3 - Noite no inferno

Engoli um belo trago de veneno. - Que seja três vezes abençoado o conselho que me aconteceu! - As minhas entranhas ardem. A violência do veneno torce meus membros, me deixa disforme, me derruba. Estou morrendo de sede, sufoco, não posso gritar. E o inferno, eterna pena! Vejam como o fogo se levanta! Queimo como deve. Vá, demônio!
Eu havia enxergado a conversão ao bem e à felicidade, a salvação. Poderei descrever a visão, o ar do inferno não suporta os hinos! Eram milhões de criaturas encantadoras, um suave concerto espiritual, a força e a paz, as nobres ambições, que mais?
As nobres ambições!
E é ainda a vida! - Se a danação for eterna! Um homem que quer se mutilar está danado, não é mesmo? Eu me acredito no inferno, portanto estou. É a execução do catecismo. Sou escravo de meu batismo. Pais, vocês fizeram a minha desgraça e fizeram a vossa. Pobre inocente! O inferno não pode atacar os pagãos. - É a vida ainda! Mais tarde, as delícias da danação serão mais profundas. Um crime, rápido, que eu caia no nada, pela lei humana.
Cale a boca, mas cala-te!... E a vergonha, a crítica, aqui: Satanás que diz que o fogo é vil, que minha raiva é terrivelmente boba. - Chega!... Erros que me sopram, magias, perfumes falsos, músicas infantis. - E pensar que eu tenho a verdade, que eu vejo a justiça: tenho um juízo são e decidido, estou pronto para a perfeição... Orgulho. - A pele de minha cabeça resseca. Piedade! Senhor, tenho medo. Tenho sede, tanta sede! Ah! a infância, a grama, a chuva, o lago sobre as pedras, o luar quando a torre da igreja tocava doze, o diabo está na torre, a esta hora. Maria! Santa Virgem!... Horror de minha besteira.
Lá, não serão almas honestas, que me querem bem... Venham... Tenho um travesseiro na boca, elas não me ouvem, são fantasmas. Além disso, nunca ninguém pensa no outro. Que não se aproximem. Eu sinto o queimado, com certeza.
As alucinações são inúmeras. É bem o que eu sempre tive: sem fé na história, o esquecimento dos princípios. Calarei isto: poetas e visionários ficariam com ciúmes. Sou mil vezes o mais rico, sejamos avarentos como o mar.
Ah, isto! o relógio da vida parou há pouco. Não sou mais ao mundo. - A teologia é séria, o inferno é certamente embaixo - e o céu em cima. - Êxtase, pesadelo, sono num ninho de chamas.
Quantas malícias na atenção no campo... Satanás, Ferdinando¹, corre com as sementes selvagens... Jesus anda sobre espinhos purpurinos, sem curvá-los... Jesus andava sobre as águas irritadas. A lanterna nos mostrou ele de pé, branco e com tranças morenas, no flanco de uma onda de esmeralda...
Vou desvendar todos os mistérios: mistérios religiosos ou naturais, morte, nascimento, futuro, passado, cosmogonia, vazio. Sou mestre e fantasmagorias.
Escutem!...
Tenho todos os talentos! - Não há ninguém aqui e há alguém: eu não gostaria de derramar meu tesouro. - querem cantos negros, dansas de huris²? Querem que eu desapareça, que mergulhe à procura do anel? Querem? Farei ouro, remédios.
Confiem então em mim, a fé alivia, guia, cura. Todos, venham - mesmo as crianças - que eu vos console, que se derrame para vocês o coração - o coração maravilhoso! - Pobres homens, trabalhadores! Não peço rezas, com a vossa confiança somente, serei feliz.
- E vamos pensar em mim. Isto me faz um pouco lamentar o mundo. Tenho sorte de não sofrer mais. A minha vida foi só loucuras doces, é uma pena.
Bah! façamos todas as caretas imagináveis.

(¹ Ferdinando: nome popular dado ao demônio na região das Ardenas.
² Huris: virgens muito belas prometidas no Paraíso ao fiel Muçulmano.)

Decididamente, estamos fora do mundo. Nenhum som. Meu tato desapareceu.
Ah! meu castelo, minha porcelana, meu bosque de salgueiros. As tardes, as manhãs, as noites, os dias... Cansei!
Eu deveria ter o meu inferno para a raiva, meu inferno para o orgulho e o inferno da carícia; um concerto de infernos.
Morro de cansaço. É o túmulo, vou aos vermes, horror do horror! Satanás, brincalhão, você quer me dissolver, com teus charmes. Eu reclamo. Eu reclamo! uma espetada, uma gota de fogo.
Ah! voltar à vida! Jogar os olhos nas nossas deformidades. E este veneno, este beijo mil vezes maldito! A minha fraqueza, a crueldade do mundo! Meu Deus, piedade, esconda-me, não sei me comportar! - Estou escondido e não estou.
E o fogo que se levanta com seu danado.

VOLTAR

Hosted by www.Geocities.ws

1