Conceito junguiano de "arquétipo"
Nise da Silveira
Muita confusão tem sido feita em torno do conceito de arquétipo. Há ainda quem continue repetindo que Jung admite a existência de idéias
inatas e de imagens inatas. É falso. Incansavelmente ele repete que arquétipos são possibilidades herdadas para representar imagens
similares, são formas instintivas de imaginar. São matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma. Jung compara o
arquétipo ao sistema axial dos cristais que determina a estrutura cristalina na solução saturada sem possuir, contudo, existência própria.
Como se originariam os arquétipos?
a) Resultariam do depósito das impressões superpostas deixadas por certas vivências fundamentais, comuns a todos os humanos, repetidas
incontavelmente através de milênios. Vivências típicas, tais por exemplo, as emoções e fantasias suscitadas por fenômenos da natureza, pelas
experiências com a mãe, pelos encontros do homem com a mulher e da mulher com o homem, vivenciadas de situações difíceis como a travessia de
mares e de grandes rios, a transposição de montanhas, etc.
b) Seriam disposições inerentes à estrutura do sistema nervoso que conduziriam à produção de representações sempre análogas ou similares. Do
mesmo modo que existem pulsões herdadas a agir de modo sempre idêntico (instintos), existiriam tendências herdadas a construir
representações análogas ou semelhantes. Esta segunda hipótese ganha terreno nas obras mais recentes de Jung.
Seja qual for sua origem, o arquétipo funciona como um nódulo de concentração de energia psíquica. Quando esta energia, em estado potencial,
atualiza-se, toma forma, então teremos a imagem arquetípica. Não poderemos denominar esta imagem de arquétipo, pois o arquétipo é unicamente
uma virtualidade.
Nunca nos maravilhemos bastante se pensarmos neste prodigioso fenômeno que é a formação de imagens interiores. Como elas se configuram às
custas da energia psíquica, ninguém sabe. Também não se conhece o como das transformações energéticas das quedas d'água em luz, da luz em
calor. Mas a prova da transformação de energia psíquica em imagens nos é dada todas as noites nos nossos próprios sonhos, quando personagens
conhecidos ou estranhos surgem das profundezas para desempenhar comédias ou dramas em cenários mais ou menos fantásticos.
A noção de arquétipo, postulando a existência de uma base psíquica comum a todos os humanos, permite compreender por que em lugares e épocas
distantes aparecem temas idênticos nos contos de fadas, nos mitos, nos dogmas e ritos das religiões, nas artes, na filosofia, nas produções
do inconsciente de um modo geral – seja nos sonhos de pessoas normais, seja em delírios de loucos.
Vejamos um exemplo: o tema mítico do eterno retorno. Vamos encontrá-lo profundamente enraizado nas convicções ingênuas de sociedades
primitivas, seguras de que ocorrerá uma volta aos tempos das origens, era de abundância e de felicidade. Vestida em roupagens magníficas, a
mesma idéia está incorporada à cosmogonia hindu, com os seus quatro Yugas (períodos) que se desdobram lenta e incessantemente em ciclos
perenes, marcados nos seus movimentos de expansão e de declínio por acontecimentos mitológicos sempre idênticos. Ressurge a idéia com os
filósofos gregos pré–socráticos Anaximandro e Pitágoras. E Platão estava convicto de que as artes e a filosofia inúmeras vezes já se haviam
desenvolvido até atingirem seu apogeu para declinarem e extinguirem-se à espera do recomeço de novo ciclo. O tema do eterno retorno
reaparece na interpretação da história segundo Vico (século XVIII): a história de todas as nações segue um curso que repete sempre três
fases – a idade divina, a idade heróica e a idade humana. Seguem-se inevitáveis crises que conduzem cada nação a ruínas das quais reaparece
necessariamente novo ciclo das três idades.
Diante de Nietzche a visão do eterno retorno apresentou-se terrível. Ele a transportou à existência individual. Todas as percepções,
sentimentos, pensamentos, gestos de sua própria vida estariam inexoravelmente condenados a repetir-se sem fim. "Que aconteceria, escreveu
ele, se um demônio te dissesse um dia: esta vida, tal como a vives atualmente será necessário que a revivas ainda uma vez, e uma quantidade
inumerável de vezes. É preciso que cada dor e cada alegria, cada pensamento e cada suspiro voltem a ti, e tudo isso na mesma seqüência e na
mesma ordem e também essa aranha e esse raio de luar por entre as árvores, e também este instante e eu mesmo"... A idéia do eterno retorno
apoderou-se do esquizofrênico Júlio, cliente de um hospital psiquiátrico no Rio de Janeiro. Ele se imagina prisioneiro de uma cadeia de
fatos e de pensamentos que se reproduzem e se sucedem sem trégua, regidos pelo que ele chama "movimento de repetição".
Nietzche, apesar do horror que a visão do eterno retorno lhe infundiu, encontrou no seu gênio a força para elaborá-la intelectualmente,
enquanto Júlio ficou possuído pela mesma idéia, completamente desprovido da possibilidade de trabalhá-la com o pensamento consciente.
Fragmento de Jung: vida e obra. Rio de Janeiro, José Álvaro Editor, 1974, pp. 77-80.
Nise da Silveira é psiquiatra e autora de Imagens do inconsciente. Rio de Janeiro, Alhambra, 1981.