A Academia vista por dentro: entre o chá e o fardão
Entrevista concedida pelo escritor e crítico literário Marcos Almir Madeira
à jornalista Lúcia Etienne Romeu
Em 20 de julho de 1897, era fundada a Academia Brasileira, sob a presidência do grande Machado de Assis, o Bruxo do Cosme Velho. Criada nos moldes da Academia Francesa, ao completar cem anos era presidida pela escritora Nélida Piñon, fato especial, dado que as mulheres só puderam se tornar acadêmicas em tempo relativamente recente, quando foi eleita a primeira delas, Raquel de Queirós, em 1977. A Academia é popular pelos chás às quintas-feiras e pelo fardão. É também a instituição que normatiza a língua portuguesa. Mas há histórias de bastidores que nem sempre estão ao alcance do público e despertam sua curiosidade. Por exemplo, não foi Machado de Assis o idealizador da Academia, e sim o escritor fluminense Lúcio Furtado de Mendonça. O Bruxo era até cético quanto à criação da casa. A Academia abriga literatos, mas também notáveis de outras áreas. E como é feita a escolha? Como se relacionam os acadêmicos? Quem responde é o escritor e crítico literário Marcos Almir Madeira, presidente do Pen Club do Brasil, acadêmico eleito em 1992, na vaga do historiador Américo Jacobina Lacombe. Ele explica a importância do chá e do fardão, e faz uma cobrança póstuma a Machado de Assis.
O convívio entre os acadêmicos, além dos chás às quintas-feiras, é sempre pautado na cordialidade, não fosse uma convivência acadêmica. Convém a uma Academia a polidez nas relações culturais e pessoais, o que não exclui uma certa valentia no debate, como dizia João Ribeiro, até para que a conversa literária não se perca em pura troca de gentilezas banais. Trocamos idéias e reflexões sobre filosofias, tipo de gosto, em ambiente idealmente cordial. O decantado chá é o que menos importa. Conheço chás melhores que os da Academia, mas o que não se alcança em outros lugares é a qualidade do convívio em torno da mesa.
Quando de fala em Academia, vem logo à mente, às vezes com um pouco de malícia, outras, por curiosidade jornalística, o chá, que é um hábito europeu. Mas, o que está por trás, o que não vem na xícara, é o interesse pela cultura, mesmo quando a conversa resvala para o pitoresco e até para o grotesco. Há sempre uma nota de vivacidade e de inteligência. Em torno da mesa do chá, conversamos, não apenas sobre literatura, mas assuntos gerais, a política, por exemplo, o anedotário da cidade ou as experiências sociais últimas, desse ou daquele acadêmico. Afrânio Peixoto dizia que achava tudo muito agradável na Academia, tudo fluía naturalmente e chegava-se até a conversar sobre literatura. O que me faz lembrar o comentário histórico de Voltaire sobre a Academia Francesa, formada por físicos, matemáticos, marechais, prelados – principalmente, prelados – "et parfois, des gens de lettres". Nossa Academia é esse mosaico.
Em relação às diferenças ideológicas, este talvez seja o aspecto em que a elegância mais se expresse na Academia. Há, evidentemente, alguns temperamentos mais acirrados. Alguns são mais radicais, mais intolerantes, o que também é próprio de qualquer grupo. Mas, o dilema esquerda-direita na Academia está envelhecendo, se é que já não envelheceu, como acontece em toda parte. A opção trágica e sociologicamente errada – esquerda ou direita, socialismo ou capitalismo – não existe mais no mundo moderno, que não é disjuntivo, mas aproximativo. Vivemos em tempo de somar e não dissociar. Isto e aquilo e não isto ou aquilo. Neste caso, voltaríamos ao período trágico da Idade Média: ou crê ou morre, ou é fiel ou vai para a arena enfrentar as feras. Esse medievalismo de concepção política não pode existir numa Academia, que reflete a tendência unionista e não separatista. A Unesco, um órgão muito caro à Academia, aliás oficializa essa tendência universalista e pluralista. Assim, nossa linha não é de radicalismos. Mas, há os ortodoxos, sempre, de ambos os lados. Estes tanto estão nas ruas, nos meetings, nos salões, como na Academia, mas não são a nota dominante.
A Academia convive bem com seus dois lados, o fardão e a norma, que rege a filologia, a linguístia e a gramática. O fardão, como todas as manifestações materiais de uma tradição, é um símbolo. A Academia tem símbolos e o fardão é um deles. A busca da polidez e da sobriedade não faz mal a ninguém e, muito menos, a uma Academia, que é uma instituição de fundo aristocrático. O que não inibe a mudança, as reflexões críticas sobre o progresso da literatura. O instituto do símbolo não impediu, por exemplo, que Coelho Neto e Graça Aranha se engalfinhassem em duelo verbal, que refletia a luta entre os modernos e os conservadores. Foi um debate acalorado, nesse caso, raro na Academia.
