O mundo urbano do futuro

O crescimento das cidades

A distribuição humana em aglomerados urbanos jamais obedeceu a padrões precisos. Historicamente, as pessoas se aglomeraram em torno de locais que apresentavam facilidades, como por exemplo vales férteis junto a rios, capazes de favorecer a agricultura, ou portos naturais, favoráveis à pesca e ao comércio. Para compreender as causas da localização das cidades, bem como seu crescimento ou declínio, é preciso bom conhecimento da história política, econômica e social de uma determinada região – não apenas da cidade, mas de toda a área onde ela se localiza e de todo o sistema de assentamentos humanos que interage com a cidade.
A estrutura urbana de um país é criada a partir de uma série de fatores, que incluem história, topografia, recursos naturais e clima. Mas os fatores econômicos são provavelmente os mais importantes para a compreensão das causas da localização, do tamanho e das taxas de crescimento dos aglomerados urbanos.
Nos estágios iniciais do desenvolvimento, quando um país é predominantemente rural e tem baixas taxas de urbanização, é economicamente mais eficiente concentrar os investimentos em infra-estrutura e na indústria em um determinado ponto de concentração populacional. Assim sendo, é forte a tendência de crescimento de uma única cidade, com a expansão de atividades comerciais, industriais, financeiras e a criação de redes de transporte e comunicação.
A geração de empregos nesses aglomerados urbanos provoca em seguida a migração das populações rurais em direção à cidade. E mesmo depois que o mercado de trabalho está saturado, essa migração continua. Assim, os migrantes, geralmente mão-de-obra não especializada, têm poucas chances na cidade, onde se abrigam na economia informal ou no subemprego.
O volume da migração campo-cidade depende da situação das áreas rurais. A modernização e o desenvolvimento da agricultura podem ocorrer, mas, ainda assim, a mecanização das colheitas pode deixar mão-de-obra ociosa e acabar contribuindo para novas migrações rumo à cidade.

Os fatos e os números

A Organização das Nações Unidas (ONU) calcula que, em meados da década de 1990, 43% (2,3 bilhões de pessoas) da população mundial vivia em áreas urbanas. Com as cidades crescendo com uma rapidez duas vezes e meia maior do que as áreas rurais, os níveis de urbanização deverão ultrapassar os 50% já no ano 2005.
Mais do que isso, a ONU calcula que, em 2025, mais de três quintos da humanidade estarão vivendo em áreas urbanas. A população das cidades naquele ano será de aproximadamente 5,2 bilhões de pessoas, 77% das quais estarão vivendo em países do Terceiro Mundo.
Há apenas vinte anos, mais da metade da população urbana mundial vivia em países desenvolvidos. A situação mudou a partir de 1975, em grande parte devido à explosão populacional nos países em desenvolvimento e também graças à forte migração do campo para as cidades. Em 1990, a grande maioria da população urbana mundial – 61% – já vivia em países do Terceiro Mundo. Em 2025, os países em desenvolvimento deverão ter uma população urbana quatro vezes maior do que a dos países ricos.

América Latina e África

Em 1990, 72% da população da América Latina, na época de 441 milhões, já viviam em cidades. Em 2005, essa região será a segunda do mundo em densidade urbana (em primeiro lugar estará a Ásia). Vinte anos depois, em 2025, porém, a América Latina – mesmo apresentando uma percentagem de 84% de população urbana – terá menos habitantes em cidades, em números absolutos, do que a África.
Em contraste com a América Latina, a África, em 1990, tinha apenas um terço de sua população vivendo em cidades. As regiões mais urbanizadas eram o sul da África (46%) e também o norte do continente (44%). As partes ocidental e central do continente tinham respectivamente 33 e 32% de população urbana. Na parte oriental, a percentagem era de 19%. Contudo, no ano 2025, as percentagens terão saltado para 41% na parte oriental e 66% no sul.
De fato, em números absolutos, a população urbana da África já cresceu de 83 milhões de pessoas em 1970 para 206 milhões em 1990. As projeções para 2005 apontam para quatrocentos milhões, com a possibilidade de chegar a 857 milhões em 2025. A cidade de Lagos, na Nigéria, por exemplo, já no ano 2000 passará a ser a primeira cidade africana a integrar a lista das dez maiores do mundo.

