimbancos, bandeiras, gravuras populares; a literatura fora de moda, o latim de igreja, livros eróticos sem ortografia, romances de nossas bisavós, contos de fadas, pequenos livros da infância, velhas óperas, refrões tolos, ritmos ingênuos.
Eu sonhava cruzadas, viagens de descobrimentos sem relatos, repúblicas sem história, guerras de religião abafadas, revoluções de costumes, deslocamentos de raças e continentes: eu acreditava em todos os encantos.
Inventei a cor das vogais! - A preto, E branco, I vermelho, O azul, U verde. - Regulei a forma e o movimento de cada consoante, e, com ritmos instintivos, me lisonjeava de inventar um verbo poético acessível, cedo ou tarde, a todos os sentidos. Eu reservava a tradução.
Foi primeiro um estudo. Escrevia silêncios, noites, anotava o indizível. Fixava vertigens.

Longe dos pássaros, dos rebanhos, das aldeãs,
Que bebia eu, de joelhos nesta mata
Rodeada de tenros bosques de avelãs,
Na neblina de uma tarde verde e pacata?

Que poderia beber neste jovem riacho,
- Arvores sem voz, grama sem flores, céu coberto! -
Beber nestas cabaças amarelas, longe do meu lar
Querido? Algum licor de ouro que faz suar.

Eu parecia suspeita placa de taberna.
- Uma tormenta veio expulsar o céu. De noite
A água dos bosques perdia-se nas areias virgens,
O vento de Deus jogava gelos às margens;

Chorando eu via ouro - e não pude beber. -

* * *

Verão, quatro horas da madrugada,
O sono de amor ainda dura agora.
Sob o arvoredo se evapora
O cheiro da noite festejada.

Lá embaixo, em sua vasta obra
No sol das ilhas de coqueiros,
Já se agitam - a camisa em dobra -
Os carpinteiros.

Em seus Desertos de espuma, com tranqüilidade,
Preparam os tetos preciosos
Onde a cidade
Pintará céus enganosos.

Ó, para estes Operários de encantos
Súditos de um rei de Babilônia,
Vênus! Deixa um instante os Amantes
Cuja alma é coroa e sonha.

Ó Rainha dos Pastores,
Leva a aguardente aos trabalhadores,
Que estejam em paz os seus vigores
Aguardando o banho de mar ao meio-dia.

***

A velharia poética tinha uma boa parte na minha alquimia do verbo.
Eu me acostumava com a alucinação simples: eu via muito francamente uma mesquita no lugar de uma fábrica, uma escola de tambores feita por anjos, coches nas estradas do céu, um salão no fundo de um lago; os monstros, os mistérios; um título de comédia levantava horrores na minha frente.
Depois explicava meus sofismas mágicos com a alucinação das palavras!
Acabei por achar sagrada a desordem do meu espírito.
Eu era ocioso, tomado por uma pesada febre: invejava a felicidade dos bichos - as lagartas, que representam a inocência dos limbos, as toupeiras, o sono da virgindade!
Meu temperamento se amargurava. Eu dizia adeus ao mundo em espécies de cantigas:


Canção da mais alta torre

Que venha, que venha
O tempo da paixão.

Tive tanta paciência
Que para sempre esqueço.
Temor e penitência
Aos céus partiram.
E a sede doentia
Me escurece as veias.

Que venha, que venha
O tempo da paixão.

Assim o prado
Ao esquecimento deixado,
Engrandece, e floresce
De joio e incenso,
Ao zumbir tenso
Das moscas sujas.

Que venha, que venha,
A paixão que se empenha.

Eu amava o deserto, os pomares queimados, as lojas desbotadas, as bebidas mornas. Eu me arrastava nas vielas fedidas e, os olhos cerrados, me oferecia ao sol, deus de fogo.
"General, se sobrar um velho canhão nas tuas muralhas em ruínas, bombardeia-nos com blocos de terra seca. Nas vitrines das lojas maravilhosas! Nos salões! Faz a cidade comer o seu pó. Enferruja as bicas. Enche os quartos femininos de pó de rubis ardendo..."
Oh! O mosquitinho bêbado no mictório do albergue, amoroso da borragem¹, e que dissolve um raio!

