Literatura e identidade nacional

O romance Os sertões, de Euclides da Cunha (1902), sobre o conflito ocorrido no fim do século XIX no sertão baiano, conhecido como guerra de Canudos, serve para demonstrar o propósito da intelectualidade brasileira de construir uma identidade nacional. Será a partir desse período que se iniciará a noção brasileira de povo, nação e cidadania.

Em seu livro, Euclides da Cunha concebe a história como drama trágico para apresentar o conflito armado que ameaçou os primeiros anos da república. O autor, homem urbano da metrópole, se transforma num narrador viajante, na verdade um viajante científico, que vai ao âmago do país para, numa atitude docente, nos ensinar sobre o "outro". Mas a postura docente do narrador é influenciada pela proximidade desse "outro", tão diferente de si, que provoca reações conflitantes, que se alteram continuamente, indo do repúdio ao medo, da dor à solidariedade. Mas o que marca a obra é a exposição de um país híbrido, além da proposta de uma nação brasileira em que as diversidades cultural, social e racial fossem utilizadas para construir um sistema moderno, sem espaço para exclusão.

O autor, correspondendo às expectativas do limitado universo de recepção da época, recorre à temática do caráter nacional, que dava, e ainda hoje dá, uma imagem possibilitadora de ecos, ou seja, de repercussão entre os intelectuais. Basta revisarmos a postura da intelectualidade brasileira do século XIX: todos estavam imbuídos da "grande missão" de construir a imagem de nação para o Brasil. Os tempos exigiam essa busca. A modernidade política precisava da construção de uma nação civilizada. Não se pode esquecer que no Brasil, diferentemente de outros países, o estado foi criado antes da nação e, segundo Zilly (2000), "o sentimento de nação, no fundo, até hoje não se concluiu, como demonstram as discussões em torno da cidadania". Ora, como ser um estado republicano sem o verdadeiro exercício da cidadania? Como falar em "modernidade política" sem prática de cidadania, sem cidadãos livres e iguais, sem sentimento de identidade coletiva e participativa?

Assim, os letrados do século XIX acreditavam na construção de uma nação modelada nas bases da civilização, da tecnologia, da ciência, da arte e da administração modernas da Europa que, ao mesmo tempo, visasse ao bem-estar de seus cidadãos e garantisse a sua independência perante as outras nações. Mas essa pretensão seria inconcebível fora dos moldes do estado, sem o seu aparelho burocrático, planejador e repressor. Portanto, acreditavam que a civilização, cujos benefícios para a humanidade eram mais fervorosamente defendidos pelos letrados dos países recém-emancipados do Novo Mundo do que pelos da Europa, não era possível sem o estado nacional como agente essencial em face da extensão geográfica e do atraso do subcontinente. Esse país moderno era edificado pelo ideário liberal da intelectualidade brasileira, formada na Europa, embora já seduzida pelo explosivo crescimento econômico americano, que conduzia os republicanos brasileiros a voltar os olhos para os moldes institucionais dos Estados Unidos. O que levou Rui Barbosa, em 1891, a redigir a nova constituição brasileira com base na estrutura constitucional americana.

Dessa forma, o próprio estado deveria assumir a "missão" civilizatória da nação, difundindo uma nova relação de troca, de integração ao capitalismo, que conquistava o mundo e era sinônimo de modernidade. Essa intenção, no entanto, chocava-se com a realidade do povo brasileiro e, principalmente, com o instituto da escravidão, que legalmente fora extinta, mas que continuava a persistir com a exclusão dos ex-escravos, que não foram integrados à sociedade, muito menos eram vistos como cidadãos brasileiros. Aliás, exclusão era um ponto forte na moderna política republicana brasileira, pois o negro, o índio e a mulher não eram considerados cidadãos. Além do mais, os contra-republicanos, que se empenharam para manter a monarquia, foram impedidos de participar do processo de voto direto ou indireto. Essa política de exclusão foi um dos fatores que favoreceram a instituição de uma relação de favores e de corrupção no novo regime político, este que "pretendeu uma realidade moderna e liberal mas estava muito aquém dela" (Shwarz).

