Os escritores e o mar

Jean-Jacques Brochier

Esta é a mais antiga ligação da literatura, a dos escritores com o mar. Desde a Odisséia de Homero, até as Bodas de Albert Camus, passando pelos poetas românticos Victor Hugo ou Baudelaire, o mar sempre fascinou o homem, que projetou nele seus medos e suas esperanças.

Essa paixão remonta ao século IX, antes de Jesus Cristo, é claro, entre um poeta (ou talvez vários) chamado Homero e todo o mundo que se conhecia então, o do Mediterrâneo. A Odisséia passeia com nosso herói por uma Tróia destruída e uma improvável Ítaca, ao longo das margens ricas em alimentos, em torno das quais estão organizados os povos e as cidades da Grécia de Micenas, de Creta, e logo da Sicília, de todas as costas exploradas pelos fenícios e gregos. O primeiro romance é portanto um romance de aventuras marítimas e sentimentais, um romance fantástico povoado de cíclopes, sereias e fadas. Mas, geograficamente tão preciso quanto um erudito, o helenista Victor Bérard procurou, no século XIX, as ilhas e promontórios onde esperava reconhecer as paisagens de Homero.
Os gregos e depois os romanos eram povos costeiros, preferiam portanto voltar-se para a terra, desconfiando do mar malvado, guloso de corpos de pescadores e mercadores, isso quando não o odiavam. Na Idade Média, o mar não possuía melhor reputação, embora, de acordo com a lenda, o monge irlandês Saint Brandan, que partiu sobre as ondas dentro de um sarcófago de pedra milagroso, não tenha hesitado em enfrentá-lo para evangelizar a Irlanda e, por que não dizer, em primeiro lugar a América.

Oceano, espelho da alma humana

Logo os grandes impérios europeus sentem-se compelidos a atravessar a América. A Espanha e Portugal trazem de suas viagens além-mar ouro e especiarias, mas a literatura não acompanha esse movimento. Veneza, a leste, procura as rotas terrestres com as quais Marco Polo tecerá a lenda. Será necessário esperar pelos românticos, depois dos relatos de viagem, algumas vezes mais inventivos do que os romances dos exploradores dos séculos XVII e XVIII, para que o mar volte a ter posição de destaque na literatura. O poeta Du Bartas, trezentos anos antes de Victor Hugo, concebeu esta surpreendente imagem: "O oceano, extremo do medo". Hugo saberá ver nesse oceano, com o qual convive e que contempla fascinado, um infinito de profundeza onde o homem abriga seu medo, tudo o que, no mais secreto de sua alma, fervilha de monstruoso, apocalíptico, mas também tudo o que constitui a sua grandeza. O oceano atemoriza, mas também liberta.
Da ilha anglo-normanda de Guernesey, região de tempestades, do alto de seu quarto envidraçado, no último andar da Hauteville House, ele escreve: "Eu vivo numa esplêndida solidão, como que debruçado sobre uma rocha, com todas as grandes espumas das ondas e todas as grandes nuvens do céu sob minha janela. Moro nesse imenso sonho do oceano, tornando-me pouco a pouco um sonâmbulo do mar e, diante de todos esses prodigiosos espetáculos e todo esse enorme pensamento vivo onde me perco, acabo não sendo senão uma espécie de testemunha de Deus. Existe sempre em minha estrofe ou minha página um pouco da sombra da nuvem e da saliva do mar. Meu pensamento flutua e vai e vem, como que desatado por toda essa gigantesca oscilação do infinito." "O oceano será um dos temas essenciais desse grande afresco da luta entre o bem e o mal que é A lenda dos séculos, como de Deus. "O oceano de noite, betume e enxofre" que o anjo decaído jamais poderá atravessar.
Essa agitação interna, Giliatt encontrará em sua luta com o polvo gigante, que constitui a parte de bravura de Os trabalhadores do mar. Victor Hugo jamais economiza em simbolismo, no que ele chama de o "formidável", o que assusta. "A garra nada representa diante da ventosa. A garra, é o animal que faz penetrar em sua carne; a ventosa, é você mesmo que entra no animal. Seus músculos incham, suas fibras se retorcem, sua pele arrebenta sob uma pressão asquerosa, seu sangue jorra e mistura-se assustadoramente à linfa do molusco." Doutor Freud não precisa sair de seu jazigo; já compreendemos que o oceano é o inconsciente, e como o inconsciente, "ele fala" e diz monstruosidades.
Baudelaire possui uma visão do mar menos fantástica, atormentada, mais "humanística", se se pode assim dizer. "Homem livre, sempre amarás o mar! / O mar é teu espelho; tu contemplas tua alma / No desdobramento do infinito de sua lâmina / E teu espírito não é menos amargo que suas profundezas." A reconciliação do homem com a água é quase completa, de acordo com uma construção em correspondência, com o mundo em geral, para o autor de As flores do mal. O coração humano e a harmonia da natureza são semelhantes, o mar imenso e o infinito da imaginação humana são duas formas de uma mesma visão sincrética. Resta saber como a metafísica torturada e pessimista de Baudelaire pode aceitar uma solução inserida numa percepção quase teísta da condição humana. Entre Baudelaire, o diabo e Baudelaire, o anjo, talvez seja o mar que assegure, mais do que a transição, a serenidade.
Os escritores anglo-saxões possuem, talvez pela própria cultura de seu país, uma outra visão do oceano. O poeta britânico Coleridge e os escritores americanos Edgar Poe e Herman Melville centralizam suas obras mais no marinheiro do que no aterrador fenômeno natural, no náufrago mais do que na onda que precipita o navio nas profundezas. O pirata do romancista britânico Stevenson e seu tesouro são mais importantes do que o mar onde o ouro foi conquistado. O mar, assim como os campos, é a imensidão da liberdade, da conquista da expansão humana. Assim como para Victor Hugo o oceano era o território de Deus, para Coleridge ou Melville, ele é o campo infinitamente laborado do homem.