(¹ Borragem: erva da família das sudoríficas, também chamada borracha no Sul do Brasil.)

Fome

Se tenho gosto não é senão
Só pelas pedras e pelo chão,
Almoço de ar então,
De rochedo, de ferro, de carvão.

Minhas fomes, girem. Pastem, fomes,
O campo dos farelos.
Atraiam o alegre veneno
Das campainhas-amarelas.

Comam cascalho quebrado que seja,
As velhas pedras da igreja;
Lascas dos antigos dilúvios,
Pães semeados nos vales cinza.

O lobo gritava sob as folhas
Cuspindo as belas penas
Do meu almoço de aves presumo:
Como ele me consumo.

As frutas, as saladas
Só esperam a colheita;
Mas a aranha das valadas
Não come senão violeta.

Que eu durma! que eu ferva
Nos altares de Salomão.
Na ferrugem corre o borbotão
E se mistura ao Cedrão.

Enfim, ó felicidade, ó razão, eu separava do céu o azul, que é preto, e vivi, faísca de ouro da luz natureza. De alegria, tomei uma expressão palhaça e perdida ao máximo:

Foi reencontrada!
O quê? A eternidade
É o mar
que o sol invade.

Minha alma eterna
Cumpre a tua promessa
Apesar da noite só
E do dia em fogo.

Então te desprendes
Dos humanos sufrágios,
Dos comuns impulsos!
Tu voas segundo...

- Nunca a esperança.
Nada de orietur ²
Ciência e paciência,
Certa é a tortura.

Sem mais amanhãs,
Brasas de satim,
Vosso ardor
É o dever.

Foi reencontrada!
O quê? A Eternidade.
É o mar
Que o sol invade.

(¹ Cedrão: riacho que separa Jerusalém do Monte das Oliveiras. ² Orietur : forma do verbo orior, levantar-se, sair do leito.)

Me tornei uma ópera fabulosa: vi que todos os seres têm uma fatalidade de felicidade: a ação não é a vida, mas uma maneira de desperdiçar alguma força, uma enervação. A moral é a fraqueza do cérebro.
A cada ser, várias outras vidas me pareciam devidas. Este senhor não sabe o que faz: ele é um anjo. Esta família é uma ninhada de cachorros. Frente a muitos homens, eu falava bem alto com um momento de uma de suas outras vidas. Assim, eu amei um porco.
Nenhum dos sofismas da loucura — a loucura que se tranca — foi por mim esquecido: poderia dizê-los todos, eu tenho o sistema.
A minha saúde foi ameaçada. O terror vinha. Eu caía em sonos de vários dias e, levantado, continuava os sonhos os mais tristes. Estava maduro para a morte, e por uma estrada de perigos a minha fraqueza me levava aos confins do mundo e da Ciméria; ³ pátria da sombra e dos turbilhões.
Tive de viajar, distrair os encantamentos juntados no meu cérebro. No mar, que eu amava como se fosse me lavar de uma mancha, eu via levantar-se a cruz consoladora. Tinha sido danado pelo arco-íris. A felicidade era minha fatalidade, meu remorso, meu verme: a minha vida seria sempre imensa demais para ser consagrada à força e à beleza.
A Felicidade! O seu dente, doce à morte, me avisava no canto do galo — acl matutinum ao Christus venit — nas mais sombrias cidades:

³A Ciméria era para os antigos a região coberta de neblinas nos confins da Terra.

Ó estações, ó fortalezas
Que alma é sem fraquezas?

Fiz o mágico estudo
Da felicidade para tudo.

Salve ela cada vez
Que canta o galo gaulês.

Ah! não terei mais vontade
Ela carregou minha mocidade.

O charme tomou corpo e alma
E ofereceu a calma.

Ó estações, ó fortalezas!

A hora de sua fuga sem sorte!
Será a hora da morte.

Ó estações, ó castelos!

Isto passou. Sei hoje saudar a beleza.

***

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