Marguerite Duras e o indizível
Jean-Louis Arnaud
A escritora Marguerite Duras morreu em 3 de março de 1996 em Paris. Se, durante toda sua vida e até o momento de seu último suspiro essa
mulher surpreendente jamais deixou de galgar os degraus da notoriedade nacional e internacional, ela o deve certamente a sua obstinação em
ser ela mesma e continuar sendo aconteça o que acontecer e custe o que custar.
Um dia, eu já tinha uma certa idade, no hall de um prédio público, um homem veio até mim. Ele se apresentou e me disse: "Eu a conheço desde
sempre. Todo mundo diz que a senhora era bonita quando jovem. Eu vim lhe dizer que, para mim, a senhora é mais bonita agora do que quando
era jovem. Gosto menos de seu rosto de moça do que o de agora, devastado."
Assim começa O amante, romance que valeu a Marguerite Duras em 1984, com o Goncourt – o mais célebre dos prêmios literários franceses – uma
tiragem de aproximadamente três milhões de exemplares, traduções em quarenta línguas e um enorme sucesso mundial, amplificado com o filme
realizado por Jean-Jacques Annaud. Rosto surpreendente, de fato, o dessa mulher, e surpreendente percurso o seu, da graça sensual e
perturbadora de uma jovem do período do entre-guerras à expressão de zombaria e o olhar de batráquio do monstro sagrado contemporâneo, olhos
provocantes sempre arregalados por trás das grossas lentes dos óculos.
"Entre dezoito e vinte e cinco anos, meu rosto seguiu uma direção imprevista, escreve ela ainda... Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi
tomar meus traços um a um... Este rosto, novo, foi o que ficou. Ele foi o meu rosto. Ele envelheceu mais ainda, é claro, mas relativamente
menos do que deveria. Eu tenho um rosto dilacerado por rugas secas e profundas, a pele quebrada. Ele não se abateu... manteve os mesmos
contornos, mas seu jeito foi destruído. Eu tenho um rosto destruído..."
O amor, a vida e a morte
Destruição... Uma palavra-chave em Marguerite Duras, que olha para si mesma em seus romances, seu teatro e seus filmes como em vários
espelhos e se identifica tanto a sua obra a ponto de não mais saber o que é auto-biografia e o que é ficção. O amor, a vida, a morte... Como
todos seus personagens, a autora sofre a lei impiedosa da destruição, mas sua própria vitalidade e seu talento fazem com que encontre aí
fontes inesgotáveis de embriaguez.
Espantosa Marguerite Duras, que nasceu em 1914, algumas semanas antes do estouro da Primeira Guerra Mundial, em Gia Dinh, Indochina, no
subúrbio de Saigon. Seu pai, Henri Donnadieu – um sobrenome do qual não gosta e que substituirá pelo nome de uma cidade do sudoeste da
França de onde sua família paterna é originária – ensina matemática e faz carreira em Tonkin, na Cochinchina e no Camboja. Quando ele é
enviado de volta à França por razões sanitárias e morre ainda jovem, sua mulher, Marie Legrand, que nasceu em uma fazenda da Picardia,
decide continuar na Indochina com os dois filhos e a pequena Marguerite, que tinha quatro anos.
Eis aí o personagem inevitável da vida e obra de Duras: a mãe. A de Un barrage contre le Pacifique (1950) que reencontramos trinta anos mais
tarde em O amante, sempre a mesma, inteira, corajosa e obstinada até as raias do absurdo em suas escolhas e tomadas de posição, amada e
detestada, respeitada e ao mesmo tempo denegrida:
"Filha de camponeses, ela foi tão boa estudante que seus pais deixaram que fosse até o final do primeiro grau, escreve Duras. Depois disso
foi professora primária num vilarejo do norte da França. Estávamos em 1899. Certos domingos, na prefeitura, ela sonhava diante dos cartazes
de propaganda colonial... "Jovens, vão para as colônias, a fortuna os espera." À sombra de uma bananeira alquebrada com o peso de seus
frutos, o casal colonial, todo vestido de branco, embalava-se em cadeiras de balanço enquanto os nativos trabalhavam sorridentes à sua
volta. Ela se casou com um professor que, como ela, morria de impaciência numa cidade do norte, vítima como ela das tenebrosas leituras de
Pierre Loti."