Percebemos, então, que as noções de nação, civilização e estado, no Brasil, fundaram-se numa ambigüidade, resultando na idéia de que o estado é o "porto da salvação" (Carvalho) num universo de premissas liberais. Este "porto da salvação" na realidade era um "cabide de colocações" ou empregos, pois os filhos dos anteriores senhores de escravos, bem como a intelectualidade, precisavam da benevolência do estado para conseguirem postos, bem remunerados, e se manterem como dignos cidadãos republicanos. Mas devemos compreender que tudo isso ocorria sob a desculpa da modernidade, pois se utilizavam as "idéias e razões européias para justificar o arbítrio que é da natureza do favor" (Shwarz: 1995). Assim, a república, que antes só se mostrava em virtudes, teve sua imagem deteriorada pela predominância da mentalidade predatória e do espírito de capitalismo desmedido. Nem mesmo a solidificação do espírito de identidade foi possível, já que o caráter multiétnico da população parecia às elites um empecilho, quase uma vergonha. Se fosse possível, as elites teriam eleito outro povo para formar nossa nação.

Aos intelectuais da época preocupavam os caminhos pelos quais se encaminhava a situação política e social do país. Muitos deles, antes apaixonados e fervorosos participantes da vida política republicana no Brasil, abandonaram a preocupação com a política, com a organização do poder e com as instituições, que se mostravam incapazes de, por si sós, criarem a república sonhada. Estes foram buscar mais profundamente a causa dos fracassos políticos. O primeiro marco nessa busca foi a reação de Canudos.

Vários intelectuais da época falaram e escreveram sobre o conflito ocorrido em Canudos, que rendeu muitos artigos em jornais. Canudos representava a ameaça ao novo sistema de governo, pois, apesar de os novos dirigentes estarem desacreditados, não se poderia permitir que um grupo de revoltados contribuísse ainda mais para esse descrédito. No Rio de Janeiro o assunto era obrigatório nas rodas de conversa. Da rua do Ouvidor, local de encontro dos letrados cariocas, saíam as definições e conclusões para o movimento, que depois formariam a opinião do público a favor do governo, pois as poucas vozes que defendiam o povoado canudense eram abafadas.

Foi nesse clima de expectativa de uma revolta monárquica que surgiu, no jornal O Estado de S. Paulo, um artigo que faria parte da história do país. O articulista Euclides da Cunha escreveu A nossa Vendéia, estabelecendo uma relação entre Canudos e a revolta monarquista e católica ocorrida na Vendéia, em 1793, com base na aliança entre camponeses e nobres, contra a revolução francesa. Vale ressaltar que o artigo, dividido em duas partes, apareceu no momento em que o país estava alarmado pela derrota da terceira expedição contra o levante baiano. Na primeira parte, apresenta uma descrição de três aspectos físicos do sertão (vegetação, topografia e clima), apoiado em literaturas especializadas, e faz uma comparação do sertanejo com o chouan, aquele fanático monarquista e religioso da Vendéia francesa, pelo apego à terra e o fanatismo religioso. No segundo, "em plena propaganda de âmbito nacional para o arranque de uma nova e definitiva expedição, mobilizando recursos até então inéditos no país, inclusive o fenômeno da mídia, detém-se em coisas mais graves" (Galvão, 2000:12).

Diante da grande repercussão de seu artigo, não se poderia esperar que o jornal O Estado de S. Paulo indicasse outro nome para ser seu correspondente de guerra. Mas não se pode deixar de comentar que a ida de Euclides para Canudos foi um ato de "favor" do ministro da Guerra, Carlos Machado Bittencourt, atendendo um pedido de Júlio de Mesquita, dono do jornal, conforme afirma W. Galvão, 2000, na introdução da edição crítica de Os sertões. Como se vê, Euclides também se beneficiou da relação de "favores" existente no país, mas não há como condená-lo, pois tal prática era, e ainda é, usual no Brasil. Assim, no dia 1º de agosto de 1897, Euclides partiu para o sertão baiano com o ministro Machado Bittencourt, na condição de adido do estado-maior do Ministério da Guerra. Dessa maneira, o jornalista Euclides da Cunha tornou-se a voz oficial dos acontecimentos no sertão baiano, sendo autorizado a divulgar as notícias da guerra de Canudos, o que fez por meio de correspondência (cartas e telegramas) de 7 de agosto a 1º de outubro de 1897.

