Joaquim Cardozo: o centenário do esquecimento

Ricardo Vieira Lima

Há exatos 50 anos, o engenheiro calculista e – até então considerado – poeta bissexto pernambucano Joaquim Maria Moreira Cardozo lançava seu primeiro livro, Poemas (com prefácio do amigo Carlos Drummond de Andrade), e provava que Manuel Bandeira cometera um equívoco, ao decidir incluí-lo na sua Antologia de poetas bissextos, como bem observou mestre Antônio Houaiss em Seis poetas e um problema. De fato, Joaquim Cardozo escrevia muito, embora fosse arredio à letra de fôrma. Seus poemas passavam anos hibernando nas gavetas. Vinham a público somente quando o convívio com o próprio autor ameaçava tornar-se insuportável. Assim, de tempos em tempos, Cardozo publicava seus versos, e tal fato era sempre um acontecimento. Não é de se admirar, portanto, que um poema como "As alvarengas" tenha sido escrito 22 anos antes da sua publicação oficial em livro. Ao estrear com os seus Poemas, Cardozo já era um homem de meia-idade e um poeta formado, senhor absoluto do seu ofício. Com efeito, sua estréia encontra um único paralelo em nossas letras, neste século: Dante Milano, que, apesar de ter nascido em 1899, veio a publicar sua primeira obra somente em 1948.
Diga-se de passagem que as palavras "prodígio" e "precoce" jamais fizeram parte do vocabulário de Cardozo. Nascido em Zumbi, subúrbio do Recife, em 26 de agosto de 1897, o poeta teve infância difícil, sendo obrigado a abandonar seus estudos em duas ocasiões: a reboque de uma reforma escolar, ocorrida em 1915 e, três anos mais tarde, por ter sido convocado para o serviço militar (1918-19). Cumprido o período da caserna, Cardozo retoma os estudos e se forma em engenharia aos 33 anos. Trabalha, então, nas áreas de engenharia e arquitetura, em diversos órgãos estaduais. Contudo, em 1940, um desafeto seu é nomeado interventor do Estado, e o poeta é forçado a mudar de ares. Por sugestão dos amigos, decide estabelecer-se no Rio, onde vem a conhecer e trabalhar com o já renomado Oscar Niemeyer (posteriormente ainda o ajudaria na construção de Brasília).

Poesia telúrica e universal

Dividido entre a literatura e as ciências exatas, Cardozo inicialmente faz uma poesia de cunho regionalista, telúrico, expresso em diversos poemas de sua obra de estréia, como "Velhas ruas", "Olinda" ou "Cajueiros de setembro": "Cajueiros de setembro,/Cobertos de folhas cor-de-vinho,/Anunciadores simples dos estios/Que as dúvidas e as mágoas aliviam/Aqueles que como eu vivem sozinhos."
Solteirão convicto, o poeta buscava, cada vez mais, o isolamento e a reflexão. Esse lado misantrópico de sua personalidade manifestou-se desde muito cedo, ainda em suas primeiras produções poéticas, o que, de certa forma, o diferenciava dos demais regionalistas. Não obstante, Joaquim Cardozo nunca abriu mão do diálogo com a tradição – muito pelo contrário, e "Signo estrelado" é o melhor exemplo da adoção dessa postura como alavanca para uma verdadeira renovação da linguagem. Tome-se como exemplo a primeira estrofe do poema "As cismas do destino", do poeta paraibano Augusto dos Anjos: "Recife. Ponte Buarque de Macedo./Eu, indo em direção à casa do Agra,/Assombrado com a minha sombra magra,/Pensava no Destino, e tinha medo!". Observe-se, agora, a também primeira estrofe de "Recife morto", poema que integra, ainda, o livro de estréia de Cardozo: "Recife. Pontes e canais./ (...)Torres da tradição, desvairadas, aflitas,/Apontam para o abismo negro-azul das estrelas./(...) Lajes carcomidas, decrépitas calçadas. /Falam baixo na pedra as vozes da alma antiga". Além de uma certa semelhança no aspecto formal, uma atmosfera soturna permeia os dois textos. Nada ocorre por acaso.
Contudo, há dois momentos de nítida ruptura nos Poemas: inquieto, Cardozo abandona a temática regionalista de Imagens do Nordeste para compor duas peças universais, definitivas: "Poesia em homenagem a Isidore Ducasse" e "Os anjos da paz". Escrito em Paris no ano de 1938, o primeiro é uma hommage ao poeta surrealista francês que se assinava conde de Lautréamont. O segundo é um sarcástico libelo contra as guerras, mas, principalmente, contra aqueles que as fomentam. Cardozo escreveu-o em 1947, e dedicou-o "aos mortos de Lídice e de Coventry/aos mortos de Hiroxima e Nagasaki". Utilizando-se do metro da redondilha maior, o poeta compôs um rigoroso poema dramático de fôlego, chegando mesmo a beirar o épico. Foi como que uma preparação (no que concerne ao ritmo, obviamente) para um poema que só seria escrito 23 anos depois: "Visão do último trem subindo ao céu". As peças finais de Poemas, portanto, seguem uma linha filosófico-formalista, conforme rezavam os próceres da escola literária que predominava na época: a neomodernista ou, simplesmente, os rapazes da Geração de 45. Nessa linha, destacam-se "O relógio", "Figuras do vento" e "O espelho".

