Nise da Silveira e a psiquiatria brasileira

Élvia Bezerra

Encontra-se em Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos, trecho em que o autor narra seu encontro com uma das ocupantes da Sala 4, cela das presas políticas no presídio da rua Frei Caneca, no Rio de Janeiro. O encontro ocorreu em março de 1936:

"Junto, à direita, além de uma grade larga, distingui afinal uma senhora pálida e magra, de olhos fixos, arregalados. O rosto moço revelava fadiga, aos cabelos negros misturavam-se alguns fios grisalhos. Referiu-se a Maceió, apresentou-se:

-- Nise da Silveira.

Senti foi surpresa, lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-a culta e boa, Raquel de Queirós me afirmava a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se de tomar espaço. Nunca me havia aparecido criatura mais simpática."

Como se vê, escolhi Graciliano Ramos para introduzir no sabadoyle* a personalidade que se homenageia hoje: Nise da Silveira, a "pessoinha tímida" que, aqui no Brasil, antecipou uma revolução na psiquiatria mundial - liderada na Inglaterra por David Cooper e Ronald Laing e, na Itália, por Franco Basaglia - que tinha o objetivo de pôr abaixo a estrutura hospitalar de uma psiquiatria carcerária cruel, e, em troca, propiciar ao doente mental a liberdade de expressão. Não da expressão verbal. Essa, a Doutora Nise cedo percebeu inviável para os esquizofrênicos, mas da expressão livre do desenho, da pintura, da escultura.
Quando, em 1958, partiu para Zurique, levou, ela mesma, a produção de seus "clientes", como prefere chamar os esquizofrênicos, a fim de apresentá-la no II Congresso Nacional de Psiquiatria. Naquela ocasião, ouviu atenta as observações do psicólogo suíço C. G. Jung sobre a mostra brasileira. Três anos depois, ela visitaria os serviços de psiquiatria na Alemanha, durante intervalo da análise que fazia com a doutora Marie Louse von Franz, discípula maior de Jung. Ao fim da temporada européia, Nise da Silveira voltou ao Brasil segura de que estava no caminho certo, e concluía que as imagens produzidas por esquizofrênicos tinham dupla função: primeiramente representavam uma via de acesso à psique cindida; davam ao terapeuta oportunidade de vislumbrar o mundo interno do cliente. Em seguida, constatou que, uma vez expressas, essas imagens eram despotencializadas de sua função desintegradora. Em sua obra principal, publicada em 1981 sob o título de Imagens do inconsciente, afirma: "o trabalho no ateliê revela que a pintura não só proporciona esclarecimentos para compreensão do processo psicótico, mas constitui igualmente verdadeiro agente terapêutico."
Desde então, a Doutora, como é conhecida pelos que a cercam, dedica-se incansavelmente ao estudo da imagem. A certeza de estar no rumo certo, porém, não lhe assegurou uma luta linear. Muito pelo contrário. Sofreu permanentes ataques dos que não viam sentido nos rabiscos desconjuntados de doentes mentais, ou dos que atribuíam a ela interesse em descobrir artistas.
Seu trabalho no Brasil não tem obtido o reconhecimento que merece. É só ver, salvo raras exceções, as teses de mestrado produzidas nas universidades, ou as matérias de jornais. Fala-se com deslumbramento da revolução de Basaglia na Itália, feita na década de 1970. Ora, em 1946, Nise da Silveira criou o Serviço de Terapêutica Ocupacional no Hospital Pedro II, embrião do Museu de Imagens do Inconsciente, hoje mundialmente reconhecido. E, em 1958, ela já fundava a Casa das Palmeiras, que funciona em regime de semi-internato, com o mesmo objetivo defendido pelo psiquiatra italiano, ou seja, tratar pacientes psiquiátricos fora dos manicômios. Reconheçamos, portanto: Nise da Silveira, brasileiríssima, das Alagoas, antecipou-se, pelo menos duas décadas, a Franco Basaglia. Nós é que estagnamos no olhar preconceituoso, mas, enquanto esperamos que gerações futuras saibam honrá-la mais do que nós, continua valendo o alerta que fez o poeta Manuel Bandeira em certa ocasião: "Somos assim: conhecemos e celebramos autores europeus de terceira e quarta ordem, relegamos ao esquecimento os gênios do nosso continente."
Como gênio, Nise da Silveira tem as contradições próprias de uma personalidade especial: é realmente doce, como ainda observou Graciliano, mas que não lhe venham com teorias para esconder o desrespeito e a insensibilidade em relação aos clientes. Reage violentamente e desmascara, tanto a prática psiquiátrica obtusa e, muitas vezes, ainda desumana, quanto a terapêutica à base do excesso de medicamentos, que serve antes aos interesses econômicos da indústria farmacêutica. Aos jovens que a procuram em busca de orientação, responde firme:

Rasguem os manuais de psiquiatria; leiam Machado de Assis. E adverte:
Para navegar contra a corrente são necessáriascondições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão.

Nessas palavras da Doutora, eu diria, a grande lição que aprendi quando dela me aproximei, em 1988, ano em que comecei a atuar como colaboradora, fazendo revisão de seus brilhantes textos. De colaboradora passei a amiga e, nessa condição, ganhei de presente, na Páscoa do ano seguinte, o primeiro livro que li de Gaston Bachelard: La poetique de l'espace. E foram tantos os outros autores a quem ela me apresentou! Escolhas feitas com base na sua fina sensibilidade e inteligência.
A palavra que melhor a define é "co-ra-gem". Mas acrescento: compaixão. A imensa compaixão pelo mais fraco: os esquizofrênicos, os bichos, os desvalidos.
Estudiosa de mitologia grega, leitora devotada da obra de Spinoza, culta, Nise da Silveira mantém-se livre no seu estilo de vida despojado e na postura intelectual verdadeira, sem pose.
Pela luta que desenvolve até hoje, Nise da Silveira tornou-se uma "figura épica", na expressão de Wilson Coutinho. Jovem e dona do mesmo charme que Di Cavalcanti transpôs para a tela quando lhe pintou o retrato, ela, misteriosamente, faz agora noventa anos. Que Deus a abençoe!

In: Espiral: Revista de Literatura – nº 2. Fortaleza, Fundação Waldemar Alcântara, 1996, pp.111-113.
Elvia Bezerra é colaboradora na Encyclopaedia Britannica do Brasil. É autora de A trinca do Curvelo. Rio de Janeiro, Topooks, 1995.

* Texto apresentado no sabadoyle realizado em 29 de abril de 1995. Sabadoyle é o salão literário que funciona há trinta anos na casa do bibliófilo Plínio Doyle, no Rio de Janeiro. As reuniões, que se realizam regularmente aos sábados, tiveram início com o poeta Carlos Drummond de Andrade. O neologismo foi criado pelo poeta Raul Bopp.

VOLTAR

Hosted by www.Geocities.ws

1