Semana de Arte Moderna

Élvia Bezerra

"Está fundado o desvairismo", sentenciou Mário de Andrade no prefácio de Paulicéia desvairada, obra que delineava o ideário modernista, declarado público durante a explosão de manifestações artísticas de vanguarda – Semana de Arte Moderna –, realizada, com sucesso, no Teatro Municipal de São Paulo em 1922.

A Semana de Arte Moderna nasceu de sugestão do pintor Di Cavalcanti a Paulo Prado, no sentido de que se organizasse uma semana de escândalos em São Paulo, com proposta de renovação radical nas artes.

Na verdade, a manifestação fermentava há alguns anos: em 1912, quando Oswald de Andrade chegou da Europa já trazia notícias de novas formas de expressão artística como as sugeridas pelo manifesto futurista de Marinetti. Em 1916 a pintora paulista Anita Malfatti fez exposição em São Paulo, na qual, além de seus quadros, marcados por influência do expressionismo alemão, apresentava telas de alguns pintores europeus cubistas, fato que provocou escândalo e despertou a indignação de Monteiro Lobato expressa no artigo "Mistificação ou paranóia?". Em 1920, Oswald e Mário descobriram na capital paulista o escultor Victor Brécheret, influenciado também na sua arte pela corrente anti-acadêmica européia. Em novembro do mesmo ano, Oswald de Andrade revelou, em artigo publicado na revista Papel e tinta, fundada por ele, alguns poemas de Paulicéia desvairada, e, finalmente, em 1921 Graça Aranha chegou da Europa com seu Estética da vida e uniu-se ao movimento já em plena impulsão.

A Semana de Arte Moderna aconteceu de 11 a 18 de fevereiro de 1922 e constou de três festivais realizados nos dias 13, 15 e 17. No saguão do teatro foi montada exposição de artes plásticas que mostrava tendências modernas da pintura, escultura e arquitetura. Entre outros, destacaram-se na pintura Anita Malfatti, Di Cavalcanti e Zina Aita.

A segunda noite da Semana teve início com o discurso de Menotti del Picchia, que bradava a favor da liberdade de criação, do individualismo estético, da repulsa às escolas e de "uma arte genuinamente brasileira, filha do céu e da terra, do homem e do mistério". No entanto, as comemorações atingiram o ponto alto com a leitura feita por Ronald de Carvalho do poema de Manuel Bandeira, ausente do evento, intitulado "Os sapos", a que se seguiu estrondosa vaia de uma platéia que debochava em coro "Foi, foi, Não foi", em reação a uma das estrofes do poema que se estrutura assim:

"Em ronco que aterra,

Berra o sapo-boi:

– "Meu pai foi à guerra!"

– "Não foi!" – "Foi!" – "Não foi".

Logo após os espetáculos o grupo inovador lançou a revista Klaxon, órgão que divulgava as produções da nova estética.

Oswald de Andrade atuou como incendiário no movimento de 1922 e o evento ficou associado à cidade de São Paulo e aos nomes do próprio Oswald, de Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida e outros. No entanto, na opinião de Manuel Bandeira, no Rio de Janeiro foram Ronald de Carvalho e Ribeiro Couto seus pioneiros e principais porta-vozes. Juntavam-se ainda, entre muitos outros, Álvaro Moreira e Renato Almeida.

O movimento, que teve nas artes plásticas o impulso inicial, adotou como objetivo destruir, fazer escândalo. Foi anárquico, não teve chefes. Nasceu, como afirmou Prudente de Morais Neto, "do encontro e da consciência de algumas insatisfações. As artes e as letras tinham chegado a um beco sem saída". Em São Paulo encontrou consciência de grupo, de cunho essencialmente artístico. Não teve sentido popular nem político-social. Por outro lado, não foi por puro acaso que aconteceu no mesmo ano em que ocorreu o levante dos 18 do Forte de Copacabana e era fundado no país o Partido Comunista do Brasil. A sociedade exigia nova ordem.

Com a realização da Semana de Arte Moderna instaurou-se o movimento modernista. Vinte anos depois, Mário de Andrade traçou o que lhe pareceu terem sido os rumos iniciais do movimento: ruptura das subordinações acadêmicas; destruição do espírito conservador e conformista; demolição de tabus e preconceitos; perseguição permanente de três princípios fundamentais: direito à pesquisa estética, atualização da inteligência artística brasileira e estabilização de uma consciência criadora nacional.

Por esse movimento vanguardista o Brasil atualizou-se artisticamente, ainda na avaliação de Mário de Andrade, para quem as manifestações mais diversas passaram a ser normais, sempre discutíveis, mas sem causar o menor escândalo público.

Élvia Bezerra é colaboradora da Encyclopaedia Britannica do Brasil. É autora de A trinca do Curvelo. Rio de Janeiro, Topbooks, 1995.

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