Drummond: o legado do poeta

Ricardo Vieira Lima

Em 1986, por ocasião das comemorações em torno do centenário do nascimento do poeta pernambucano Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade resolveu homenagear o amigo e autor de O ritmo dissoluto, publicando um curioso poema-colagem ("Mosaico de Manuel Bandeira". In: Bandeira a vida inteira. Edições Alumbramento/Livroarte Editora, Rio de Janeiro, 1986), no qual, entre outras revelações, afirmava: "O poeta compõe uma estrofe/como só ele sabe". Estes dois versos, no entanto, definem com perfeição o próprio Drummond.
Com efeito, se Machado de Assis foi o Bruxo do Cosme Velho, o poeta itabirano foi o Bruxo do Império. Quem explica o epíteto é o escritor e memorialista Antônio Carlos Villaça: "Drummond era um sujeito muito singular e engraçado. Era um moleque, no melhor sentido do termo, por detrás daqueles óculos sérios. Certa vez, me disse: 'Vim para o Rio em 1934. Morei na avenida Princesa Isabel, depois na rua Joaquim Nabuco e por fim na Conselheiro Lafayette." Quer dizer: mudei-me, mudei-me, mas nunca saí do Império'".
De fato, como um bruxo e, a exemplo do fundador e do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras – celebrado no belo poema "A um bruxo, com amor" –, Drummond possuía uma escrita misteriosamente precisa, elegante e refinada. A comparação com o autor de Dom Casmurro, portanto, possui fundamento. Logo após a morte do poeta, o amigo e escritor Oto Lara Resende – que viria a falecer cinco anos mais tarde, declarou: "Só Machado de Assis terá tido no Brasil passado uma presença tão intensa quanto foi, neste século, a de Carlos Drummond de Andrade".
Oto não exagerou: Drummond influenciou, praticamente, todo mundo que publicou poesia, a partir de 1930, ano de sua estréia nas letras. Outro amigo, o escritor, poeta bissexto e psicanalista Hélio Pelegrino, chegou a afirmar que não imaginaria sua própria existência sem o convívio quase que diário com os versos de Drummond.


Rei morto, rei posto

Todo esse entusiasmo, no entanto, parece coisa do passado. Exceção feita ao lançamento do CD Amor & poesia, no qual a atriz Scarlet Moon interpreta 45 poemas drummondianos extraídos de 22 livros do autor; um simpósio na Pontifícia Universidade Católica, do Rio de Janeiro, onde foi discutida a obra do poeta e, na Bahia, a publicação de uma obra de ensaios coletivos sobre o autor de A rosa do povo, pouco ou quase nada se tem feito para que os dez anos da morte de Drummond – falecido em 17 de agosto de 1987 – não passasse em branco.
"Rei morto, rei posto", ensina o provérbio. Resquício do período monárquico ou não, o fato é que somos um país iconoclasta por excelência. Temos a necessidade tola, cruel e imediatista de criar mitos para destruí-los num segundo momento e, caso escapem da degola, fatalmente os substituímos pela "bola da vez".
"A bola da vez", hoje, chama-se João Cabral de Melo Neto. Autor de uma obra única no curso da poesia brasileira no século XX, Cabral apresenta uma poesia objetiva, seca e descarnada, onde não há espaço para o lirismo. Com a morte de Drummond, foi elevado à categoria de "maior poeta brasileiro vivo", posição esta que certamente ocupará até sua morte.
Enganam-se nossos críticos, poetas e jornalistas, quando estabelecem tal hierarquia de valores. Não se deve excluir, e sim abarcar. No século XIX, a "coroa poética" pertenceu, sucessivamente, a Gonçalves Dias, Castro Alves e Olavo Bilac. No século XX, ficou com Bandeira, Drummond e, atualmente, está nas mãos de Cabral. Numa de suas últimas entrevistas, o gauche declarou: "Não sou poeta maior. Não há poetas maiores ou menores. Há poetas, e estes não são cavalos de corrida, para ficarem disputando entre si". Por outro lado, o próprio João Cabral (que também não concorda com a idéia de uma hierarquia poética) sempre fez questão de deixar claro que, se não tivesse descoberto a obra do poeta itabirano, jamais teria escrito um único verso.


A novela das obras completas
O professor universitário, crítico e poeta Gilberto Mendonça Teles – que organizou, para a Editora Nova Aguilar, a edição atualizada das obras completas de Drummond – é menos pessimista: "Não creio que Drummond tenha perdido prestígio. Sua obra – em prosa e em verso – é das mais originais da nossa língua. Sua importância é enorme."... "Sei que Drummond jamais será esquecido", conclui.
Os fatos, contudo, não apontam para uma previsão tão otimista. A edição organizada por Gilberto ainda não foi lançada. Motivo: a família do poeta não chegou a um consenso se deve incluir nas obras completas o livro Farewell, que foi lançado no ano passado e ganhou o Prêmio Jabuti este ano.
Há um impasse, ainda, quanto à inclusão ou não de alguns poemas escritos para Lígia Fernandes, que foi amante do poeta por mais de três décadas (de fato Drummond morreu segurando a mão da amada na unidade de terapia intensiva de uma clínica no bairro carioca de Botafogo, aos 84 anos, desolado pela trágica perda de sua única filha, a escritora Maria Julieta Drummond de Andrade, vitimada por um câncer generalizado, doze dias antes).
Desperdiçou-se, desse modo, a feliz oportunidade de homenagear Drummond com o lançamento de toda a sua obra nos dez anos de sua morte. É preciso impedir que um país que não preserva sua cultura, suas tradições e sua memória destine ao limbo provisório da história (até que um espírito atento apareça e faça o necessário resgate) a obra de um dos seus maiores poetas, que, num momento pessimista, mas perfeitamente plausível, escreveu: "De tudo quanto foi meu passo caprichoso/na vida, restará, pois o resto se esfuma,/uma pedra que havia em meio do caminho".

In: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 15/08/97.
Ricardo Vieira Lima é poeta e jornalista. Ganhou o prêmio da União Brasileira dos Escritores (UBE) por poemas inéditos – 1996 – com o livro As olheiras de Júlia.

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