Olga Savary: a poética da natureza e do silêncio

Margaret Anne Clarke

Olga Savary nasceu em Belém, no Pará, filha única de pai russo e mãe brasileira. Ainda adolescente, fez a primeira poesia em 1949, e a partir de então aprimorou uma longa aprendizagem como poetisa. Publicou vários poemas entre 1951 1955 em jornais e revistas do Rio, Belém e Belo Horizonte; voltou a publicar em 1959, e desde então sua fama e reputação cresceram e situam entre uma das poetisas mais conhecidas e louvadas entre os poetas contemporâneos do Brasil. Recebeu muitas homenagens, em que se incluem 21 prêmios nacionais da literatura, e foi escolhida, em 1975, "A Mulher do Ano em Literatura" pelo jornal O Globo e "A mulher do Ano 1996", pela Secretaria de Cultura de São Paulo. O foco deste estudo, porém, será a estréia da escritora em livro, Espelho provisório (1970), que reúne 88 poemas publicados entre 1951 e 1970. Nessa obra, pode-se ver o desenvolvimento do estilo poético próprio à autora e os temas–chave que recorrem ao longo de sua obra.
Em Espelho provisório podemos ver a dificuldade intrínseca à própria expressão dessa poesia hermética, longamente trabalhada, que se compõe de um conjunto de imagens puras, exprimindo sensações profundas, intensas e sutis. Os poemas vêm de certa época da poesia brasileira em que o lirismo de uma expressão pura e íntima eliminava tudo que fosse artificial, secundário ou acessório.
Os poemas de Espelho, antes de tudo, são uma meditação acerca das verdadeiras origens da poesia, e daí, uma exploração da essência original da palavra. Savary mostra um esforço constante para atingir o sentido puro da palavra, despojado de todo ornamento ou da expressão prolixa.
Os poemas dessa primeira fase da poesia de Savary tratam, antes de tudo, da comunhão profunda com a natureza durante uma infância solitária, temática mais profunda do livro e que a autora retomará em sua maturidade. A introspeção, juntamente com a comunhão e a identificação total com o mundo natural, são dois elementos ligados em simbiose perfeita. Essa simbiose pode ser vista em "Diurno", um dos primeiros poemas do livro, no qual se resume a essência do pensamento poético de Savary:

Só – quero estar só no bosque solitário.
Onde só ouça voz do silêncio.
Vagamente a sugerir seu nome
Quero ao vento soltar meus cabelos
descalçar essas sandálias de água
E confundir os pés em areia e seiva.
Quero deixar meu manto sobre a terra
(meu vago manto de vagas e espumas)
Quero deixar a túnica que tarda
correr essencialmente livre
templo selvagem onde o silêncio fala.

Só. Tão longe estás – e estás tão perto.
Nua e descalça, procuro-te no vento.
Misturo riso às aves e a seu canto
agitando na corrida o mistério.
Dos desenhos que dormem na água
distraído.

Só? Não estou mais sozinha:
a voz de tudo desordena tua ausência
Como de hábito estás em tudo
no ar, no som das coisas, nas cores
integrado irremediavelmente em todo
Este verão que nos cerca.

Não estás aqui mas no mesmo tempo estás:
es fonte que sonha no flanco da montanha
Visageado de vozes a planura
És folha machucada craquilante na poeira,
fruto exato, ramaria bruta,
mudando em dia de todos os noturnos
Vestígios do medo.
És água sem princípio ou fim, seguindo
[distraída,
a linha do horizonte que ergue o raio
e faz ruir as tempestades.

Tu és a noite toda envolta num catochão
de estrelas altas
- E a vida arde no ventre alerta de tua carne.

Vem que te espero na solidão em festa.
Tu serás meu num tempo de floresta
e seremos como água cega avançando
sem memória.

Só. Quero estar só no bosque solitário
Onde só ouça a voz do silêncio
a sugerir teu nome vagamente
Só. Somente só tenho a certeza.
("Diurno", pp.21-22)

A palavra poética

Savary evidentemente vê as palavras, e portanto a poesia, como um ente orgânico. Mais do que isso, as palavras são entidades com natureza e imortalidade próprias. São algum princípio da vida em si, e vêm da mesma fonte dos poderes misteriosos que impulsionam a natureza. Assim, têm de tornar uma parte da experiência própria da poetisa. Mas isso não pode ser feito por meio do emprego do discurso da experiência comum e cotidiana, a fala do dia-a-dia. Segundo Savary, a linguagem atual não cumpre sua tarefa de significação: a conexão vital entre o significante e o significado é perdida. Isso significa que a linguagem contemporânea não é capaz de ligar a realidade, a consciência do ser humano e a esfera transcendental:

Perdem-se, num longo sono de espera
olhos cansados de mil anos perdem-se.