Uma terra infinita de conquista

Assim deverá ser, certamente com um poder literário bem menor, com os escritores bretões que, no início de nosso século, constróem uma espécie de epopéia marítima. Escritores que conheceram um grande sucesso, Roger Vercel ou Henri Queffelec, eles trazem o território do mar, se assim podemos dizer, de volta ao naturalismo, ao realismo. Personagem "vívido" do Recteur de l'Île de Sein (O reitor da ilha de Sein), cuja versão cinematográfica fez um sucesso fenomenal, herói estereotipado como o capitão Conan, marinheiros enganados antes de perecer no mar, salva-vidas de cargueiros naufragados, eles são os herdeiros naturais de Pierre Loti e de Mon frère Yves (Meu irmão Yves).
Com o século XX, constata-se brutalmente a degradação de um grande tema, ou antes sua readaptação, da grande epopéia do século XIX ao romance burguês da primeira metade do nosso, onde o marinheiro e o pescador são reduzidos às vicissitudes da condição humana, operários ou patrões de um mundo condicionado pela psicologia clássica ou a não menos clássica lei da vantagem.
Curiosamente é para o Mediterrâneo, um mar fechado, reduzido diante da infinidade do oceano, que se voltam os antigos piratas, os homens-peixe que deslizam na água fria e azul como maleáveis tubarões. O escritor e aventureiro Henry de Monfreid (1879-1974), em La Croisière du hashisch ou pilleurs d'épaves (O cruzeiro do haxixe ou pilhadores de destroços) faz-nos crer, apesar do lado um pouco fraco das narrativas, no renascimento de uma epopéia, pequena mas apaixonante. Quanto aos maravilhosos textos de Albert Camus, em Bodas eles souberam criar como nunca uma simbiose entre o homem e a água tão forte que chegaríamos a acreditar nos tritões e nas sereias, pura mitologia clássica na qual teríamos retornado com júbilo a nossas origens aquáticas.
Hoje, uma nova geração oferece-nos uma imagem regenerada do mar, que não é mais somente a dos cruzeiros. Guy de Maupassant havia, uma vez mais, aberto o caminho da magia. "O brilho metálico da água, anuviado subitamente, transforma-se numa tonalidade de ardósia. O céu é puro, sem nuvens. De repente, a nossa volta, sobre o mar tão límpido quanto uma placa de aço, deslizam, de um lugar para o outro, rápidos, apagados tão logo tenham surgido, estremecimentos quase imperceptíveis como se tivéssemos jogado ali mil pitadas de areia miúda."
Yann Queffelec, autor de As bodas bárbaras, ou o acadêmico Bertrand Poirot-Delpech, falam-nos de um mar que conhecem bem, que amam e que transformam, apenas o necessário, em mito, mas um mito no qual eles nos introduzem com uma alegria comunicativa, ou Jean-François Deniau que lança, com uma ponta de provocação, seu último livro, L'Atlantique est mon désert (O Atlântico é meu deserto), um deserto povoado de todos os sonhos, desafios e alegrias. Decididamente, "esse teto tranqüilo salpicado de velas" não tem pressa de deixar os homens, e os escritores, em paz.

In: Label France – Revista de informação do Ministério das Relações Exteriores. Brasília, nº 25, set. 1996, pp. 14-15.
Jean-Jacques Brochier é diretor de Magazine Littéraire.

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