Nas páginas da história: uma breve história do livro

Antônio Fernando Borges

Tantas vezes acusado de ultrapassado pelos avanços velozes das tecnologias de armazenamento e transmissão de dados, o livro resiste e mostra sua força neste final de milênio

Imagine o leitor um livro com um número infinito de páginas, arbitrariamente numeradas, nenhuma das quais seria a primeira ou a última, pois sempre muitas páginas se interporiam entre o miolo e a capa, como se brotassem sem cessar. O conteúdo, em caracteres estranhos, também não seria muito confiável, já que, neste objeto impossível, ninguém seria capaz de localizar outra vez uma mesma frase ou figura...
Quando a perenidade do livro era ainda um fator pouco questionado, Jorge Luis Borges imaginou esse objeto extravagante, no conto-título de seu Livro de areia. Para o escritor argentino, gestor de duas bibliotecas (a apócrifa Biblioteca de Babel, outra de suas "aberrações", e a real Biblioteca Nacional, de Buenos Aires), nada parecia representar melhor o horror da indefinição e instabilidade do mundo do que esse absurdo antilivro, negação daquilo que, ao longo dos séculos, o livro parece vir simbolizando: tradição, solidez, confiabilidade. A metáfora da areia pareceu sob medida a Borges, por unir os aspectos mais visíveis da vida contemporânea, que é ao mesmo tempo fluida, pulverizada e inumerável, como um conjunto infinito de grãos. Neste ponto, o antimarxista Borges parecia coincidir com as advertências de Karl Marx, que já no século XIX em seu Manifesto comunista definia a modernidade (para ele marcada pela industrialização e pela ascensão da burguesia) como a própria era da Incerteza: "Tudo que é sólido se desmancha no ar!".
Naqueles meados dos anos 70 (Livro de areia é de 1975), o mundo ainda trazia vivas as imagens dos jovens parisienses e chineses brandindo, no histórico maio de 68, o emblemático Livro vermelho de Mao, como uma arma carregada. E, embora o apocalíptico Marshall McLuhan já houvesse anunciado para um horizonte não muito distante a superação da Idade do verbal (o ocaso da "galáxia de Gutenberg"), a força mítica dos livros era ainda apregoada em filmes como Farhenheit 451 (1966), de François Truffaut, sobre uma sociedade futurista onde os livros são proibidos, como objetos perigosos. Poucos imaginariam que, antes mesmo que tal futuro chegasse, uma outra ameaça pairasse sobre esse objeto que se imaginava eterno, e dessa vez advinda de uma área insuspeitada: o avanço científico.
"Os livros, como objeto, vão acabar." A sentença, proferida em junho último pelo gerente de pesquisas da poderosa IBM, o brasileiro Jean-Paul Jacob, vem culminar uma série de conquistas tecnológicas que em menos de duas décadas transformou enormes computadores em utensílios domésticos, hoje quase rotineiros como rádios e liquidificadores. Na verdade, Jacob apenas oficializou um espectro que há tempos paira sobre um horizonte bem próximo: a certeza, tão cara a este nosso tempo de incertezas, de que tudo deve mesmo mudar, em velocidade crescente. Nada, portanto, teria o direito de reivindicar permanência. Nem mesmo os livros.
A pergunta se mostra então inevitável: teriam os livros perdido efetivamente sua utilidade no mundo atual? E, neste caso, eventos como a VIII Bienal do Livro no Rio de Janeiro, que se realiza este mês no Riocentro, funcionariam no máximo como santuários de uma espécie em extinção?
No princípio, era o Livro. Ao invadir o Egito em 48 a.C., Júlio César fez mais do que impor a presença maciça de seus exércitos: mandou destruir e incendiar a legendária biblioteca de Alexandria, que abrigava em nada menos do que meio milhão de papiros – os livros de então – todo o conhecimento humano acumulado até aquela época. César parecia saber a força que a palavra escrita tinha representado para a consolidação do império egípcio.
"No princípio, era o Verbo", garante-nos a Bíblia, marco fundante de toda a cultura ocidental, e cujo nome, de origem grega, significa justamente... livro. No outro extremo do arco da História, mesmo os que só lêem notícias nas telas da Internet puderam testemunhar há poucos meses os "estragos" que um pequeno livro recente causou ao governo do francês Jacques Chirac: nas últimas manifestações contra o desemprego em Paris e nas comemorações do Primeiro de Maio, o ensaio O horror econômico, de Viviane Forrester, foi erguido como bandeira pelas multidões, entre gritos de "Não ao horror econômico!". O livro, que há dez meses lidera a lista dos mais vendidos na França, denuncia justamente as conseqüências malévolas que uma economia informatizada e globalizada em excesso pode trazer para as populações de todo o planeta. Uma prova viva de que os empregos podem estar desaparecendo, mas a força dos livros, ao menos por enquanto, não.