Devemos compreender a entrada de Euclides pela "porta" dos sertões como um marco, pois o homem metropolitano de final de século não alcançou seu destino. No lugar aonde chegou não conseguiu reconhecer o Brasil afrancesado do litoral. Saiu de um Brasil moderno e urbano para chegar a um território desconhecido, um hiato, como se estivesse num outro país, em que a exclusão é percebida na terra e na gente sertaneja. Nesse "não-lugar" em que se encontrava, Euclides percebeu a diversidade social do Brasil e, como grande nacionalista que era, vislumbrou a possibilidade de uma nova nação brasileira, na qual a tolerância à mescla cultural fosse possível. Essa entrada no sertão na verdade iria marcar o homem Euclides, pois perceberemos, como afirmam alguns estudiosos do autor, que ele passou a rever alguns pontos de vista defendidos anteriormente. Inclusive vai levantar falhas no novo regime político, este que ele defendia e em que acreditava, principalmente as relações de favores que percebia nas instâncias governamentais. Interessante notar que ele, apesar de não ter aceito um cargo político de destaque oferecido pelos chefes republicanos, em agradecimento à sua participação na véspera da proclamação da república, sempre esteve rondando o poder. Se é irônico, não o afirmamos, mas ao menos é contraditório.

Após essa experiência no sertão, Euclides resolveu transformar sua vivência em livro. Talvez a própria necessidade de compreender o evento o tenha levado à construção da obra. Em Os sertões, o republicano Euclides da Cunha descobria e revelava a profundidade do segredo que causava os fracassos políticos da república, elucidando algumas das indagações dos letrados da época.

O engenheiro de cultura enciclopédica também era adepto das teorias raciais contemporâneas. Julgava os mestiços, principalmente os mulatos, de maneira pessimista, porque neles via o acúmulo dos aspectos negativos dos povos formadores do Brasil. Por isso, sua obra expõe a visão racista, como na citação abaixo, chamada por ele mesmo de "divagar pouco atraente":

E o mestiço - mulato, mameluco ou cafuz - menos que um intermediário, é um decaído, sem energia física dos ascendentes selvagens, sem altitude intelectual dos ancestrais superiores. (...) É que são invioláveis as leis do desenvolvimento das espécies; e se toda a sutileza dos missionários tem sido impotente para afeiçoar o espírito selvagem às simples concepções de um estado mental superior; se não há esforços que consigam do africano, entregue à solicitude dos melhores mestres, o aproximar-se sequer do nível intelectual médio indo-europeu - porque todo o homem é antes de tudo uma integração de esforços da raça a que pertence e o seu cérebro uma herança - como compreender-se a normalidade do tipo antropológico que aparece, de improviso, enfeixando tendências tão opostas? (Cunha, 1997: 175-176)

Assim, Euclides se coloca como um autor científico, imaginando-se um pensador moderno, que comungava com a idéia de pureza e homogeneidade étnica das nações européias, esquecendo-se de que seu contemporâneo e um dos mais respeitados intelectuais do país era o mulato Machado de Assis. Como podemos perceber, Euclides, sendo um homem que enaltecia a ciência, também acreditava que não havia como civilizar o Brasil, transformando-o numa nação moderna, com um povo mestiço. Jamais poderia ir contra a ciência, por isso vai dar "um salto mortal científico" em sua obra ao utilizar o arsenal do próprio evolucionismo na tentativa de uma reabilitação do sertanejo. Talvez a distância temporal dos cinco anos que há entre o evento, ao qual assistira de camarote nos campos de batalha, e a efetivação do livro o tenha levado a uma reavaliação de sua opinião quanto ao sertanejo. Essa mudança de postura vai propiciar, ao menos, uma reabilitação desse mestiço especial, diferente dos outros, a quem não caberia, ou quando muito de maneira atenuada, a condenação do cruzamento étnico.