Nessa abertura permanente, acolhemos idéias, escolas, somos receptivos às novidades em manifestações de gosto e técnicas literárias, mas sem perder as linhas de resistência de nossa educação essencial, do nosso trato polido. É preciso que a divergência conviva com um toque que defino como aristocrático. Podem ocorrer divergências, antipatias por essa ou aquela facção literária, sem que a linha essencial seja perfurada.
Considero que uma Academia sem tradição ou sem empenho em preservar alguns símbolos, deixa de sê-lo. Por outras palavras, quem disse isso foi o grande Joaquim Nabuco: "Uma Academia sem antigüidade é como uma religião sem mistérios". É preciso preservar algo que foi e acrescentar algo que é. Desta simbiose entre passado e presente, desse amálgama de valores, surge o ideal acadêmico. Mas, nada deve descambar para o populismo literário, que não passa de vulgaridade e se choca tanto com o espírito acadêmico. Citando novamente Afrânio Peixoto, vulgaridade é crime. E eu acrescento que, na Academia, é crime inafiançável. A deformação não é literatura e a preservação de umas tantas tradições e do simbolismo está ligada ao espírito acadêmico. Da mesma forma, devemos examinar o fardão. Se se suprimir a toga do juiz, os tribunais perderão muito porque vivemos num mundo de símbolos. Os próprios regimes ateus, como o sovietismo, apelaram para símbolos. Para ilustrar a idéia da injustiça, do sofrimento e do trabalho, o simbolismo foi a foice e o martelo. Também temos o nosso simbolismo. Não faz mal a ninguém o fardão. Criticá-lo é uma tolice. Quem não quiser, como Manuel Bandeira, que use a casaca. Este exemplo é, aliás, interessante. Bandeira só vestiu o fardão no dia da posse, por imposição regimental. O fardão foi emprestado por João Luís Alves, que tinha mais ou menos o tipo magro dele.
O fardão não é exigido na posse de outros acadêmicos. Eu mesmo fui de casaca, civil, como digo, à posse de Roberto Marinho. Tenho uma casaca quase que medieval. Por aí se vê que não há qualquer rigor. É claro que o terno comum não é permitido porque aí chegaríamos àquele populismo literário, ou não literário, populismo puro e simples, que não se coaduna com o espírito da Academia. Queiramos ou não, a Casa tem uma tradição aristocrática e é preciso preservá-la. Não podemos confundi-la com futilidades. Refiro-me à aristocracia da mente, do pensamento, do espírito, que o fardão, a espada, o chapéu armado e o chá refletem como uma materialização do passado, da tradição.
A idéia de Academia, como disse, é plurarista. E isso explica que acolha os valores da cultura, encarada num sentido longitudinal, extensivo. As Academias nasceram da idéia de saber e, por isso, têm tradição até pedagógica. A grande ensinança, como diziam os antigos, de Platão com seus discípulos, prelecionando entre as aléias dos jardins de Academus.
Uma história que poucos conhecem é a da fundação da Academia, que projetou desde logo Lúcio Furtado de Mendonça. Foi ele quem a idealizou. Poeta, romancista, contista e cronista e depois ministro do Supremo Tribunal Federal, Lúcio Furtado de Mendonça era filho de um município pobre do Estado do Rio, Piraí. Muito tenaz, congregou escritores e pregou a idéia de fundar-se uma Academia, nos moldes da Academia Francesa, que era o modelo universal e, sobretudo, ocidental. E Lúcio foi em frente, com sua capacidade de trabalho e de persuasão. Machado de Assis estava entre os céticos. Aliás, era muito fácil para ele ser cético. É quase uma redundância falar do ceticismo de Machado e até peço desculpas pelo meu pleonasmo. Mas, Lúcio insistiu e, afinal, os acadêmicos se reuniram. Os grandes da época eram Raul Pompéia, um escritor-artista, que está rareando (numa comparação um pouco paquidérmica ou extravagante é uma espécie de rinoceronte, quase em extinção). Além de Nabuco e Graça Aranha, havia também Alberto de Oliveira, o parnasiano-mor, Rodrigo Otávio e Inglês de Souza. Estes estão entre os primeiros, assim como Joaquim Maria Machado de Assis. Vale contar um episódio: um escritor alemão, há muitos anos, perguntou-me como poderia ler obras de Joaquim Maria, referindo-se ao Bruxo do Cosme Velho. Respondi-lhe que pouca gente sabe – inclusive escritores – que este era o nome de Machado de Assis.
Nosso escritor, como era o mais notório e o mais velho, naturalmente ascendeu à presidência. E o grande Machado de Assis, em seu discurso de posse, disse que a Academia tinha sido "idealizada por um moço", sem citar o nome de Lúcio de Mendonça. Estou fazendo uma cobrança póstuma, bem digna de Machado, que escreveu Memórias póstumas de Brás Cubas. Ele deveria ter mencionado, nomeado Lúcio de Mendonça e não o fez. A omissão me faz lembrar um fato pitoresco acontecido comigo. Cursava o quinto ano de direito, estava quase terminando meu curso, quando me telefonou um advogado eminente, jurista de projeção, mas muito provinciano, e ingênuo. Disse-me que tinha lido um trabalho meu, gostara muito e o citara em artigo que estava publicando, naquele dia, num jornal. Fiquei alvoroçado e corri para comprar o jornal. A citação ao meu trabalho era feita, mais ou menos, assim: "Como já disse alguém..." E ele transcrevia um trecho de meu texto, entre aspas, e o alguém era eu. Machado de Assis ficou para mim como o precursor do "alguém". Era um mestre do romance e do conto. Penso até que era melhor contista que romancista. Admiro seu estilo seco, elegante. Machado era pouco tropical. Seu estilo é franco-britânico.