Para o poeta e tradutor Ivo Barroso, o "livro não vai desaparecer nunca". Ele inclusive arrisca uma explicação para essa durabilidade: "Nenhum objeto poderá substituí-lo, porque ele não é apenas um objeto: é uma forma de pensar e de ser". De fato, foi sempre como algo mais do que "apenas um objeto" que uma série de livros marcou a cultura ocidental, ao longo dos séculos, como elementos catalisadores das vontades e aflições de povos e épocas. A própria Bíblia, reforçada a partir do século XV pela versão impressa de Johann Gutenberg (que escolheu "o Livro" para marcar a nova era da imprensa) foi decisiva para o sucesso do movimento protestante de Martinho Lutero. "O luteranismo foi, desde o princípio, um produto do livro impresso", escreveu Charles Dickens. E Victor Hugo: "Gutenberg é o precursor de Lutero".
No século XVIII, foi a vez de Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, responder não apenas por 16 edições alemãs em dois anos, mas também por inúmeros suicídios entre os jovens europeus mais sensíveis ao ethos romântico vigente. Algumas décadas depois, em 1848, Marx e Engels influenciavam com seu famoso Manifesto a frustrada revolução comunista desencadeada naquele mesmo ano na Alemanha. Nosso século, prenhe de novidades, também é rico nestes exemplos clássicos: além do já citado livro de Mao e do petardo de Forrester, são dignos de destaque casos como o de Versos satânicos (1989), de Salman Rushdie, que despertou a fúria do mundo islâmico e até hoje obriga seu autor a viver escondido, sob a ameaça da Fatwa, a sentença de morte dos muçulmanos.
Outras obras poderiam ser listadas (como O amante de Lady Chaterley, de D. H. Lawrence, proibida como imoral em 1928 e responsável por um enorme protesto de artistas e intelectuais em todo o mundo), mas serviriam tão-somente para reforçar a evidência de que o livro, ao menos para o Ocidente, constitui um "divisor de águas" – um verdadeiro ponto de referência. Falar dele é, em termos metafóricos e metonímicos, reportar-se às idéias nele contidas e até à própria matriz de nossa cultura, baseada na escrita alfabética – aquela que McLuhan atacou em suas obras polêmicas dos anos 60, acusando-a de reduzir a experiência dos cinco sentidos humanos ao império exclusivo da visão: "A assimilação e interiorização da tecnologia do alfabeto fonético transporta o homem para o mundo neutro do visual", escreveu ele em A Galáxia de Gutenberg. Mesmo assim, o ensaísta canadense não deixava de reconhecer, em seu advento, um salto histórico decisivo.
É no mínimo sintomático, portanto, que muitos estudiosos analisem o surgimento da informática e a popularização dos computadores como uma novidade só comparável à revolução neolítica, que viu surgir em poucos séculos a agricultura, a criação de animais, a cidade, o Estado... e a escrita. Da mesma forma, outra revolução importante para o Ocidente – a Francesa – nasceu do ventre do projeto iluminista, que baseava o essencial de seu paradigma na escrita, no conhecimento e em seu correlato mais evidente: a alfabetização. No famoso "Discurso Preliminar" da Encyclopédie, Diderot e d'Alembert pregavam justamente a esperança na difusão do pensamento científico e em sua missão de recuperação ética da humanidade. Graças à expansão dessas idéias, o índice de educação da população européia saltou de 10% em 1820 para cerca de 90% já nas primeiras décadas do século XX, mesmo mais recentemente, ainda pudemos perceber ecos desse ideal iluminista nas propostas políticas de liberação das populações do Terceiro Mundo pela via da alfabetização.
Seria o caso então de se recolocar a nossa questão central quanto ao futuro do livro. Dessa vez, não mais para especular se o computador (em particular os portáteis notebooks) iria superá-lo, mas para perguntar se tudo aquilo que o livro representa já tem um sucedâneo à altura.
Da pedra à areia. "Durante muito tempo, o papel ainda vai ser o suporte mais barato para o texto. E o mais portátil também", afirma a escritora e jornalista Cora Rónai, editora do Caderno de Informática de O Globo. De fato, o livro (assim como a revista e o jornal) ainda apresenta uma série de vantagens sobre suas contrapartidas digitais: "O livro é pequeno, leve, de alta resolução e barato, se comparado ao preço de um computador". Quem assim o define não é nenhum retrógrado apóstolo da "velha ordem", mas o engajadíssimo Bill Gates, famoso por suas habilidades na geração e armazenamento de dados e dólares. O que não o impede de vaticinar, como bom futurólogo: "Os constantes melhoramentos tecnológicos um dia nos darão um livro eletrônico, um e-book, leve e universal, que se aproximaria do livro de papel de hoje". Mas Gates não esconde que sabe perfeitamente que o que está em jogo é algo muito mais profundo: "Teremos de repensar não apenas o sentido da palavra documento, mas também os de autor, editor, escritor, sala de aula e livro".