Essa posição do pensador Euclides surgiu em função da condenação da mestiçagem, no plano das idéias, e da sua busca de um tipo proeminente brasileiro, contradizendo, portanto, no plano empírico, a surpreendente eficiência militar dos defensores de Canudos. "O conceito científico que tem destoa da visão, ora idílica ora heróica, que o escritor tem do homem do sertão. Ele nos apresenta o sertanejo com admiração e empatia, mas não necessariamente com simpatia; deixando claro que, se não existisse o sertanejo, seria necessário criá-lo" (Zilly: 2000). Serviu-se do evolucionismo para dar uma perspectiva intelectual capaz de englobar o conjunto das preocupações que tinha, com o meio ambiente, a história e a ética. Conseguiu romper com o materialismo e permitir o que ele chamou de "idealismo" ou "romantismo da raça brasileira" - uma contradição inerente à produção intelectual da época. Essa estratégia possibilitou ao escritor expressar a questão da tensão entre a evolução biológica e a ética, sendo um ponto doído nos debates sobre o evolucionismo. Euclides não tomou posição nos debates, preferiu abordar as contradições entre progresso e mestiçagem, servindo-se desses conjuntos de tensões para compor a metonímia fundamental sertanejo por brasileiro e construir uma imagem da nacionalidade a partir dos conflitos.

Em sintonia com as correntes deterministas e, principalmente, com o social-darwinismo, que encara a luta como um processo de seleção do mais forte e do mais adaptado ao meio, Euclides dá ênfase a esse conceito nas duas primeiras partes do livro, preparando teórica e poeticamente a parte mais importante de sua narração: a luta. A guerra é encarada como uma prova de superioridade, pois é na guerra que se verifica o valor, a força, a adaptabilidade e a perseverança de grupos e indivíduos. Para a guerra o sertanejo estava preparado, pois toda a sua vida era de luta. Junto com o isolamento e a mestiçagem, essa condição deu origem a um novo tipo de homem, inexistente nas outras populações do Brasil, pronto para a sua missão nacional. O sertanejo marginal se transfigura expondo um novo quadro: o sertão atrasado, bárbaro e marginalizado de repente se apresenta como avantajado em relação ao resto do país, porque produziu uma raça forte, intacta e desenvolvível. A parte problemática do país se transforma em região modelar, para Euclides, prestando-se melhor à assimilação das influências modernas. O que no Brasil parecia vaga e remota possibilidade se revela realidade no passado e no presente do sertão, no âmago do país - um portador possível de uma civilização que não seja de "empréstimo", que não esteja "fora do lugar" (Schwarz: 1988), mas autenticamente brasileira.

O sertanejo parecia capaz de superar o dilema, diante do qual se viram os intelectuais patriotas empenhados em formar uma nacionalidade para o Brasil. Eis o dilema que se expunha: a parte civilizada do país era internacional demais e a parte do Brasil que o distinguia da Europa e afirmava sua particularidade - o sertão - era pouco civilizada. O dilema sertão-litoral apresenta, então, duas faces. "Numa delas o pólo negativo é representado pelo sertão, identificado com a resistência à modernidade e à civilização. Na outra, o sinal se inverte: o litoral é apresentado como sinônimo de inautenticidade, enquanto antítese de nação" (Lima, 1998:167). Em Os sertões o sertanejo é inserido numa linha de superação do dilema sertão/autenticidade/atraso versus litoral/imitação/civilização. Dito isso, podemos situar Euclides como um marco no pensamento social brasileiro pela valorização do sertanejo como mestiço, como conhecedor da região central do Brasil e como possível mediador entre interior e litoral. De maneira professoral, Euclides indica o caminho da troca: se o sertanejo tem algo a aprender com a civilização, esta também pode aprender algo com ele. "Devaneia uma relação de aprendizagem mútua entre o povo e os letrados, o que no entanto só se torna real no plano literário" (Lemos: 2000).