O ritual do pedido do voto é um processamento simples, embora complexo do ponto de vista psicológico. O candidato primeiramente passa um telegrama a todos os acadêmicos, manifestando a intenção de disputar determinada vaga. Depois, faz um pedido de inscrição em carta ao presidente da Academia. Nesse meio tempo, trabalha eleitoralmente, enviando alguns livros publicados aos acadêmicos e iniciando as visitas a cada um deles.
Disseram-me, não sei se é pilhéria, que alguns colegas nossos viajaram ao exterior em busca de voto, alguns com êxitos, outros não. As visitas são feitas de acordo com o modelo francês, há certo rigor. O candidato não pede o voto ostensivamente. Faz a visita e o acadêmico sabe que ela significa um pedido eleitoral. Conversam sobre literatura, política, arte, religião e até futebol. Esse é o rigor do ritual das visitas acadêmicas. E, durante esse tempo, o candidato vai cultivando seus eleitores. De vez em quando, telefona para se fazer presente, cria inclusive pretextos. Mas, o que não pode haver na Academia é o que se chama, em linguagem vulgar, picaretagem, isto é, a transferência dos processos do clientelismo eleitoral dos coronéis do interior.
Tem havido casos desse tipo aqui e na própria Academia Francesa. Isso é feio, anti-acadêmico. É preciso manter a linha da elegância, que a Academia persegue. Se alguém descamba para o clientelismo eleitoral, o carreirismo, isto é lamentável. Evito citar pessoas em nome do recato que as academias impõem. Mas há várias histórias. Conta-se que um candidato afoito teria procurado João Cabral de Melo Neto para pedir-lhe voto. O poeta o conhecia, considerava-o homem de valor e o recebeu bem, manifestando a intenção de voto. Mas, estranhou, após fazer uma reflexão, e perguntou: "Afinal, de quem é a vaga, qual de nós morreu?" E o cidadão responde: "Ninguém, mas você sabe como esse pedido tem que ser feito com antecedência". João Cabral, então, retrucou: "Vamos supor que esta vaga seja minha..."
Há alguns que não têm compromissos éticos na aborgagem. Estes são menos numerosos, mas costumo dizer que há uma espécie de esperteza burra, um fenômeno brasileiro, porque é tão ostensiva que acaba sendo contraproducente. Há certos candidatos que inundam os acadêmicos de presentes, mas nunca participam de nada na vida de qualquer um. Essa atitude choca. Eu nunca recebi esse tipo de abordagem, mas sei que existe.
Em relação aos notáveis não literatos, como Santos-Dumont e Getúlio Vargas, o que tenho a dizer é que insisto muito no nome. Academia Brasileira, e não de Letras. Originariamente, éramos Academia Brasileira, tanto que na obra de Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Raul Pompéia e mesmo na dos que vieram depois, como Levi Carneiro e João Neves da Fontoura, para dar exemplos, todos eles assinavam, debaixo do nome na capa de seus livros, Academia Brasileira. Por que só Brasileira e não de Letras? Porque nascemos sob a inspiração da Academia Francesa, que tinha entre seus membros um oceanógrafo, Jacques Cousteau. Academia é um centro que congrega os expoentes do saber, da cultura do país e não apenas do saber literário. Sob essa orientação, elegeu-se Osvaldo Cruz. Ele próprio se autoflagelou, se auto-satirizou, se auto-ironizou, com uma pilhéria: "É a primeira vez que se elege para a Academia um mata-mosquitos", disse o herói que venceu a febre amarela.
Uma questão belamente inevitável é a presença feminina na Academia, atualmente presidida pela escritora Nélida Piñon. Sempre fui favorável à eleição de escritoras e demos um exemplo nos antecipando à Academia Francesa quando elegemos Raquel de Queirós antes de Marguerite Yourcenar. Tivemos depois Diná Silveira de Queirós. Outra grande dama da literatura é Lígia Fagundes Teles. Nélida Piñon é uma presidente de primeira categoria, tanto das sessões, quanto da instituição. Está presente a tudo, tem o sentido do trabalho diário, da continuidade, da boa reflexão administrativa. É uma romancista de ação e uma mulher elegante.
A Academia passou por obras, feitas por Josué Montelo, que instalou na Academia um palácio. Ele conseguiu, com sua tenacidade e bom gosto, creio que muito ajudado por sua mulher Ivone, ser o restaurador da Academia, devolvendo-nos a dignidade de estar, já que não nos faltava a dignidade de ser.
In: Estado de Minas. Belo Horizonte, 19 de julho de 1997. Lúcia Etienne Romeu é jornalista.