O conto de Katherine Mansfield
CRISTINA GARIGLIO STARK
A obra de Katherine Mansfield (née Kathleen Beauchamp), autora da literatura inglesa nascida na Nova Zelândia, está reunida em vários
volumes de contos inicialmente publicados na revista literária New Age editada por A. R. Orage já em 1908, ano em que a autora retornou à
Inglaterra onde já estivera de 1903 a 1906 estudando no Queen's College de Londres. A sociedade londrina que ela encontrou ao voltar parecia
preparada para dar as boas-vindas a uma jovem corajosa e pronta para vivenciar as mudanças sociais que então aconteciam. As convenções
vitorianas, que começavam a ser descartadas, ainda tiveram o poder de transformar a vida de Mansfield num romance que se pode encaixar num
daqueles melodramas em que uma jovem é castigada porque, escolhendo viver longe do conforto e da proteção familiar, julga-se mais sábia que
os pais, por exemplo. Na verdade, episódios da vida da autora, que se fundem com as histórias de vários contos seus, são por vezes mais
fascinantes do qualquer desses romances vitorianos.
Renovando o conto inglês, Katherine Mansfield nunca permitiu que episódios de sua vida pessoal fossem neles reconhecidos, ou que seu texto
servisse para expressar denúncias de seu abandono e de seus problemas sentimentais, ou se transformasse em muro de lamentações em razão de
seu sofrimento por causa da solidão ou da doença, a tuberculose que a levaria aos 34 anos de idade, em 1923. Queixas de caráter pessoal
foram feitas explicitamente nas inúmeras cartas dirigidas a amigos e ao segundo marido, o crítico literário John Middleton Murry. As
denúncias expressas em seus contos referem-se principalmente à exploração da mulher e de crianças.
Em Numa pensão alemã, por exemplo, seu primeiro volume de contos, publicado em 1911, ela transfere para os alemães a agressividade e a
grosseria de que fora vítima em Wellington e em Londres o que fora, na verdade, a causa de sua estada para tratamento no spa de Bad
Wörishofen na Baviera onde, devido a uma queda, perdeu o bebê que esperava e que tinha levado sua mãe a deserdá-la antes de voltar apressada
para o casamento da outra filha na Nova Zelândia. A temporada na Baviera deu origem aos contos de seu primeiro volume. Em alguns desses
contos, Mansfield já ensaiava o uso do monólogo interior que se tornaria recorrente mais tarde em sua obra. Em 1951, 28 anos após a morte da
autora, no entanto, um desses contos, "A criança que estava cansada", foi considerado plágio de "Sleepyhead", um conto de Tchekov. Os dois
contos relatam a mesma história de uma garota que, forçada a trabalhar em excesso por um casal de camponeses, concentra-se no desejo
irrealizável que tem de dormir. Na troca de cartas provocadas pela acusação no "Suplemento Literário" do Times de Londres, autores que
defenderam Mansfield levantaram diversas hipóteses para o fenômeno, inclusive a da 'memória inconsciente', que concede à mente imaginativa o
poder de se apossar daquilo que lhe apetece com tal força que mais tarde a memória garante ser o evento fruto de sua própria imaginação
criadora. Katherine Mansfield pode ter lido uma tradução alemã do conto de Tchekov ou ter ouvido sua leitura feita por intelectuais europeus
que também se tratavam na Baviera, e mais tarde, sob o exercício da memória inconsciente ter reescrito o que ouviu ou leu. As inegáveis
semelhanças entre seu conto e o do russo Tchekov reforçam a idéia de que ela não se referia à crueldade dos camponeses alemães que
escravizam uma garotinha indefesa que cuida de suas crianças, e que desesperada, sufoca com um travesseiro o bebê cujo choro impede que ela
durma.
A preocupação de Katherine Mansfield com a situação das crianças é expressa também nos contos que fazem parte de suas lembranças da Nova
Zelândia. Em "A casa de bonecas", por exemplo, uma lampadazinha que faz parte da decoração da casa de brinquedos das garotinhas de uma
família rica é o objeto que fascina uma menina pobre a quem a casinha é mostrada num ato de rebeldia de Kezia, uma das garotas que está
presente em muitas das histórias que se passam na Nova Zelândia. A lampadazinha, por sua vez é um antecedente da iluminação e da revelação
presentes em contos mais amadurecidos de Katherine Mansfield, como por exemplo, "Felicidade", onde, num monólogo interior, através da
técnica da epifania literária que demanda luzes, surpresas, inconsistências, um objeto insignificante ou um evento rotineiro provoca
revelações no leitor que se vê a fazer reflexões sérias sobre sua própria vida, sobre a realidade a sua volta ou sobre sua realidade
interior. Essa técnica nos contos de Katherine Mansfield é comparável à de Virginia Woolf por exemplo no conto "The Mark on the Wall" ("A
marca na parede") e à da brasileira Clarice Lispector em vários contos, "Amor", por exemplo, e no romance A paixão segundo G. H. Aliás, o
conto de Virginia Woolf só foi escrito e publicado depois da leitura que ela fez dos contos de Mansfield, inclusive "Felicidade". Em cartas,
Virginia Woolf declarou que a escrita de Katherine Mansfield era a única da qual ela sentia ciúmes. Clarice Lispector, por sua vez, quando
leu o mesmo conto "Felicidade" em sua primeira tradução publicada no Brasil, exclamou: "Isso sou eu!".
Em uma de suas cartas a Virginia Woolf, Katherine Mansfield confessou sua certeza de estarem ambas à procura de uma mesma coisa. Certamente,
o que procuravam eram as formas de exprimir o inexprimível em sua condição de mulher. Katherine Mansfield, principalmente, apenas sugere, e
deixa muita coisa sem dizer em seus contos. Então, cabe ao leitor descobrir ou imaginar o que não foi dito, num exercício de participação
ativa na composição de cada história.
Cristina Stark é doutora em literatura comparada e professora de literatura inglesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).