No princípio, era a pedra. Sobre placas de granito e paredes de cavernas, o homem registrou por escrito suas primeiras impressões e pensamentos. Logo surgiriam outras variedades de suporte: ossos; papiros (no Egito); folhas de palmeira, madeira polida e folhas de seda (China e Coréia); placas de argila (Assíria); pergaminhos de pele de carneiro (Grécia). A invenção do papel pelos chineses e a imprensa de tipos móveis de Gutenberg consolidaram o primeiro grande salto para que o livro atingisse sua forma atual, aperfeiçoada passo a passo, com a introdução da imprensa a vapor, da linotipia, da composição eletrônica e do moderno design gráfico. Toda essa leveza e sofisticação conquistadas pelo objeto-livro trazem, no entanto, como herança simbólica a solidez original da pedra, que através do paradigma-livro é extensiva a toda a cultura ocidental. Ler um texto fixado sobre papel equivaleria a se reportar à idéia reconfortante de estabilidade duradoura.
Mesmo assim, é impossível negar que há algo de novo no ar, além dos livros dispostos em carreira. É impossível deixar de ver que, se durante algum tempo os avanços tecnológicos ajudaram a sofisticar e baratear o livro, nutrindo e multiplicando o ideal iluminista, não é menos verdade também que eles próprios acabaram gerando os atuais adversários da cultura livresca: a indústria cultural, para consumo das massas, e a falência da educação escolar. Hoje, os meios de comunicação ocupam parte do espaço destinado às instituições de ensino, nivelando por baixo telenovelas e Shakespeare, enquanto a informatização abre espaço para o questionamento sobre a suposta obsolência do livro.
Baseando-se no princípio, hoje amplamente aceito, de que nenhuma técnica pode ser considerada neutra, um pensador atual como Pierre Lévy, especialmente dedicado ao estudo das novas tecnologias da inteligência, arrisca-se a afirmar que o computador já se tornou, mais do que um simples instrumento científico, "uma nova forma transcendental de compreensão da realidade" – e aqui o autor emprega o adjetivo transcendental no sentido kantiano, ou seja, como o de um mecanismo mental prévio por meio do qual se assimilam as experiências e a percepção se organiza. Para estudiosos como Lévy, hoje a experiência pode ser estruturada de maneira inédita e original através da informática. Ao contrário do telefone e do telégrafo, que apenas agregaram mais velocidades e eficiência à transmissão de mensagens, a computação estaria acarretando transformações na própria ordem do pensamento. Mudanças técnicas, sem dúvida, mas sobretudo culturais e simbólicas.
O sociólogo americano Christopher Lasch também aponta uma mudança recente no eixo da sociedade, mas para ele se trata, acima de tudo, de um deslocamento de poder. Em sua última obra, A rebelião das elites, publicada meses antes de sua morte, em 1995, Lasch aponta como fator social mais importante dos últimos tempos a ascensão de uma nova classe dominante de burocratas e intelectuais ativistas, que velozmente estaria tomando o lugar da burguesia, no gerenciamento e controle mundial. A nova casta, garante o sociólogo, já não exerce o seu poder através da posse dos meios de produção, mas pelo domínio e manipulação das fontes de informação: mais do que a força de trabalho das massas, ela se propõe o controle de algo menos palpável, porém mais eficaz, que seria a mente humana e o conjunto dos valores introjetados pelas populações.
Vê-se que, num ponto, a maioria dos pensadores parece concordar: uma das marcas da sociedade pós-industrial seria justamente sua imaterialidade. Com a informação circulando a uma velocidade cada vez maior, os principais bens (melhor dizendo: os mais estratégicos) a serem comercializados já não são os produtos, mas idéias, serviços, valores. Jornais, revistas, cartas, arquivos e fichários que proliferaram no século XIX transmitiam a seus produtores e consumidores uma impressão de segurança típica das coisas sólidas, visíveis e palpáveis. Hoje, as informações atingem um volume ainda muito maior, mas se constituem principalmente de impulsos eletrônicos, gerados a partir de eletricidade e sinais codificados. A informatização intensiva da sociedade desmaterializa não apenas a produção, mas contagia o próprio espírito de época. Graças a isso, a desintegração já se tornou um horizonte mais próximo e, para os mais pessimistas, uma ameaça iminente.
