Revolução (POLÍTICA)
Ruptura radical com a ordem política vigente, a conduta social estabelecida ou o modo tradicional de pensar e agir. Termo usado no domínio das atividades sociais a partir do século XVIII.
O filósofo alemão Immanuel Kant considerava a revolução uma força essencial e necessária no processo evolutivo da humanidade e passo decisivo, embora doloroso, para a construção de sociedades novas, de bases éticas superiores. Essa concepção inspirou os grandes movimentos revolucionários da história moderna.
Revolução é a ruptura com a organização política e social vigente, com as condutas aceitas como éticas ou com o modo tradicional de pensar, crer e agir. Paradoxalmente, o sentido atual da palavra é oposto ao de sua origem etimológica, o vocábulo medieval latino revolutio, que significa retorno ou volta. Termo científico de emprego usual em astronomia e geometria, só a partir do século XVIII perdeu o sentido de processo cíclico contínuo, de fluxo e refluxo ou retorno a um estado anterior melhor ou mais puro. Modernamente, passou a ser aplicado ao domínio geral das atividades sociais, políticas, econômicas e culturais com o sentido de reviravolta ou mudança radical.
Durante toda a Idade Média européia, considerou-se normal e justa a desigualdade jurídica e fiscal a favor da nobreza e do clero. A revolução inglesa de 1640 a 1648, primeira das grandes comoções da história moderna, e sobretudo a profunda convulsão registrada na França em 1789 determinaram a morte dessa concepção e modificaram profundamente a estrutura política e social dos países em que ocorreram.
Revolução política
- O estudo das motivações, processos e conseqüências da revolução política é de interesse fundamental devido à profunda influência que esses movimentos exercem na vida das pessoas e na evolução da humanidade. A revolução política implica o conflito entre dois direitos históricos: o direito do que existe, a comunidade tradicional da qual depende a vida e o destino dos cidadãos; e o direito do que "pode vir a ser" e que, pelo menos na opinião dos revolucionários que o defendem, "deveria ser", pois tem o objetivo de reduzir a dor humana e a injustiça social.
O argumento ético que justifica a revolução deve apoiar-se em critérios racionais e, mais ainda, históricos. Por conseguinte, depende de uma avaliação histórica, na qual os revolucionários sempre apostam no futuro e numa sociedade em que exista melhor aproveitamento dos recursos e dos avanços técnico e material, de tal modo que se ampliem a felicidade e a liberdade individuais. O que é utópico no momento de sua formulação, se converte, se a revolução triunfa, na nova ordem sobre a qual terão suas bases a moral e a ética. Assim, todos os valores universalmente aceitos foram fruto de revoluções históricas: o valor da tolerância teve origem nas guerras civis inglesas e na revolução que atribuiu ao Parlamento o poder político real; o reconhecimento dos direitos humanos como inalienáveis e irrenunciáveis surgiu das revoluções americana e francesa do século XVIII; a aceitação da solidariedade e da igualdade econômica resultou dos movimentos revolucionários marxistas que, depois da revolução russa de 1917, se estenderam por grande parte da Terra.
As várias revoluções registradas ao longo da história têm características próprias, mas é possível distinguir determinados fatores comuns a todas elas. Em primeiro lugar, essas revoluções ocorreram em sociedades que alcançaram certo grau de prosperidade e desenvolvimento econômico. Seus protagonistas, ao contrário do que se poderia pensar, não são os membros mais pobres e destituídos nem os mais incultos, mas intelectuais descontentes das respectivas comunidades que, como líderes do movimento revolucionário, desempenham a dupla função de críticos do regime vigente e propagadores da ideologia revolucionária.
Em segundo lugar, a instituição governamental se mostra incapaz, por negligência, incompetência ou corrupção, de fazer frente à nova situação: a democratização atinge a classe dirigente, que começa a perder a confiança em si mesma e nas qualidades e valores que tradicionalmente haviam constituído a base de seu poder. Diante dos primeiros movimentos populares de descontentamento e agitação, o governo faz uso da força para sufocá-los, o que aumenta ainda mais a indignação.
