A Língua Portuguesa
Origem – Com a invasão romana, em 218 a.C., todos os habitantes da península ibérica, à
exceção dos bascos, adotaram o latim como língua, dando início ao processo, mais rápido e
completo no sul do que no norte dessa região, de formação do espanhol e do português e galego.
Em 409 d.C., as invasões germânicas – vândalos, suevos, alanos e visigodos – romperam a
unidade lingüística românica, introduzindo palavras relativas à guerra (roubar, espiar, guerrear), à
indumentária (fato, ataviar), à casa (estaca, espeto) e aos animais (ganso, marta), além de
palavras várias (agasalhar, branco, brotar). Esse rompimento se acentuará, mais tarde, levando à
formação de línguas bem diferenciadas.
Os árabes – As contribuições dos árabes, que invadiram a península em 711, deram-se na
agricultura (arroz, azeite, azeitona, bolota, açucena, alface), ciências e técnicas (alfinete,
alicerce, alicate, azulejo, almofada), profissões (alfaiate, almocreve), organização administrativa
(alcaide, almoxarife, alfândega), culinária (acepipe, açúcar, javali), vida militar (alferes, refém) e
urbana (arrabalde, aldeia). As palavras de origem árabe começam geralmente com o artigo
definido al (por exemplo, almofada, de al + mohada), sendo às vezes o "I" assimilado pela
consoante seguinte (por exemplo, azeitona, de al + ceitun). Além desses substantivos, o árabe
deixou também alguns adjetivos (mesquinho, baldio) e uma preposição (até). No século XI, com a
Reconquista, o centro-sul de Portugal foi repovoado por cristãos que falavam galego-português,
idioma adotado pelos moçárabes (os cristãos que se tinham submetido aos invasores árabes).
Separação – Com a separação do Condado de Portugal e de Castela (século XIII), defez-se a
unidade do galego-português. Mas nessa língua ainda são escritos os primeiros documentos
oficiais – testamentos, títulos de venda – e textos literários: poemas recolhidos nos cancioneiros
da Ajuda, da Vaticana e Colocci-Brancuti (da Biblioteca Nacional de Lisboa). No século XIV, com
o Livro de Linhagens, de d. Pedro, conde Barcelos, e a Crônica Geral de Espanha (1344), surge a
prosa literária em português, diferenciado do galego.
Expansão – Com a construção do império português de ultramar (séculos XIV–XVI), o português
espalhou-se por diversas regiões da África, Ásia e América, recebendo também influências dos
idiomas locais: cáfila, almadia, monção (do árabe falado no norte da África), pagode (do dravídico,
falado na Índia), zumbaia e jangada (do malaio), junco (do chinês), chá (do japonês). Com o
Renascimento, aumentou o número de italianismos e palavras eruditas de derivação grega,
tornando o português mais complexo e maleável. No século XVI, ao aparecerem as primeiras
gramáticas, a morfologia e a sintaxe já estavam definidas, e a língua, a partir daí, teria mudanças
estruturais menores, como a influência francesa do século XVIII, que fez o português falado de
Portugal afastar-se do falado nas colônias. Por outro lado, a fase 1580-1640, em que Portugal foi
governado pelo trono espanhol, provocou a entrada no léxico de palavras castelhanas, como
bobo, gana, granizo. Nos séculos XIX e XX, a língua recebeu novos aportes: termos internacionais
de origem greco-latina designando avanços tecnológicos (automóvel, televisão, telefone,
aeroplano, rádio); nesse sentido, foi muito importante a contribuição do inglês em ramos da
técnica como a informática, a corrida espacial, as ciências médicas.
No Brasil – Afastada da metrópole, a língua falada no Brasil não acompanhou as mudanças
ocorridas no falar lusitano durante o século XVIII: além de manter-se fiel, basicamente, à maneira
de pronunciar da época da descoberta, o português brasileiro sofreu fortes influências indígenas e
africanas e, mais tarde, de imigrantes europeus que se instalaram no centro-sul. Isso explica,
numa língua que para ser falada em território tão amplo conservou singular unidade, a presença
de modalidades fonéticas tão distintas quanto as do nordestino, do mineiro ou do gaúcho.