O principal efeito dessas mudanças é que o antigo sentimento de permanência e solidez parece ter sido atingido em suas raízes. A dureza da pedra dos tempos primitivos se dissolve no "livro de areia" contemporâneo. Não apenas naquele concebido por Jorge Luis Borges, mas sobretudo no que aparece impresso nas telas cada vez mais requintadas dos computadores, máquinas que devem sua existência a pequenos chips feitos de materiais semicondutores como o silício. Literalmente: feitos de areia. A metáfora se completa: tudo que é sólido se desmancha na tela, quando ela sai do ar.
O velho medo do novo. Exageros à parte, deve-se por outro lado evitar o risco de sucumbir àquilo que a Associação Americana de Psicologia (APA) classifica como ciberfobia, um medo injustificado e extremo em relação ao computador. Trata-se da mais recente variante das eternas "neofobias" que acompanham o homem ao longo de sua história. "É o velho medo do novo", comenta Cora Rónai. "Curioso é que estes mesmos fóbicos lidam sem problemas com fornos microondas e sofisticadas aparelhagens de som, em que a informática já se encontra presente em alto grau." Para a jornalista, todo esse barulho se deve sobretudo às proporções inéditas das atuais mudanças tecnológicas. "Nem a invenção da imprensa teve tantas implicações."
Entre estas conseqüências, estaria, por exemplo, a grande liberdade concedida ao indivíduo, principalmente no acesso – efetivo, e não apenas virtual – a uma rede de informações e conhecimento da amplitude da Internet, onde quase não haveria limites ou censura. Quanto a isso, mesmo um intelectual conservador como o historiador das idéias francês Marc Fumaroli dá seu prognóstico surpreendente: "O futuro da biblioteca não está em máquinas gigantescas, mas na difusão da tela individual ligada a uma rede, que nos permitirá a obtenção de uma grande quantidade de dados em casa". Menos entusiasta, Ivo Barroso acha que estão em jogo valores de outra natureza. "Tudo isso é mais uma grande jogada de marketing, semelhante a todas as outras, no mundo dos negócios. Só que, desta vez, as cifras em questão são muito mais pesadas."
No jogo das cifras, entretanto, o "time" do livro ainda apresenta placares favoráveis. Segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros, só no ano passado foram lançados no Brasil 41.540 títulos, entre novidades e reedições, num total que ultrapassa os 380 milhões de exemplares e movimenta um volume de dinheiro superior a 1,8 bilhão de reais. A VIII Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que se realiza no Riocentro de 13 a 24 de agosto, reúne este ano mais de 500 expositores, numa área de 16.000 metros quadrados, e seus organizadores trabalham com uma estimativa de público de 1,2 milhão de pessoas. Mas o principal sinal de que a ascensão do computador não representa necessariamente a condenação do mercado de livros está no anúncio de que o faturamento da livraria virtual Amazon (com vendas pela Internet) deverá atingir este ano a casa dos 64 milhões de dólares– o equivalente às vendas de 16 megastores como a Barnes & Noble, por exemplo.
Outros indicadores, em contrapartida, dão conta de uma crise ou desordem no setor. Na insuspeita França, por exemplo: segundo recente declaração pública de Yves Berger, diretor literário da editora Grasset, nunca se publicaram tantos títulos no país, mas em troca nunca se vendeu tão pouco. "Em 37 anos de mercado editorial, jamais vi nada parecido", garante Berger. Dados como esses, no entanto, são antes indícios de oscilações econômicas do que de algum significativo reordenamento cultural.
Objeto de deleite ou símbolo cultural, o fato é que ninguém, em sã consciência, pode se arriscar a anunciar a morte do livro. Nem mesmo no sentido mais amplo, seria possível se falar de uma mudança já irreversível de paradigma, sob o risco de se incorrer num erro semelhante ao daqueles que vêm decretando, nos últimos tempos, uma série de "fins" – da História, do sujeito, da palavra etc. Nada impede, é claro, que o universo simbólico e mesmo físico que sustenta o livro acabe por desaparecer um dia – como, ao longo do tempo, aspectos culturais e mesmo impérios inteiros já caíram por terra. Até o momento, no entanto, tal tendência ainda não deu mostras de ser iminente ou inexorável. Muita areia, por certo, ainda deverá correr por modernos chips ou velhas ampulhetas, antes que a cultura ocidental vire definitivamente essa página.

In: Revista Veredas, do Centro Cultural Banco do Brasil, ano 2, nº.20, ago.97. pp.7-10, editada por Flávio Rozemblatt, Selulloid AG Comunicação e Propaganda Ltda., Rio de Janeiro.
Antônio Fernando Borges é jornalista e escritor, autor de Que fim levou Brodie. Rio de Janeiro, Record, 1997. Prêmio Nestlé de Literatura 1997, categoria contos/estreante.

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