Ao se tornar viúva, a mãe dará aulas de francês e tocará piano num cinema para criar os filhos, até solicitar a concessão de uma propriedade
no Camboja, propondo-se a valorizá-la. Mas, ingênua demais para perceber a corrupção da administração e compreender que não existe concessão
cultivável sem propina, ela perderá todas suas economias e se arruinará construindo barragens para proteger em vão suas plantações de arroz
contra a invasão anual do mar.
Escrever contra tudo
Duras lança-se à literatura com a mesma determinação e obstinação de sua mãe nas plantações da Indochina ou, mais tarde, na França, na
cultura da vinha e na criação de animais. Mas com menos ingenuidade e sobretudo muito sucesso. É verdade que o temperamento e a poética sede
de viver que herdou da mãe convinham melhor à escrita de romances do que ao cultivo de arroz ou de vinhas.
Isso logo é percebido, quando Duras lança, em 1943, seu primeiro romance, Les Impudents e, no ano seguinte, La Vie tranquille, que o
escritor Raymond Quéneau, impressionado com esse jovem talento, fará publicar pela Gallimard. Melhor ainda, em 1950, quando surge Un barrage
contre le Pacifique, com o qual ela perde por pouco o Prêmio Goncourt, do qual a afasta seu comprometimento com o comunismo. Porque Duras,
que havia chegado à França com dezoito anos para seguir seus estudos, já havia vivido muito: uma licença em Direito e um cargo no Ministério
das Colônias. Em 1939, um casamento com o poeta Robert Antelme e um filho natimorto em 1942. Paris sob a ocupação e os grupos de
resistência. Seu marido preso, assim como sua cunhada Marie-Laure, que morrerá deportada. Antelme sobreviverá e será levado para Dachau por
François Mitterrand, que havia introduzido Marguerite na Resistência e acompanhado os americanos na abertura dos campos.
Depois da Libertação, Duras adere ao Partido Comunista Francês, que abandona em 1950, depois do golpe de Praga. Nesse intervalo de tempo,
nenhuma publicação, mas a venda do jornal L'Humanité e atividades de militante. A vida a três também, com Antelme e Dionys Mascolo. Aos
trinta anos, na efervescência criativa do pós-guerra, Duras, que convive com Sartre em Saint-Germain-des-Prés, já é uma vedete da
intelligentsia parisiense. Mas, serão necessários ainda quarenta anos e não poucas rugas suplementares para que ela se torne uma figura
conhecida mundialmente nas áreas das letras e do cinema.
Essa mulher jamais transige com ela mesma ou com os outros: no dia seguinte ao de sua morte, o acadêmico-jornalista Bertrand Poirot-Delpech
escreverá no jornal Le Monde: "Quando esse pequeno pedaço de gente com grandes óculos e voz de final de comício participa da resistência ou
faz política, quando acredita no comunismo e depois o execra, ela o faz com suas entranhas, sem moderação nem prudência."
Duras não conhece fronteiras. Para ela isso não existe entre as exigências do coração, mesmo as mais contraditórias. Não mais do que entre
os caprichos do corpo, ou entre o vinho e o álcool, o uísque em Le Marin de Gibraltar (1952), o campari em Les Petits Chevaux de Tarquinia
(1953) ou o vinho tinto de Moderato cantabile (1958). Nenhuma fronteira também entre o romance, o teatro, o cinema e o jornalismo. Quando
escreve Des journées entières entre les arbres (1954), ela faz dele indiferentemente um livro, uma peça, ou um filme.
Marguerite Duras domina apenas uma coisa: a escrita e esse "barulho" muito particular que fazem as palavras quando ela as reúne. Já não é
muito? Tudo o que sente, ela escreve como quem vai colocando no fio uma a uma as sílabas, a exemplo dos artistas que lidam com as pérolas. É
com o ouvido, muito mais do que com os olhos, que se deve ler seus livros ou assistir a seus filmes. Logo, ninguém se espantará com o
casamento que ela faz entre "Hiroshima" e "Meu amor", nem que ouse proclamar "Sublime, inevitavelmente sublime" o assassinato de uma criança
encontrada afogada em um riacho dos Vosges – um caso de polícia que fez correr muita tinta nos anos 1980 – e que, baseada em suspeitas mais
literárias do que jurídicas, ela abusivamente indica a mãe, Christine Vuillemin, como a assassina.
In: Label France – Revista de informação do Ministério das Relações Exteriores. Brasília, nº 167 24, jun. 1996, pp. 38-39.