Por último, uma vez conquistado o poder, começa a fase da consolidação das medidas de transformação política e econômica adotadas pela nova classe dirigente. Embora no princípio se registre um clima de otimismo, logo surgem novas dissensões internas e, em alguns casos, eclode a guerra civil. Os ideais que haviam inspirado a revolução desaparecem quando o vencedor impõe sua autoridade pela força.
Revolução frente a outros movimentos sociais - Como todo movimento social, a revolução atrai um grupo de pessoas que partilham, apóiam e defendem uma causa. Outros movimentos, como a reforma, a revolta ou o golpe de estado, têm também adeptos convictos de que lutam por certos interesses ou ideais. Existe, porém, uma diferença fundamental entre esses movimentos e a revolução. A reforma, por exemplo, respeita a ordem estabelecida e, basicamente, o que pretende é corrigir os desajustes observados para fazer com que a realidade esteja de acordo com o modelo tradicional. A revolta é a explosão de um mal-estar social que ataca a ordem vigente, mas não oferece alternativas de governo. O golpe de estado substitui as pessoas que detêm o poder, mas em geral deixa intacta a estrutura política e social. A contra-revolução é a negação da revolução, pois seu objetivo é um retorno a situações anteriores. Alguns desses movimentos são acompanhados de violência e derramamento de sangue, como ocorreu nas revoltas de camponeses na Europa da Idade Média e nos numerosos golpes de estado registrados na África e na América Latina no século XX. Assim, o que caracteriza a revolução política é o radicalismo das mudanças da estrutura social e estatal, e não os componentes de violência e derramamento de sangue.
Revoluções culturais, científicas e tecnológicas
- Quando se fala de revolução, pensa-see imediatamente nas revoluções políticas e os nomes das revoluções francesa, russa, por exemplo, vêm de imediato à memória. Existem, porém, outros tipos de revolução ou momentos de mudança radical que historicamente exerceram uma grande influência no futuro da humanidade: são as revoluções culturais, científicas e tecnológicas.
Na revolução cultural, o conjunto de idéias, crenças e valores sofre uma mudança radical sem que, pelo menos a curto prazo, as estruturas políticas se ressintam: o judaísmo, com sua idéia do Deus único, foi um dos primeiros casos de revolução cultural de origem religiosa. O Renascimento, nos séculos XV e XVI, caracterizou-se como um processo evolutivo na concepção cultural e espiritual do mundo durante o qual os centros de gravidade se transferiram da Terra para universos infinitos, na expressão do italiano Giordano Bruno, e do Deus invisível ao homem.
A revoluções científicas se definem como aquelas etapas de progresso nas quais um antigo paradigma científico, universalmente reconhecido por algum ramo da ciência é substituído, na totalidade ou em parte, por outro novo e incompatível: a revolução copernicana do século XVI substituiu o paradigma astronômico ptolomaico (a Terra como centro do mundo) por outro inconciliável com ele (o Sol como centro) e a revolução newtoniana do século XVIII, transformou radicalmente o sistema físico.
As revoluções tecnológicas se caracterizam pelo impacto imediato que causam no nível de vida das comunidades que as experimentam e na evolução da humanidade. A primeira revolução tecnológica foi a neolítica (entre os anos 10000 e 2500 a.C., no sul da Ásia e no Mediterrâneo europeu), durante a qual o homem praticou pela primeira vez a agricultura e a criação de animais domésticos. A segunda grande revolução tecnológica foi a urbana, iniciada em 5500 a.C. na Mesopotâmia, Egito e no vale do Indo, onde ocorreram o florescimento de várias profissões e classes e o surgimento da geometria e da contabilidade. A terceira grande revolução teria que esperar até o século XVI da era cristã, com a época dos grandes descobrimentos, iniciada por portugueses e espanhóis e que coincidiu, no tempo, com a revolução cultural do Renascimento. A quarta grande revolução foi a industrial, iniciada no século XVIII no Reino Unido e no século XIX nas demais regiões da Europa e nos Estados Unidos e Japão. Uma quinta grande revolução tecnológica teve início no meado do século XX, com o desenvolvimento da informática e da microeletrônica.
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