As palavras circulam pela praça, vêm
nos jornais, nos telegramas, na memória
mais perto
O silêncio empoeirou-se à toda volta

As palavras esperadas, onde?
As palavras não existem.
O que existe é só a espera delas.
("A carta" p.23)

Em vários poemas do livro, Savary refere-se à alienação profunda do ser humano, que, tendo perdido a ligação orgânica com o mundo e com o sublime, não é capaz de superar a separação e a contingência, nem transcender o seu estado mortal:

...Em outro lugar
Cisma outra criança
Triste é não poder
ter um outro vôo
que não o poético
da imaginação
para a consolar

E assim ficamos
entre o querer
Estendendo as mãos
E deixando-as
cair.
("As mãos estendidas" p.68)

É por causa dessa alienação que Savary, confrontada com a ruptura entre o signo e a realidade, e com a natureza estéril, arbitrária e inadequada da linguagem, abandona a representação mimética da realidade e volta-se para um espaço fora do pensamento consciente e do balbucio da expressão comum:

Quero escrever um poema irritado.
Quero vingar meu sono dividido
(busco palavras que interroguem essa alquimia
do poema, que vire a noite em fogo vário
E a lua em pegada escondida atrás do muro
- vagaroso desmoronar de extinto vôo). Quero um poema ainda não pensado
que inquieta as marés de silêncio da palavra
ainda não escrita nem pronunciada,
que vergue o ferruginoso canto do oceano
e reviva a ruína que são as poças d'água
Quero um poema para vingar minha insônia.
("Insônia" p.20)

Assim, os poemas de Olga Savary procuram recuperar a união primordial da palavra, perdida sob as camadas da história humana, com todos os fenômenos do mundo, restabelecendo a conexão orgânica e a realidade fluida e mutável da natureza, que se metamorfoseia constantemente.
Portanto, a linguagem poética de Savary recusa expressão seqüencial e segmentada, que é apenas divisão e separação da linguagem no tempo e no espaço, e retorna a uma expressão poética não-seqüencial, não-linear, multiforme, em estado de metamorfose contínua.
Do mesmo modo, o livro, dividido em duas partes, forma uma seqüência harmoniosa. Os poemas são ligados entre si pela recorrência de certas imagens e motivos – a floresta, o mar, o silêncio, o espelho.
Isso faz com que percam seu status como entidades individuais e levem o leitor, por um lado, a se concentrar mais no ritmo e no fluxo do livro como um todo, e, por outro lado, nas imagens salientes que se tecem através de todo o texto.
Podemos discernir também, em "Diurno", e em vários momentos nos outros poemas de Espelho provisório, dois movimentos fundamentais, ao mesmo tempo opostos e concomitantes: um movimento mais íntimo - a busca da poetisa de uma identidade autêntica, e as operações verdadeiras da memória; o outro dirige-se para um exterior transcendental, que corresponde às alegrias da imaginação e ao êxtase espiritual, que surge da plena identificação e da fusão da poetisa com toda a natureza e o cosmos. Este movimento duplo pode ser visto no poema "Noturno".

E como o óleo
Sobre a desconsolada cabeça
que não mais o suportasse
quisesse a solidão
que te decifra
mãos em vôo além
da janela aberta
foram beber no ar
teu sortilégio, retrato
da lua e seu inventor.
( "Noturno" p.39)

A intimidade com o eu interior da poetisa e o verdadeiro autoconhecimento são o fim do primeiro movimento: a busca interior. O caminho misterioso para a meditação corresponde a um lirismo noturno e recuperação da memória primordial do ser humano. Mas esse movimento para o interior também significa uma expansão, uma viagem para o que está além. A alma da poetisa se expande para além do tempo e da distância. A busca das profundezas da consciência interior da autora é também uma busca da liberdade espiritual e da redenção, que se dirige para o transcendental. Mas um impulso contrário leva a poetisa a um centro imóvel e pacífico, que dá outra forma de liberdade: uma libertação do mundo causal, de que é exemplo o poema "Dentro dos olhos fechados":

Eu disse da espera sem palavras
Que precisado é senão memória
Se num silêncio assim virá a fonte
esperada e o desejo será tão alto
Como o outro caminho do jardim
que se procura?
Acontecerá quando o vento unir
nossos ombros e tudo que não foi
será agora.
Manhãs abrirão e murcharão como
pássaros de ontem dentro dos olhos
fechados.