Mesmo nesse processo de valorização do sertanejo, Euclides mantém o preconceito contra a mestiçagem ao combater com argumentos racistas, inerente aos discursos da época, os preconceitos contra o homem do sertão. Atribui a este uma homogeneidade e portanto uma nova pureza, uma originalidade adquirida, ponto provisoriamente final de um processo evolutivo, de miscigenação e ao mesmo tempo superação, ponto de partida de um novo processo de formação civilizatória do Brasil. A perspectiva da unidade e da pureza, visualizada no sertão, fascina o escritor, que no entanto criticou em A terra a busca dessa homogeneidade:

"O assunto assim vai derivando multiforme e dúbio. Acreditamos que isto sucede porque o escopo essencial destas investigações se tem reduzido à pesquisa de um tipo étnico único, quando há, certo, muitos. Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. Predestinamo-nos à formação de uma raça histórica em futuro remoto, se o permitir dilatado tempo de vida nacional autônoma. Invertemos, sob este aspecto, a ordem natural dos fatos. A nossa evolução biológica reclama a garantia da evolução social". (Cunha, 1997:83-84)

Assim, Euclides vacila entre o reconhecimento de que a procura essencialista de um tipo étnico brasileiro é ilusória e a continuação dessa procura; atenua sua contradição pela observação de que essa unidade étnica inexistente em outras partes do país existe, sim, no sertão. O sertanejo seria o modelo do brasileiro do futuro, graças à intensa miscigenação que transforma em salvação.

Essa homogeneidade do sertanejo apresentada por Euclides é contraditória, pois ele mesmo documenta a variedade física dos moradores de Canudos nos trechos mais narrativos de seu livro. A homogeneidade que realmente havia era no âmbito social, cultural e religioso, indo da cultura material, moradia, vestuário e comida, passando pelas crendices até a mentalidade e religiosidade, esta um catolicismo tradicional, cheio de superstições. Mas Euclides combina de modo inextrincável e contraditório as perspectivas de antropologia física e de antropologia cultural. Até no plano político ele exagera a igualdade social dos canudenses, não mencionando a diferença econômica que havia dentro da comunidade; oculta, então, a existência de pobres e ricos, moradores de precárias cabanas e casas de alvenaria, cobertas de telhas. Canudos estava longe dessa coesão esboçada pelo escritor, pelo menos antes da guerra. Essa homogeneização proposta por Euclides, porém, é um recurso retórico de dramatização da história, estratégia narrativa que afasta o discurso científico-acadêmico e aproxima seu texto da criação literária.

No decorrer da narrativa, a reabilitação do mestiço pela ciência cede lugar à sua eleição a herói e mito nacional, à sua transfiguração pela literatura; sua origem multiétnica e sua mestiçagem convertem-se em ponto positivo da nação que está se formando. O pensador Euclides da Cunha deixa o cientificismo amador para colocar sua sensibilidade de escritor, este atento para a realidade empírica e palpável, dotado de empatia e ficcionalidade, cortando com suas reflexões pseudocientíficas, como hoje são vistas por nós. Talvez a percepção do fracasso do método e sistemática acadêmica o leve a deixar vir à tona o subjetivismo, bem como o impressionismo, tornando sua escrita cada vez mais literária, repleta de recursos retóricos e poéticos, como já afirmamos anteriormente. Sem a mediação de categorias científicas, o autor apresenta um texto com cenas fortes, cores vibrantes, encenando de modo teatral uma realidade sensorial, auditiva, visual, olfativa e tátil. As cenas que vivenciamos em sua obra parecem saltar de uma tela de cores fortes; ecoam os gritos dos homens do sertão e dos defensores patriotas. Agora, o sertanejo aparece em cenas idílicas, heróicas, cheias de lutas e perigos, desmentindo a impressão inicial de ser um preguiçoso:

O homem transfigura-se. Empertiga-se, estadeando novos relevos, novas linhas na estatura e no gesto; e a cabeça firma-lhe, alta sobre os ombros possantes, aclarada pelo olhar desassombrado e forte; e corrigem-lhe, prestes, numa descarga nervosa instantânea, todos os efeitos do relaxamento habitual dos órgãos; e da figura vulgar do tabaréu canhestro, reponta, inesperadamente, o aspecto dominador de um titã acobreado e potente, num desdobramento surpreendente de força extraordinária. (...)

