4 - Delírios I
VIRGEM LOUCA
O esposo infernal
Vamos ouvir a confissão de um companheiro
de inferno¹:
"Ó divino Esposo, meu Senhor, não recusai a confissão da mais triste de vossas
servidoras. Estou perdida. Estou bêbada. Sou impura. Que vida!
"Perdão, divino Senhor, perdão! Ah! perdão! Quantas lágrimas! E quantas lágrimas
ainda mais tarde, espero!
"Mais tarde, conhecerei o divino Esposo! Nasci submissa a Ele. - O outro pode me
bater agora!
"Agora, estou no fundo do mundo! O minhas amigas!... não, não, minhas amigas...
Jamais delírios nem torturas iguais... Que besteira!
"Ah! eu sofro, eu grito. Eu sofro mesmo. Tudo, no entanto, me é permitido,
carregada do desprezo dos mais desprezíveis corações.
"Enfim, vamos fazer esta confissão, nem que deva repeti-la vinte vezes mais -
tão triste, tão insignificante!
"Eu sou escrava do Esposo infernal, aquele que perdeu as virgens loucas. É mesmo
este demônio. Não é um espectro, não é um fantasma. Mas eu que perdia sabedoria,
que estou danada e morta ao mundo - não me matarão! - Como descrevê-lo! Não sei
mais nem falar. Estou de luto, choro, tenho medo. Um pouco de frescor, Senhor,
se quereis, se bem quereis!
"Sou viúva... - Era viúva... - sim, eu fui muito séria antigamente, e não nasci
para me tomar esqueleto!... - Ele era quase uma criança... Suas delicadezas
misteriosas me seduziram. Esqueci todo o meu dever humano para segui-lo. Que
vida! A verdadeira vida está ausente. Não estamos ao mundo. Eu vou onde ele vai,
é preciso. E muitas vezes ele se irrita contra mim, mim, a pobre alma. O
Demônio! - E um Demônio, você sabe, não é um homem.
"Ele diz: Não amo as mulheres. O amor deve ser reinventado, é sabido. Elas não
podem mais querer nada além de uma situação segura. A posição conseguida,
coração e beleza são postos de lado: resta apenas frio desprezo, o alimento do
casamento hoje. Ou então eu vejo mulheres com os sinais da felicidade, das quais
eu poderia ter feito boas companheiras, engolidas primeiro por brutos sensíveis
como fogueiras..."
"Eu o escuto fazendo da infâmia uma glória, da crueldade um charme. "Sou de raça
longínqua: meus pais eram escandinavos: eles furavam as costelas, bebiam seu
sangue. - Farei feridas em todo meu corpo, tatuagens, quero me tornar medonho
como um mongol: você verá, eu vou berrar pelas ruas. Quero ficar bem louco de
raiva. Nunca me mostre jóias; eu rastejaria e me torceria no tapete. A minha
riqueza, eu a queria manchada de sangue em todo lugar. Nunca trabalharei..." Em
muitas noites, o seu demônio me pegando, nos rolávamos, eu lutava com ele! - De
noite, muitas vezes, bêbado, ele se coloca nas ruas ou nas casas, para
assustar-me mortalmente. "Vão me cortar realmente o pescoço; será nojento." Oh!
estes dias em que ele quer andar com o ar do crime!
"As vezes ele fala numa espécie de dialeto suavizado, da morte que faz
arrepender, dos infelizes que existem certamente, dos trabalhos duros, das
despedidas que rasgam os corações. Nas espeluncas onde nos embriagávamos, ele
chorava considerando os que nos cercavam, rebanho da miséria. Ele punha de pé os
bêbados nas ruas negras. Ele tinha a piedade de uma mãe maldosa com as
criancinhas. - Ele ia embora com gentilezas de menina no catecismo. - Fingia
estar informado sobre tudo, comércio, arte, medicina. - Eu o seguia, é preciso!
"Eu via todo o cenário com que, em espírito, ele se rodeava; vestidos, lençóis,
móveis: eu lhe atribuía armas, uma outra cara. Eu via tudo o que o tocava, como
ele teria querido criar para si. Quando ele me parecia ter o espírito inerte, eu
o seguia em ações estranhas e complicadas, longe, boas ou más: eu tinha a
certeza de nunca entrar no seu mundo. Ao lado de seu querido corpo adormecido,
quantas horas, noites eu velei, tentando entender por que ele queria tanto fugir
da realidade. Nunca homem nenhum teve igual desejo. Eu reconhecia - sem temer
por ele - que ele poderia ser um sério perigo na sociedade. - Ele tem talvez
segredos para mudar a vida? Não, só faz procurá-los, me respondi. Enfim, a sua
caridade é enfeitiçada, e eu sou a prisioneira. Nenhuma outra alma teria força
suficiente - força de desespero! - para suportá-la - para ser protegida e amada
por ele. Aliás, eu não o imaginava com outra alma: a gente vê o seu Anjo, nunca
o Anjo de um outro - acredito. Eu estava na sua alma como num palácio que foi
esvaziado para não ver uma pessoa tão pouco nobre quanto nós: eis tudo.