A volta triunfal

Depois de um absoluto silêncio de 13 anos, Cardozo publica seu segundo e melhor livro, Signo estrelado. A obra surpreendeu a crítica e o público, e marcou por haver mesclado, na medida exata, a melhor tradição poética à mais radical renovação formal. É sempre bom lembrar, ainda, que o poeta já não era mais um jovem: estava com 63 anos, na época.
Signo estrelado traz, em sua primeira parte, seis poemas telúricos, egressos, talvez, da primeira fase do poeta. A segunda parte reúne belos sonetos como os três cantos que formam "A aparição da rosa", ou ainda "Três sonetos positivos": "Eu te direi de amor em frase nova:/ Verbo que em si conduz as singulares/ Emanações fatais da escura prova/ Que é força de ambições crepusculares". Surpreso, o leitor se depara com um insólito poema visual, chamado "Peace", ao lado de um correto soneto dedicado a Luís de Góngora. Já a terceira e mais relevante parte da obra, "Fábulas", congrega narrativas poéticas originalíssimas e, pelo menos, uma obra-prima, o "Congresso dos ventos": "Na várzea extensa do Capibaribe, em pleno mês de agosto/Reuniram-se em congresso todos os ventos do mundo;/ (...) – Mistral, com seus cabelos de agulha, e os seus frios de dedos finos,/Simun, com arrepiadas, severas e longas barbas de areia quente,/ (...) E Garbino, enviado das praias catalãs". O poema é uma inteligente sátira aos congressos e simpósios de uma forma geral e, notadamente, aos congressos literários. A certa altura do evento, "com sestros de capoeira exibiram-se o vento Banzeiro e o Sulão./Barinez leu uma mensagem de Rómulo Gallegos,/ Minuano disse um poema de Augusto Meyer". Voltando, de um certo modo, às suas origens, Cardozo desta vez universaliza a linguagem nordestina, tal como o fizeram Graciliano Ramos, Jorge Amado e Guimarães Rosa. Mas o livro não se esgota aí. Em "Poema", o "poeta do Capibaribe" (no dizer de João Cabral de Melo Neto, o qual reverenciou o mestre e amigo em diversos poemas) simplesmente dispensa as palavras, utilizando-se apenas de signos/símbolos próprios. A quarta parte, "Elegia", apresenta peças solenes e, dentre estas, uma que se tornou bastante conhecida: "Quando os teus olhos fecharem/Para o esplendor deste mundo,/Num chão de cinza e fadigas/Hei de ficar de joelhos;/Quando os teus olhos fecharem/Hão de murchar as espigas,/Hão de cegar os espelhos" ("Canção elegíaca"). O drama "O capataz de Salema" e o curioso "Arquitetura nascente & permanente e outros poemas" fecham o livro com muita propriedade.
Em Trivium, publicado juntamente com as Poesias completas (organizadas pelo poeta e crítico Fernando Py, em 1971), consta o importante "Visão do último trem subindo ao céu", poema que engloba, pioneiramente, ciência e fé, embora sem prescindir da experimentação formal. "Mundos paralelos" (também incluído no volume de 71) prossegue com a cosmovisão cardoziana, por agora associada à inevitável presença da morte.
Cardozo ainda publicaria O interior da matéria (1976), coletânea que reúne alguns poemas acompanhados de ilustrações de Burle-Marx e, após sua morte, ocorrida em 4 de novembro de 1978, ainda sairia Um livro aceso e nove canções sombrias (1981). Estas duas obras, no entanto, já não possuem a força e a originalidade dos livros anteriores.
No centenário de Joaquim Cardozo, muito pouco está sendo feito para homenageá-lo. Merecem destaque, contudo, alguns eventos pernambucanos programados para que o dia de hoje não passe em branco, além da edição de um número inteiro do jornal Poiésis, de Petrópolis (editado por Camilo Mota e pelo incansável Fernando Py), ter sido dedicado ao poeta.
Mas ainda é pouco. Um poeta da grandeza de Cardozo, que uniu admiravelmente conhecimentos humanísticos e científicos, experimentação formal e tradição poética em meio à temática regionalista, não pode ser esquecido. Deve ser lembrado – e lido – sempre que possível.

In: Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 26/08/97.
Ricardo Vieira Lima é poeta e jornalista. Ganhou o prêmio da União Brasileira dos Escritores (UBE) por poemas inéditos – 1996 – com o livro As olheiras de Júlia.

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