E o tempo dormirá em nossas mãos.
("Dentro dos olhos fechados" p.61)

O padrão fundamental dos poemas desse livro, então, é o de um desdobramento em círculos concêntricos, ou, como no poema "Diurno", uma convergência simultânea, desde pontos de partida diversos para um âmago misterioso, que é ao mesmo tempo difuso em todos os fenômenos naturais, ausente e presente, fugaz e concreto, quase sempre escondido: um enigma impenetrável. E é nesse centro pacífico, nesse ponto imóvel que se encontra o segredo escondido, o tesouro inefável, o Numen ou o Verbo, ou seja, a poesia mesma. E esse Verbo é ligado aos vestígios da memória do estado primordial, ou première nature, do ser humano antes da Queda. Os poemas, portanto, são uma lembrança desse estado primordial e, também, uma prefiguração da eternidade:

E embora eu não quisesse
essa vontade estranha me anulou,
me fez somente desejo de sair
contigo pelo ar (na distância
uma cidade de pedra nos chamava)
te castigar de toda memória
fugir com toda memória que trouxesses
E nela te guardar como coisa secreta
e nunca revelada
("Cantilena em setembro" p.64.)

O verbo e a natureza

O movimento circular de poemas como "Diurno", por exemplo, que abre cada estrofe com oximoros como "Não estás aqui - mas ao mesmo tempo estás", nos dá a impressão de um movimento duplo que é, como foi dito, ao mesmo tempo uma volta para uma origem primordial. Essa origem primordial encontra-se ainda no ambiente natural. Os poemas de Olga Savary giram em torno de algumas imagens centrais de floresta, flores, bosque, o mar, o vento, os espaços lembrados ou vislumbrados. Os vestígios da natureza – a folha machucada, a ramaria bruta – são repositórios das essências escondidas e segredos: seus tesouros lembram a poetisa das origens e dos primórdios do mundo e da vida, e, por isso, são um meio de acesso ao infinito e à imortalidade. A natureza é um mistério profundo. Quanto mais a poetisa contempla os seus processos, mais complexos eles se revelam. Aparece a força destrutiva e criadora da natureza, constantemente desintegrando-se, recompondo-se e redefinindo-se. Exemplo disso são os versos seguintes em "Diurno"

...estás em tudo
no ar, no som das coisas, nas cores
integrado irremediavelmente em todo
este verão que nos cerca

reveladores do que anteriormente ficava oculto, ou sugerido: a fé e a esperança da poetisa em que realmente exista uma harmonia profunda, uma relação já estabelecida (ou esquecida, que a autora quer recuperar) entre as transformações da sua alma e as mudanças misteriosas da natureza. Em "Diurno" podemos ver o processo da desmantelação da experiência comum, o afastamento da poetisa do mundo e a comunhão cada vez mais intensa com a natureza e o mistério que fica em seu âmago. Pouco a pouco vai ocorrendo uma transformação. A poetisa entrega-se cada vez mais a uma completa identificação com a natureza, que passa a ser agora o próprio centro e a origem do seu corpo e da sua consciência. Há somente uma fonte da poesia, uma inteligência. Por isso, a palavra humana e a palavra oculta na natureza têm de ser recuperadas e recompostas, de modo que a palavra surja do processo orgânico da natureza. Assim, a reunião da poetisa com o ambiente natural é um esforço para criar uma nova consciência capaz de superar e transcender as tensões entre o mundo natural, a experiência humana e o intermediário entre os dois: a linguagem.
Em vários poemas, pode-se ver um padrão de descida a uma fonte primordial, simbolizada na maioria das vezes pelo mar. Por exemplo:

– Uma noite
nas ondas vou me deitar
Descerei por sob os mares
– esquife dos próprios sonhos –
Viajarei oceanos
e areias submersas
o meu enterro marinho
suicidas, afogadas,
conchas, peixes e algas
mais cavalinhos do mar.