Vimo-lo neste steeple chase bárbaro (...) rompendo, célere, pelos espinheirais mordentes; precipitando-se, a toda brida, no largo dos tabuleiros (...). (Idem:180-181)

O sertanejo continua sendo um bárbaro, mas um bárbaro "equiparado aos semideuses, aos heróis da antiguidade, elevado a titã, centauro, Anteu, Proteu, gladiador, a Hércules" (Zilly: 2000), relativizando a caracterização pelo acréscimo de Quasímodo, numa alusão a Victor Hugo. O nosso herói ora realiza façanhas épicas derrotando o exército, ora aparece como um "campeador medieval" desgarrado de nosso tempo. Durante a seca, a transformação do personagem vai do sub-homem ao super-homem:

Transcende a sua situação rudimentar. Resignado e tenaz, com a placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e reage. O heroísmo tem, nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. (Idem:195)

Desta forma, Euclides evoca repetidamente, em sua arte narrativa, o perigo de se deixar no esquecimento a trágica história da guerra civil de Canudos, nos confins da civilização e no "âmago da terra ignota"; não deixando se perder para a posteridade. A inspiração literária de Os sertões não é uma novidade. A guerra, predominantemente épica e dramática, vem tematizando toda a literatura universal, de Homero a Victor Hugo, correspondendo também à filosofia de que a "história é luta, luta de raças, luta de povos, de grupos e de indivíduos". O sertão e o sertanejo são resgatados através da narração romanceada de lutas, conflitos e colisões dentro da natureza, entre a natureza e o homem, entre o homem e o homem. É justamente nessa luta, na luta armada, que vai se revelar o valor do homem, da comunidade da civilização; é através da guerra que a possibilidade de uma nação vai se formar. Assim, fica-nos claro que em Os sertões o arraial de Canudos foi aniquilado, mas a encenação desse fato garante uma vitória moral aos canudenses. Estes venceram o Exército mesmo militarmente, que só saiu vitorioso por recorrer à tecnologia e à artilharia estrangeira, desigual à que utilizou o canudense. Essa vitória moral, na realidade, torna-se a vitória da nação brasileira, unida e edificada pela memória de Canudos, pois quando a república, no seu fanatismo civilizador, extermina o sertanejo, está praticando um ato de "automutilação nacional", pois o inimigo massacrado era o "cerne de uma nacionalidade, a rocha viva da nossa raça" (p. 559). Aquele povo estranho se revela no ocaso como superiormente brasileiro; o sertão, que só como "ficção geográfica" (p. 497) era nacional, passa a ser visto, momentaneamente, tarde demais, como possível berço de um futuro estado brasileiro modelar, já não excludente como o era o projeto nacional das elites, mas, ao contrário, incorporador e participante, embora não igualitário nem formalmente democrático.

O escritor, mesmo com o uso exagerado das figuras de linguagem e sua visão apocalíptica, não estava errado ao vislumbrar um trágico ocaso histórico, pois o que se extinguiu em Canudos foi um modelo social autônomo construído a partir de uma cultura local, nacional, ainda se preparando para vida. O sertanejo, pela primeira vez, deixava de ser um mero objeto para surgir como sujeito histórico na cena política nacional. Fossem as elites menos arrogantes e bárbaras e mais respeitadoras da legalidade, poderíamos ter nos sertanejos os co-fundadores de um estado diferente, menos excludente, mais civilizado. Uma realidade ficcional perante o clientelismo e o favoritismo a serviço de oligarquias municipais, estaduais e nacionais, que não admitem zonas fora de seu controle.


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Vivianne Milward de Azevedo é doutoranda em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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