O tupi-guarani, usado como língua geral até a metade do século XVIII, teve sua utilização proibida
por uma Provisão Real de 1757; mas, a essa altura, já estava sendo suplantado pelos
portugueses em virtude da chegada de grandes levas de imigrantes da metrópole. Com a
expulsão dos jesuítas (1759), a decadência da língua geral se acentuou e o português fixou-se
definitivamente como o idioma do Brasil. Do tupi, o português herdou palavras referentes à flora
(abacaxi, buriti, carnaúba, mandacaru, mandioca, sapé, taquara, peroba, imbuia, jacarandá, ipê,
cipó, pitanga, maracujá, jabuticaba, caju), à fauna (capivara, quati, tatu, sagüi, caninana, sucuri,
piranha, araponga, urubu, curió, sabiá), nomes geográficos (Aracaju, Guanabara, Tijuca, Niterói,
Pindamonhangaba, Itapeva) e nomes próprios (Jurandir, Ubirajara, Maíra).
O iorubá, falado pelos negros vindos da Nigéria, deixou o vocabulário ligado ao candomblé
(nomes de divindades como Exu ou Iansã) e à cozinha afro-brasileira (vatapá, abará, acarajé); o
quimbundo angolano trouxe palavras mais gerais (caçula, cafuné, molambo, moleque) e termos
relativos à escravidão (bangüê, senzala, mocambo, maxixe, samba).
O individualismo e nacionalismo românticos intensificaram o projeto de criação de uma literatura
nacional expressa na variedade brasileira de língua portuguesa, argumento retomado pelos
modernistas, que defendiam, em 1922, a necessidade de romper com os modelos do falar
brasileiro. A abertura conquistada pelos modernistas consagrou literariamente a norma brasileira.
A distância inicial existente acentou-se com o aporte dos diversos imigrantes que vieram para o
Brasil e com o avanço tecnológico, que fez com que muitas palavras tivessem formas diferentes
nos dois países. Assim é que no Brasil diz-se trem, ônibus, aeromoça, rádio, vitrine, meias,
espátula, terno, necrotério, e em Portugal, combóio, autocarro, hospedaria, telefonia, montra,
peúgas, corta-papel, fato, morgue.
Declínio na Ásia – A presença política de Portugal na Ásia no século XX limita-se a Macau; mas
os portugueses já controlaram regiões muito mais extensas, que incluíam partes da Índia, da
Indonésia, do Sri Lanka e da Malásia. Além disso, o português serviu de língua franca nos portos
da Índia e sudeste da Ásia do século XVI ao século XVIII. Entretanto, o único lugar onde o
português sobreviveu na sua forma oficial foi em Goa, na Índia; mas, mesmo lá, ele vem sendo
gradualmente substituído pelo inglês. Em Damão e Diu (Índia), Java (Indonésia), Macau (ainda
possessão portuguesa, mas de população predominante chinesa), Sri Lanka e em Málaca
(Malaísia) são falados apenas variedades de crioulo – idiomas que guardam do português que os
originou apenas a base lexical, diferindo muito na parte gramatical.
Variedades africanas – Na África, o português é a língua oficial de cinco países: São Tomé e
Príncipe, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Angola. Nesses países, ele é utilizado na
administração, no ensino, na imprensa e nas relações internacionais. Esse português regional,
no entanto, distancia-se cada vez mais do português europeu, especialmente a língua falada,
aproximando-se em muitos casos do português falado no Brasil. Em todos esses países existem
línguas nacionais ou crioulos, que são utilizados nas situações da vida cotidiana. São Tomé e
Príncipe e Cabo Verde se utilizam de um crioulo de origem portuguesa; a Guiné-Bissau, além do
crioulo, possui inúmeros dialetos africanos; em Angola e em Moçambique existem várias línguas
nativas. Além disso, os crioulos falados na África são muito diferentes entre si e resultam de uma
grande reestruturação do português provocada pelo contato com as línguas locais.