Uma lua rara, uma lua
verde, marinha, espia
a noiva recém-chegada
para uma apodrecida e selvagem
fantástica boda marinha.
("Cantiga meio mórbida" p.38)

O mar, aqui, é símbolo da dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele. É ao mesmo tempo a imagem da vida e da morte, fonte de correntes que podem ser mortais ou vivificadoras. Por isso, é o lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos. O mar também simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes e as realidades configuradas:

Procuro Pavlushka
no fundo do mar
(Pavlushka que seria pássaro
de reino encantado)
não houvesse levado
sem nunca ter tido
tão breve tão leve
a vida – que teve
sendo da mentira?
("Caixa de segredos" p.54)

O mar representa as bases silenciosas que ficam por baixo de todo o mundo e da vida. O indivíduo e sua palavra – a poetisa – mergulham nesse tempo primordial e são absorvidos nessa unidade. Através desse processo, a palavra poética recupera sua dimensão mítica e mágica perdida no mundo atual:

E saio das ondas
mais só do que nunca
(mais só de tristeza)
que agora presente
caminha comigo
o mágico.
("Caixa de segredos" p.55)

A poesia no silêncio

Dessa posição, é inevitável que Olga Savary proceda à conclusão de que, se a economia de palavra e a expressão simples e natural são mais eficazes do que o efusivo e o descuidado da fala comum, então o silêncio total seria mais significativo ainda. Sua convicção, que ela exprime repetidas vezes, é de que os fenômenos essenciais de que se compõem a experiência humana mais profunda e o universo ficam no reino do escondido e do silêncio. Portanto, é preciso repudiar todo artificialismo e toda chamada "civilização" tanto na vida quanto na arte. Daí a necessidade vital da solidão, do afastamento do dia-a-dia como condição vital para a criação da poesia, que deveria ser apenas o ponto culminante de uma longa meditação profunda e silenciosa com a essência da natureza. Justifica-se, assim, a crescente importância que Savary atribui ao indizível, que se converte em elemento essencial de sua poética, porque as palavras têm sua origem na mesma força primordial e misteriosa de que nasce o ser humano e todo o cosmos. Savary é consciente da impossibilidade de aprisionar ou fixar a poesia: as palavras se dissipam no indizível. Assim, sua linguagem poética se constrói muitas vezes de experiências enigmáticas, cadências misteriosas e imagens fugazes.
A complexidade da vida desafia os limites da comunicação ordinária. Então, os poemas freqüentemente terminam no silêncio, mas não num silêncio vazio. O silêncio, nesse contexto, não é um vácuo, nem expressão de uma simples falta; é um silêncio elétrico, cheio do sentido e energia, que contém dentro de si a eloqüência do sublime.
Quanto mais ela se aproxima do sublime, maior a intensidade de seus sentimentos, o que não lhe facilita penetrar na substância íntima. Assim, Savary detém-se simplesmente diante do poder misterioso que envolve toda a vida, como diz de maneira explícita no poema "A carta":

As palavras esperadas, onde?
As palavras não existem.
O que existe é só a espera delas.

Na estrada, a lua envelhecendo
E os olhos fitam à noite para ver
além da noite ruínas de um mistério
o silêncio.
("A carta" p.23)

Essa é a posição final da poetisa quanto à eficácia das palavras, e é realmente o tema-chave do livro. Diante do fato de que as coisas mais profundas e significativas ficam no reino do mistério e do silêncio, Olga Savary adota, finalmente, uma posição de reverência e de contemplação pura, como, por exemplo, no poema "Mito":

Há em seu silêncio exílio
de uma escultura
Seu olhar alado é caule
de sonhos esquecidos
E a voz, rigor de enigma
povoado à morte.

Bastou que o visse
para me transformar em templo
tornar-me idolatra.
("Mito" p.17)

SAVARY, Olga: Espelho Provisório: Poesia (Rio de Janeiro: José Olympio, 1970)

Margaret Anne Clarke é doutora em literatura brasileira e professora visitante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

VOLTAR

Hosted by www.Geocities.ws

1