Ásia e Europa

Em 1970, havia na Ásia (excluindo-se o Japão) 408 milhões de pessoas residentes em zonas urbanas. Esse número já tinha mais do que dobrado em 1990, passando para 879 milhões, devendo chegar à impressionante cifra de 2,5 bilhões em 2025. Em 1990, a Ásia abrigava quatro das dez maiores cidades do mundo: Tóquio (Japão), Xangai (China), Bombaim (Índia) e Seul (Coréia do Sul). As projeções mostram que elas serão cinco no ano 2000 e seis em 2010, quando Pequim (China), Jacarta (Indonésia) e Daca (Bangladesh) entrarem na lista.
Nos países desenvolvidos, são altos os índices de urbanização. A região compreendida pela Austrália e pela Nova Zelândia, bem como o norte da Europa e também a Europa ocidental, apresentam taxas de urbanização de 80% ou mais. A Europa do leste e do sul, assim como o conjunto das repúblicas que integraram a extinta União Soviética, são menos urbanizadas. O sul europeu apresenta taxas de 66%; o leste, de 63% e a ex-União Soviética, também de 66%.
Nenhuma cidade da Europa atingiu até hoje a cifra de dez milhões de habitantes. E, pelas projeções até 2010, não há expectativa de que isso venha a ocorrer.
Ao longo das duas últimas décadas, foi identificado um novo padrão migratório nos países desenvolvidos: nas grandes metrópoles, houve uma desaceleração do crescimento, com grande número de pessoas deixando as grandes cidades para morar em localidades menores ou mesmo em áreas rurais. Esse fenômeno, observado primeiramente nos Estados Unidos em meados da década de 1970 e depois no Canadá, acentuou-se ao longo dos anos 1980 entre os países desenvolvidos, especialmente na Europa, na Austrália, na Nova Zelândia e no Japão. Por exemplo, entre 1970 e 1975, a taxa de crescimento urbano dos Estados Unidos foi de apenas 0,1%. Entre 1975 e 1980, houve um pequeno aumento nesse índice. Como resultado, a taxa de ocupação urbana, entre 1975 e 1980, tanto nos Estados Unidos como no Canadá, permaneceu virtualmente estável, ficando nos mesmos níveis dos anos 1970 (74% nos EUA e 76% no Canadá).

As megacidades

Tóquio continua sendo o maior aglomerado urbano do mundo. Tem sido assim desde 1970 e, pelas projeções, acredita-se que continuará sendo até pelo menos o ano de 2010. Nova York caiu de primeiro lugar em 1960 para segundo em 1970 e terceiro em 1990, devendo cair ainda mais nas próximas décadas.
Além de Tóquio e Nova York, as dez maiores cidades do mundo eram, em 1990: Xangai, Bombaim e Seul, na Ásia; São Paulo, Cidade do México, Buenos Aires e Rio de Janeiro, na América Latina; e Los Angeles, na América do Norte. A população dessas cidades variava de 10,9 milhões, no caso do Rio de Janeiro, a 25 milhões de habitantes, no caso de Tóquio.
Pequim, Lagos e Jacarta deverão entrar para a lista das dez megacidades até o ano 2000, tomando o lugar de Buenos Aires, Seul e Rio de Janeiro. Daca, por sua vez, deverá entrar na lista em 2010, substituindo Los Angeles. Em 2010, apenas duas cidades de países desenvolvidos permanecerão na lista das dez maiores do mundo: Tóquio e Nova York. E, numa lista das vinte maiores, apenas mais uma cidade de país desenvolvido entraria: Los Angeles. Em outras palavras, apenas três entre as vinte megacidades do ano 2010 estarão localizadas em países ricos.
Acredita-se que, em 2010, 26 cidades terão dez milhões de habitantes ou mais, 21 delas localizadas em países em desenvolvimento. Destas, quatorze estarão na Ásia, cinco na América Latina e duas na África.
Por outro lado, as projeções antecipam que, em 2010, haverá 33 cidades com população entre cinco e dez milhões de habitantes. Em 1970, elas eram somente dezoito.

Habitat II. Rio de Janeiro, ONU, 1996.

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