Infelizmente! eu dependia mesmo dele. Mas o que ele queria com minha existência
pálida e covarde? Ele não me tornava melhor, mesmo se não me fazia morrer!
Tristemente decepcionada, eu lhe disse algumas vezes: "Eu te entendo". Ele
levantava os ombros.
"Assim, a minha tristeza voltando sempre, e me achando mais perdida aos meus
olhos - como a todos os olhos que quisessem me encarar, se eu não tivesse sido
condenada para sempre ao esquecimento de todos! - eu tinha cada vez mais fome de
sua bondade. Com seus beijos e abraços amigos, era mesmo um céu, um escuro céu,
onde eu entrava, e onde gostaria de ser deixada, pobre, surda, muda, cega. Já eu
me acostumava. Eu nos via como duas boas crianças, livres de passear no Paraíso
de tristeza. Nós nos dávamos bem. Emocionados, trabalhávamos juntos. Mas, após
uma penetrante carícia, ele dizia: "Como vai te parecer estranho, quando eu não
estiver mais aqui, aquilo pelo qual você passou. Quando você não tiver mais meus
braços sob o teu pescoço, nem meu coração para descansar, nem esta boca nos teus
olhos. Porque será preciso que eu vá embora, muito longe, um dia. E devo ajudar
outros, é meu dever. Embora isto não seja muito agradável... querida alma..."
Imediatamente eu me pressentia, ele tendo partido, tomada de vertigem, jogada na
sombra a mais horrível: a morte. Eu lhe fazia prometer que ele não me largaria.
Ele a fez vinte vezes esta promessa de amante. Era tão frívolo como eu lhe
dizendo: "Eu te entendo..."
"Ah! eu nunca tive ciúmes dele. Ele não me deixará, acredito. Para tornar-se o
quê? Ele não tem uma relação, não trabalhará nunca. Ele quer viver sonâmbulo.
Sozinhas, sua bondade e sua caridade lhe dariam algum direito no mundo real? Por
instantes, esqueço a piedade onde caí: ele me deixará forte, viajaremos,
caçaremos nos desertos, dormiremos nas mas de cidades desconhecidas, sem
cuidados, sem penas. Ou eu acordarei, e as leis e os costumes terão mudado -
graças ao seu poder mágico, - o mundo, continuando o mesmo, me deixará a meus
desejos, alegrias, preguiças. Oh! a vida de aventuras que existe nos livros das
crianças, para me recompensar, eu sofri tanto, você a dará para mim? Ele não
pode. Ignoro o seu ideal. Ele me disse ter saudades, esperanças: isto não deve
me dizer respeito. Será que ele fala com Deus? Talvez eu devesse pedir a Deus.
Estou no mais profundo abismo e não sei mais rezar.
"Se ele me explicasse as suas tristezas, será que as entenderia melhor que as
suas zombarias? Ele me ataca, ele passa horas a me deixar com vergonha de tudo o
que me tocou no mundo, e ele fica indignado se eu choro.
"- Estás vendo este jovem elegante, entrando na bela e calma casa: ele se chama
Duval, Dufour, Armando, Maurício, que importa? Uma mulher se dedicou a amar este
idiota maldoso: ela morreu, é com certeza uma santa no céu, agora. Você me fará
morrer como ele fez morrer esta mulher. E o nosso destino, a nós, corações
caridosos..." Infelizmente! ele tinha dias em que todos os homens agindo lhe
pareciam os joguetes de delírios grotescos; ele ria horrivelmente, muito tempo.
- Depois, ele retomava suas maneiras de jovem mãe, de irmã amada. Se ele fosse
menos selvagem, estaríamos salvos! Mas a sua doçura também é mortal. Eu lhe sou
submissa. Ah! Sou louca!
"Um dia talvez ele desaparecerá maravilhosamente; mas é preciso que eu saiba, se
ele deve subir para um céu, que eu veja um pouco a assunção² do meu amiguinho!"
Casal esquisito!
(¹ É a amante de um demônio que passa a
fazer este relato.) (N. do T.)
(² - assunção: subida ao céu da Virgem Maria)
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